Dezembro 29, 2006

NA ESQUINA DO DESCONHECIDO



grafite e pintura sobre parede de apartamento / 1999



Na virada de 1999 para 2000 se falava sobre o Y2K, o bug do milênio, uma pane generalizada nos computadores que provocaria erros nos sistemas operacionais podendo levar o nosso planeta a um caos desenfreado.

A idéia do Armagedon ronda a humanidade há séculos. Durante a Guerra Fria, o confronto nuclear. Na antiguidade, erupção de um enorme vulcão ou a proliferação das pestes e doenças misteriosas.

A ciência caminha a passos largos desafiando antigos dogmas e, não raro, religiões se sentem ameaçadas a cada descoberta científica em que coloca o homem cada vez mais independente das doutrinas que a regem.

As réplicas humanas que põem em questão o conceito de alma.
Uma vez, em um jantar de confraternização de fim de ano, um médico sério e respeitado comentou que clones humanos e já adultos estavam vivendo em meio à sociedade atual. Pessoas incrédulas deram de ombros. Nas regiões mais afastadas dos grandes centros existem aqueles que nunca acreditaram que o homem fez viagens espaciais ou que pisaram na Lua.

O pequeno jipe-robô que o homem enviou e que desapareceu no solo do planeta Marte, poucos dias após a sua chegada, fez proliferar boatos de que o mesmo teria sido seqüestrado e seu contato com a Terra desativado por viajantes interplanetários.

A paisagem, para nós, devastada de Marte - o planeta vermelho, é semelhante a algumas regiões terrestres e nos levam a imaginar que no futuro, também, seremos assim. Teorias dão conta que a Terra é hoje o que Marte foi anteriormente e pela ordem de distancia dos planetas em relação ao Sol, a próxima bola da vez, em termos de vida semelhante a nossa, será Vênus.

E o homem equilibra o mundo em suas mãos. Avança e recua. Olha para o céu em busca de novas fronteiras, onde dizem, ser atualmente menos dispendioso criar um novo ambiente de vida no espaço sideral do que viver no planeta Terra.

Portanto, bem vindos a bordo...




Dezembro 26, 2006

MR. DYNAMITE



comp art / 2006



A voz. O ritmo. Os passos da dança e a interpretação. A disciplina que exigia dos seus músicos. As confusões em que se meteu e a alma impossível de ser domesticada. As glórias e as quedas e o orgulho exposto em cada gota de suor.



E ele cantou:

"Say It Loud, I'm Black And I'm Proud

Now we demand a chance to do things for ourserlf
We're tired of beatin' our head against the wall
And workin' for someone else
We're people, we're just like the birds and the bees
We'd rather die on our feet
Than be livin' on our knees
Say it loud, I'm black and I'm proud".




Dezembro 24, 2006

SO THIS IS XMAS




pintura e desenho sobre papel / 1993


FELIZ NATAL PARA TODOS QUE VISITAM ESTE ESPAÇO



Dezembro 21, 2006

O PADRE VIEIRA OU PAPAI NOEL EXISTE... PARA OS POLÍTICOS BRASILEIROS







desenho, pintura, colagem e xerox sobre papel / 2005



Ler o padre Antonio Vieira é quase obrigatório para quem tem interesse em entender um pouco (ou muito) sobre esta terra chamada Brasil. Seus sermões pronunciados nas celebrações religiosas e suas cartas enviadas à corte portuguesa traçam um fiel retrato da formação da nação brasileira.
Ao padre Vieira também é dada a suposta autoria de um livro anônimo chamado A Arte de Furtar.

É aquela história: pau que nasce torto morre torto. As porcariadas perpetradas pela classe política do Brasil vêm de uma longa trajetória, atravessam os séculos, tudo em benefício próprio. E o povo? Ah, o povo que se exploda...

Ler o que dizia e escrevia o padre Vieira é olhar o país em que hoje vivemos e constatar que, na real, nada mudou. O que testemunhamos hoje é um desdobramento de algo que nasceu há 500 anos. Lá no século 17, Vieira já elencava as nossas mazelas, os conchavos, as maracutaias e lendo-o chegamos a conclusão que o assalto aos cofres públicos é uma marca registrada brasileira.

Descobrimento, capitanias hereditárias, império, república, golpes, entra governo sai governo, direita, esquerda é tudo a mesma merda. Raspar o tacho parece ser a diretriz dos que detém o poder.
Leis? Temos a chicana e o drible da vaca. Constituição? Cria-se uma outra lei que anula a anterior. Impostos escorchantes? Inventa-se uma nova alíquota e aperta-se ainda mais o cinto.

