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Janeiro 27, 2012

A MANHÃ SEGUINTE À REVOLUÇÃO




pintura e manuscrito sobre papel - 2012




Uma fibra nervosa não é um arame de ligação. É um impulso que tem de viajar qualquer distância. Tudo era simples. Aquela foi a época dourada das máquinas.

Quando consultaram o sacerdote-chefe do norte, e não se decidiram sequer a matar um mosquito, os colonizadores haviam tomado todos os bastiões dos povos nativos.

Turistas que chegam em limusines. Pilhas de cédulas de dinheiro para impor uma filosofia de elegância atemporal.

No dia que o interventor assumiu seu posto na enfermaria do hospital do exército revolucionário, ele soube dos relatórios que registravam os casos de doenças que vitimaram mais de quatro milhões de seres humanos.

O tédio existencial não tem nada a ver com a falta do que fazer. Depois de mais de duas décadas de estrada, não havia mais tempo para perder com bobagens. O corpo já estava calejado e a alma não se ilude com as aparências que são sempre iguais.




Janeiro 25, 2012

A ESTRADA SE MEXE COM OS RAIOS DE SOL





pintura e manuscrito sobre papel - 2012




A revolução na astronomia teve início com as idéias de Copérnico. Afinal, a Terra não está no centro do universo. Cada grão de areia pode ter sido um planeta em algum espaço de tempo. Basta acreditar.

Porque é melhor ser uma estrela errante, que sempre está em movimento, do que ser estrela fixa que nunca muda de lugar. Os objetos, as coisas desorganizadas que confluem para o mesmo ponto. Basta duvidar.

Mais um retrato do isolamento do mundo. A estrada de asfalto que se mexe com o calor e os raios de sol. É preciso ter os pés livres, ágeis, para jamais pisar nas mesmas pegadas. Tudo muda a cada momento. Basta arriscar.

Determinadas trajetórias mudam ao sabor do vento. Por mais que eu tente aceitar a astrologia, as desconfianças aumentam. Ontem à noite eu observei o céu. Desenhei com o dedo os traços da constelação de Sagitário. Basta despertar.




Janeiro 23, 2012

CLEÓPATRA, DEPILAÇÃO EGÍPCIA E OUTROS ASSUNTOS




pintura e manuscrito sobre papel - 2012




A depilação egípcia de Cleópatra dá a impressão de que todas as mulheres nasceram assim. Porque aqui ninguém salva o mundo alimentando a nostalgia de resolver as coisas na base da violência.

Um motorista de ônibus foi xingado pelo passageiro porque não respeitou a sinalização. Eu quero que o tempo esfrie para eu usar meu casaco de couro preto. O cérebro torna-se hábil em acompanhar estímulos.

Correr atrás do prejuízo. Ganhar dinheiro vendendo contrabando chinês.

Estabelecer um paralelo entre a mudança e sua necessidade de transformação para se chegar a uma vida radicalmente nova. Explorar os caminhos para encontrar a invenção do que significa superar limites.




Janeiro 20, 2012

INTERNET, GOVERNOS E A POSSE DO SABER





pintura sobre papel - 2012




O sociólogo Manuel Castells, também acadêmico da Universidade de Berkeley, Califórnia; e da Universidade Aberta da Catalunha, Espanha, declarou que os governos odeiam a internet.

Ele diz que a internet, basicamente, desafia o poder estabelecido por operar em uma esfera que vai de encontro ao objetivo de todo e qualquer governante: o controle da informação da comunicação.

Isto explica as tentativas, e insistência, de determinados grupos políticos em estabelecer metas, sugerir parâmetros, muitas vezes camufladas com supostas boas intenções, que buscam, segundo eles, o aprimoramento do mundo virtual.

Além dos governos, a internet também não é bem vista por alguns luminares da cultura contemporânea que se julgam superiores. E apesar das suas importâncias, enxergam a rede mundial de computadores como algo menor.

Do alto da prepotência, ora fazem ressalvas de que isto é positivo, ou aquilo é negativo, quando na verdade eles apenas reiteram para si mesmos a exclusividade do saber. O qual se torna propriedade de uma casta que paira acima dos meros mortais.

O fato é que o conhecimento enciclopédico não pertence mais ao homem. Ou a um grupo de pessoas. E isto, sem dúvida, incomoda aqueles que não entendem, ou finge não entender, o funcionamento das engrenagens do progresso.




