Setembro 24, 2006

PRAZER & PODER





Concebi a letra de uma canção chamada Prazer & Poder lá por volta de 1990.

O muro de Berlim havia caído um ano antes, o bloco soviético estava se esfacelando, o ciclo da Guerra Fria parecia ter ficado para trás; e aqui no Brasil, o Fernando Collor havia sido eleito após quase 30 anos sem eleições diretas para presidente.

Toda aquela situação me intrigava.

Anos depois, em 1994, quando eu dava os primeiros passos no computador, desenhei com o mouse uma história em quadrinhos em cima dos versos da tal canção.

A idéia desta HQ era retratar as contradições entre os avanços da ciência, a permanência dos anseios da alma humana, a busca do prazer ligado ao poder e ao dinheiro, a derrocada das ideologias, a maleabilidade e o cinismo dos políticos que trocam de posturas como se troca de figurino, a questão da mídia e a informação.

E se a HQ inicia como uma grande explosão de uma bomba atômica, um big bang às avessas, ela termina com uma imagem bem primitiva, que é a de um galo cantando como se anunciasse uma nova manhã de um mundo que, na sua essência, permanece o mesmo.

Em 2001, a banda que faço parte como vocalista e guitarrista, Koyotes, gravou essa música no nosso primeiro CD - Filme de Estrada.

E agora, em 2006, Alexandre Guimarães pegou esta história em quadrinhos e com ela montou um clipe de forma despretensiosa, enfatizando situações nas partes instrumentais desta canção: o átomo que se desintegra, a bomba que explode, o navio que afunda lentamente, o blábláblá da informação efêmera e o galo que canta imune a tudo isto.


Setembro 20, 2006

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE




desenho sobre papel / 1992


raul seixas pegou um onibus na praça da sé
e dormiu até o fim de linha
e no trajeto leu em sonho um antigo livro chinês
que explicava como a humanidade caminha
quando o homem ainda era macaco
andava com as mãos arrastando pelo chão
não sabia fazer fogo com as pedras
nem acompanhava as estrelas no firmamento
e por que será que macacos não estão se transformando
em homens neste exato momento?


Setembro 17, 2006

SUPERCONDUCTING LOOPS



desenho pintura e colagem sobre papel / 2004


Setembro 13, 2006

FALA, BIAJONI. O JOHNNY BIA GOODE, VAI DIZER?





pintura sobre papel ( 0,40 m X 0,30 m ) / 1992


Conheci o Biajoni através da Cipy Lopes, a blogueira sem blog mais famosa e amada da blogosfera. Ela tinha escrito um texto sobre o Faustino no blog do Rafael Galvão que gerou uma cacetada de comentários, e aí o Biajoni perguntou a ela se eu era o Miguel "Ladrão de Banco" da música do Camisa de Vênus e o Miguel Cordeiro co-autor de Simca Chambord também gravada pelo Camisa. Ela disse que sim e então Biajoni pediu a Cipy para eu entrar em contato com ele.
Grata surpresa, porque o Bia é um rock´n´roller da pesada, um cara informado, inteligente, jornalista, escritor e um dos blogueiros mais importantes do país. Ele transcreveu nossa conversa pelo MSN em seu blog em dezembro de 2005 e há tempos eu pensava em fazer o mesmo....

Miguel diz:
fala biajoni, verme do rock´n´roll!

Biajoni diz:
opa, ladrão de banco do carái... que tá ouvindo de bão? não achei nada do tal willie nile.

Miguel diz:
cê tá louco!!! não venha dizer q prefere o marillion?

Biajoni diz:
vc não entendeu... não achei nada dele para ouvir...

Miguel diz:
ah sim. ufa... no emule vai encontrar e te garanto q vai gostar muito

Biajoni diz:
não tenho net em casa... só dá pra ver alguma coisa em horários alternativo no trampo

Miguel diz:
qdo começou a ouvir rock?

Biajoni diz:
tarde, véi. ouvia coisas em casa, de tios, mpb, roberto carlos... grande fase dos anos 70, vai dizer? soul music, tom maia...

Miguel diz:
e a zorra do rock qdo começou?

Biajoni diz:
aí ouvia toda aquela porcaria que tocava em rádio nos anos 80... em 1989 estava no exército quando comprei dois discos por causa da capa e de tanto que os via em uma loja onde sempre passava na frente.

Miguel diz:
quais?

Biajoni diz:
spike do elvis costello e new york do lou reed.

