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Agosto 30, 2006
OS TEMPOS MODERNOS DE BOB DYLAN
grafite / 2002 Bob Dylan está em todas! De Detroit a Copenhagen, de Berlin a Manchester, de Barcelona a Oslo, de Estocolmo a Paris, de Nova York a Nápoles, de Buenos Aires a Genebra. E a razão para isto é o lançamento do seu novo álbum, Modern Times, que fecha um ciclo que começa com Time Out of Mind (1997) e Love and Theft, sendo que este foi lançado em 11 de setembro de 2001, justamente a data em que ocorreram os ataques às torres gêmeas do World Trade Center de Nova York e nas letras de algumas canções deste disco existem claras referências ao que ocorreu naquele fatídico dia. Seria Dylan um profeta? O papa João Paulo II o convocou para um concerto e, sentado na cadeira papal, postou-se no palco ouvindo as palavras de suas canções em profunda reflexão. Seria Dylan um escritor de grande magnitude? Ele já foi sondado e indicado algumas vezes para ganhar o prêmio Nobel da literatura e sua obra é cada vez mais estudada e dissecada por historiadores e acadêmicos em seminários e discussões tanto nos Estados Unidos como na Europa. Seria Dylan o artista dos artistas? São inúmeros e de várias gerações e nacionalidades os que o reverenciam e interpretam suas músicas. E agora vem Bob Dylan com Modern Times e o que tem sido dito sobre este álbum nos principais jornais das grandes cidades do mundo é que se trata de mais um clássico do cara que revolucionou não apenas o rock, mas a música popular dos últimos quarenta e cinco anos. E Dylan, no decorrer de sua longa trajetória, não pensou duas vezes em provocar novas discussões nem mesmo decepcionar antigos fãs quando optava por redirecionar sua música. Modern Times contém 10 canções e elas, segundo os que já ouviram o petardo, estão repletas de poesia dylaniana da melhor qualidade, observações sobre as relações humanas, sobre religião, sobre política e tratadas com lirismo, ironia, sarcasmo. E a exemplo do seu disco anterior, Love and Theft, seu novo trabalho passeia com desenvoltura pelo rock básico, pelo cancioneiro pré rock e de acento jazzístico, pelo blues. "Intrigante", "épico", "trabalho fantástico" são alguns dos adjetivos usados para descrever Modern Times. E não são elogios gratuitos já que a mídia sempre é impiedosa quando Dylan lança um trabalho que não esteja à sua altura e importância. E o que seria os "tempos modernos" de Dylan? Nada de novidades que já nascem obsoletas, nada de inflexões eletrônicas e muito menos pegada musical contemporânea de vitrine. Dylan vai ao âmago da coisa, aponta seu badogue analógico no meio da arma virtual e a desmonta porque a alma humana continua a mesma e assim sempre será. E aos 65 anos o velho Bob está mais em forma que muitos garotos que infestam o meio musical atual. Ano passado lançou um livro auto biográfico - Chronicles volume 1; foi tema de um magistral documentário feito por Martin Scorcese - No Direction Home; há mais de uma década excursiona incansavelmente pelo mundo com a sua Never Ending Tour; e apresenta um programa semanal no rádio onde faz suas reflexões sobre um tema específico e coloca suas canções preferidas, basicamente rocks antigos, folk, country, blues ancestrais, baladas jazzy. E na seqüência ao lançamento de Modern Times, Bob Dylan sai em excursão para divulgá-lo e desta vez terá como apoio bandas cujos fãs ou não o conhecem ou não gostam muito dele. Kings of Leon, Racounters, Flaming Lips, Foo Fighters já estão escaladas e aí cabe uma pergunta. Será que agora o velho Dylan será adotado pela turma indie? Será que vamos cruzar pelas ruas com garotas góticas tatuadas e caras com cabelo lambido vestindo camisetas com a estampa de Dylan? Sinal dos tempos modernos.... E nas entrevistas que tem dado Dylan está impossível, tagarela, diz na lata o que pensa e o que acha. Não tem mais saco para ficar observando o rio correr. Questionado se não gosta e qual a razão de não colocar músicas "modernas" no seu programa radiofônico ele respondeu: - Eu gosto de música moderna sim. Só que acho que existe muito mais música velha do que musica moderna. Em outra declaração afirmou: - Eu interpretaria minhas canções mesmo que não as tivesse escrito. Sobre o por quê de ter citado Alicia Keys numa canção em Modern Times, ele disse: - Não tem nada nesta garota que eu não goste! Ainda sobre a "música moderna" Dylan responde em duplo sentido falando das novas tecnologias dos estúdios de gravação: - Brian Wilson gravava tudo em quatro canais e hoje não se pode gravar algo como aquilo mesmo que se tenha a disposição 100 canais... Nâo existe nada decente que tenha sido gravado nos últimos 20 anos... Você ouve essas gravações modernas e elas são atrozes, tem som prá tudo que é lado. Mas não tem definição nenhuma, nenhum vocal, nada de nada, tudo estático. Eu lembro que quando apareceu aquele garoto da Napster as pessoas diziam, "todos agora terão músicas de graça". E eu pensava, "Por que não? Elas não valem nada mesmo"! Esse é o Dylan que fez história e para aqueles que acham que ele pode estar blefando ele diz em uma canção de Modern Times: - você acha que eu estou ladeira abaixo acha que já passou o meu tempo então mostre-me o que você tem... Agosto 27, 2006