Promessas que nunca se concretizam e um prato de comida para enganar um povo trouxa. Aqui a classe política evita a qualquer custo criar condições dignas de trabalho e empregos de verdade. Eles não querem formar cidadãos porque assim a populaçaõ se conscientiza e se liberta do assistencialismo eleitoreiro. Jamais teremos uma eficaz política trabalhista porque. demagogia, teu solo é o Brasil.

Quando criança nos decepciona quando descobrimos que Papai Noel não existe. Mas para os políticos brasileiros o bom velhinho da barba branca não só existe como reserva para eles os melhores e mais generosos presentinhos.

O que acontece agora com essa proposta de aumento salarial de 91% (noventa e hum por cento) para os salários dos nossos parlamentares é uma bofetada na cara da população.
O salário de deputado federal pularia para R$ 24.500,00 (vinte e quatro mil e quinhentos reais), junte-se a isso os adicionais e extras e tem-se um total de mais de R$ 100.000,00 (cem mil reais) por mês!
E some-se ainda o efeito cascata, pois aumentados os salários dos deputados federais aumenta-se também em 30% (trinta por cento) os recebimentos dos deputados estaduais e vereadores, respectivamente.

Estarrecedor é observar que um dos líderes dessa idéia lesa-pátria é justamente o presidente da Câmara, o comunista de orientação da velha Albânia, Dep Fed Aldo Rebelo. O que vem provar que esse negócio de ideologia não vale pra nada. É como se fosse uma etiqueta descartável numa roupa que a gente compra e tem de tirá-la e jogar fora para que possamos vestir.

Aldo Rebelo, Renan Calheiros e os "cabeças pensantes" da ala podre do Congresso elaboraram esse plano diabólico.
Inicialmente pressionados eles agiram de forma cínica, como é de costume, dizendo que é isso mesmo e fim de papo. Só que eles, acostumados com a cada vez maior benevolência da população com os atos de corrupção, não imaginavam uma reação da sociedade civil. Por um breve instante as pessoas saíram da letargia. Vozes se levantaram aqui e ali, mas só dois políticos se pronunciaram, de verdade, contra isso: Fernando Gabeira (sempre ele!) e Raul Jungmann.
E os nossos velhos ídolos da esquerda, o que disseram?
Nada. Se calaram. Aliás, estão calados faz tempo...

E Lula, sabia disso tudo desde o início? Ele certamente vai dizer que não sabia de nada, como sempre.
Mas o que se esconde por trás desse absurdo aumento de salário dos congressistas? Uma espécie de mensalão para acalmar o Congresso em início de um novo mandato? Já que Lula fala em governo de coalizão, com maioria absoluta no Congresso, por quê aceita essa sem-vergonhice e silencia frente a esse escárnio? E a oposição organizada, existe isso no país?

O padre Vieira estava certo. O Brasil nunca teve jeito mesmo. E nunca terá.



Dezembro 18, 2006

AS FLORES DE PANDORA EM SUMATRA




colagem, desenho e pintura sobre papel / 1997



em Bangalore a fragancia que espalha do incenso
desenhando na fumaça formas psicodélicas
e acentua a diferença que faz ao descobrir
a cor laranja do monge em suas roupas de campanha
nas peregrinações junto aos andarilhos maltrapilhos
em busca do Buda original
em posição de lótus abrindo à luz do dia
mostrando seu centro amarelo

Joseph Stálin perseguiu patriotas ukranianos
Richard Nixon apertou a mão de Mao
com desconfiança típica de um ocidental
caubói que nunca ouviu falar do Sidarta
que sabia pensar esperar e jejuar
sentado quase flutuando à beira do pântano
a observar as flores de pandora em Sumatra
exalando seu perfume
em evoluções sonoras quase dançando




Dezembro 15, 2006

CIRCO GUADALAJARA
(Lembranças parnasianas)



pintura sobre tela (1,40m x 0,70m) / 1996 - 98



O circo chega na cidade. Escolhe um terreno plano, estica sua lona. O circo chega como uma caravana. Caminhões e alguns carros. No dia seguinte saem em romaria pelas ruas mostrando suas atrações e as crianças correm para ver. Malabaristas puxam o cortejo e os animais selvagens em jaulas na carroceria dos caminhões. O dono do circo com sotaque meio mexicano. A cartola do mágico onde cabe três coelhos e duas pombas.

