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Maio 18, 2012
UMA SAÍDA PARA O CAOS
pintura sobre papel - 2012 Existe uma corrente de especialistas em urbanismo, profissionais da engenharia e arquitetura, que afirmam não existir soluções para o caos instalado nas metrópoles de nações emergentes. O crescimento desigual sem investimentos em obras de infraestrutura aprofunda o abismo das realidades sociais. Ficou impossível organizar aquilo que não tem mais jeito. Ou se decide construir novos conglomerados urbanos, partindo do zero, ou deveremos estar preparados para o pior. Não há como distribuir riquezas, já que todas as práticas de políticas administrativas, apesar dos discursos ideológicos, visam beneficiar o grande capital. Inclusive, cidades com apelo turístico se transformam em lixão. Rios que desaguavam nas praias funcionam como esgoto, que a maré cheia faz acumular detritos à beira das avenidas litorâneas. Paira uma sensação de abandono que leva à degradação dos serviços básicos, falta de manutenção de equipamentos públicos. A cada minuto mais problemas aparecem, dos quais ninguém possui qualquer idéia. Enquanto isso, o homem segue seus instintos em busca de explicações para uma infinidade de perguntas que jamais terão resposta. Daí, a proliferação dos misticismos, sofisticados e rasteiros, que prometem salvação para uma vida terrena sem sentido. Nestes cenários torna-se necessário o surgimento de lideranças que confrontem o bem-pensar vigente da sociedade. Indivíduos porta vozes de um novo momento, que falem de forma direta, sem rodeios ou demagogia, que só nos resta o caos. Só a partir daí, poderemos ter alguma chance de encontrar alternativas. Sem sonhos ou utopias. Maio 16, 2012
ACONTECEU EM LONDRES, 1997
desenho sobre papel - 1997 Eu estava em Londres naquele início de setembro de 1997 quando a princesa Diana morreu. Era final de verão, aconteceu no mesmo dia em que fiz uma tatuagem. Logo que anunciaram o acidente que a vitimou em um túnel de Paris, uma espécie de alvoroço envolto em melancolia se instalou na capital da Inglaterra. De pronto, a cidade serviu de cenário para uma série de manifestações de apreço, com populares pendurando cartazes nas paredes, acendendo velas nas ruas e parques. Os loucos urbanos, a declamar sermões sobre o apocalipse, o que fazia lembrar as histórias medievais que falam da tragédia da vida dos nobres. Ali, às portas do século 21, o império britânico remexia as próprias feridas ao celebrar as tradições ancestrais. Londres da paisagem cinzenta estava imersa em luto. Imagens de Lady Di nas revistas, jornais, na televisão. A sua trajetória desde criança, a ativista social, a silhueta esguia da princesa que foi infeliz no amor. Na manhã do dia da cerimônia fúnebre, seis de setembro, eu saí de casa e me misturei na multidão para assistir a passagem do féretro. As pessoas aglomeradas ao longo da calçada acenando lenços brancos. Telões espalhados pela cidade transmitindo todos os detalhes do evento. A pompa, o luxo pelo viés da dor. Rabisquei no meu caderno dois momentos, em especial, que me marcaram. Quando acompanhei in loco a carruagem que trazia o corpo de Lady Di contornando a esquina do Hyde Park. E, mais tarde, tomando café no bar de Camden Town, acompanhando pela TV, o ritual de despedida na Abadia de Westminster. Maio 14, 2012
DIRETRIZES DA NOVA ORDEM
pintura sobre papel - 2012 Enfim alcançamos a hora que tanto aguardávamos. Aniquilamos os últimos combatentes inimigos em seu próprio território. Lutamos até a vitória, com galhardia, bravura, e o espírito da Pátria a encher de orgulho os corações, almas e mentes. Mas urge que a Nova Ordem estabeleça um marco inicial da nossa História. Nada do que ocorreu no passado terá a mesma relevância do que está a se iniciar a partir deste momento. Façamos valer aquilo que nos é de direito, e que passa a ser um dever de cada cidadão. Demonstraremos com todas as letras e, se possível for, com gestos e atitudes, as razões pela quais manteremos permanentemente as hostilidades aos que desejam o retorno da velha realidade, e em especial àqueles que clamam por algo diferente do que agora existe. Assim, ao atingir o objetivo, fica decretado que os registros da memória da nação que podem ser interpretados como patrimônio cultural estarão sujeitos ao abandono, ao descaso. Os episódios serão minuciosamente analisados, os relatos históricos devem estar de acordo com os nossos ideais. Maio 11, 2012
