Outubro 31, 2006

UM FESTIVAL DE BESTEIRAS




grafite "Lula" / 2006



Sou de uma geração que cresceu com uma descrença total nos políticos.
No início dos anos 1970 enquanto parte da juventude cantava "Eu te amo, meu Brasil, eu te amo"..., e escrevia em redações escolares "Por quê eu me ufano do meu país?", a gente aumentava o volume com o The Who estourando as caixas de som: "and the parting on the left, is now parting on the right... meet the new boss. same as the old boss... we won´t get fooled again"...
Algo como: "o partido da esquerda é agora o partido da direita... veja o novo chefe e ele é igual ao velho chefe... não seremos enganados de novo"... Assim, educamos nossos ouvidos a serem cínicos o suficiente para detectar de longe a demagogia barata e o autoritarismo.

Não podemos ignorar a política porque é ela que define nossas vidas e são aqueles que trabalham com a política que aperfeiçoam a cidadania ou agridem a cidadania.

Mas o que agora salta aos olhos é o ambiente hostil que separam os vencedores dos vencidos e ambos os lados enchem os espaços (mídia, jornais, internet, sites, blogosfera) com bobagens de proporções amazônicas. Tanto no que diz respeito à defesa de ambos projetos como salvadores da pátria mãe gentil varonil, como na visão maniqueísta de que de um lado estão os bons e do outro estão os maus. Reflexões cheias de equívocos de ambas as partes, sobre quem é honesto sobre quem é corrupto, quem é pelos mais necessitados quem é pelos privilegiados, quem é elite quem não é elite.

Elite, hoje, ganhou um significado engraçado. Se você tem uma posição crítica e argumentada de oposição ao governo, você é elite, golpista e não presta. Mas se você é parte da classe privilegiada (banqueiros, oligarquias, o alto funcionalismo público, grandes empresários) que nunca deixou de faturar um segundo sequer na história do país, mas que por interesses estratégicos apóia o governo você não é mais elite. Você é companheiro.

O preconceito por parte dos opositores também não deixa de ser ridículo. O fato de termos um presidente que agride sem dó nem piedade o idioma pátrio não é, de forma alguma, contrapartida para que um presidente que fale corretamente o português seja um presidente íntegro. Já tivemos inúmeros exemplos desse tipo...

Na época da ditadura tinham figuras muito antipáticas que exalavam autoritarismo pelos poros. Ver pela frente a cara feia do general Otávio Medeiros com a farda verde oliva e do coronel Erasmo Dias (aquele que comandou a invasão da universidade em São Paulo) causava medo e apreensão. Causa uma certa apreensão e um certo medo também quando vemos hoje o José Dirceu na televisão no dia das eleições com aquele ar autoritário de quem ainda manda e cheio de raiva com o dedo indicador em riste a dizer o que o governo deve ou não fazer.
É a mesma face autoritária só que agora é do outro lado.

Dividir na marra o país entre esclarecidos e burros é outra bobagem propagada pelos opositores raivosos. Afinal o país sempre foi dividido mesmo por questões de práticas políticas e muito por causa de algumas oligarquias que apóiam o atual governo e não vão largar o osso de mão beijada. E mais, se aproveitar dos mais fracos para fazer politicagem rasteira e demagógica sempre foi algo pontual dos políticos brasileiros, tanto da direita como da esquerda.

Mas como estava dizendo no início, essa festança sem alegria em torno de uma vitória política com asneiras sendo passadas na cara de um lado e do outro me faz lembrar um tempo infeliz da história brasileira. Algo que eu imaginava já superado há muito tempo. Só não quero imaginar que poderemos viver um novo tempo de "Pra frente, Brasil", "Ame-o ou deixe-o".
Ao que uma rapaziada respondia com ironia para deixar os ufanistas irados: "O último a sair apague a luz do aeroporto".