A encantadora Garota das Facas que desafia a pontaria seduziu um amigo da minha rua e ele sumiu de casa por quase uma semana. Juntou-se ao bando circense e foi arrastado de lá pelo próprio pai. Quando voltou ao convívio dos companheiros contava histórias de mistério e prazer. A gente acreditava mesmo sabendo que ele tinha aprendido com o pessoal do circo as manhas de como iludir as pessoas. Ele misturava sua façanha com relatos das mil e uma noites onde a Garota das Facas o enfeitiçava com danças do véu e beijos intensos.

A vizinha que mal tinha entrado na adolescência fugiu com o motoqueiro cabeludo do Globo da Morte e fez sua mãe colocar a policia atrás do malandro que tinha raptado sua filha. Mas, na verdade, era a filha que tinha fugido do cativeiro do seu próprio lar. E quando ela voltou, ela estava diferente e ficou trancada em casa e ouvíamos seu choro vindo pela janela do seu quarto nas noites em que tentávamos escalar a parede para ver como ela estava. Passados uns dias sua vida foi voltando ao normal, mas ela já não era mais aquela menina ingênua de antes e quando a mãe vigilante saía, ela ficava na varanda da sua casa com as mãos cobertas pelas luvas do motociclista nos observando com o olhar cheio de malícia.

Numa manhã de outono, os ventos que vinham do sul carregavam as folhas das árvores e o circo era desarmado. O trapezista ocupado em guardar seu material estranhava o chão firme em que pisava e os palhaços sem maquiagem e sem nenhuma graça desarrumavam o picadeiro. A lona era cuidadosamente enrolada ao lado das pesadas estruturas de ferro pelos halterofilistas e acondicionadas num caminhão baú. Os garotos da rua observavam todo movimento e o amigo que se tornou amante da Garota das Facas desapareceu por uns instantes e na volta trouxe um véu roxo cheio de lembranças presenteado por ela. Antes de embarcar sua máquina no caminhão, o motociclista passou por nossa rua e na porta da menina que tinha sido sua namorada, deu voltas em círculos com o acelerador todo aberto num sinal de adeus.

Dois ou três dias depois o circo chegava em outra cidade e tudo se repetia.




Dezembro 12, 2006

EDNILSON SACRAMENTO CONTA A TRAJETÓRIA DO ROCK´N´ROLL NA TERRA DO DENDÊ



desenho sobre papel / 1987



"mentiras aqui e ali
você está cercado e você quer sair daqui
e na loja onde vendem juizo
há sempre um guarda
há sempre um aviso
ô ô ô aqui em salvador
a cidade do axé a cidade do horror..."

Camisa de Vênus - Controle Total (1981)



"Faustino tem um terreno na ilha"

Grafite nas ruas de Salvador (1980)



Lançado recentemente, o livro Rock Baiano - História de Uma Cultura Subterrânea, de Ednilson Sacramento, é um relato de um cara que estava no centro dos acontecimentos.
Durante um punhado de anos ele foi acumulando material que dizia respeito a uma movimentação atípica para uma cidade fadada ao exotismo e divulgada mundo afora (e ainda o é) como um balneário paradisíaco. Na história da cultura brasileira do século 20 a Bahia sempre foi observada pelo prisma do folclore e da magia. Para muitos era praticamente impossível que um ritmo como o rock´n´roll pudesse florescer, gerar frutos, ganhar visibilidade e se tornar algo de apelo popular em terras baianas.

Mas, quem vivenciou a exibição do filme Sementes da Violência (Blackboard Jungle) no Cine Guarani (Cine Glauber Rocha, na praça Castro Alves) e no Cine Excelsior, na Praça da Sé, ainda na segunda metade dos anos 1950, contam que no momento em que tocava a canção Rock Around The Clock com Bill Haley and his Comets, pessoas se levantavam e dançavam entre as cadeiras a exemplo do que acontecia em outros lugares no mundo. Estavam lançadas as sementes do rock.

Daí, ainda nos anos 1950, vieram Raul Seixas e Big Ben e vários grupos musicais. No meio dos anos 1960, influencias da Jovem Guarda. Depois, nos anos 1970, outras tentativas. Até desembocar no início dos anos 1980 sob influencia do movimento punk e, então, o rock deixa de ser uma coisa apenas localizada para se tornar um fenômeno popular e catalisador de parte significativa da cidade. Naquele momento a cultura subterrânea do rock vem à tona com toda força e, com ironia e sarcasmo, faz o contraponto à propaganda oficial da terra do "alto astral".

