Maio 16, 2008

PARA DESVENDAR WARHOL




desenho e colagem sobre papel - 1999






Elvis, Kellog´s, camelos, este é um pop mundo pop.

De designer a messias, Warhol ou a vida ou arte como movimento da vida.

Inspirado pela publicidade, Warhol se utiliza da publicidade, o meio pelo qual ele fez o seu nome. Com Warhol, lidamos com a questão da adição que não é possível em nível da qualidade.

A mecânica ou repetição em grandes enormes quantidades.

Que se foda toda porcaria! Viva Warhol!

Warhol possui o poder e o significado de fazer qualquer coisa que deseja.

A preocupação central de Warhol: Marcel Duchamp, Gertrude Stein, o poder da visão, filmes e John Cage.

Enfim, desvendando a charada de Warhol, por que fazer pouco se pode ser feito muito, muito mais?




Maio 14, 2008

ROBERT RAUSCHENBERG



compart - 2008





O artista plástico norte americano Robert Rauschenberg faleceu no dia 12 de maio passado, aos 82 anos de idade.

Ao lado de Jasper Johns, Andy Warhol, Roy Lichtenstein, David Hockney, Claes Oldenburg, ele foi um dos caras que fundamentaram os conceitos da arte contemporânea a partir dos anos 1950, ao inserir em seus trabalhos uma temática mais objetiva com materiais e imagens do cotidiano.

Mas a obra de Rauschenberg extrapolava os estereótipos mais visíveis da Pop Arte já que seus trabalhos apresentavam uma textura densa e que muitas vezes rompia com a bidimensionalidade da pintura tradicional.

Nos anos 1960 e até meados da década de 1970, aqui no Brasil, os especialistas da cultura consideravam a Pop Arte uma expressão menor e sem importância. E era praticamente zero a possibilidade de ter contato com a arte de Rauschenberg, fosse através da grande imprensa ou livros e publicações nacionais, ou mesmo nas escolas de arte.

É verdade que houve uma mudança dos anos 1980 para cá, mas no Brasil, quando se aborda sobre a arte dos últimos cem anos tem-se a impressão que o relógio do tempo parou nos movimentos modernistas do início do século 20 e na Semana de Arte de 1922.

Aqui em Pindorama quem gostava de Pop Arte geralmente estava ligado na onda do rock´n´roll e para obter informação sobre estes assuntos tinha de se virar e futucar revistas ou livros importados. Era como achar agulha em palheiro.

Quando eu estava em Nova York entre 1982/83, tive a oportunidade de ver uma grande exposição de Rauschenberg com trabalhos baseados em uma viagem que ele havia feito à China naquela época. Eram obras monumentais nas quais ele colava folhetos, guardanapos de restaurantes, páginas de livros ou objetos entre as pinturas. Um caleidoscópio visual que unia a excepcional criatividade deste artista com fragmentos de uma China que ainda não estava aberta ao Ocidente.

Observando in loco a obra de Rauschenberg pude perceber a força do seu trabalho e a razão da sua importância para a evolução da arte.
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Fiquei surpreso quando me falaram da sua morte e só então caiu a ficha da sua idade avançada – 82 anos! E ao confrontarmos a passagem do tempo frente a determinados personagens cuja criação e arte permanecem sempre jovem, inquieta e vibrante, às vezes esquecemos que a matéria, o corpo, a vida, um dia, chega ao fim.

Ars longa vita brevis. O tempo passa rápido não espera ninguém...




Maio 12, 2008

PROFECIAS DO APOCALIPSE EM BREVE





pintura, desenho e colagem sobre papel - 2008





Narrativas de tempos remotos falam da ocorrência de chuva de animais - chuva de rãs e sapos. Livros e filmes de terror usam da imagem dos ventos uivantes soprando pelos campos ou a entrar pelas frestas, balançando as janelas. No Brasil tem um ditado que diz, “vai chover canivete”.

Alguns profetas do asfalto afirmam que o apocalipse está cada vez mais próximo e virá, entre outras coisas, por conta da extração indisciplinada de minérios e isto altera o equilíbrio da composição geológica do solo. E o final dos tempos também se faz anunciar pela poluição desenfreada de nossos dias, em especial como conseqüência da utilização abusiva da matéria plástica, não biodegradável – utensílios descartáveis, sacos, garrafas pet. Estes resíduos inibem a oxigenação da atmosfera.

Existe uma área de grandes proporções no meio do oceano Pacífico para onde diversas correntes marítimas convergem. E, acreditem, de uns anos para cá, nesta extensa área pode ser vista quantidades cada vez maiores de resíduos plásticos que ali se acumulam e flutuam sobre os mares ao sabor do vento.

