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Novembro 30, 2006
CERVANTES BLUES
pintura, desenho, colagem e spray sobre papel / 2005 o cavaleiro andante olhou o horizonte e assumiu o compromisso de consertar o impossível mesmo que para isso fosse acusado de perder o juízo Novembro 28, 2006
ADEUS, LÊNIN
desenho sobre papel / 1990 - e aí, Lênin, fazendo sua corridinha do dia, hein? - pois é, mas não consigo achar o caminho de casa. - normal. estamos todos sem saber mesmo. - só que eu não me acostumo mais com esse mundo louco. - faz o seguinte, Lênin, vai para o Brasil. lá deve ter vaga pra você. - mas eu quero usar crachá laranja, ser capa preta numa estatal bem rica. - quem sabe? mas tome cuidado para não virar um aloprado. - ok. até mais, camarada reacionário. - inté, jacaré. depois te ligo, crocodilo. Novembro 26, 2006
O ETERNO CONTRA O "MODERNO"
J J Cale, comp art (2006). Jerry Lee, pintura sobre papel (1989) "Cansei de ser moderno, eu quero é ser eterno", assim falou o poeta Vinícius de Moraes. Reinventar a roda, síndrome do ineditismo. Estas são algumas estratégias em que se amparam artistas pretensiosos para impressionar críticos e platéias equivocadas e ávidas por "novidades" como se criação tivesse prazo de validade ou limite de idade. Aos 71 e 68 anos, respectivamente, Jerry Lee Lewis e J J Cale estão lançando CDs que mostram o vigor dos seus trabalhos. Na verdade são obras em parcerias com outros músicos, mas sem o mofo que muitas das vezes ocorrem nestas empreitadas. Jerry Lee, The Killer, o pianista genial e encrenqueiro de lá dos primórdios do rock vem com um album que traz o sugestivo título Last Man Standing em duetos com Bruce Springsteen, John Fogerty (Creedence), Neil Young, Jimi Page, Keith Richards, BB King, Mick Jagger, Ron Wood, Robbie Robertson (The Band), Ringo Starr, Eric Clapton, Little Richard, Buddy Guy, Rod Stewart, Willie Nelson e até, vá lá, o dispensável Kid Rock. E o CD abre com Rock and Roll do Led Zeppelin e tem o próprio Page na guitarra. Last Man Standing é matador da primeira a última faixa! J J Cale, por sua vez, é um músico renomado desde o final dos anos 1960 e, ao longo de todos esse anos, suas canções foram regravadas por figuras tão díspares como Lynyrd Skynyrd e Brian Ferry do Roxy Music, Chris Smither e Widespread Panic, The Band e Captain Beefheart, Johnny Cash e Dr. Feelgood, Nazareth e Spiritualized. Ele, como compositor, proporcionou a Eric Clapton dois dos seus maiores hits, After Midnight e Cocaine; agora decidiram reunir suas guitarras e vozes e, juntos, Cale e Clapton, lançam um disco em parceria. The Road to Escondido é um album totalmente focado na sonoridade de Cale e ainda traz a presença de Taj Mahal e o registro das ultimas gravações do tecladista Billy Preston, falecido este ano. Tanto Last Man Standing quanto The Road to Escondido crescem a cada audição e são álbuns onde a levada da locomotiva do rock´n´roll marca forte presença e não se surpreenda caso você se flagrar marcando o compasso com o pé ao ouvi-los. É diversão garantida ou seu dinheiro (ou seu download) de volta. E é bacana observar toda esse pessoal das antigas envolvido nesses dois trabalhos contrariando a vontade de alguns que alegam que o tempo torna todo e qualquer artista reacionário e que estar agora começando é ser revolucionário. Bobagem. E se quiser pirraçar aquela pessoa conhecida que vive atrás do que é hype, dê a ela esses dois CDs anexando um cartão com as palavras de T. S. Eliot: "...e o fim de vossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos. E conhecê-lo então pela primeira vez". Novembro 22, 2006
VERÃO SEM FIM (ENDLESS SUMMER)