ROLLING STONES EM RÁPIDOS FLASHBACKS
desenho sobre papel - 1987 Para comemorar os cinquenta anos de existência dos Rolling Stones, aqui segue uma série de lembranças pessoais em ordem quase cronológica - auditivas e visuais, sobre a trajetória desta banda inglesa a qual sou fã de carteirinha desde os nove anos de idade. Como não podia ser diferente, o meu primeiro contato se deu com Satisfaction, em 1965, quando ela tocava incessantemente na Rádio Cruzeiro AM de Salvador Bahia. A partir da hipnose daquele riff de guitarra, eu passei a me interessar por tudo que os Stones faziam, e ainda fazem. Depois dali, vieram outros petardos. Under My Thumb, Let´s Spend The Night Together, Mother´s Little Helper, Lady Jane, que consolidaram minha admiração pelo grupo. Algumas destas músicas estavam nos compactos em vinil que eu costumava comprar na loja C Sampaio, no centro da cidade. Ficar ligado na TV Itapoan para assistir o programa Shindig, ali por volta de 1966, onde se apresentavam vários grupos de rock. E os Stones sempre apareciam com sua dose venenosa de puro rock´n´roll. Colar na pasta do colégio um pedaço de esparadrapo escrito com as palavras Beatles e Rolling Stones. Ouvir Paint It Black e sentir vontade de pintar o mundo de preto. O impacto diante dos acordes iniciais de Jumpin´Jack Flash, em 1968. A capa da coletânea com as arestas cortadas, exposta nas vitrines das lojas de discos. O desejo de dançar As Tears Go By com as garotas nas festinhas adolescentes. ----------------------------------- Tomar conhecimento da visita de Mick Jagger, Keith Richards e respectivas namoradas à Bahia, em 1968. Acreditar nos boatos da passagem deles por Salvador, e a história dos pescadores de Arembepe que diziam que Marianne Faithfull era Yemanjá, quando ela tomava banho de mar em noite de lua. As fotografias e as notícias da morte do guitarrista Brian Jones na piscina de sua mansão londrina, estampadas em longas reportagens nas páginas das revistas O Cruzeiro, Manchete e Fatos & Fotos, em julho de 1969. O bolo de aniversário num toca discos na capa de Let It Bleed. A cadência rítmica de Honky Tonk Women. O LP ao vivo Get Yer Ya-Ya's Out, que traz na capa o batera Charlie Watts e um jumento que tem uma guitarra pendurada no pescoço. A arte de Andy Warhol em Sticky Fingers, discaço que abre com Brown Sugar. Ver o filme Gimme Shelter no Cine Tamoio. Esperar ansiosamente a chegada do meu exemplar de Exile On Main Street, e ficar completamente chapado com a sequência de faixas deste magistral álbum duplo. Pintar uma camisa com o logotipo da boca e da língua. O vídeo de Angie exibido no Fantástico, logo após o lançamento de Goats Head Soup. Compreender o significado de It´s Only Rock´n´Roll, numa época em que a pretensão do rock progressivo ditava a moda. Não gostar de Black And Blue, o LP que eles lançaram em 1976. A felicidade ao ouvir Some Girls, em 1978, que para mim continua sendo um dos melhores trabalhos dos Stones. ---------------------------------------- Participar destas discussões idiotas sobre quem seria melhor, os Beatles ou os Stones, quando na verdade ambos são geniais. O rosto tatuado de Jagger na capa de Tattoo You, e caminhar pelas ruas de Nova York, em 1982, com Start Me Up ecoando por todas as direções da ilha de Manhattan. Escutar os álbuns dos Stones produzidos em meados dos anos 1980, e ter a nítida