Um vulcão despertou no Chile após permanecer inativo durante séculos; cinzas e lavas obrigaram as autoridades a evacuar a população de cidades próximas. Em Mianmar, antigo Birmânia, país localizado na Ásia, um ciclone devastou parte do seu território, inclusive a capital e acredita-se que tenha morrido mais de 100 mil pessoas. Terremotos na China, tornados nos Estados Unidos, avalanches de gelo e lama que descem dos Alpes e inundam cidades européias.

E ao observarmos as chuvas que vêm cada vez mais caudalosas e causam estragos nunca antes vistos, não é loucura temer rajadas de canivetes vindos de nuvens que carregam tempestades.




Maio 9, 2008

E EM UMA TARDE DE OUTONO, SENTADO NUMA ESCADARIA DE UM PRÉDIO DO VILLAGE, CHARLIE PARKER OUVIU BIG JOE TURNER




pintura sobre tela - 1995






Charlie Parker caminhava pelos lados do West Village à procura de um agente musical que uma vez lhe disse conhecer um músico ideal para tocar com seu grupo.

Ele passava pela porta de um prédio e de uma das janelas deslizava pelo ar e repetidas vezes uma gravação de Big Joe Turner cantando Shake, Rattle and Roll; e Parker percebeu ser ali a moradia do contato que ele queria encontrar. Sentou-se na escadaria do prédio esperando a saída ou a chegada de um morador para, então, subir até o apartamento.

Quase meia hora depois, alguém abre a porta e Charlie sobe até o apartamento, toca a campanhia e o tal agente musical o atende e não acredita que ali em sua frente estava Charlie “Bird” Parker, o jazzman mais badalado do momento.

Charlie foi convidado a entrar, o ambiente lhe pareceu simpático. No início conversavam entremeando períodos de silêncio e com o passar do tempo, animadamente.

E o anfitrião querendo causar uma boa impressão, decidiu colocar na vitrola algo mais de acordo com o ilustre e inesperado visitante. Charlie percebeu a intenção, mas se fez despercebido e tempo depois pediu para que ele colocasse mais uma vez aquela gravação de Big Joe Turner.

Aliás, desde lá de fora, quando passava pela rua e depois sentado na escada naqueles momentos de espera e com os ventos de outono a soprar encanados pelas ruas, ele sentiu algo diferente ao escutar aquela canção.

Uma intuição de que algo em breve iria acontecer no mundo da música. A cadência musical, a divisão rítmica, tudo lhe pareceu contagiante demais para que não tivesse um efeito incontrolável sobre as pessoas.






Hey Joe! Big Joe Turner canta Shake, Rattle and Roll.



Maio 7, 2008

MEMÓRIAS DE 68


MENINO É GENTE???




compart - 2008





Em minha rua morava uma família cujo patriarca foi um comunista histórico dos anos 1930/40, inclusive ele próprio dizia ter tido uma pequena participação na Coluna Prestes. Verdade ou não, ninguém sabia. Os descendentes puxaram ao avô e embora fosse uma família de posses e hábitos burgueses, os integrantes gostavam de demonstrar uma posição ideológica de esquerda.

Manduca tinha catorze anos, dois anos a mais que a maioria da nossa turma e era um dos netos do patriarca comunista. Por influência dos irmãos mais velhos, os quais participavam das manifestações estudantis daquele ano de 1968, Manduca tentava fazer nossa cabeça para irmos até o centro da cidade a fim de acompanhar os protestos. A gente gostava de confusão, porém morria de medo da cara enfezada dos meganhas e do gás lacrimogênio.

Manduca tinha um excelente poder de persuasão e um dia lá fomos nós para Praça da Piedade engrossar uma passeata contra o governo. Sabíamos de antemão o que estava se passando, só que não entendíamos bulhufas do que os caras falavam, mas era bonito ver gente pouco mais velha que nós com tanta convicção e as jovenzinhas universitárias de ar tão liberal esbanjando sensualidade em mini-saias.

De repente começou um tumulto no lado oposto da praça e teve início uma correria generalizada com bombas de gás lacrimogênio estourando pra tudo que é canto. Os estudantes mais corajosos respondiam com pedras e pedaços de pau.

Com a balbúrdia generalizada, dispersamos, e alguns, eu inclusive, saíram em disparada na direção da Faculdade de Economia, e da janela do terceiro andar observamos a batalha campal e vimos Manduca com seu badogue em punho disparando pedras contra os policiais. Lá de cima presenciamos a chegada de um reforço da polícia montada por uma rua de trás e assim os estudantes ficaram cercados e sem opção de fuga.