Outubro 29, 2006

POEMAS RECORTADOS 2002
















Outubro 22, 2006

E O FUTURO, A QUEM PERTENCE ?



comp art / 2006


Muito se tem falado e especulado sobre o futuro do mundo. Vivemos em um tempo de profundas mudanças, ninguém há de negar.
As novas tecnologias estão alterando toda nossa maneira de agir e de pensar. Não são poucos aqueles que enxergam essas transformações como as de maior relevância na humanidade desde o século 16 quando o homem se aventurou pelos mares em busca de novos mundos.
Estamos vivendo um novo Renascimento? Seriam as máquinas os deuses do amanhã?
A garotada deslumbrada com o novo brinquedo tende a achar que o mundo nasceu agora e esquece o essencial. Quem está por trás dos botões e dos comandos? Quem faz o diferencial para que a máquina possa avançar e se aperfeiçoar?
Convidado pela revista Playboy para escrever algo sobre o futuro da música na edição de setembro de 2006, Marcelo Nova apresenta toda sua verve de quem já viu o futuro e constatou que ele é passado.


O FUTURO É HUMANO
por Marcelo Nova
Revista Playboy - setembro 2006

Até hoje as pessoas me perguntam se prefiro ouvir musica através de CDs ou LPs. Respondo que a minha paixão é a música em si, de modo que os veículos utilizados para formatá-la naturalmente ficam em segundo plano. Novas tecnologias já estão sendo produzidas e outras certamente virão, mas tenho a convicção de que o problema do mercado fonográfico brasileiro não se restringe a veículos, mas principalmente a quem os dirige.

Ao longo da minha carreira tenho tido a chance de confrontar os meus interesses artísticos com os de natureza comercial das gravadoras. Não é simbiose das mais fáceis, nem que se obtenha observando-se apenas aspectos profissionais. Não! É necessário estômago.

Se por um lado tive a chance de trabalhar com diretores de gravadoras (eles adoram ser chamados de presidentes), como André Midani, cujo espírito empreendedor e administrativo era sustentado pela sua inteligência, cultura e vasto conhecimento do mundo da música, também tive de lidar com outros de mentalidade fenícia, mercadores baratos, apesar da enorme quantidade de ouro que ostentam em forma de anéis, correntes e pulseiras.

Verdadeiros bicheiros, orgulhosos da sua própria cafonice elevada a nível de status, gente que coloca em prática apenas o mercantilismo do populacho, que se acomoda a sua própria falta de gosto, que satisfaz sua vaidade grotesca, que diz o que já está farto de dizer e que se distrai, quando depois da ceia, enjoado por ter comido demais nas churrascarias, alivia seus gases, junto com seus pensamentos.

Lembro-me que Oscar Wilde escreveu ha mais de cem anos atrás: "A arte não tem obrigação de ser popular, o público é quem ao contrário deveria esforçar-se para ser artista..."

Hoje eles responsabilizam a pirataria pelo estado gravemente enfermo no qual se encontra a indústria. Um deles me disse que eu também sou prejudicado, pois muitos baixam minhas canções na Internet. Que baixem, pois se baixam é porque não as ouvem tocar no rádio. Rádios com raras exceções executam apenas o que as gravadoras pagam para tocar.

Não foi apenas a pirataria o fator desencadeador dessa crise. Foi a ganância aliada a incompetência e a um profundo desamor pela música. Vivo de música ha vinte e seis anos, através dela sustento a mim e a minha família. Trato-a com respeito. Os formatos com que ela se apresenta são decorrentes do desenvolvimento tecnológico, portanto, mera conseqüência.

O futuro da indústria não se apoiará apenas em procedimentos analógicos ou digitais. Ele reside no homem. Que é falho, portanto passível de melhora.


Outubro 17, 2006

FAUSTINO



pintura e desenho sobre papel / 1998 - 2006




Muitas pessoas me perguntam o por quê da escolha do nome Faustino para o personagem do grafite. Nunca soube explicar isso direito, mas concordo que tudo veio a calhar.

Uma vez um taxista me reconheceu e disse que ele tinha um amigo da praça que fazia tudo aquilo que o Faustino faz. E ele enumerava os feitos do colega com as frases pichadas nas ruas. Faustino usa escovinha páta páta, o amigo da praça do taxista também. Faustino tem um terreno na ilha, o amigo da praça também.