desenho e pintura sobre papel / 1992 no mundo digital as flores do mal não têm cheiro nem sabor a senha do cartão é que vai dizer o tamanho do seu valor o presidente declarou e esta tarde decretou um novo plano para salvar a nação ele vai gastar uma fortuna você não vai ganhar nenhum tostão se deste modo a vida não é ruim surfistas radicais saqueiam bancos para financiar o verão sem fim na loja da esquina tem um novo brinquedo que é bom pra se divertir você coloca uma moeda e ele faz tudo aquilo que você pedir mas sair correndo catando ficha trocando os pés com as mãos não tem como escapar de encarar o limite do chão se deste modo a vida não é ruim surfistas radicais saqueiam bancos para financiar o verão sem fim foi filmado um cidadão cometendo uma infração fazendo compras num supermercado ele achou que o momento era certo esqueceu que estava no lugar errado acabou de acontecer e tá passando na TV a camada de ozônio tem um enorme buraco mas a corda sempre quebra mesmo é do lado do mais fraco se deste modo a vida não é ruim surfistas radicais saqueiam bancos para financiar o verão sem fim Novembro 20, 2006
O ALMOÇO DO DR. PITEX
desenho grafite e pintura sobre papel / 1993 O jogo de futebol improvisado na ladeira de paralelepípedos sempre era interrompido quando um carro se aproximava. A Vemaguete que subia lentamente a rua era conhecida de todos. Aquele era o automóvel do Dr. Charles Pitex, o famoso médico legista que residia na vizinhança. O pessoal o saudava e ele respondia com um aceno, típico de pessoas famosas, balançando lentamente a mão. Várias histórias eram ditas sobre o Dr. Pitex e no imaginário da garotada elas ganhavam ainda mais penumbras. Ele tinha a aparência que lembrava em tudo o diretor de filmes de terror Alfred Hitchcock e era constantemente visto fumando um grosso charuto. Aparentava ser um homem totalmente dedicado ao seu trabalho já que não o víamos em conversas com vizinhos na porta de casa, não ia para o estádio torcer pelo seu time, não era dado a festas. Praia, então, nem pensar. Ser médico legista faz com que o sujeito tenha que se debruçar sobre diversas causa mortis. Morte natural, morte por acidente, mortes violentas e o profissional de saúde desta área costuma e necessita ser frio. Quando a turma se reunia à noite para conversar e um começava a contar uma história cabulosa do Dr. Charles Pitex era garantia de assombro e arrepios de medo. Estas histórias tinham muito de lenda e pouco de verdade, mas eram recorrentes quando se falava do famoso legista. Como da vez em que realizou a autópsia de um homem com o corpo todo estraçalhado, seus auxiliares aflitos com a situação enquanto o Dr. Pitex, na maior tranqüilidade, fazia o seu trabalho fumando o seu inseparável Suerdick e na falta de um cinzeiro usava os dedões maiores do pé do defunto para repousar o charuto. Ou da vez em que se deparou com um cadáver estirado na mesa de autópsia já inchado e deformado pelo tempo e ao passar o bisturi no abdômen da vítima, um líquido verde esguichou respingando em todos que acompanhavam o serviço. Mas nenhum outro destes casos narrados causou mais espécie que aquele em que a esposa do médico legista havia ordenado um almoço. Durante a refeição, na terceira garfada, o Dr. Charles Pitex percebeu algo estranho, foi até o congelador e atônito constatou que tinham tirado de lá um pedaço de carne acondicionado num saco plástico. Tratava-se de um cérebro humano que o Dr. Pitex havia levado para casa para estudá-lo e a cozinheira, desavisada, com ele preparou um suculento assado. Novembro 15, 2006
NA ENCRUZILHADA
desenho e pintura sobre papel / 1991 Dizem que ele fez um pacto com o demo. Dizem que ele se apresentava de costas para o público. Dizem que papou todas as mulheres que se engraçavam com ele. Que gravou exatas 29 das suas composições, mas uma lenda ronda o seu mito dando conta que um outro dos seus blues foi registrado e ninguém nunca o encontrou. Morreu aos 27 anos de causas desconhecidas e envoltas em mistérios. Fala-se que, certa feita perambulando pelo delta do Mississipi conheceu um veterano bluesman que já tinha acompanhado Charly Patton e juntos foram a uma pequena cidade próxima a Darrow, distante uns 150 km de New Orleans. Lá, eles tocavam num pequeno e inóspito bar à beira de uma estrada poeirenta em troca de alguns dólares e bebida. Sentada numa mesa, uma garota de seus vinte e poucos anos não tirava os olhos de Johnson e após a apresentação ela foi conversar com ele. Terminaram no quarto que ele tinha direito