Os policiais avançavam com truculência por todos os flancos e encurralaram os manifestantes que restavam na praça – uns cem, no máximo. Ordenaram que fizessem uma fila para dar início à prisão de todos e a gente tentava localizar Manduca entre eles e, incrédulos, testemunhamos nosso valente amigo escalando sorrateiramente uma árvore sem que ninguém percebesse. E em um galho mais alto e encoberto pela folhagem, Manduca ficou ali escondido até a confusão acabar.

Ele usou de toda sua habilidade em subir em árvores para roubar frutas em terrenos e casas de vizinhos para, naquela situação, escapar das garras da repressão militar. Um garoto que deu um drible sensacional nos “hômi”, porém tinha um senão. Assim como nós que fugimos da briga quando ela havia começado, Manduca também não podia se vangloriar do seu feito já que ele, igualmente, também fugiu.

Aí combinamos o seguinte: toda aventura ficaria guardada em segredo. E ele não pôde contar ao avô comunista sua coragem ao enfrentar a repressão já que tinha se escondido em cima da árvore, pois pelo código de ética e conduta da militância política ele não deveria abandonar os companheiros e ser solidário tanto na vitória quanto na derrota.

E quanto a nós que batemos em retirada e borrados de medo logo no início da batalha, também não tínhamos nenhum motivo para contar vantagem. Uns mais, outros menos, fomos todos uns covardes.

Entretanto, éramos crianças, e às crianças tudo é permitido quando elas não entendem a enrascada que, porventura, se envolvem.




Maio 5, 2008

TUDO MUDOU





desenho sobre papel - 1994





há muito tempo ouvi dizer
que de uns tempos pra cá tudo mudou
invernos cada vez mais frios
e o sol provoca mais calor
na porta de entrada tem um aviso
pra você manter distância
se não quiser cair na armadilha
melhor manter a vigilância

do alto da torre dá pra ver
todo lugar
e um novo prédio racha a terra
onde todos vão querer morar
um homem fala veja o que eu vejo
ouça o que eu digo
para alguns tudo é permitido
para outros nada é possível




Maio 2, 2008

NO SANATÓRIO GERAL TODOS DESCEM COM A MÃO NO TABÁCO




compart - 2008





Todo homem tem direito de pensar o que quiser, de dizer e de escrever. Mas a praga do politicamente correto, aos poucos, está destruindo essa garantia da liberdade de expressão.

A alardeada “cultura baiana”, a famigerada baianidade, desce com a mão no tabáco e alcançou o status de expressão artística sagrada e intocável. O professor Natalino Dantas ousou questioná-la com suas declarações algo preconceituosas e verdadeiras em iguais partes, mas hilárias se interpretadas sem o peso da cartilha politicamente correta. E imediatamente tira-se do foco do debate o péssimo desempenho dos alunos do curso de Medicina perante uma prova de avaliação instituída pelo Ministério da Educação, e o professor fanfarrão e tagarela é encaminhado para o paredão do Olodum balançando a banda prá lá balançando a banda pra cá com as bênçãos de Zé Dirceu e outrora, de ACM Malvadeza. Esqueça, na cidade da Bahia o artista serve a dois senhores, sim senhor. E é só alegria.

Tolos somos nós que não temos pele de camaleão. Ingênuo foi Jean Mitchell, o bluesman francês que acreditou que podia viver por aqui com dignidade cantando blues encharcado de cachaça de procedência duvidosa e sem descer na boquinha da garrafa. Morreu como um indigente no pelourinho da terra da felicidade. Baiano burro nasce morto. Baiano não nasce, estréia.

Os luminares da baianidade gritam “vamo tirar o pé do chããão galééééra!” e eles são os intelectuais de uma Bahia pós-raulseixistacamisadevenusiana. Acabo de ler na net um cara dizer que “Raul não é pra qualquer um, não basta apenas inteligência para entender suas letras, é preciso conhecimento em vários assuntos”. Contudo, a atual garotada baiana das guitarras roqueiras acha Raul Seixas déjà vu e idolatra o melancólico menino amarelo da banda inglesa sensação dos últimos quinze segundos. Como bem disse o maluco beleza, um dia ainda vamos pedir asilo ao Paraguai...

Ronaldo, o Fenômeno. Como é que um cara que tem à sua disposição algumas das fêmeas mais deslumbrantes e gostosas do planeta consegue confundir mulher com travesti? E quando Galvão Bueno falar “éééé RRRRonaldo Fenômeno”, é pra gente ficar sério ou cair na gargalhada?