Um professor acadêmico da área de Letras passou o tempo todo numa fila de supermercado fazendo analogias do Faustino a coisas eruditas que eu não tinha a menor idéia e nenhuma intenção de levantá-las com as frases do meu personagem. Ali, naquela situação, eu aproveitei para tirar uma onda, dei pilha ao que o professor falava e aproveitei para citar minhas preferências literárias e influencias no meu trabalho.

Parte pura verdade, parte pura cascata. Mas o Faustino surgiu mesmo como uma curtição que no final das contas deu certo porque permitia as mais variadas leituras. O cara do povão enxergava ali o amigo cafona. A criança achava tudo um grande mistério. O intelectual tinha uma leitura mais seriosa e cheia de referências antropológicas. O esquerdista bicho grilo achava que era um libelo contra a ditadura militar e depois que a ditacuja caiu passou a dizer que era uma crítica ao cidadão burguês.

Sempre preferi as explicações mais simples como a do taxista porque ela está mais ligada ao cotidiano mesmo. As elocubrações do tipo do professor de Letras eu também acho bacana porque me colocam num ambiente cultural que não deixa de ser a minha intenção. Quanto à análise do bicho grilo eu concordava em parte porque a ditadura seja ela qual for, é uma coisa abominável, e o Faustino e outros grafites em geral foram parte daquele caldeirão no processo de abertura democrática. Só que eu também acho que a vida burguesa tem lá os seus prazeres.

Até aí tudo certo, mas o que eu nunca entendi direito é o fascínio que o Faustino provoca nos políticos, sejam eles da esquerda ou da direita. Em um coquetel fui abordado por um parlamentar conservador com os seus indefectíveis tapinhas nos ombros dizendo que com o Faustino eu retratava a alma do povo brasileiro.
Viajando de avião para São Paulo em 2003, um "representante do povo" de um partido de esquerda sentou-se ao meu lado e durante boa parte do trajeto tagarelava sem parar dizendo que o Faustino retratava a alma do nosso povo.

Em ambas oportunidades eu fingia prestar atenção ao que eles diziam, mas, na real, eu só imaginava e invejava os seus respectivos contracheques. E todo aquele papo furado não enche barriga de ninguém.


Outubro 15, 2006

O CONTATO


O contato conduz dois homens, o escritor e o pesquisador por um território proibido nas profundezas de um estado policialesco.

Uns trinta minutos após as apresentações formais, uma porta é arrombada e o tiro de uma pistola é disparado.


Um soldado comunista visita clandestinamente este remoto e atrasado vilarejo e sua missão é coletar canções folclóricas para que se possa detectar algum tipo de insatisfação dos habitantes dali.

No seu encalço, numa missão também secreta e de contra espionagem, surge a figura de um missionário.

O contato, o escritor e o pesquisador estão em busca de uma jazida de urânio. O soldado comunista e o missionário andam por um trilha que vai dar em uma aldeia.

Todos eles estão numa montanha e são pegos de surpresa por uma tempestade de neve devastadora e são obrigados a se refugiarem numa caverna.


Ali as personalidades de cada um se revelam e eles são obrigados a deixar de lado as diferenças pela sobrevivência.

A nevasca os impede de voltarem ao vilarejo de onde saíram e a pouca comida que dispõem se escasseia. Cabras montanhesas suprem algum sustento temporário, depois os próprios cavalos e, depois, raízes, cintos, sapatos.

Até que eles se viram forçados a fazer sorteios com intuito de sacrificar uns, para que se alimentem da carne faminta dos outros.



Outubro 10, 2006

MUTANTES NO VERÃO DO UNDERGROUND 1972



pintura e desenho sobre papel / 1992 - 1998


O verão de 1972 em Salvador foi um dos mais efervescentes que se tem noticia. Em plena ditadura militar as coisas aconteciam num universo paralelo e a malucada sabia onde encontrar diversão e alternativas para o ambiente cinzento do Brasil da era Garrastazu Médici.
Andando pelas ruas do centro da cidade, cartazes colados nas paredes anunciavam um show dos Mutantes para o dia 28 de fevereiro daquele ano na Concha Acústica do Teatro Castro Alves e eles chamavam a atenção não apenas pelo colorido das letras, mas pela atração anunciada e pelo aviso que dizia: "1000 watts de puro som". O burburinho daquela apresentação correu rápido naquele final do verão do underground.