Janeiro 18, 2012

COLOMY BLUES





desenho e colagem sobre papel - 2004




Num papel de seda que estava em sua carta
acendi todas as esperanças
tão vivas na mente das crianças.

A fantasia do dia em que a terra parou
na Praça Vermelha repousa a múmia de Lênin
feito uma natureza morta com frutas de cera

Onde se prolifera a maledicência
as falsas acusações
o olho comprido
se proteja
se encastele
erguendo muros e colocando casco de vidros

A vida é breve como uma flor de curta duração
mas existem as flores petrificadas de madeira
que as árvores mais altas da floresta tropical produzem
elas duram anos
por muito tempo sem idade
e quando caem ao solo
continuam vivas por outros tantos anos
que até parece uma eternidade.




Janeiro 16, 2012

A TRILHA DO MONASTÉRIO





tinta spray e pintura sobre papel - 2012




Duas revistas que encontrei na rua, coincidentemente lidam com o mesmo tema. As abordagens são antagônicas. Uma afirma que o universo surgiu a partir da teoria do Big Bang. A outra diz que a continuidade da vida é decorrência da costela que foi arrancada do homem para se fazer a mulher.

O duelo entre ciência e misticismo. A emoção versus a razão. O homem que observa o céu e se move seguindo os passos da ciência. O homem que olha para o alto e enxerga nos contornos das nuvens um deus de barbas longas que rege a ordem do mundo.

Os sistemas biológicos sabem copiar a si mesmos. Dispositivo sintético pode ser projetado para se autodestruir. Num futuro distante o sol também se tornará uma anã branca – estrela remanescente de uma estrela que se consumiu.

Movimentando-se em órbitas ligeiramente elípticas, o monge que decidiu morar no topo de uma rocha. Ali, ele reconstrói um monastério, e leva para o alto cada uma das pedras. Naquele lugar viveu outro monge há 500 anos. A ossada dele ainda está guardada no local.




Janeiro 13, 2012

A DANÇA DOS PONTEIROS DO RELÓGIO DO APOCALIPSE





pintura sobre papel - 2000




Lá pelas bandas do hemisfério norte tem um troço chamado Relógio do Apocalipse, que existe desde o ano de 1947, cujos ponteiros marcam o quanto falta de tempo para o mundo se acabar.

Dizem que é uma geringonça baseada em análises sérias e avalizada por estudiosos que acompanham os passos do planeta Terra. Pois acabaram de adiantar o relógio em um minuto. Com isto, estamos a cinco minutos do dia do juízo final, que corresponde à meia noite do tal relógio.

O interessante de toda esta história é que os ponteiros podem ser adiantados ou atrasados, a depender de certas circunstâncias.

O fim fica mais próximo quando se fala muito na questão nuclear, nas bombas atômicas, nas catástrofes naturais. Quando se cria um novo medicamento que prolonga a vida, quando se descobre água em um planeta distante, o relógio dá um alívio, e atrasa.

De qualquer sorte, bem aventurada seja a civilização que testemunhará o fim dos tempos. De alguma maneira, mesmo através de vestígios, ela deixará registros para a posteridade do último suspiro de um mundo que sempre caminhou à beira do abismo.




Janeiro 11, 2012

ENTRE OS ATÓIS DAS ILHAS NANSHA





pintura sobre papel - 1991




Ele não tinha medo de navegar à noite, mas naquelas condições tudo se tornara muito perigoso. Os atóis afloravam do nada, não existia sinalização marítima e nem adiantava se guiar pelas estrelas.

Foi seduzido pelas belezas dos arquipélagos de Nansha e Paracel, nos mares do sul da China, e quando percebeu já estava envolto em situações que não ofereciam saídas.

Desembarcou em uma ilhota. Ancorou o barco na enseada cercada pela floresta tropical, e ali ficou por quase três semanas. Não havia moradores no lugar. Em determinado momento escutou a própria voz e descobriu que falava sozinho.

Foi então que decidiu se retirar daquelas latitudes o mais rápido possível. Lembrou que a região era patrulhada por embarcações da marinha chinesa que seguiam ordens para expulsar forasteiros, e tinham fama de ser truculentas nas suas ações.

Girou o leme em trinta e quatro graus a oeste e seguiu em frente. Na madrugada seguinte foi acometido por febres, calafrios, e desmaiou. Ao acordar viu a tempestade com pesadas nuvens negras que vinha em sua direção.

Mudou o rumo mais uma vez. Desta feita para o quadrante sul. Ao fim do segundo dia conseguiu enxergar uma luminosidade que pulsava no horizonte. Imaginou que poderia ser alucinações. Preferiu confiar na intuição de que seria um farol de alguma terra firme, e zarpou rumo ao encontro da luz.