E o governador do Ceará, Cid Gomes, irmão do “gentleman” Ciro Gomes, ambos figuras de destaque de um partido da gloriosa esquerda nacional, fretou um jato e levou a sogra num périplo de férias pela Europa. Só o aluguel do avião custou quase 400 mil reais, e ainda vem Luís Inácio Lula da Silva, candidato a presidente vitalício do Brasil, defender o governador cearense e dizer que a culpa é da imprensa.

OK, Lula está com a popularidade batendo na estratosfera mesmo falando bobagens diariamente e eternamente pendurado no palanque. E pode estar a caminho e já dobrando a esquina a campanha pelo seu terceiro mandato e não é loucura imaginar Chico Buarque, Gilberto Gil, Ziraldo, Luis Fernando Veríssimo puxando o Bloco do Sanatório Geral a cantar:

- 1 - 2 - 3, Lula outra vez... Dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações... Sou brasilêro com muito orgulho com muito amor... Lula lá-lá-lá.

E o velho Raul que não comia nada desse pessoal já falava:

- Seu Zé, preocupado anda numa de horror, pois falta um carimbo no seu "tito" de eleitor. Ehê, Ahá! Quando acabar o maluco sou eu.

Mas não esqueçam, todo homem tem direito de pensar o que quiser, direito de pensar, de dizer e de escrever. No Sanatório Geral chamado Brasil, todo mundo desce com a mão no tabáco. E quando acabar o maluco sou eu.




Abril 30, 2008

VANISHING POINT - CORRIDA CONTRA O DESTINO





compart - 2008





Super Soul e Kowalski formam uma dupla, porém eles nunca se encontram. Super Soul comanda um programa radiofônico e ao tomar conhecimento do que está acontecendo com a vida de Kowalski, ele passa a mandar pelas ondas do rádio mensagens de congratulação, o encoraja e implora para que ele não se entregue. E enquanto toca músicas bacanérrimas entremeia com os dizeres:

- Kowalski, você é o último dos heróis americanos!

Isto acontece no filme Vanishing Point e Kowalski, o personagem principal, é um cara que lutou no Vietnã, perdeu a família, é um viciado em pílulas de anfetamina, não tem emprego fixo e para levantar um troco leva automóveis de uma cidade para outra. E a saga de Kowalski tem início quando ele aceita a encomenda de dirigir um Dodge Challenger branco, um puta carrão, de Denver no Colorado para São Francisco da Califórnia.

Com o intuito de chegar o mais rápido possível ao seu destino final, Kowalski dirige em alta velocidade pelas estradas e por exceder o limite permitido, ele é seguido por policiais em motocicletas. Quando se aproximam e tentam interceptá-lo, Kowalski joga o Dodge Challenger em cima de um deles que sai pelo acostamento e se esborracha contra o solo.

E a partir daí, Kowalski passa a ser caçado pela polícia e nesta aventura ele cruza com personagens estradeiros, entra e sai de estados que tem leis próprias e isto até facilita sua fuga. Na escapada faz incursões pelo deserto do sudoeste americano e se envolve com freaks, grupos místicos, rompe barricadas e barreiras policiais e cai nas graças de um DJ genial, negro e cego chamado Super Soul.

- Kowalski, você é o último dos heróis americanos!

Mas é claro que isso não ia dar certo. Nem para o disc-jóquei e muito menos para o motorista fugitivo e enquanto a Amérika da malucada se posiciona a favor de Kowalski, a América dos caretas e dos conservadores estende a espada da lei em sua direção.

O desfecho é aquele esperado quando se trata de um "durão" que não quer se render nem entregar as armas. Afinal, Kowalski quis enfrentar a lei e a lei, queira ou não, sempre vence.

Vanishing Point é um filmaço, imperdível para os que curtem o gênero estradeiro. A trilha sonora é matadora, os enquadramentos, as cenas e as filmagens idem. Trata-se de um dos primeiros road movie com abordagem contracultural, já que trata da questão do "outsider" como parte da realidade norte-americana do final dos anos 1960 e início dos anos 1970

Ele foi lançado internacionalmente no ano de 1971, e no Brasil recebeu o título de Corrida Contra O Destino. Foi exibido nos cinemas de Salvador repetidas vezes entre 1973 e 1975 e ficava em cartaz durante semanas a fio.




Abril 28, 2008

URUBUS URBANOS




pintura e desenho sobre papel e compart- 2004/2008





Quase mil metros de altura, planando no ar ele observa o mundo lá embaixo com seu olfato e sua visão. E da altura que se encontra ele pode acompanhar tudo que acontece em boa parte do mundo.