sensação que a banda perdera sua criatividade. Jamais acreditar que eles iriam terminar por conta das desavenças internas. Afinal, os Stones são muito escrotos e calejados para dar vacilos já na meia idade. Ser surpreendido com a saída de Bill Wyman. Comprar o CD de Voodoo Lounge, em 1994, e adorar as músicas deste álbum. A primeira apresentação dos Stones no Brasil, em 1995, quando acompanhei o show numa casa de praia, ao lado de amigos que alugaram um telão só para ver os caras. Ficar completamente emocionado, no ano de 1998, ao ver Bob Dylan e os Rolling Stones, juntos no palco, em pleno estádio do Maracanã lotado, e eles tocando e cantando Like A Rolling Stone com o público presente urrando o refrão como se fosse um gol de Pelé numa final de Copa do Mundo. Usar a internet para fuçar detalhes, imagens, videos de todos os períodos de existência do grupo. Ainda ficar arrepiado ao escutar Satisfaction. Achar uma bobagem dizer que eles são velhos para o rock. E ter certeza mais que absoluta que, no futuro, eles serão tão importantes quanto Beethoven e Bach. ROLLING STONES - JUMPING JACK FLASH - LIVE 68 HQ por THE-GRAND-WAZOO Sintonizados com o clima de 1968, os Rolling Stones lançaram o petardo Jumpin´ Jack Flash Maio 9, 2012
DISCURSO E PRÁTICA
pintura sobre papel - 2012 A política é uma arte. O dom da oratória é dádiva, mas pode ser perniciosa na boca de populistas e farsantes. No Brasil só restou a apatia dos resignados e a demagogia dos muito espertos. Não temos mais os grandes tribunos que ao abrir a boca honravam a causa pública. Não falo de ideologia, porque isto é irrelevante quando o extremismo não faz parte do repertório do discurso político. Aqui, saber se comunicar é a força da palavra que se confunde com lábia. Esta coisa tipicamente brasileira, que os nossos políticos incorporaram ao seu idioma com maestria. Palavras jogadas ao ar, e que se perdem no vento da história. O que foi dito ontem é esquecido na prática de hoje. Quinhentos anos de história para chegar aonde chegamos. Tudo desperdiçado misturado à lama das instituições que avança retrocedendo na mais perfeita definição do que seja círculo vicioso. Tolos são aqueles que acreditam, porém acondicionados ao reino da felicidade. Loucos os que sempre duvidam, destinados ao não pertencer, sem pátria na alma. A arte da grande política descrita nos velhos compêndios desce pelo ralo do pragmatismo das conveniências, deste monstro que inventamos chamado governabilidade. Maio 7, 2012
PARAÍSOS PASSAGEIROS
pintura sobre papel - 2012 Viajando para a África sobrevoei a ilha de Santa Helena, no meio do Oceano Atlântico, lugar onde Napoleão morreu no exílio. Uma coluna flutuante de rocha que, do alto, parecia se deslocar lentamente nas águas sob efeito das correntes marítimas. Foi ali que os navegantes da antiguidade vindos da Europa aportaram imaginando haver chegado a outro mundo. Por certo, sensação parecida com a dos astronautas quando se aproximam de asteróides que se movem no espaço sideral. Mas algo aconteceu naquelas primeiras incursões, a partir do momento em que os forasteiros entraram em contato com a população nativa local. Os costumes trazidos de civilizações desconhecidas, o choque cultural, e a suscetibilidade de estranhamentos. O colapso do império britânico, a derrocada dos colonizadores portugueses e espanhóis que resultaram em investidas fracassadas, com viagens de ida, apenas. Sem retorno. Para viver largado à própria sorte no ambiente inóspito do desconhecido. Observando a tarde cair sobre o horizonte do oceano, acompanhar o brilho dos raios de sol, pensando ser possível caminhar sobre os reflexos, passo após passo por cima da superfície do mar até pisar de volta no ponto onde tudo começou. Maio 4, 2012
UMA ANTENA DE ARAME PARA OUVIR ROCK NA RADIO BBC