Nesta altura dos acontecimentos, Rita Lee já tinha caído fora do grupo depois da gravação do LP Mutantes & Seus Cometas no País dos Baurets e de se separar de Arnaldo Baptista. Sem ela, o grupo mantinha a sua formação clássica com o próprio Arnaldo nos teclados e no vocal, seu irmão Sérgio Dias na guitarra e vocais, Liminha no baixo e Dinho na bateria..
O show estava marcado para as 21 horas e as arquibancadas da Concha já estavam completamente lotadas com mais de uma hora para o seu início. As encostas da Concha ali pelos fundos das Sacramentinas estavam repletas de invasores que pularam o muro do colégio e para lá se dirigiram.

Uma incrível ansiedade pairava no ar. As luzes da platéia se apagam, as luzes do palco se acendem e quando os Mutantes surgem o público vibra e fica de pé. Arnaldo com uma camisa de listras horizontais pretas e brancas se dirige ao teclado e fala ao microfone um sonoro "boa noite". Dinho inicia uma marcação inacreditável, os vocais puxam "uláriii...uláriiii"... e a banda vai atrás. Top top. Pronto, o rock´n´roll baixou de com força na terra da magia e ninguém mais ficou parado. Os hits se alternavam e aqueles anunciados 1000 watts de puro som se confirmavam a cada segundo. Tudo perfeitamente equalizado - instrumental e vozes, e o carisma da banda impressionava todos os presentes.

O repertório selecionado a dedo não deixava a peteca cair. Balada do Louco, Minha Menina, 2001, Dunne Buggy, Não Vá Se Perder Por Aí, It´s Very Nice Pra Chuchu, Batmacumba, Panis et Circenses, Beijo Exagerado e chegava ao ponto de ebulição com Ando Meio Desligado, Posso Perder Minha Mulher Minha Mãe Desde Que Eu Tenha o Rock and Roll sendo que esta era emendada com um meddley de rockões antigos: Blue suede shoes, Jailhouse rock, Rua Augusta, Banho de lua, Johnny B. Goode. Durante o show eles também inseriam covers: coisas dos Beatles, Stones, You´re So Vain de Carly Simon, Listen To The Music do Doobie Brothers, Angel de Hendrix. A banda não escondia a emoção pela calorosa recepção que recebia e alguns mais afoitos e doidões não hesitavam em pular de cabeça naquela rasa piscininha da Concha que separava o público do palco.
Dava para perceber que os caras da banda estavam completamente chapados e Arnaldo era o que dava mais bandeira. E já perto do final da apresentação quando eles tocavam Meu Refrigerador Não Funciona, ele começou a balançar violentamente a torre de teclados, moogs, mellotrons que se equilibravam numa base de um órgão Hammond. Os roadies corriam para segurar e Arnaldo, então, parecia se acalmar.
O show já tinha passado das três (!) horas de duração quando os Mutantes, depois de vários bis e voltas sucessivas ao palco, anunciaram a última música. O publico dançava e a banda dava tudo de si. E aí o Arnaldo num solo alucinado novamente começa a balançar a torre de teclados e desta vez nem deu tempo dos roadies se aproximarem. Tudo se espatifou no chão e o ruído provocado por isto se encaixava no som.
Arnaldo apanha uma vassoura largada ali por algum servente, a levanta e dá "voltas olímpicas" em torno do palco. Corre em direção ao equipamento que ele tinha derrubado e pisa e pula sem parar sobre eles. Os Mutantes continuavam mandando ver, os roadies também dançavam no palco, a platéia urrava de emoção. O show acaba. As luzes se apagam.

Poucos meses depois, a notícia: Arnaldo deixava os Mutantes por problemas de "saúde". E, ali sim, a banda perdia sua força musical principal. Talvez seja precipitado afirmar isso, mas, certamente, aquela apresentação dos Mutantes em 28 de fevereiro de 1972, em plena Concha Acústica do Teatro Castro Alves tenha sido a mais memorável da carreira deles. Para mim, pelo menos, foi o melhor show que vi em minha vida. Uma espécie de iniciação ao que significa presenciar um verdadeiro concerto de rock´n´roll. E olhe que eu já assisti muito show bacana.