UM TAPUME NOVO E UNS TROCADOS
grafite / 2000 Fiz este grafite apenas uma vez em um tapume de uma construção no caminho da praia e como eu estava com uma maquina fotográfica na mão o registrei assim que conclui o serviço. O dia ainda estava amanhecendo. Nunca gostei de grafitar na luz do sol, talvez um resquício jurássico dos anos de chumbo quando essa atividade era a maior sujeira e muito perigosa. Hoje existe uma certa tolerância, mas, apesar de tudo, ainda acho que o ambiente noturno é o mais propício para grafitar e fico sem entender quando vejo aqueles garotos "grafiteiros de ONG" fazendo trabalhos no sol a pino. Alguns grafites que você faz passa batido e ninguém repara, mas tem outros que o pessoal faz de tudo para ter em casa e quando ele está em um tapume eles arrancam na tora ou convencem o vigia para pegar. Esse evaporou e uma semana depois não estava mais lá. Perguntei ao vigia e ele me disse que uma mulher parou num carro, falou que queria o tapume e ofereceu uma nova placa de madeirite. O vigia aceitou a permuta e no dia seguinte ela apareceu com o madeirite já pintado de branco no rack do carro e levou o que estava grafitado. E tenho quase certeza que ela também lhe deu alguns trocados pra ele para facilitar o negócio. Agosto 23, 2006
Agosto 20, 2006
HOUVE UMA VEZ UM VERÃO (SUMMER OF 1983)
xerox art / 1983 Cartazes e folhetos são ótimos veículos para divulgar shows. Com a total e ampla liberdade de expressão, a popularização do computador e das novas tecnologias isso se tornou bem mais fácil. No início dos anos 1980 a gente usava o que estava ao alcance da mão e as máquinas xerox quebravam muitos galhos. Fiz este folheto em janeiro de 83 para um show do Camisa no circo Relâmpago, na Pituba. Tive a idéia de usar uma famosa seqüência de fotos da época das manifestações de rua de 1968 em que um cara pichava na parede de um prédio público a frase "Abaixo a ditadura". Tirei uma cópia em xerox e, com o máximo de cuidado, apaguei com uma borracha bem macia a frase acima citada e simulei uma situação em que o cara escreve "Camisa de Vênus". Quando distribuímos os folhetos - a gente chamava de panfleto, a reação foi impressionante porque a foto original era muito famosa, e por causa da ditadura e da censura ela ficou proibida de ser mostrada publicamente por mais de uma década. Na bagunça de várias mudanças de moradia eu perdi o original, mas muitos anos depois uma ex-namorada me entregou um envelope com um bocado de coisas minhas. E dentro dele encontrei um exemplar deste inofensivo panfleto, mas que em 1983 foi considerado subversivo. Vê se pode..... Agosto 16, 2006
Agosto 13, 2006
QUANDO VOCE ESTÁ POR DENTRO QUANDO VOCE ESTÁ POR FORA ![]() pintura sobre papel / 1994 A letra de um antigo blues ainda da primeira metade do século passado diz: Nobody knows you when you´re down and out. Ou seja, ninguem te conhece quando você está por baixo e por fora. Ou, então, ninguém te percebe quando você está por baixo e por fora. Originalmente o blues é um estado de espírito decorrente de uma situação racial, social, financeira ou afetiva e não apenas uma sucessão de acordes cadenciados como muitos, equivocadamente, imaginam. O blues expressa os sentimentos mais profundos, um grito dilacerado que expõe a alma em carne viva no açouge das relações humanas. E no mundo contemporâneo o ter ou não ter materialista, e não mais o ser ou não ser filosófico shakespeareano é que determina a sua posição na sociedade, no seu meio. Quando você está por dentro o seu telefone toca sem parar. Quando você está por fora fica uma impressão que o seu aparelho está com algum defeito, ele nunca toca. Quando você está por dentro uma aura de intenso brilho te envolve e as pessoas se aproximam atraídas por esta energia. O amor vem fácil embaralhando as cartas de múltiplas ofertas e como garantiu o inesquecível Nelson Rodrigues em uma de suas tiradas geniais, o dinheiro compra até amor verdadeiro. Quando você está por fora uma nuvem cinzenta te acompanha pairando acima da sua cabeça e a baixa auto estima te transforma numa pessoa nada atraente. Quando você está por dentro você é lindo mesmo que seja medonho como