Algumas cidades que se separam por até 50 quilômetros estão sob sua vigilância.




É fácil observar em um dia de céu limpo quando estamos no interior do nordeste do Brasil, e se nos fixarmos em um ponto podemos ver urubus voando em círculos e lá das alturas eles podem enxergar cada foco de lixo urbano ou de carniça no campo.

Uma das cenas mais impactantes do filme Nosferatu, de Werner Herzog – o qual é uma refilmagem de um clássico do cinema expressionista alemão do início da década de 1920, mostra uma nau ancorada em um porto e de dentro dela saem centenas, milhares de ratos que ocupam a cidade e ali proliferam a Peste Negra.

Fala-se que nos subterrâneos das grandes metrópoles contemporâneas, principalmente dos países mais pobres, existem tantos ou mais ratos que seres humanos a habitar a superfície. Nas periferias das maiores cidades brasileiras onde não tem saneamento ou pouca intervenção da saúde pública, os ratos disputam cada centímetro de cada residência.

O lixo que se acumula nas esquinas, o clima úmido que propicia a liquefação e apodrecimento dos resíduos orgânicos torna-se o ambiente ideal para a proliferação de ratos que se reproduzem cada vez mais rápido.

Em pleno período pós-revolucionário na China, Mao Tsé Tung e seus camaradas enfrentaram um inimigo quase impossível de ser combatido e eliminado: o rato. E inúmeras foram as tentativas de dizimá-los. Doses de veneno cada vez maiores eram colocadas em pontos estratégicos e se tornaram ineficazes. E pior, passaram a matar homens, mulheres e principalmente crianças.

Depois de certo tempo descobriram a maneira mais adequada para combatê-los: os gatos. E assim, houve um incentivo por parte das autoridades para que em cada moradia chinesa se criasse um gato. E deste modo, o problema, em parte, foi amenizado. Solucionado, jamais.

Ratos na terra, urubus no ar.




Abril 25, 2008

HOUVE UM TEMPO EM QUE OS TIGRES CAMINHAVAM PELA PRAIA





pintura, desenho e colagem sobre papel - 2005






Penso que foi ali na virada dos anos 1970 para os anos 1980 e eu estava assistindo um filme australiano de surf e na parte que mostrava a Indonésia os caras visitavam umas ilhas ao largo da região setentrional de Sumatra. E do barco, ao entardecer, a câmera registrava um tigre que surgia da floresta tropical e se dirigia para a beira da praia em busca de peixes nas poças de água que se formam nos corais.

Quase na mesma época, em uma edição da revista Surfer, li uma reportagem sobre G-Land, a reserva natural localizada no extremo leste da ilha de Java, na baía de Gradjagan, que tem o oceano Índico à sua frente e a intransponível floresta da região de Plengkung às suas costas. A revista mostrava ondas perfeitas surfadas apenas por Gerry Lopez e Peter McCabe e os bangalôs que eles estavam hospedados construídos sobre peças de madeira com mais de três metros de altura como prevenção para ataques de animais selvagens.

Em um dos capítulos desta reportagem e ilustrado por fotos assustadoras, o relato em que eles testemunharam um nativo ser atacado por um leopardo quando pescava à noite na barreira de corais. Eles ouviram os gritos de socorro e os grunhidos do leopardo, se aproximaram e conseguiram afastar o animal e o mataram com tiros de espingarda. Por milagre o nativo não morreu e era impossível imaginar que havia sobrevivido ao conferir as fotos das marcas das garras do leopardo em seu corpo e o próprio tamanho da fera morta pendurada pelas patas em um pedaço de madeira.

Em diversas oportunidades Jorge Luis Borges escreveu sobre os sonhos que ele tinha com os tigres quando criança e o fascínio provocado por esses animais. “O tigre rajado, asiático, real”. Com certeza, toda criança que já se deparou com um tigre no zoológico ou em uma fotografia não esquece sua figura jamais.

Sem dúvida, é o mais belo dos animais pela exuberância das cores da sua pele e pelo seu porte. Quando eu ainda surfava sempre alimentei um desejo obsessivo de um dia pegar onda numa daquelas ilhas remotas do oceano Índico. Não pude desfrutar dessa chance, mas tenho amigos próximos que já foram e eles nunca presenciaram tigres ou leopardos vagando pela praia.

Entretanto, há 30 ou 20 anos atrás, essas histórias sobre a presença de animais selvagens em praias das ilhas da Indonésia eram corriqueiras.