O enfoque do livro de Ednilson é abrangente, alcançando os anos 1990 com as variadas vertentes do rock local. Mas sua publicação torna-se um documento importante que vem cobrir, em especial, uma época adormecida (e esquecida?) quando o rock feito por bandas locais atraía um número considerável de público da cidade de Salvador. Ali, no período inicial da influencia punk, por volta de 1979/1984, manifestações artísticas marginais começavam a ganhar destaque e shows de bandas locais como Gonorréia, Camisa de Vênus, Delirium Tremens, Trem Fantasma, Espírito de Porco, Arroto de Rato conseguiam reunir cerca de 1.000 (hum mil) a 3.000 (três mil) pessoas em apresentações individuais e/ou coletivas em locais como Circo Relâmpago na Pituba, Teatro Vila Velha, Circo Troca de Segredos em Ondina. Em muitas ocasiões reunindo mais público que atrações do sul do país.

A partir de 1984, a coisa foi ganhando maiores dimensões com a formação de mais e mais bandas, fanzines, lojinhas especializadas, bares e até rádios FM que resolveram direcionar sua programação em tempo integral para o rock. Para quem viveu aquela época, ler o livro de Ednilson Sacramento é um passeio (sem nostalgia) a um tempo de transformações. Para os mais jovens o livro serve para mostrar a dimensão daquela movimentação e tomar conhecimento de algo que foi DELETADO da história cultural de Salvdor e atropelado pelo advento da música baiana.

E o valor do livro não é apenas documental. Ednilson escreve bem, sua linguagem é direta, elegante e consegue expressar com precisão tudo que presenciou. A vida lhe fechou algumas janelas, mas abriu um caminho promissor e torço para que Ednilson escreva muitos outros livros. E devolvo a ele as mesmas palavras que recebi há poucos dias num seu e-mail: "Escreva até acabar a tinta, meu velho!".

P.S. na coluna esquerda do blog, antes dos links, está disponível em pdf o volume 1 do livro de Ednilson. clique e leia!!

leia tambem os posts sobre o livro de Ednilson escritos por Osvaldo Silveira no blog Rockloco e o de Marcus Rodrigues no blog Clashcityrockers




Dezembro 10, 2006

RESGATE NO RIO - RESCUE IN RIO
(O filme que farei em Hollywood)



escultura objeto / 1998



Imagine um filme hollywoodiano tipo aqueles que fazem uma inescrupulosa propaganda da superioridade e coragem dos ianques...
E este filme retrata o resgate de cidadãos norte-americanos numa nação, ou melhor, num paiseco estagnado e infestado de demagogos e espertalhões. Como quase sempre ocorre nestas produções, os paisecos sempre ficam abaixo da linha do Equador, de preferência na América Latina.

E não é que nós, latino americanos, estamos sempre a oferecer de mão beijada exemplos de sobra para isso? E o mais recente é este imbróglio que envolveu o acidente do vôo 1907, quando um boeing da Gol se chocou em pleno ar com um jatinho Legacy numa região ao sul da Amazônia causando a morte de 154 passageiros.
Lamentável que uma tragédia de tal dimensão tenha se transformado numa patacoada política típica de "cucarachas".

Acidentes dessa magnitude geram comoção em qualquer parte do mundo, afinal vidas humanas que se vão de forma tão brutal trazem dor e perplexidade. Mas estamos no Brasil, então...

Deu-se início a uma campanha visando APENAS culpar os pilotos americanos do jatinho Legacy. Pronto! Estava montado o ambiente propício para a tal patriotada brasileira, transportando para uma tragédia aérea com centenas de mortes o nosso falado "orgulho da camisa canarinho". Aliás, culpar os outros pelo nosso fracasso é uma atitude bem típica das patriotadas canarinho e se o inimigo escolhido for um norte americano, melhor ainda.
Assim, os pilotos americanos tiveram os passaportes aprendidos e ficaram retidos em um hotel no Rio de Janeiro numa espécie de prisão "branca" por mais de sessenta dias.