pintura sobre papel - 2012 Eu era criança nos anos 1960, e queria ouvir a rádio BBC de Londres para escutar músicas das bandas de rock da Inglaterra. As estações da minha cidade pouco tocavam algo assim. Foi então que tive a idéia de fazer uma antena improvisada para ver se dava resultado. Consegui trinta metros de arame, que estiquei entre barras de metal localizadas no terraço da casa onde morava. Daí, eu emendei um longo pedaço de fio em determinado trecho da antena já montada, descendo esta extensão até o plug do meu rádio transistor Zenith. É claro que a experiência não foi bem sucedida. Eu até conseguia sintonizar a BBC de Londres, porém os horários nunca coincidiam com a programação musical voltada para o rock. Além disto, a transmissão era interrompida, sobreposta por outras tantas emissões radiofônicas. E eu ali, com o botão de sintonia prum lado e pro outro, doido para ouvir sons além de Beatles. Querendo coisas como Yardbirds, Animals, The Who e tudo que chegava a mim era uma confusão de ruídos e descargas que mais pareciam os experimentos sonoros de Stockhausen. ---------------------------------- Mas para minha sorte, com a antena de arame eu tive a chance de descobrir uma rádio do sul da Espanha que à noite apresentava uma programação que satisfazia em cheio o meu gosto musical. Foi uma boa opção para conhecer artistas e grupos que eu nunca ouvira falar até então. Às vezes eu me dirigia para a rua na intenção de captar um melhor sinal. Isto despertava a curiosidade das pessoas, que com toda razão se perguntavam o que queria um menino com um rádio na mão, girando em torno do próprio corpo, o ouvido encostado no alto falante, e olhando para o céu. E como naquela época, do então regime militar, os comportamentos estranhos eram considerados suspeitos, a minha mania intrigou um milico que residia nas redondezas. Ele passou a observar meus movimentos, descobriu a existência da antena de arame no terraço. Na desconfiança da sua mente tomada pela paranóia, e mesmo sabendo que eu ainda era uma criança, ele concluiu que, talvez, eu estava querendo sintonizar estações de rádio da União Soviética, de países comunistas, enfim. E aquilo era um ato praticado por gente subversiva. Ele era incapaz de imaginar que se tratava de um roqueiro infantil em busca de informação. Até que chegou o dia em que o tal milico ordenou aos meus pais a dar um fim naquela história. E mandou desmontar a antena que eu tinha construído para escutar o meu inofensivo rock and roll. The Troggs, banda que marcava presença na rádio do sul da Espanha. Maio 2, 2012
DR. SIMPSON E O MACACO DE KENTRIDGE
pintura sobre papel - 2012 Na medida em que o homem foi progredindo para um desenvolvimento mais avançado, aumentaram ainda mais as semelhanças com os seus antepassados primitivos. A tribo do Quênia que utilizava máscaras pintadas que simulavam o rosto dos macacos poderia ser um símbolo de que sabia de onde ela surgiu. O Dr. Albert Simpson, titular do laboratório de experiências aplicadas da área de reprodução humana da Universidade de Kentridge, estudou as similaridades entre as caixas cranianas dos símios e dos humanos. Até o dia em que, ao ministrar hormônios químicos a um exemplar de macaco das selvas de Jacarta, percebeu que entre eles se estabeleceu um diálogo através de sinais Meses depois, a cobaia do Dr. Simpson fugiu após abrir a janela do laboratório manipulando fechaduras que apenas seres dotados de inteligência avançada são capazes de operar. Foi então que teve início discussões nos meios científicos. A partir daquele episódio, o que poderia ocorrer com os descendentes do macaco de Kentridge? Abril 30, 2012
OS DESVIOS DA HISTÓRIA