Outubro 8, 2006

O LEOPARDO DE VISCONTI



pintura sobre papel / 1996 - 2006



Em tempos de eleições e mudanças anunciadas é sempre bom ficar atento ao que eles prometem. E eles não prometem pouco... Impressiona o fato de como alguns ingênuos acreditam piamente que teremos mudanças na política cultural. Ah, tá. Vai...

Para constatar que isso não acontecerá assim tão fácil basta observar o movimento dos bajuladores de sempre que há pouco apoiavam o outro lado e agora acenam simpaticamente para o lado vencedor. Sem falar naqueles que fazem parte do baixo clero da cultura oficial e que, aparentemente, não foram beneficiados pela administração anterior; e ao declararem apoio prévio ao eleito, agora vão querer também o seu naco de poder. E, claro, vão operar com todas suas forças para que o monopólio cultural, a monocultura não seja desestabilizada.

Também seria prudente reavivar a memória e lembrar as expectativas e as promessas de mudanças profundas (também culturais) prometidas na campanha presidencial de 2002 e o que vimos depois.

É como aquela cena definitiva do filme O Leopardo, de Luchino Visconti. Quando a família aristocrata que apoia o antigo regime percebe a inevitável queda do velho poder, um deles afirma de forma bem clara: "é preciso que as coisas mudem para que tudo permaneça igual". E eles, então, passam para o lado das forças vitoriosas como forma de preservar os seus privilégios.

Mas eu gostaria muito em estar errado nesta minha opinião.



Outubro 5, 2006

DARTH VADER BLUES



que mal se esconde por trás da capa negra?
quem vigia o espaço sideral impondo e definindo os limites
dos sinais de ondas magnéticas?
a força do movimento dos braços em golpes certeiros
nos flashes desenhados pelo bastão luminoso.
existe alma por dentro da carapaça?
dor ou alegria
ou ar que entra em algum pulmão?
de quem segue ordens?
se dorme tranqüilo quando desaba
se descansa deitado ou mesmo apaga a luz
se procura alguém para ter ou fazer algum carinho em algum momento


Outubro 3, 2006

OS CRAQUES, OS PERNAS DE PAU E A TORCIDA BAIANA




grafite "Garrincha" / 2000



No final dos anos 1960 e inicio dos 1970 eu costumava assistir qualquer tipo de partida que acontecia no gramado do estádio da Fonte Nova. Ali eu vi Garrincha com suas pernas tortas, e já decadente, ensaiar aqueles seus dribles que fizeram história. Vi Rivelino marcar um golaço num finalzinho de jogo contra o Bahia e correr em direção a torcida adversária mostrando a camisa do Coríntians e a torcida, de pé, o aplaudir.
Vi Pelé diversas vezes e até mesmo naquele dia em que ele poderia fazer o seu milésimo gol. Um trio elétrico estava estacionado na pista de atletismo pronto para tocar assim que o rei do futebol enfiasse o balão de couro para o fundo da rede tricolor. Isso não aconteceu.

Quando o Bahia jogava contra o Santos era muito legal observar Baiaco fazendo marcação cerrada nos calcanhares de Pelé. O rei do futebol tinha um grande respeito por Baiaco e esse mesmo respeito ele tinha de Gérson, Tostão e outros. Baiaco talvez tenha sido um dos jogadores que mais ganhou rádios como prêmio por ter sido o melhor em campo numa partida.
Mas o Rei Pelé tomava o maior cuidado com um zagueiro que não costumava brincar em serviço e que sempre impunha medo em qualquer ataque adversário. O nome deste zagueiro: Roberto Rebouças. Craque de bola, elegante quando era necessário, viril quando a ocasião exigia e violentíssimo quando o outro time queria ridicularizar o tricolor de aço. Num jogo contra o São Paulo ele tomou um drible humilhante no grande círculo de um atacante e quando este já se preparava para entrar na grande área, Roberto Rebouças não teve dúvida. Aplicou uma cinematográfica tesoura voadora que provocou a sua imediata expulsão e despachou o atacante sãopaulino direto para o departamento médico do seu clube. Com André Catimba do Vitória, Roberto Rebouças manteve duelos históricos e se em campo eles se engalfinhavam, fora de campo eram grandes amigos. O rubro negro baiano também tinha o seu xerife na defesa e ele se chamava Romenil. Sempre um pouco acima do peso, ele sabia que poderia ser driblado ou vencido na corrida e antes que isso acontecesse ele derrubava logo o jogador contrário. Mas ninguém era mais violento que Apaná, zagueiro do Galícia. Apelidado sutilmente de Apaná Suvela, aquele que usava "capa de pneu na canela". Entrar numa bola dividida com Apaná era risco de vida e quem o conhecia nunca se arriscava.