Abril 23, 2008

UM TANTINHO DE MORAL DE JEGUE NO QUARTEL DE ABRANTES

(IT´S A MAD MAD MAD MAD WORLD)





pintura sobre papel - 1983






A estrada para a terra prometida que foi destruída pelo terremoto, a tempestade de areia que cobre Bagdá e a fumaça que envolve Buenos Aires estão sendo analisadas pelos cientistas, só que eles não vão chegar a nenhuma conclusão. Todas as informações técnicas não são o bastante.

A hidrelétrica que fica na divisa entre dois países se tornou um cavalo de batalha entre os governos destas nações, e os dirigentes e os diplomatas fingem dialogar, mas a impressão que fica é que a taxa de luz vai mesmo ter um aumento. E até lá eles vão dizer que isso não é importante.

O circo montado pela mídia para acompanhar um crime hediondo e cujo intuito é apenas ganhar pontos na audiência não mostra os bastidores e as equipes de apoio com maquiadores, cabeleireiros e personal stylists a cuidar da imagem dos repórteres em cenas externas. E eles vão alongar este caso mesmo que surjam provas irrefutáveis e tão gritantes.

O lixo industrial depositado nas areias da praia com a maré vazante. A dúvida que impede o caminhar das pessoas vacilantes. Os carros dos playboys adolescentes que explodem o som estridente de pagode e música vagabunda pelos alto falantes.

O tédio que provoca o sentimento amoroso estável e o prazer que desperta a relação proibida entre amantes. O discurso demagogo dos farsantes, o passo em falso dos cambaleantes. A amnésia dos astros pelegos da MPB, hoje tão calados e no passado, tão vigilantes.

A telefonia móvel que aproxima lugares distantes e o sorriso de plástico nas revistas de personalidades desimportantes. O jogo combinado e o craque fabricado que tenta sempre o mesmo drible desconcertante.

Tudo, absolutamente tudo como antes no quartel de Abrantes.




Abril 21, 2008

MARLENE DIETRICH BLUES




compart - 2008






antes de entrar no prédio ela olha para os lados para ter certeza que não há ninguém a lhe seguir
e guarda na lembrança o dia em que declarou a frase - “deixem-me sozinha”

um senhor a olhou fixamente na delicatessen da esquina e ela desconfiou que ele a tinha reconhecido

não usava cheques para não ter que assiná-los e pagava tudo com dinheiro em espécie

rasgar antigas fotos e não se olhar no espelho
e as roupas que veste são propositalmente desleixadas para não demonstrar nenhum glamour

pede ao porteiro para chamar um táxi e entra apressada no carro
as pessoas que a visitam seguem ordens para não deixar pistas
expulsou de casa uma amiga que tinha levado de presente o vídeo de um filme em que ela atuava

a diva de outrora se transformou numa velhinha que anda anônima pelas ruas de nova york
por baixo do chapéu e por trás dos óculos escuros marlene dietrich tenta passar despercebida




Abril 18, 2008

MEMÓRIAS DE 68


A RAINHA DA INGLATERRA VISITA A BAHIA





compart - 2008






A rainha Elizabeth da Inglaterra visitou o Brasil em 1968 e esteve em Salvador, Bahia. As pessoas só falavam na chegada da monarca e as ruas centrais estavam enfeitadas para recebê-la.

Qualquer garoto em qualquer parte do mundo que amasse os Beatles e os Rolling Stones tinha fixação pelas coisas vindas da Inglaterra e mesmo que a rainha Elizabeth nada tivesse a ver com o rock a não ser ter recebido no palácio os integrantes da banda de Liverpool e condecorá-los com uma honraria, a sua presença em terras baianas reascendia um quê de beatlemania ou algo como uma invasão britânica... sem as bandas britânicas de rock.

A turma da nossa rua arranjou um jeito de dar um sumiço de casa em uma daquelas tardes do final de 1968 para ver a rainha passar. No caminho estavam distribuindo bandeirinhas do Brasil e da Inglaterra. Pegávamos várias e logo adiante dispensávamos as do Brasil e arranjávamos uma maneira de colar duas ou três bandeiras inglesas em nossas camisas e guardávamos mais algumas para decorar nossos quartos.

Na real, e sem ufanismos, a bandeira brasileira é feinha de dar dó e, convenhamos, é páreo duro competir com a da Inglaterra que é belíssima. E também tinha toda aquela patacoada em torno de um respeito quase amedrontador ao nosso pavilhão nacional, talvez por conta da rigidez comportamental da ditadura militar. Era proibido fazer uso da bandeira do Brasil em atos que não tivessem um caráter cívico e/ou patrioteiro.