Miguel diz:
new york é demais, já o spike não sou muito fã. prefiro o elvis do inicio de carreira

Biajoni diz:
eu sempre falei por aí que os anos 80 não eram muita coisa, levei muita porrada... eu gosto do costello e acho o spike um dos melhores... tem letras incríveis e umas melodias estranhas, totalmente fora do pop-rock habitual... gosto de coisas que soem meio estranhas... tem um lance meio atonal em algumas faixas, não tem refrõezinhos fáceis...

Miguel diz:
olha essa coisa de atonal é coisa de veado... rsss... o elvis de my aim is true, armed forces, this year´s model é muito legal

Biajoni diz:
Hahaahahah... é não, coisa de veado no rock é quase pleonasmo... os discos de rock do costello são mesmo os primeiros... armed forces é ótimo. um dos meus preferidos... mas só fui conhecer depois do spike.

Miguel diz:
pois é. gosta de morrisey?

Biajoni diz:
adoro. queen is dead é provavelmente o melhor disco dos 80. e os últimos dois discos solo são bárbaros.

Miguel diz:
queen is dead é muito bom mesmo

Biajoni diz:
na sua opinião, quais são os melhores dos 80?

Miguel diz:
new york de lou reed é de 88, travelling wilburys, freedom de neil young, oh mercy de Dylan... mas também tem algumas outras coisas: jesus and mary chain, os primeiros discos dos pixies

Biajoni diz:
o new york acho que é de 89, é um disco que caracteriza pouco os anos 80. enquanto o queen is dead é TODO anos 80. é como um carimbo da década. sim, os pixies foram importantes. doolittle está entre os 10 melhores. já eu não sou grande fã do jesus e mary chain

Miguel diz:
eu gosto muito!

Biajoni diz:
adoro cure... head on the door é um dos grandes discos.

Miguel diz:
the cure era legal. vi um show deles em nova york em 83 muito bacana... fala aí do nick "caverna" cave... imagino q tenha tudo dele

Biajoni diz:
adoro. tenho quase tudo. ele era do birthday party, banda punk seminal.

Miguel diz:
sim. australiana... grande banda!

Biajoni diz:
ele era podrão... o mick harvey melhorou ele, apresentou o gainsbourg pra ele.

Miguel diz:
gainsbourg é demais !!

Biajoni diz:
cave casou com uma evangélica paulistana, impressionou-se com a música brasileira... ver cultos evangélicos para usar as melodias... good son é gravado em cima disso... tanto que tem FOI NA CRUZ... o nick ficava bebendo em botecos de sampa

Miguel diz:
cara, o nick cave passou um tempo na bahia. uma amiga minha ficou amiga dele e o cara andava de paletó preto no calor de 50 graus de salvador. um dia fez uma comilança de acarajé e imagina o resultado?

Biajoni diz:
nussa... o nick era maluco, é um freak da bíblia, um cara meio atormentado...

Miguel diz:
e o dylan?

Biajoni diz:
pois é, demorei pra atentar... mas o meu disco preferido por muito tempo foi o nashville skyline

Miguel diz:
já eu sempre gostei. ouvi dylan aos 9 anos. like a rolling stone tocava aqui no radio. eu já era fã de beatles, stones, animals

Biajoni diz:
eu já tinha mais de 20 anos... sim, sim, ouvia lay lady lay que tocava nos intervalos da tv record nos anos 70. ouvia essas coisas aqui e ali mas não prestava atenção...

Miguel diz:
aí, aqui nesta rádio no fim dos 60 tocava lay lady lay e depois o locutor anunciava: vocês ouviram "lê lê di lê com bóbi dáilan"....

Biajoni diz:
Hahahahahahaah. aí ganhei uma coleção de discos de vinil que era um curso de inglês com músicas dos beatles e clássicos americanos... bom, trabalhei um bom tempo em rádio, então tem várias histórias do tipo confundir as pronúncias... um velho locutor, daqueles que trabalham com grandes headphones no volume máximo e acabam meio surdos... fazia um programa na madrugada tocando clássicos... música de motel, etc... e os ouvintes podiam ligar para pedir. acendia uma luz no telefone quando alguém tocava... acendeu a luz, ele tirou os fones e atendeu... e ouviu do outro lado: "MATARAM SEU PAI". o locutor ficou descontrolado, tirou os fones, tirou o programa do ar, deixou a rádio correndo... foi para casa correndo, alucinado... chegou em casa e não tinham matado o velho. mas não era um trote, como ele suspeitou... um sujeito pediu para que ele tocasse McARTUR PARK e ele entendeu "MATARAM SEU PAI"...