Detinho foi um goleiro que defendeu o Vitória e fechava o gol. Ele tinha o costume de ficar se exercitando sem parar enquanto a bola estava distante da sua área. Sua especialidade eram as "pontes" que executava, pegando a bola no ângulo em vôos magistrais. Butice foi um dos melhores goleiros que já defenderam um time baiano. Argentino de nascimento, um goleiraço. Boa pinta, uma noite o vi num baile de carnaval no Iate Clube com duas mulheres deslumbrantes penduradas no seu pescoço. Morri de inveja... Mas para mim nenhum goleiro foi mais inesquecível que Mamoeiro, do São Cristóvão. Magrelo, atrapalhado e tinha o corpo curvado. Ele tinha uma capacidade ímpar de levar um frangaço e gerar no público um deleite comparável ao de assistir um gol de placa. Numa partida alguns jogadores do São Cristóvão ficaram contundidos e Mamoeiro foi convocado para jogar na linha. Aquele dia a Fonte Nova assistiu um show humorístico.

Observar Mário Sérgio atuar pelo Vitória era um prazer. Tão craque que foi jogar no São Paulo e lá fez história. Eliseu e Amorim formaram uma lendária dupla de meio de campo no Bahia. Eliseu era exímio em lançamentos de longa distancia fazendo com que o cabeçudo ponta esquerda Caldeira se desembestasse atrás da pelota e ela era tão belamente lançada que o cabeçudo Caldeira a alcançava e a cruzava para área sempre com perigo de gol. Meu amigo José Pacheco acha que Douglas foi o melhor jogador que já passou pelo Bahia. Eu discordo. Douglas foi apenas um bom jogador. Craque mesmo foi Eliseu. Tinha raça, coragem e amor a camisa.

As torcidas quase sempre são passionais. Deraldo Tourinho, grande arquiteto e compositor, guarda até hoje uma antiga caixa de sapato Vulcabrás entupida com canhotos de todos os jogos do Bahia que já presenciou. Ele, ao lado de José Pacheco e Verheine "Franja de Primor" podem ser vistos vibrando nas arquibancadas até mesmo em jogos do Bahia na terceira divisão. Já Marcelo Nova era Bahia doente e sempre foi um esculhambador nato. Sua ruidosa turma ia para a Fonte Nova e quando o tricolor estava jogando mal ele puxava um coro pedindo a entrada de um ponta direita muito grosso de nome Gagé, que a depender das suas atuações ou era titular ou era reserva. E a turma de Marcelo começava: "bota Gagé, bota Gagé, bota Gagé !!".... E toda torcida ia atrás num grito uníssono infernal e o treinador colocava Gagé, mas na sua primeira jogada errada, Marcelo e sua gang começava outro coro: "tira Gagé, tira Gagé, tira Gagé !!"...
Djalma Sariguê era um cara da temida turma do Campo da Pólvora, lutador de artes marciais, fanático pelo Ypiranga e sempre saía na mão ao sair do estádio ainda na ladeira da Fonte Nova. Ele não tinha espírito esportivo e caía de patinho em qualquer provocação de um torcedor do outro time.

As gerações se sucedem, as preferências pessoais também e quando me vi já estava desfrutando de outras coisas além das emoções do futebol. Preferia o aconchego, o conforto e a penumbra do cinema com a namoradinha a ir para um estádio mal cuidado, mal cheiroso, tomar cerveja quente, ou pior, correr o risco de ser alvejado por um saco plástico cheio de mijo disparado por um torcedor do mesmo time pelo qual eu torço.