no andar superior do estabelecimento. Alguém bateu à porta, Johnson pensando se tratar do seu músico acompanhante a abriu e deu de cara com um homem dizendo que tinha vindo buscar a garota. Ela se ajeitava na cama tentando cobrir o corpo com o cobertor. O homem aos berros afirmava ser o seu marido e de forma truculenta empurrou Johnson e saiu arrastando a mulher que aos tropeços tentava colocar os sapatos. Na saída o homem disse: - este bar fica no caminho do meu trabalho e se amanhã pela manhã eu perceber que você ainda está aqui, pode se considerar morto! Não havia muito o que fazer além de deixar aquele lugar o mais rápido possível. Dentro de poucas horas o dia amanheceria e não valia a pena correr riscos. Olhando pela janela, Robert Johnson bebeu todo uísque que restava na garrafa. Depois juntou todos seus pertences na pequena sacola de couro, enfiou a viola no saco, desceu para o bar e lá encontrou seu parceiro. Contou o que tinha ocorrido. Saíram às pressas pelos fundos e no horizonte os primeiros sinais da manhã se anunciavam. Andaram por quase duas horas por uma pequena trilha em meio a um milharal cruzando ao longo do caminho com aqueles que se dirigiam para o trabalho no campo e chegaram sãos e salvos para uma outra apresentação numa pequena localidade à beira do rio Mississipi. Novembro 12, 2006
MAÇÃS MODIFICADAS
pintura, desenho e colagem sobre papel / 1994 Afinal, Fidel está vivo ou morto? Qual dos Fidel aparece nas fotos? Corria uma história propagada pelo próprio staff d´el comandante que, em determinadas viagens, uns três sósias de Fidel acompanhavam a comitiva e eram usados para despistar o roteiro, além dos motivos óbvios de segurança. Estariam, agora, estes sósias sendo usados para manter Fidel vivo, posando eles para estas fotos que aparecem nos jornais? A importância histórica de Fidel é monumental, mas o tempo foi deixando o comandante cada vez mais para trás. O fato de resistir à ira de uma Amerika imperialista e colonizadora o tornou um gigante. No entanto, as histórias dos porões cubanos, as prisões de cidadãos que não se alinham ao pensamento do estado e a falta da liberdade de expressão fazem de Fidel um ser ultrapassado que combina perfeitamente com a sua atual fisionomia. Continuará Fidel eternamente vivo fisicamente com a ajuda de sósias e clones? Maçãs modificadas que se mantém meses maduras nas prateleiras dos mercados prontas para o consumo são cada vez mais constantes no nosso dia a dia. Uma garota passeia pelas ruas de Milão com um savanah na coleira. Savanah é um felino modificado geneticamente que tem a aparência de um leopardo em miniatura. As pessoas que passam pela garota que conduz o savanah olham com curiosidade para o gato que tem o tamanho de um cachorro. A flor da lua é uma orquídea modificada do tamanho de um prato de refeição e foi desenvolvida nas estações espaciais. Quando floresce, ela permanece com viço e perfume por, no mínimo, seis meses. Elvis não morreu e qual um ser vivo qualquer geneticamente modificado perambula feito um fantasma pelos corredores de um luxuoso resort para turistas na praia de Varadero em Cuba e tem encontros com Fidel, as vezes o verdadeiro, às vezes um dos sósias. Eles conversam sobre garotas, remédios geriátricos infalíveis, planos da CIA e costumam passear pelas ruas do balneário madrugada adentro a bordo de um impecável e reluzente Cadillac vermelho 1958. Novembro 8, 2006
PATTI SMITH NO FOGO CRUZADO
comp art sobre foto de Thomas Bridges e transcrição de trecho da canção Dancing Barefoot / 2006 Esse post é dedicado ao companheiro Luciano Matos do blog El Cabong Ele assistiu ao show de Patti Smith no Tim Festival e por uma razão qualquer a colocou como figura pertencente ao segundo escalão, não sei se do rock ou da própria escalação das atrações do festival em si e isso me levou a debater com ele sobre o significado e a importância do trabalho dela. Ele diz que Patti Smith tem mais passado que presente, que teve uma importância em um determinado tempo, que é um nome de respeito, mas não muito mais que um disco de alto valor (para ele, Horses) e em sua próprias palavras diz que o trabalho de Patti Smith é "defunto". Também que ela é apenas uma instituição, no sentido de estagnação. É claro que discordei de Luciano em todas as suas colocações. Aliás, coisa que sempre faço em relação a ele em vários assuntos, muito embora o respeite e reconheço o seu valor como um cara que também batalha pelo rock nesta terra árida de informação chamada Brasil. Assim, depois de várias colocações de ambas as partes, Luciano me pergunta: "E Miguel? Qual o presente de Patty (sic) Smith?"