Já o mesmo não acontecia com a bandeira da Inglaterra e a víamos em fotos nas revistas estampadas no paletó dos caras do The Who ou do The Kinks. Pensar em algo parecido no Brasil dos anos 1960 era cadeia na hora. O pessoal da Tropicália até tentou fazer uso da bandeira brasileira com fins parecidos aos que os roqueiros e artistas americanos e ingleses faziam com as dos seus países, mas a reação dos militares não foi nada acolhedora.

É claro que a gente não estava nem aí para a rainha nem nos dirigimos para lá para homenageá-la. Durante a meia hora que acompanhamos o trajeto nos esforçávamos para que ela escutasse a gente gritando Hello Goodbye, que vinha a ser o título de uma canção dos Beatles que à época era bastante executada na Rádio Bahia. O desfile da rainha da Inglaterra em um Rolls Royce preto conversível pelas ruas de Salvador não passava de mais uma desculpa para ficarmos zoando pelo centro da cidade. Afinal é evidente que entre Salvador e Londres existe um grande abismo cultural a separá-las.

A notícia que ganhou mais destaque na visita da rainha Elizabeth à Bahia foi o fato dela ter recebido de presente um balangandã de prata, coisa típica da boa terra. Para nós, foi ver de perto o Rolls Royce preto, levar para casa a bandeira da Inglaterra e depois pendurá-la na estante onde guardávamos nossos discos.






Flashes da visita da rainha. No Brasil tudo termina em samba...



Abril 16, 2008

LUZES NOS CÉUS DO EGITO




desenho, pintura e colagem sobre papel - 2005






Nos céus de uma noite egípcia quando o farol de Alexandria sinalizava para as embarcações que se aproximavam e sempre havia algum marujo disposto a desembarcar e ficar ali para o resto da vida.

Lembro de ter lido a respeito das três pirâmides – Quéfren, Miquerinos e Quéops, cujas faces alinhadas umas às outras permitem ao sol incidir em um ângulo idêntico sobre elas.

Fizeram um filme nos anos 1970, baseado no livro Eram os Deuses Astronautas, de Erich Von Däniken, e ao abordar o tema das pirâmides do Egito descrevia a impossibilidade da força humana aliada a utensílios, ferramentas, máquinas ou tecnologia existentes à época que fossem capazes de levantar e acomodar as grandes pedras que compõem estas construções.

Coisas estranhas sempre estiveram ligadas à egiptologia. Manuscritos em papiro com orientações sobre práticas agrícolas e ilustrações de adoração a uma entidade divina da fertilização não se deterioraram com o passar dos séculos. Sementes de milho acondicionadas há milhares de anos no interior de uma pirâmide foram encontradas e durante todo este tempo permaneceram intactas e aptas para germinar.

Em um dos capítulos daquela série de TV, Túnel do Tempo, um dos protagonistas consegue adentrar em uma das pirâmides e quando algo misterioso estava para acontecer e que poderia colocar sua vida em risco, repentinamente ele é resgatado e retirado dali pelos cientistas lotados na base de operações.




Abril 14, 2008

A BALADA DO IMIGRANTE - IMMIGRANT SONG

(AO AMIGO CÍRIO BUENAS SANTOS)




pintura sobre tela - 1998






A Canção do Imigrante - Immigrant Song, do disco Led Zeppelin 3:

- a única meta é alcançar a costa ocidental...


O Homem Da Imigração - Immigration Man, música de Crosby & Nash:

- o homem da imigração me parou... deixe-me entrar, homem da imigração…


No disco Exile On Main Street, dos Rolling Stones, tem uma faixa chamada Rip This Joint que teria sido feita em homenagem a John Lennon e ela diz:

- senhor Presidente, senhor da imigração, permitam-me entrar em sua terra fértil...




Um cara de Minas Gerais sonhava passar uma longa temporada nos Estados Unidos, mas nunca conseguia o visto de entrada e aí tomou conhecimento de umas figuras mexicanas conhecidas como coiotes cujo serviço é juntar e conduzir um determinado grupo de pessoas que desejam entrar na América. E para isso os levavam através de rotas clandestinas por uma área desértica no norte do México que podiam dar acesso ao lado americano perto da fronteira com o Texas.

O cara de Minas Gerais embarcou nesta aventura e por quase vinte dias perambulou sem destino por terras áridas de vegetação rala, comendo pouco, racionando água e dormindo ao relento assustado com qualquer barulho já que podia ser cobra cascavel - rattlesnake, ou matilha de lobos famintos ou mesmo ladrões que pilhavam estas pessoas apenas pela emoção do ato de furtar. Ouvia vozes na escuridão noturna e o coiote guia mexicano avisava que se tratava de outro grupo que passava por perto a caminho da fronteira.