Miguel diz:
caralho! entender "mataram seu pai" em vez de mcarthur park é demais. macarthur park é um clássico... de jimmy webb. e rock brasileiro? gosta ou prefere o ivan lins?

Biajoni diz:
Hahahahahahahahaha. odeio ivan lins.

Miguel diz:
quem gosta dele é o quincy jones....

Biajoni diz:
outro maluco. mas é estranho falar em rock nacional... acho que quase nada vale a pena, olhando em retrospecto... acho tudo meio triste...

Miguel diz:
se bem q o rock brasileiro de hoje não é muito diferente de ivan lins... o rock brasileiro de hoje é de uma indulgencia q dá dó

Biajoni diz:
gosto do camisa e do ira! dos mais novos, autoramas... não consigo ouvir muito lenine, pedro luis, mesmo mundo livre s/a

Miguel diz:
esses caras são chatos pra caralho

Biajoni diz:
meu... até o tom zé eu acho meio chato

Miguel diz:
mas o tomzé é muito chatinho mesmo.

Biajoni diz:
credo. joão gilberto? argh

Miguel diz:
taí, já joão gilberto eu até entendo

Biajoni diz:
deuzulivre.

Miguel diz:
o cara criou um estilo. acho chato mas o cara criou uma zorra

Biajoni diz:
aliás, voltando ao nick cave... o cara é meio vampirão, ele chupa muitas coisas dos outros...

Miguel diz:
mas rock´n´roll é isso. rock´n´roll é meio como cú de bêbado: não tem dono... essa história de originalidade na musica popular, ainda mais no rock é uma grande cascata. tem musica do led zeppelin q eles colocaram como deles mas foi roubada da memphis minnie

Biajoni diz:
meu disco preferido do cave, o boatman´s call tem um música que é a melodia de perfect day do reed e a primeria frase é do bird on the wire do cohen... mas o mais legal é que tem uma música que fala algo como "encosta sua cabecinha no meu ombro e chora" e outra que é mais ou menos como "um fio de cabelo no meu paletó", é mole? só que ao invés do paletó é num travesseiro

Miguel diz:
pois é. e o cohen?

Biajoni diz:
o cohen é autêntico...

Miguel diz:
e o renato russo, q achava dele? cazuza?

Biajoni diz:
o renato bebeu em cohen e em joni mitchell

Miguel diz:
joni mitchell é demais !!

Biajoni diz:
aquela técnica de várias vozes dentro da canção. eu adoro a mitchell. não era grande fã do renato russo. algumas músicas são ótimas, mas aquela coisa hermética/viada dele... para parecer que tem profundidade... tipo "lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa" ou "olha só o que eu achei, cavalos marinhos"... é um pé no saco.

Miguel diz:
mas vc sabe né? a "comunidade" transformou o cara em gênio....

Biajoni diz:
estava no lugar certo na hora certa.

Miguel diz:
de qualquer forma o cara escrevia muito bem e comparando com os roqueiros brasileiros de hoje, o samuel rosa, ou até mesmo essa nova mpb tipo lenine... o renato russo estava em outro patamar.

Biajoni diz:
a juventude precisando de um messias. e bebeu em boas fontes. ele fez uma música chamada dia perfeito. eu tenho uma tendência a ver lou reed em tudo

Miguel diz:
mas o lou reed é onipresente.. o engraçado é q essa turminha indie idolatra a p j harvey e diz adorar o velvet mas ignora lou reed e não se interessa em ouvir joni mitchell

Biajoni diz:
turminha indie sim é coisa veada

Miguel diz:
rssss. não tenho o minimo saco e qdo vem essas figurinhas falando em bandas indie dá vontade de sacar o meu deep purple, o meu grand funk railroad, o meu sex pistols...

Biajoni diz:
o renato russo deu a dica das fontes quando gravou mitchell no acustico da mtv. e o cohen naquele disco de covers... com o nick drake, clothes of sand.

Miguel diz:
não conheço quase nada do drake. e mudando um pouco nossa conversa, como é manter um blog q é um dos mais respeitados do brasil?