pintura sobre papel - 2012 A mitologia se mistura com a história quando o sobrenatural passa a fazer parte do contexto e determina, ou até mesmo altera o desfecho dos episódios. As lendas se confundem com os fatos quando são inseridas versões decorrentes de comentários que muitas vezes não correspondem aquilo que ocorreu. O hábito substitui o julgamento quando o universo das leis perde sua relevância, e a realidade passa a ser interpretada apenas através dos costumes. A fisionomia esconde a personalidade quando as aparências adquirem um caráter mais importante do que os fatores que formam a complexidade psicológica. E não se sabe qual a verdadeira versão dos acontecimentos. Abril 27, 2012
O FIM DOS IMPÉRIOS ANTIGOS
pintura sobre papel - 2012 Tem um cara que ficou famoso por falar as palavras de forma inversa, começando pela última letra, emendando frases que adquiriam significado fora de qualquer nexo e compreensão. De segunda a sexta, ele marcava presença na praça que divide avenidas. Junto ao chafariz ele fazia sua apresentação para a alegria dos transeuntes, principalmente as crianças. Figuras assim não existem mais. O centro da cidade perdeu encanto, e tudo é lixo, abandono, feiúra, e os shopping centers são pontos de referência onde as coisas são certinhas com pessoas apressadas ou sentadas com fisionomia entediada. Com adolescentes que deram os primeiros passos nos playgrounds e nos limites dos conjuntos habitacionais. Decifrar o código das mensagens urbanas, observar placas de sinalização, cartazes de propagandas, folhetos, grafites, pichações. E agora os letreiros horrorosos que substituíram os anúncios em luz neon. O imaginário da vida cultural noturna cedeu espaço ao sol de meio dia, do calor insuportável que impede a população de ter o mínimo de elegância. A decadência e o horror. Apenas quem integra o contingente da barbárie vê beleza neste local. Ao norte, areia e coqueiro. Ao sul, a trilha interrompida. A oeste, terras devastadas pela seca. Ao leste, o oceano como último refúgio de harmonia. Alguns comentam que observam navios no horizonte, e sentem desejo de nadar até eles, e seguir suas trajetórias. Abril 25, 2012
DIZEM QUE ESTAMOS NO SÉCULO 21
pintura sobre papel - 1992 Dizem que estamos no século 21. O rei da Espanha viaja para caçar elefantes na África e sofre acidente quebrando o fêmur. Etnias em guerra mundo afora, se matam umas às outras. Violência explode em cidades do terceiro mundo enquanto governantes demagogos afirmam que está tudo bem. O ex-presidente Lula instala governo paralelo em hospital de luxo na cidade de São Paulo, mostrando que ainda manda e desmanda no país. Os mesmos de sempre operam para se manter no poder. Juízes da mais alta corte trocam desaforos em público enquanto processos jamais serão julgados. No mundo das mulheres poderosas, Dilma finge governar em meio a escândalos sem fim envolvendo corrupção. A presidenta argentina Cristina Kirchner continua vestida de luto e confisca empresa espanhola. A motorista de ônibus faz gestos obscenos enquanto dirige a toda velocidade. Pagode, funk e outros tipos de música vagabunda encantam intelectuais de esquerda. Radicalismo da religião evangélica encarna preconceitos fundamentalistas. Venda de livros de auto ajuda e de publicações voltadas para concursos públicos mantém em funcionamento as livrarias de shoppings. Abril 23, 2012
A DESCOBERTA DO NOVO MUNDO
pintura e manuscrito sobre papel - 2012 Ali é o novo mundo onde tudo ainda está por fazer. Campos desabitados, florestas virgens, horizontes sem fim, montanhas com jazidas de ouro, prata e diamante. Todas as riquezas em um só lugar. Atravessaremos o mar que nos separa, e uma vez pisando naquele chão construiremos nosso novo lar. Pedra por pedra, com cada gota de suor, cada lágrima, cada sorriso. Queimaremos os barcos que nos levarão até lá. Com as velas das embarcações cobriremos nossos corpos nas noites de inverno. Criaremos leis que concedam liberdade. Combateremos com a ponta da espada os que se posicionarem obstruindo o caminho. O homem é o senhor dele mesmo. Ele está acima de tudo que esteja abaixo dos céus. Até mesmo maior do que aquilo que seja chamado de pátria. Porque a pátria sempre será uma inimiga quando ela impede a plenitude da vida. Abril 20, 2012