E de nada adiantou técnicos e especialistas da área da aviação civil falarem sobre pontos cegos e buracos negros nos radares que monitoram as rotas que sobrevoam a Amazônia, ou de falhas que ocorrem nas torres de comando, ou da sobrecarga de trabalho dos operadores de vôo.
O nosso orgulho canarinho não permite que possamos perder um jogo e começaram a alardear as sandices que escutamos por mais de dois meses.

Na mídia e na internet pouco se falava sobre as reais causas técnicas do acidente e surgiam informações que os pilotos americanos teriam desligado o transponder - aparelho que define a rota, que teriam desligado a comunicação via rádio, que teriam deixado o jatinho voando sozinho no piloto automático; e as mais fantasiosas, que os pilotos faziam piruetas a 11 mil metros de altura, ou, num surto de loucura imperialista, teriam provocado de forma proposital o acidente.

A coisa chegou a tal ponto que confesso ter ficado incrédulo quando li num incensado blog - de orientação governista, partidário, claro - que os pilotos americanos eram uns irresponsáveis e que eram os verdadeiros culpados pelo acidente. E o tal famoso blogueiro induzia seus leitores a postarem comentários com suas patriotadas também.

Com o decorrer do tempo a realidade vai subindo a tona, as peças vão se juntando e vamos tomando conhecimento do caos em que se encontra o aparato de segurança da aviação civil brasileira. Depoimentos vão desmontando a tese da culpa integral dos pilotos do Legacy. Dia após dia está sendo provado que a deficiência tecnológica e profissional é nossa, assim como a jabuticaba e o futebol-arte.

E como é ridículo ver e ouvir o ministro da Defesa, Waldir Pires, desfilar sua incapacidade para esclarecer a verdade, protegendo o governo e eximindo-o de suas responsabilidades, dando declarações estapafúrdias que demonstram que ele não tem a mínima capacidade de ser o titular de uma pasta tão estratégica. Que decepção, Waldir! E eu que sempre fui um fervoroso eleitor do senhor....

Mas voltando ao parágrafo inicial, sobre o filme de Hollywood do resgate de cidadãos norte americanos em republiquetas ao sul do equador, bem que o Brasil está merecendo ser o palco desta produção cinematográfica tendo como referência todos estes acontecimentos.
Mas como somos um povo patriota, iria ser difícil arranjar um diretor de cinema nacional para fazer um serviço sujo dessa categoria, e aí, sinto-me impelido a aceitar a empreitada.

Eu faria um filme arromba-bilheteria, totalmente trash, um B movie de forte apelo popular misturando política e muito, muito sexo. Roteiro simples centrado neste incidente, o choque dos aviões, os desencontros das informações, as demagogias, a patriotada.

Então a história do meu filme seria a seguinte:
a CIA faz um plano infalível de resgate dos pilotos norte-americanos e convoca a SWAT para executá-lo.
Para interpretar os agentes da SWAT eu escalaria Bruce Willis e Chuck Norris. Paulo Betti faria o papel do meganha brasileiro sem nenhuma ética e que faz a guarda na porta do quarto dos pilotos americanos.

Já imagino certas cenas. Na abertura eu faria uma homenagem a Glauber Rocha, imitando aquela tomada aérea inicial do seu filme Terra em Transe em que um avião (no meu filme, trazendo o comando que vai efetuar o resgate) se aproxima do continente.

No desfecho da trama, no dia combinado para o resgate, a população local está entretida entre assistir o último capítulo de uma novela açucarada e um clássico de futebol, enquanto os prepostos americanos colocam algumas mulheres gostosíssimas para entreter e despistar os porteiros e seguranças. Invadem o hotel em que estão os pilotos americanos, retira-os de lá na tóra numa fuga com troca de tiros de grosso calibre e trapalhadas de ambas as partes. Embarcam num helicóptero que pousa no topo do hotel e, em alto mar, descem através de cordas num navio pesqueiro de bandeira panamenha.
Depois, na cena final e bem asquerosa, eles já aparecem, sãos e salvos, num avião B 52 do exército americano cercados por milicos ianques, brindando com uma Antártica bem gelada enquanto se deliciam olhando um cartaz da referida cerveja em que aparece o traseiro da Juliana Paes.
Um marine mais exaltado pega o cartaz e o pendura no interior da aeronave militar. No finalzinho, a câmera mira o horizonte da janela do avião e vê-se a Estátua da Liberdade na baía de Nova York, tendo como fundo musical Amazing Grace na voz de Aretha Franklin.