Biajoni diz:
uau. tá falando de quem? hahahahahahah

Miguel diz:
de sua excia, claro

Biajoni diz:
eu sempre achei essa porra de blog uma coisa muito individualista. tive um projeto por quatro anos, www.tiroequeda.com.br onde brothers escreviam sobre tudo... mas não adianta, a gente acaba querendo ler sempre alguém específico....por insistência dos amigos, acabei montando o blog, mas não é um grande blog... não chega a ter 500 acessos/dia.

Miguel diz:
mas quem disse q número de acessos é sinônimo de qualidade?

Biajoni diz:
claro que não... o pessoal diz que os grandes blogueiros lêem meu blog... acaba sendo um blog pra blogueiros... hahahahaha

Miguel diz:
mas isso é bom...

Biajoni diz:
(nunca tinha pensado nisso)

Miguel diz:
e o teu livro?

Biajoni diz:
meu livro está circulando pela net e por editoras há um ano. ele tem um título de mau gosto... SEXO ANAL...

Miguel diz:
vixe!

Biajoni diz:
eu concordo com o título ser de mau gosto, mas é perfeito para a trama... que não é homossexual e nem é pornográfico... como diz o professor de literatura latino-americana de tulane, idelber avelar... pode ser chamado de pós-pornográfico... é a história de uma jornalista que gosta de sexo anal, trai o namorado, fica com peso na consciência... ao mesmo tempo em que é jogada para fazer uma matéria de estupro e morte de uma adolescente... é um romance contemporâneo com ritmo de cinema. e as 25 resenhas que existem na rede são todas positivas... mas ao cair nas editoras elas nem consideram avaliar um livro com esse título.

Miguel diz:
mas meu velho não é só o rock brasileiro q vai mal, a cultura toda no país está uma lástima

Biajoni diz:
eu não sou o irvine welsh (pornô) e nem o garcia márquez (memórias de minhas putas tristes)... a cultura vai bem, o problema é dos donos da distribuição da coisa.

Miguel diz:
é verdade. vc tem razão.

Biajoni diz:
eles acham que o povo quer aquilo... eles não sabem de nada. mas existe o jabá e a lenda que o povo só quer infinitas merdas.

Miguel diz:
as grandes figuras estão à margem do tal mercado q é dirigido por pessoas q não sacam picas de cultura mas se dizem mestres em marketing

Biajoni diz:
isso. agora vou ter que sair... depois falamos mais, ok?

Miguel diz:
valeu bia !

Biajoni diz:
prazer falar contigo. dificil bons interlocutores hoje em dia.

Miguel diz:
muito bom falar com vc tb. rock and roll fuck it all !!

Biajoni diz:
hahahahahaha

Miguel diz:
essa é uma máxima criada por robério, baixista do camisa de vênus.

Biajoni diz:
podiscrê. como diziam... na sua época

Miguel diz:
com certeza. ou melhor, com cerveja !!


Setembro 11, 2006

NEW YORK NEW YORK







colagem, desenho e pintura sobre papel / 2004


As torres gêmeas do World Trade Center de Nova York eram uma referência não apenas de cartão postal mas tambem geográfica. De qualquer canto da ilha de Manhattan elas eram vistas e em dias claros eram percebidads até mesmo de cidades vizinhas. Imponentes, belas, apontavam para o céu desafiando o ângulo de visão daqueles que se postavam aos seus pés. Observadas desta posição as torres pareciam se curvar à medida que olhávamos para o seu topo. Nos dias de chuva ou de alta nebulosidade elas ficavam parcialmente enconbertas mas em dias de sol elas irradiavam uma luminosidade impressionante. Vidros e aço refletindo o humor de uma cidade deslumbrante. A capital do mundo. The city that never sleeps, como se diz na canção imortalizada na voz de Sinatra. As torres gêmeas, ali no sul da ilha de Manhattan, eram uma prova viva da capacidade do homem em romper desafios.

Era uma sensação indescritível quando se chegava ao último pavimento, local onde existia um andar inteiro e panorâmico que vislumbrava toda Nova York e suas cercanias. Quando voce saía do elevador e adentrava naquele salão enorme com vidros do piso ao teto dava a impressão que seu corpo levava um tranco, você se sentia como se estivesse pendurado num andaime 400 metros acima da metrópole. De lá do alto, Nova York parecia uma cidade de brinquedo.