Às vezes o guia imitava o som de um uivo para despistar as milícias ou moradores das redondezas que recebiam propina de informantes para dedurar a trilha seguida pelos coiotes. A cada madrugada eles esperavam um sinal positivo vindo do nada para que continuassem o trajeto, às vezes pareciam caminhar em círculos e com isso alguns do grupo, famintos e desidratados, enlouqueciam na paranóia sentindo-se enganados e eram ameaçados de serem abandonados pelo caminho.

Durante o dia escutavam o ronco de motores de jipes que patrulhavam a região da fronteira, o barulho de pequenos aviões ou helicópteros e então o grupo se dissolvia, dois para cada lado, cobriam-se com um pano camuflado e se escondiam por baixo de arbustos espinhentos o que elevava o calor a níveis insuportáveis.

Ao final de uma tarde e quase noite, avistaram uma luz de lamparina a gás em uma casa cercada por árvores frondosas que projetavam sombras, uma cena impensável para aquela geografia. O guia os conduziu até lá para o pernoite e em seu interior se encontrava um senhor de uns 70 anos de idade com cara de índio mexicano e envolto em fumaça devido a um fogão improvisado no chão que fervia algo numa dessas grandes latas metálicas de manteiga.

A todos foi servida esta espécie de sopa e mais tarde ele passou a ter visões que surgiam e desapareciam nas paredes da casa. Sua audição ficou aguçada e ouvia o ruído das folhas a balançar nas árvores quando alguém cochichou que junto à sopa que tinham bebido havia uma mistura de flores de cactos e, então, deixou o pensamento flutuar.

E assim, sob o efeito da beberagem, retornou quase delirando a remotas épocas da sua existência e encontrou com ele mesmo numa situação futura já morando em terras além da fronteira mexicana onde aparentava estar tranqüilo em uma vida sem percalços. Observava de uma esquina ele próprio entrar em sua casa em um subúrbio de uma cidade californiana impermeável a crises de qualquer tipo e não sentiu, nem em uma fração de segundos, saudades do passado e muito menos um traidor do seu país. E desabou num sono impossível de haver desfrutado nas últimas semanas.

Nas primeiras luzes da manhã o grupo rumou para outra etapa e o guia disse que dentro de mais dois dias estariam na região da fronteira e ao chegarem lá aguardariam o momento adequado para cruzá-la. Sua pele estava queimada do sol e nesta parte final da jornada se esforçava para andar adequadamente e sentindo o funcionamento dos músculos do corpo, pois queria ter certeza que caso fosse necessário correr por um demorado tempo ele estaria apto para tal.

Ninguém dormiu na noite seguinte, e após um dia e meio ininterrupto de caminhada chegaram às margens de um rio. O guia falou que o rio separava o México dos Estados Unidos, que teriam de atravessá-lo a nado e embora fosse relativamente estreito, era profundo com correntezas traiçoeiras. O guia fazia questão de dizer que a partir daquele momento seria cada um por si e distribuiu entre eles um mapa da região com instruções detalhadas de como seguir dali para frente. Existiam diversas cidades do outro lado da fronteira e a orientação era não chegar até elas em grupo e ao mesmo tempo. No máximo quatro pessoas de cada vez.

Esperaram anoitecer e tomaram banho no rio sem fazer barulho. Ele fez a barba, vestiu uma roupa de borracha de mergulho que tinha levado consigo exatamente para esta situação. Jogou fora tudo que não mais precisaria, envolveu a mochila em vários sacos plásticos grossos e resistentes e os lacrou para que não entrasse água.

E quando o guia disse que havia recebido um sinal de que estava tudo em ordem e se despediu do grupo, ele se lançou ao rio em decididas braçadas. Na margem oposta vestiu camisa e calça limpas mais o cinto de caubói, calçou o outro par de sapatos, colocou o mapa no bolso e saiu em disparada.

Ainda madrugada percebeu no céu um pequeno clarão de luzes, sinal de que estava próximo a uma cidade. Ficou rondando a área, estudando o ambiente, esperou surgir os primeiros raios de sol e foi se aproximando aos poucos e quando deu por si já estava caminhando anônimo entre os seus habitantes.

Dez dias depois, estava instalado na casa de um primo em Santa Bárbara e trabalhava em uma padaria a dois quarteirões do oceano Pacífico. Ele tinha alcançado o que tanto imaginara. Seu objetivo era cruzar a fronteira e ele havia conseguido.

Mas, caso não o fizesse, um dia, com certeza, ele o faria, nem que fosse apenas para por o pé do outro lado da margem e voltar no mesmo momento.