RECORTES DO DIA
pintura sobre papel - 2012 O som de uma sirene distante ecoa por toda a estrada como se fosse um carro de polícia no encalço de criminosos em fuga. Durante o dia um pequeno avião sobrevoa a cidade fazendo propaganda do circo mambembe que no passado tinha o hábito de abandonar velhos leões nas planícies que separam municípios do interior. Todos estavam errados na discussão na mesa do bar, onde se comentava o comportamento dos políticos, estes seres esquisitos que têm aquele típico sorriso de hiena. Perto dali, o posto de gasolina que vende combustível adulterado, e ganha mais dinheiro com a comercialização de cerveja e o ponto clandestino do transeiro que passa drogas. Adolescentes vão para a escola e levam na mochila, junto aos livros, o revólver do pai. Olham para o professor sabendo que nada do que está sendo ensinado servirá para eles. Apenas sonham em ganhar dinheiro fácil. A janela aberta descortina o caminho. Calçar um sapato confortável, sair em disparada, e abandonar este lugar o mais rápido possível. Abril 18, 2012
A DESMORALIZAÇÃO DO MILHÃO DE DÓLARES
pintura sobre papel - 2012 O Brasil desmoralizou o significado da cifra do um milhão de dólares, porque em qualquer lugar do planeta isto representa muito dinheiro. Aqui um milhão de dólares é considerado uma merreca, um trocadinho que os nossos políticos corruptos nem aceitam como gorjeta. Nos países desenvolvidos, na Europa, nos Estados Unidos, a partir do momento em que o cidadão reúne um milhão de dólares ele é guindado a uma casta de privilegiados. O que lhe concede desfrutar de um bom padrão de vida pelo resto dos seus dias. No Brasil, não. Os mauricinhos, os lobistas, os aspones, os atravessadores, os vermes que transitam pelos corredores do poder central em Brasília mencionam o valor de um milhão de dólares com desprezo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Quando tomamos conhecimento dos roubos praticados pelos políticos brasileiros já sabemos de antemão que a ladroagem ultrapassa qualquer limite. Fala-se em valores correspondentes a trinta, cinquenta, ou mesmo cem milhões de dólares sem o mínimo de desfaçatez ou pudor. Infelizmente, esta situação só tende a se agravar. A índole do povo brasileiro é pacífica. A maioria da população sempre está inclinada a apoiar os governos. As pessoas acham normal a corrupção, e não estão nem um pouco preocupadas com os desvios de verbas públicas. A questão da ética é apenas discutida entre os setores mais esclarecidos da sociedade. Não existe indignação generalizada. E enquanto isso, em terras brasileiras, a lenda da fortuna do milhão de dólares cai por terra. Sonhar ter um milhão de dólares é algo para nós, os ingênuos. Abril 16, 2012
O INSTINTO E A RAZÃO
desenho e manuscrito sobre papel - 2012 O hábito substitui o julgamento quando não se consegue raciocinar, embora a mente esteja completamente ocupada com pensamentos dispersos. As experiências médicas realizadas na base do empirismo, inserir fios de prata por entre as artérias que alimentam o coração. Desencadear o ato de sorrir, emitir descargas de estímulos para o nervo simpático. O contrário de tudo isto é o choque elétrico como terapia de cura da depressão. Na Idade Média os humores foram estudados. O homem sanguíneo tinha o temperamento quente, paciência curta para lidar com os contratempos. O homem colérico reagia de forma violenta, ímpetos disparados pelo fígado. O homem melancólico vivia sob uma espécie de nuvem escura, esquivava-se da interpretação das coisas com leveza. O pássaro pequenino que canta em trinados. A ave de rapina de olhar furioso e unhas curvas. A pomba branca, a gaivota, símbolos da calmaria. O corvo negro dotado de mistérios indecifráveis. Para cada ser vivo, uma relação ao comportamento. A cada gesto racional, um significado a ser encontrado no mundo daquilo que se movem diferente da percepção humana. |