Falando em fundo musical, a trilha sonora teria Nós Somos Inútil, do Ultraje a Rigor; Verde e Amarelo, de Roberto Carlos; Se Não Fosse o Cabral, de Raul Seixas; Prenda o Tadeu, de Cremilda; Quem te Viu Quem te Vê, de Chico Buarque e pra hora em que os pilotos norte-americanos, já fora de perigo após o bem sucedido resgate, atingem águas internacionais, eu colocaria Aquele Abraço, de Gilberto Gil.

Os patriotas iriam odiar e o Cacá Diegues diria que o filme não presta.
O que, pra mim, seria um baita de um elogio. Mas em compensação eu poderia me tornar amigo de Robert Rodriguéz e Tarantino e ainda ter um tórrido romance com a Uma Thurman.




Dezembro 6, 2006

UMA SOMBRA NA JANELA




pintura e desenho sobre papel / 1994




Quando cheguei em Nova York já tinha se passado dois anos e meio desde que John Lennon havia sido assassinado na porta do Edifício Dakota, prédio onde residia na cidade. O oito de dezembro de 1980 marcou o fim da inocência para uma geração e aquela data foi um dia de choro em soluços para muita gente, dos adolescentes aos adultos.

As imagens da multidão na porta do Dakota logo após a notícia da morte de Lennon ficaram para sempre guardadas na memória como uma emocionada vigília aliada a uma amarga constatação da falta de limites que a bestialidade humana poderia alcançar. Para milhões de pessoas significou o fim de uma era ou um sinal apocalíptico. Era quase impossível conceber a morte de John poucos dias depois dele ter lançado o álbum de canções inéditas, Double Fantasy, após um hiato de seis anos desde Walls and Bridges de 1974.

Pois bem, em junho de 1982 e com poucos dias em solo novaiorquino fiz questão de conhecer o Dakota. Afinal, trata-se de um ponto turístico da cidade, uma construção em estilos variados, predominantemente gótico e vitoriano, datado do final do século 19, localizado na 8ª avenida esquina com a rua 72 e em frente ao Central Park. É um prédio imponente de (talvez) uns sete andares, pesadão, telhados que chamam a atenção com suas bordas verdes e janelas aparentemente miúdas.

O Dakota, ao longo das décadas, foi moradia de várias celebridades (Judy Garland, Boris Karloff), e nos anos 1970, além de John & Yoko abrigava figuras como o maestro Leonard Bernstein, a cantora negra Roberta Flack e a atriz Lauren Bacall. O edifício sempre esteve envolto em várias lendas e muitas delas horripilantes e até o filme O Bebê de Rosemary do diretor Roman Polanski foi rodado em suas dependências.

A primeira vez que vi o prédio eu o observei em todo o seu entorno e de vários ângulos. Da esquina oposta, do outro lado da rua, bem de perto reparando a textura da sua parede externa e o portão principal no local aonde Lennon tombou baleado.

Uma vez saciada a minha curiosidade deixei o famoso edifício de lado. Meses depois descolei um serviço exatamente na rua 72, a rua do Dakota. Assim, toda sexta feira eu passava pela sua porta na ida e volta do trabalho e a lembrança de Lennon e as imagens das pessoas em frente ao prédio nas horas e nos dias seguintes ao seu assassinato vinham sempre a minha mente. Não dava para desvencilhar a vida e a tragédia de Lennon do Dakota.

De tempos em tempos lia nos jornais locais que Yoko Ono vivia reclusa no conglomerado de apartamentos que ela e John conviviam, sendo que boa parte dele era voltado para o Central Park. Também era comum alguma revista da cidade mostrar um ensaio com fotos de Lennon caminhando pelas ruas, tocando guitarra no seu quarto branco ou sentado no parapeito interno da sua janela observando o imenso parque logo abaixo. Estas fotos emocionavam a todos já que o próprio John fazia questão de declarar seu amor fervoroso por Nova York e quando questionado sobre a razão desta escolha, afirmava sem meias palavras que se ele vivesse no tempo de Roma (que foi a capital ocidental da antiguidade) ele moraria em Roma.