... Bem, se tem uma coisa chamada instituição (como algo estagnado) ela não cabe em Patti Smith. Muito menos colocá-la como uma artista mediana pertencente a um segundo pelotão porque sua influencia em artistas de todas as gerações é bem maior do que se imagina. Patti Smith, assim como Leonard Cohen, iniciou sua carreira como escritora e poetisa. Ela começou a ser notada quando fazia leituras e performances dos seus escritos no underground novaiorquino da primeira metade dos anos 1970. Estas atividades chamaram a atenção dos escritores beat William Burroughs e Allen Ginsberg, o premiado dramaturgo e ator Sam Shepard, o diretor de cinema Jim Jarsmush, o fotógrafo Robert Mapplethorpe e artistas plásticas de renome como Barbara Kruger e Kiki Smith. Em 1975 ela lançou um disco que foi um marco na musica popular, Horses. Produzido pelo baixista do Velvet Underground, John Cale, neste álbum estavam as sementes de um novo momento no rock com uma poesia ácida aliada a uma crua sonoridade. Com a música, Patti Smith influenciou e facilitou o surgimento de cantoras como Siouxsie (Banshees), Chrissie Hynde (Pretenders), Lene Lovich, Nina Hagen, P J Harvey, Karen O (Yeah Yeah Yeahs) e por aí vai... Uma das melhores coisas de Patti Smith e um dos seus trunfos é que ela não é apenas uma cantora. Ela extrapola esse conceito e por isso seu valor artístico é enorme. Porque existem artistas e artistas. Existem aqueles que se tornam celebridades e estão sempre na mídia inflados pelos releases, pelas manobras mercadológicas das gravadoras e do grande sistema: na outra ponta estão aqueles que são artistas no sentido maior da palavra onde a sua criação fala por si só. Patti Smith está nesse grupo. Ela sabe da sua importância, é uma outsider no melhor sentido da palavra e está totalmente fora desse ôba ôba em torno dos novidadeiros da musica. Ela está em outro patamar e não existem trabalhos medíocres de Patti Smith no mercado. Após Horses ela veio com Radio Ethiopia (1976), depois Easter (1978) que tem Space Monkey, Rock´n´Roll Nigger, Because The Night. Em 1979 apresentou Wave, um belo álbum que tem Dancing Barefoot e que marca o inicio do seu casamento com Fred "Sonic" Smith, guitarrista da lendária banda MC5. A partir daí, Patti Smith caiu fora do show biz percebendo que este meio não é dos mais propícios para aqueles que pensam um pouco além do que o sucesso proporciona. Só os verdadeiros criadores têm coragem de entrar neste recinto e sair dele pela porta da frente e ela ficou nove anos sem gravar. Aí veio Dream of Life em 1988. Sumiu de novo até que em 1994 Fred "Sonic" morre repentinamente e Patti fica arrasada. O velho admirador Bob Dylan toma conhecimento do seu estado e a convida pessoalmente para acompanhá-lo fazendo o show de abertura de uma longa excursão. Ela recupera as forças. Em 1996 Patti Smith reaparece com Gone Again e em 1997 lança Peace and Noise, Ambos trabalhos foram muito bem recebidos pela crítica sendo que uma canção deste último recebe um Grammy. Em 2000 lança o irado e politizado Gung Ho e uma música também é agraciada com um Grammy. Em 2002 participa ao lado de nomes consagrados das artes plásticas em amostras sobre os atentados em Nova York. Recrudesce o discurso político e milita contra a guerra e ocupação do Iraque pelas forças americanas. No ano de 2004 chega ao mercado o CD Trampin´ que foi aclamado por revistas e publicações internacionais especializadas. Ufa... é tanta coisa que Patti Smith fez e continua fazendo que eu poderia escrever uns 50 parágrafos. Mas, lá