Janeiro 9, 2012

A MULHER, OS SAPOS E OS PRÍNCIPES





pintura sobre papel - 1995




No imaginário feminino, o homem é um sapo enquanto não se transforma em príncipe. E o príncipe nem sempre é homem suficiente quando se torna necessário se transformar em sapo para preencher as expectativas das mulheres.

Compreender a alma feminina é uma tarefa impossível, e o homem não tem capacidade para desvendar este mistério. Ele pode até simular situações de percepção convincentes, mas jamais irá ultrapassar as aparências.

As oscilações de humor, a maneira peculiar de lidar com o imprevisto. Um dia ela quer, no outro ela evita. A distância angustia, a proximidade dá enjôo. A indiferença irrita, mas alimenta a paixão. A atenção é fundamental, mas provoca tédio.

O homem sofisticado e compreensivo, e aqueles excessivamente românticos, geralmente são uns molengas. O machista é um sujeito tosco, porque interpreta tudo na base do sim ou do não.

E nos tempos atuais, se faz acentuar duas situações que definem a polarização entre os sexos. A mulher avança na sociedade e ocupa cada vez mais os espaços. E o homem perde a confiança e flutua perdido no espaço.




Janeiro 6, 2012

FAUSTINO ATROPELOU UM PIZZEIRO





desenho e pintura sobre papel - 2002




Segundo as escrituras sagradas, o antigo Egito dos tempos dos faraós foi açoitado pela praga dos gafanhotos. Passados mais de três mil anos, o nordeste do Brasil é atacado pela praga das motocicletas.

Estas motos vagabundas, compradas pela facilidade de crédito do país das maravilhas estampado na propaganda do governo. O Brasil que cresce de forma desigual e perversa. Festejado a partir de estatísticas duvidosas, e a milhas de distância de uma transformação estrutural.

A praga das motos em todos os lugares. Documentação irregular e infrações em série. Reunindo o gado magro nos pastos esturricados do sertão, transitando em estradas detonadas. Tocando o terror nas cidades, levando a bordo meliantes, ladrões e assassinos.

Invadindo sinais, provocando acidentes. Motoqueiros com joelhos esfolados, membros estraçalhados, luvas banhadas de sangue, capacetes decapitados. Aguardando atendimento na fila do hospital público, cuja verba oficial foi rateada pela corrupção.

Faustino atropelou um pizzeiro, e o trânsito ficou congestionado na região do shopping Iguatemi.

E, no entanto, nem tudo é tragédia porque existem os trabalhadores motorizados a cumprir suas tarefas. E apesar dos pesares, eles também carregam na garupa a pronta entrega de uma nação que não desperta e não ruge.




Janeiro 4, 2012

A PAISAGEM ALTERADA DA NOVA EXPERIÊNCIA HUMANA





desenho sobre papel - 2003




Em cima de um bloco de granito que parecia sobrevoar a cidade, ele observava a paisagem alterada. Mensagens gravadas se faziam ouvir por toda a zona urbana através de partículas de som impregnadas na atmosfera.

Bem-vindo a bordo. Um dia as crianças podem ser imunizadas de todos os males. Um mundo tomado por imagens microeletrônicas de fabricação em série. E os planetas próximos de asteróides distantes serão monitorados a todo o momento.

Os rostos terão características com expressão de calma e feições gentis. As pétalas de lótus serão bem definidas e simétricas. O raio de cada planeta corresponderá ao quadrado do raio das estrelas que geram energia, a qual será medida pelo espectrômetro com estreitas faixas de comprimento.

E a partir de fundamentos científicos, estaremos aptos para construir um sinal de vida que ganhará destaque como exemplo de experiência humana.




Janeiro 2, 2012

O RITUAL DAS CORRENTES MARINHAS





pintura sobre papel - 2012



A cada ano o ritual se repete. Retornam à praia as flores que as pessoas jogaram ao mar na noite de reveillon. Mergulhei por sete ondas e nadei até a pedra que delimita a entrada da baía. O calor do sol era intenso e parecia fazer os edifícios se mexerem de um lado pro outro com as rajadas de ventos que sopram do leste.

Estourei nos céus com os fogos de artifício. E lá de cima não consegui acreditar no que observava. Não há nada pior para esta cidade do que a combinação de governantes medíocres e um povo feliz que aceita qualquer porcaria com sorriso estampado na face.