Acontecia que, ao cair da tarde, no fim das minhas jornadas de trabalho, eu passava pela porta do Dakota, entrava no Central Park e fazia um lanche, tomava uma cerveja e fumava um cigarrinho sentado numa pedra alta. Dali eu tinha uma visão ampla e frontal do apartamento que Lennon habitava. Observando suas janelas meu pensamento se perdia em lembranças beatlemaníacas, as mensagens de John e a estupidez humana.
"A felicidade é uma arma quente...", "do jeito que as coisas estão indo eles vão terminar me crucificando...", "instant karma logo logo voce estará morto...".
Lembrava das fotos nas revistas onde ele aparece sentado na janela observando o parque. E era impossível olhar as janelas dos andares altos do edifício Dakota e não enxergar ali, com clareza, uma sombra na janela.




foto de Annie Leibovitz / dezembro 1980



Dezembro 3, 2006

NOITES NA LUZ VERMELHA DO MEIA TRÊS



pintura sobre papel / 1986



Bons tempos os de hoje em que os garotos podem desfrutar dos prazeres do sexo com as amiguinhas. Antes era dureza, irmão...
Namoro era namoro, ousadia era ousadia.
Havia exceções, é claro, mas, no geral, o perrengue era rotineiro e se comemorava quando, pasmem, se pegava no peitinho de uma namorada.

O garotão cheio de hormônios e testosterona tinha de procurar alternativas para dar vazão a tanta energia. As empregadas domésticas cumpriam um belo papel, às vezes fazendo um serviço de cama e mesa e sem nenhum preconceito nestas afirmações. Elas não tinham frescuras, sabiam desfrutar sua sexualidade, ao contrário das mocinhas de família com seus não me toques e preocupações do tipo "o que a cunhada da tia da minha vizinha vai pensar de mim?..."
Uma outra opção para os garotos era ir pro brega, pro puteiro, onde um mundo de inúmeras possibilidades se apresentava.

Até o comecinho dos anos 1970 a cidade de Salvador teve bregas históricos. Maria da Vovó, Symara e, o mais famoso deles, o 63. Carinhosamente chamado por todos de Meia Três, ele ficava localizado num sobrado da ladeira da Montanha.

Para um adolescente com seus 14, 16 anos freqüentar o brega era sinônimo de correr riscos e se fosse à noite o perigo era maior ainda. Tinha o temor das visitas do Juizado de Menores e das rondas da temida "Mixta" que era uma milícia formada por integrantes da civil, militar e das forças armadas. A simples menção da possibilidade da presença destas diligencias gerava pânico na garotada e nos que tinham uma ligação com o crime.

Mas o 63 era um ambiente pacifíco, glamouroso e até, digamos, familiar. As garotas que ali batiam ponto eram bonitas, charmosas, bom papo e, claro, muito diferentes do mundinho feminino adolescente soteropolitano.
Um certo encanto pairava nas noites do 63 e a emoção tomava conta do coração juvenil quando adentrávamos aquele espaço banhado por uma luz vermelha. Um clima de cabaré, o tilintar de copos no balcão e nas mesas uma algazarra de conversa animada enquanto as garotas transitavam. Os sucessos musicais da época convidavam os presentes que enchiam a pista de dança situada no meio do salão. E tome-lhe Have You Ever Seen The Rain do Creedence, Odair José, Beatles, Bread, Roberto & Erasmo, Procol Harum, Tim Maia, Ruby Tuesday e Lady Jane dos Stones.
Aliás, Ruby Tuesday foi o nome que dei a uma garota bonita de seus 19 anos de ar tímido que, com suas amigas, adorava a nossa presença.

Trabalhadores, médicos, desembargadores, universitários e a fauna intelectual da cidade eram os freqüentadores habituais do lugar. Em uma noite de inverno uma mesa chamava a atenção pela quantidade de pessoas em volta de um senhor que falava sem parar e os outros observavam. Tratava-se de ninguém menos que Jorge Amado, em carne e osso, ali no salão do 63.

Nós, garotos adolescentes quase imberbes, nos sentíamos importantes por tão famosa companhia e mal escondíamos nossa exaltação. De certa forma, naquela situação, a gente se imaginava personagens daqueles seus livros que narravam a vida de uma Salvador mística criada pela mente de um escritor de renome internacional. Assim, nossa iniciação nos prazeres da carne e na boemia era precocemente acelerada.

E na volta pra casa, alta madrugada, as ruas vazias, a gente ia relembrando os momentos da noite numa caminhada de quase uma hora e meia. O cheiro do perfume de Ruby Tuesday em mim se mesclava com o cheiro de mar característico de Salvador, que, por sua vez, se misturava com o cheiro de cacau trazido pelo vento e que estava estocado nos armazéns do cais do porto.