um ronaldinho do futebol; que antes, no inicio da carreira, eram eleitos os homens mais feios do Brasil em pesquisas feitas entre as modelos mais gostosas do pedaço. Elas mesmas que, depois dos ronaldinhos ficarem por dentro, fazem fila na porta da alcova destes craques para se tornarem vítimas felizes do "lindo" serial lascador. Quando você está por fora você se sente meio assim como o maravilhoso sambista Cartola com o nariz queimado na sub-vida da favela ou como um negro-azulado bluesman que perdeu tudo no dilúvio de New Orleans e tem as águas barrentas vinte centímetros acima do nariz. Quando você está por dentro e fala demais você é expansivo e espirituoso. Quando você está por fora, você é sempre chato e inconveniente mesmo que se isole e fique calado no seu canto. Nobody knows you when you´re down and out. Aquele sambista da velha guarda com sua calça de tergal cinza de vinco acentuado e camisa azul de botão compradas em lojas de roupa barata em nada parece com a estrela do "esquemão" empacotado em sua "roupa fashion" de gosto duvidoso. E quando a câmera da televisão foca o rosto do velho sambista, o suor do blues brota das suas sobrancelhas tristes arqueadas, escorre pelas suas rugas, se expõe na sua pele marcada, ecoa na sua voz áspera enquanto a sexy dançarina do programa, em trajes sumários, dança do outro lado distante e entediada. Ela sabe que ali não vai dar caldo... Porém, um carnaval pré-fabricado se faz presente quando surge na tevê o astro "bem sucedido". A dançarina sexy do programa saracoteia feliz e tão próxima que parece roçar maliciosamente o seu estufado monte-de-vênus na perna do cantante. Ela sabe que ali vai dar borogodó... No entanto, nos dias de hoje, existem situações em que você aparenta estar por dentro pelo simples fato de ser uma pessoa famosa, ter criado alguma coisa relevante ou ter algum destaque na sociedade. Mas isso não é garantia de que esteja, realmente, por dentro. Porque vai que acontece que você é um durango, vive de fachada e aquilo pelo qual você se tornou conhecido não te dá um puto centavo. E, então, como naquele jogo do banco imobiliário, você tem de voltar umas cinco casas e viver no mundo dos que estão por fora. SON HOUSE - JOHN THE REVELATOR MUDDY WATERS - BLOW WIND BLOW Agosto 9, 2006
NOTÍCIAS DO DIA ![]() pintura sobre papel / 2006 homens-bomba, tufão nas Filipinas, rebelião em São Paulo contas em dólares de esquerdistas, migalhas eleitoreiras para pobres celulares nos presídios, chuvas amazônicas ambulâncias corrompidas, mulheres machistas computadores contaminados, amantes virtuais condomínios monitorados, padres libidinosos banqueiros camaradas, roqueiros domesticados grafiteiros barnabés, mães na puberdade energéticos geriátricos, documentos escaneados alpinistas urbanos, celebridades solitárias ventos solares, televisores gigantescos presidentes populistas, religiões mercantilistas comentaristas isento-parciais, criminosos inocentes estradas intransitáveis, polícias acuadas províncias cosmopolitas, metrópoles atrasadas fósforos molhados, empresários endividados pisos escorregadios, bombeiros fuzilados Agosto 6, 2006
APENAS PARA OS LOUCOS ![]() desenho sobre papel / 1999 O Lobo Da Estepe - Steppenwolf Este é o título de um clássico da literatura mundial. Escrito pelo alemão Hermann Hesse e lançado em 1927, este livro tem um momento crucial que é aquele em que o personagem Harry Haller passa por um local e vê escrito a mensagem "Apenas para os loucos". Ele fica intrigado com aquilo, despertando em si uma incontrolável curiosidade. Um dia ele toma coragem, adentra aquele espaço e, a partir daí, sua vida se transforma e jamais será a mesma. O livro serviu de inspiração para a escolha do nome de uma grande banda de rock, o Steppenwolf. Agosto 2, 2006
AXÉ MUSIC ![]() grafite em Salvador.Ba / 1999 Emoções ao grafitar Colocar um grafite nas ruas sempre provoca uma grande emoção. E ela começa na concepção e vai aumentando gradativamente durante o processo de elaboração, escolha do local mais apropriado até chegar ao clímax, a execução do trabalho propriamente dito na via pública. Um dos grafites que mais me deu satisfação em fazer foi este Axé Music, de 1999, o qual espalhei estrategicamente pelas ruas de Salvador. Engraçado é que muitos deles foram sumariamente apagados, segundo algumas pessoas, por simpatizantes do gênero musical baiano. E os que restaram foram sendo corroídos pelo tempo ou cobertos por novas camadas de tinta nas paredes onde eles estavam expostos. Mas uma das maiores alegrias foi um dia ter visto um grupo de jovens turistas em frente ao referido grafite, apontando para ele, tirando fotos e rindo bastante. E essa emoção não tem preço... |