Dizem que o século 21 teve inicio com o ataque às torres gêmeas. Foi o primeiro ato terrorista de grandes proporções a ser acompanhado por todo mundo em tempo real. As televisões em todos os países interromperam sua programação para noticiar e acompanhar o ocorrido. Naquela manhã recebi uma ligação de um primo que tambem tinha morado um bom tempo em Nova York e ele me deu a noticia. Sem ainda saber do tamanho do atentado eu ainda argumentei com ele dizendo que quando eu morei lá sempre corriam notícias que algum pequeno avião tinha se aproximado das torres. E ele respondeu com a voz séria que desta vez o que antes se especulava tinha realmente acontecido, que era um avião boeing e mandou eu ligar a televisão porque estava passando ao vivo.

Liguei a tevê sem acreditar no que estava se passando quando de repente vejo o segundo avião se espatifar contra a outra torre. Até ali todos achavam que o choque do primeiro avião tinha sido um acidente mas depois do segundo impacto ficou claro que algo muito grave estava acontecendo. A partir daquele momento, cenas inacreditáveis. Os dois bolos de fumaça no céu novaiorquino e que foram até captadas pelos satélites espaciais. As torres desmoronando, a densa fumaça de poeira e detritos caindo espremida pelas ruas e encobrindo tudo. As pessoas correndo em desespero olhando para trás enquanto a fumaça de poeira e detritos dobrava a esquina. O horror. Por fim, o silencio e nas palavras de alguns amigos que moram em Manhattan, um cheiro horrível de fumaça misturado a um cheiro horrível de carne queimada que pairou sobre a cidade por semanas a fio


Setembro 10, 2006

PARA SE PENSAR...




desenho e colagem sobre papel / 2004


A Documenta de Kassel é uma grandiosa exposição de arte conteporânea. A partir do final dos anos 1970, ela que é realizada a cada cinco anos na Alemanha, conquistou a condição de ser a mais importante mostra deste segmento em todo o mundo. Diferentemente do que ocorre em países do terceiro mundo (alguns emergentes), onde as mesmas figurinhas carimbadas de sempre são escolhidas para escolher os mesmos escolhidos carimbados de sempre, a mostra de Kassel recruta um diferente curador a cada edição o que possibilita ao público ter acesso a artistas desconhecidos de todos os continentes, fazer resgates de outros que trabalham à sombra do grande mercado, como tambem, exibir nomes consagrados.

Em visita ao Brasil em 2004, o atual curador da Documenta de Kassel fez esta declaração transcrita no desenho acima a qual revela uma verdade que pode incomodar muita gente. Mas a culpa não é apenas dos agentes culturais ou dos órgãos de cultura. É tambem de muitos artistas que fazem de tudo para entrarem no grande sistema não hesitando em abrir mão da força e importancia que sua obra possa ter, não se incomodando com as engrenagens e o que isso, realmente, representa. Em todas áreas da criação espalhadas pelo mundo afora eles estão lá, presas fáceis dos homens de negócios das artes com sua mentalidade apenas mercantilista e sua lábia encantadora.


Setembro 6, 2006

NAUFRÁGIO



pintura sobre madeira (0,60 m x 0,50 m) / 1988


Setembro 3, 2006

FAUSTINO ATRASA NO CAIXA ELETRÔNICO



desenho sobre papel / 1999


Não era uma fila longa mas ela não andava. As pessoas se impacientavam. Faustino já estava na cabine há bem mais de cinco minutos e, pelo jeito, parecia que não iria sair dali tão cedo.
Ele enfiava e tirava o cartão da máquina, digitava sucessivamente no teclado e nada. Olhava para os que estavam na fila com olhar suplicante pedindo um pouco de calma àqueles que estavam lá fora. Tirava um papelzinho do bolso, lia e digitava algo no teclado. E nada.
As pessoas na fila começam a reclamar e a fazer gestos dando pressa a ele. Em vão. Até que um mais afoito que estava mais pro final da fila entra na cabine e se oferece para ajudar. Faustino fica desconfiado, não lhe dá ouvidos e o cara desiste e vai embora.
O tempo passa se arrastando para os que estão esperando na fila. Nisso se aproxima um senhor idoso e ao olhar a situação reconhece o cidadão que está causando tanto transtorno.
Ele bate com o guarda chuva no vidro da cabine e fala em voz alta para que todos possam escutar:
- êhh, Faustino, você sempre atrapalhando a vida dos outros, hein?
Faustino não reconhece o senhor idoso, mas percebe que todos lá fora falam dele e da sua demora em operar a máquina. Guarda o cartão magnético no bolso, abre a porta e sai de mansinho.