pelo meio da discussão com Luciano Matos ele diz ser fã do REM (boa banda!) e aí tive a idéia de sugerir o seguinte: quando eles vierem de novo ao Brasil que vá entrevistá-los e pergunte a Michael Stipe o que ele acha da Patti Smith, e aproveitar e dizer que ele, Luciano, acha que Patti Smith tem mais passado que presente. É bem provável que Michael Stipe dê uma sonora gargalhada de reprovação. E o meu caro Luciano, quem sabe?, depois de ouvir o cantor do REM se rasgar em elogios a Patti Smith também passe a achá-la uma deusa, uma diva do rock "alternativo".... Tantas vezes fico surpreso quando observo formadores de opinião e críticos ficarem incensando coisas que realmente têm mais passado que presente como Pixies e Gang of Four (excelentes bandas, por sinal) devido a um hype da hora por parte da midia dita alternativa, mas por uma profunda falta de informação ou mesmo preguiça acham que figuras como Patti Smith tem apenas passado. E, então, meu caro Luciano, me diz aí o que é passado e o que é presente quando falamos de música no sentido artístico e/ou cultural? De qualquer forma tenho absoluta certeza que você desconhece a carreira e os trabalhos de Patti Smith como rock´n´roller extraordinária, como poetisa, artista plástica que trabalha incessantemente seja sob os holofotes, seja na surdina durante os últimos 30 e cacetada de anos e que continua sendo cultuada nos grandes centros culturais do mundo. Mas também não tô nem aí se você quer continuar achando que o rock nasceu quando você o descobriu e que o rock só é relevante quando feito por "jovens". No mais tudo em paz, tudo beleza e cada um faz e pensa o que quer, não é mesmo? P.S. Saiba mais sobre Patti Smith no Wikipedia Novembro 6, 2006
REVISTA ANIMAL
pintura e montagem sobre capa da revista / 1989 - 2006 As histórias em quadrinhos nunca foram dirigidas apenas ao universo infanto-juvenil. Vasculhando os velhíssimos arquivos vamos encontrar publicações das mais variadas espécies e destinadas aos mais variados públicos. Desenhistas das antigas como Will Eisner mostraram as coordenadas dos comics "adultos" com o seu personagem Spirit. Art Spiegelman, Robert Crumb com os quadrinhos impregnados de lisergia contracultural, Crepax, Manara e chegando até Frank Miller, Neil Gaiman, Miguelanxo Prado e tantos tantos outros. Apesar de adorar as HQs nunca fui um especialista no assunto como meus amigos Fernando Ribeiro , Sérgio "Cebola" Martinez ou Franchico do blog Rockloco. Aliás, ano passado, conversando com Franchico sugeri que ele escrevesse algo sobre uma publicação alucinante que saiu no Brasil no final dos anos 1980, a revista Animal. Até hoje espero e como mestre Franchico não se dispôs a fazê-lo.... Pela primeira vez no Brasil uma revista em quadrinhos apresentava ao público local um time de primeira de criadores contemporâneos com uma qualidade de impressão muito boa e editoração idem. Com a Animal pudemos conhecer as aventuras do robô Ranxerox de Tamburini & Liberatori, as doideiras de Massimo Mattioli com suas paródias grotescas de personagens de Disney que geraram sua proibição nos Estados Unidos, as tiras de Pazienza. Os personagens Edmundo o Porco, Tank Girl, Peter Pank. Sacanagens, selvagerias e taras jorravam em abundancia de suas páginas, suas capas ostentavam um sugestivo sub título: Feio, Forte e Formal; e ainda trazia um encarte chamado Mau com variedades e dicas culturais. Trabalhando com autores estrangeiros de renome cujos direitos de reprodução não deviam ser baratos a revista Animal foi publicada durante quase dois anos e, pensando bem, durou até muito. O suficiente para se tornar um símbolo e motivo de orgulho para aqueles que acompanharam a sua trajetória. Novembro 3, 2006
NATÁLIA
pintura sobre papel / 1989 em frente ao espelho ela arruma o cabelo e me olha passa perto que eu sinto um desejo dentro e fora ela dança no meio da pista e não há jeito que eu resista no banho em frente ao espelho ela vê porque a acham tão bela que nas noites sem sono imagina ser artista de novela seu jeito tem um mistério que me envolve e me tira do sério |