Mas eu sei que as correntes marinhas que trouxeram as flores de volta, por certo, não farão o mesmo comigo. Vou içar as velas do meu barco de sonhos, e zarparei antes que isto aqui seja devastado pela turba de bárbaros que transformaram minha terra em nação inimiga.




Dezembro 30, 2011

O DIA QUE O MUNDO NÃO ACABOU





tinta spray e pintura sobre papel - 2011




Foi na época que o cometa sem nome surgiu nos céus das madrugadas deixando um rastro prateado. E durante quatro noites consecutivas eu fiquei sem dormir esperando a confirmação da notícia de que o mundo iria acabar.

E quando, enfim, eu conseguia despencar no sono as imagens surgiam, e se ampliavam ou diminuíam, trazendo acontecimentos sem ordem cronológica. A rosa gigante ocupando todo o quarto, repetindo em forma e movimento, aquilo que está no quadro de Magritte.

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É claro que o mundo não acabou e não há vestígios que algo parecido possa acontecer, apesar da sensação de total inutilidade do ser humano, e de alguns sinais emitidos através do mau humor da mãe natureza.

As crianças, os fatalistas, os fanáticos religiosos alimentam uma necessidade mórbida de reverenciar o final dos tempos. Enquanto isso, a vida prossegue. Feito um filete de água que escorre por entre os rochedos sem se importar com os obstáculos que surgem ao longo do caminho.




Dezembro 28, 2011

PRA FRENTE BRASIL 2.0





tinta spray e pintura sobre papel - 2011




O ano não podia terminar sem uma piada de patriotada verde-amarela. O governo informa, e a mídia chapa branca comemora a notícia que a economia do Brasil ultrapassou a da Inglaterra, dando a entender que já somos a sexta potência do planeta.

Mas quem irá acreditar nesta lorota? Se a realidade brasileira se equipara às das nações subdesenvolvidas no quesito saúde, educação, segurança pública, infraestrutura. Além de outros inúmeros fatores que avaliam a riqueza de uma nação.

Sem falar na tal conduta ética da nossa classe política, que de tão corrupta se tornou normal o ato de furtar. Temos os piores índices mundiais no quesito corrupção, e ela transita livremente por todas as instâncias. Do executivo, ao legislativo, ao judiciário.

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E pensar que estes caras que agora estão mandando no país criticavam a propaganda ufanista do regime militar dos anos 1970. Aquelas mensagens com o lema "Pra frente Brasil", que incentivavam o orgulho nacionalista na população menos esclarecida; e que na época também viraram motivo de piada.

Mas esta é a alma do PT. Adepto das práticas de controle da consciência das massas, discípulo direto das ideologias totalitárias. E eles sabem muito bem explorar a falta de instrução do povão, e angariar apoio e votos em troca de assistencialismo e demagogia.

E do jeito que as coisas estão caminhando no Brasil, logo logo a propaganda petista vai nos convencer de uma vez por todas que, com a sua chegada ao poder, o país se tornou uma república de padrão de vida semelhante, ou até mesmo superior, ao dos países do norte da Europa.

Que somos mais ricos que a Alemanha. Que o Monte Everest fica no sertão do Piauí. Que Lula é maior que Jesus Cristo, e Sarney mais pobre que São Francisco de Assis. E que as adolescentes do Brasil gostam mais de Chico Buarque do que de Justin Bieber.








Este é um país que vai pra frente. Da época do milagre econômico dos anos 1970, aos tempos atuais do ufanismo companheiro.



Dezembro 26, 2011

O BONSAI E A MEMÓRIA DAS IMAGENS





pintura sobre papel - 1997




Existe aquela declaração atribuída à Charles Chaplin, de que o ciclo da vida do homem deveria ser ao contrário. Teria início com a morte e evoluiria, passo a passo, até o seu nascimento. De qualquer maneira, a ordem dos acontecimentos em nada mudaria o fato de que tudo passa rápido demais.

Dizem que a pessoa que concebeu o bonsai, a árvore que cresce mantendo-se pequena, queria sintetizar séculos de existência de acordo com sua própria compreensão do que seja a evolução da espécie. E as idéias não podem ser possuídas. As essências e as aparências.

Qual a explicação para os sonhos que permanecem por tempos a fio? Dividido entre o que é, e o que poderia ser. E quando foi permitido ver as imagens que antes estavam encobertas, o turbilhão de memórias guardadas no inconsciente se tornou a realidade que se mantém eterna.