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Janeiro 31, 2007
CONSTRUINDO CIDADES
pintura sobre parede de prédio abandonado - Salvador. Bahia / 2002 A cidade que cresceu na trilha dos mercadores que traziam especiarias e abasteciam os habitantes do lugar. Ou uma outra cidade surgida à beira mar, em volta do porto, à espera de embarcações carregadas de produtos de outras regiões e, até mesmo, com indivíduos dispostos a fazer daquele lugar a sua nova morada, a sua nova cidade. Os limites da velha cidade protegida por muros e fortalezas se defendendo dos ataques forasteiros. Os bárbaros invasores que tinham o costume de saquear os templos e os depósitos de armas. Os guerreiros mais bravios avançavam sobre a terra devastada, implantando uma nova ordem. Os vencidos resignados a acatavam e os insatisfeitos se dirigiam para o alto das montanhas e lá planejavam a revanche ou construíam outra cidade, desta feita mais segura e protegida. As cidades invisíveis de Ítalo Calvino. As cidades utópicas e abstratas da mente de arquitetos que imaginam a organização da sociedade e que, com o passar do tempo, fogem ao controle rumo às periferias e se expandem e se alastram além do horizonte. As cidades dos games conquistadas em batalhas estratégicas. Algumas cidades que têm pontos escolhidos como alvo de inimigos. Cidades destruídas pela fúria da natureza. As cidades cenográficas dos filmes. Cidade dos mortos, cidade dos anjos, cidade das mulheres, cidade de deus, cidade do pecado. Cidades das canções. Cidade maravilhosa, a cidade que nunca dorme, a cidade do axé. Cidade das luzes, cidade das trevas. Ou mesmo as cidades virtuais experienciadas através de comandos de fibra ótica. Enfim, as cidades onde os homens vivem. Janeiro 28, 2007
LULA WORD VERSÃO 2007
comp art / 1994 O Brasil está parado. Paradinho da silva. A impressão que se tem é que desde que explodiu o escândalo do mensalão nada de relevante acontece no país. E nisso lá se vão quase dois anos. Mais uma vez, o presidente Lula foi reeleito com uma votação esmagadora o que, em hipótese, lhe daria um considerável cacife para efetuar mudanças de verdade e tocar projetos de importância. Os simpatizantes do lulo-petismo ficam mordidos quando recebem alguma crítica, esquecendo eles que quando foram oposição criticavam até corte de cabelo de quem apoiava qualquer governo anterior. Hoje são governistas com todos os (de)méritos dos que são governistas em terras brasileiras, em todas as épocas. No país tropical abençoado por Deus não há revolucionário que não se torne conservador quando pisa no palácio. E o governo Lula é de um conservadorismo que dá dó. Do alto de vinte e cinco anos de oposição com discursos inflamados, os petistas se consideravam detentores únicos e exclusivos da ética na política e prometiam mudanças profundas na sociedade brasileira. Assim, imaginava-se um governo arrojado, uma administração repleta de feitos, o país transformado num canteiro de obras, investimentos pesados na infra-estrutura, relações sadias entre o executivo e o legislativo. E aí veio o que veio e lá estava Lula, aquele que falou dos trezentos picaretas do congresso, homenageando o impoluto aliado Severino Cavalcanti com a medalha da Ordem do Rio Branco. O discurso marqueteiro, a Bolsa Família - o titulo de eleitor estomacal de grande parte da população excluída. O eterno receio tupiniquim de mudanças e a complacência do "homem cordial" brasileiro, retratado por Sérgio Buarque de Holanda em seu livro Raízes do Brasil. A ineficiência administrativa que se reflete nos planos cheios de teorias e de pouca eficácia prática. O PAC de Lula é aquele velho pacote econômico que era marca registrada dos governos militares e que, de tempos em tempos, ressurge no país para fazer de conta que iremos deslanchar rumo ao primeiro mundo. Na verdade é a mesma tática oficial de gastar bilhão pro cidadão comum não ganhar nenhum tostão. Desde a campanha presidencial, seis meses atrás, o governo finge que trabalha mas não trabalha. O presidente tirou dois períodos de férias, o primeiro depois da eleição e o segundo agora em janeiro. Ministros doidos para cair fora são obrigados a permanecer em seus cargos por tempo indeterminado. Tudo paradinho da silva. O Brasil com níveis de crescimento baixíssimos, os piores índices dos países considerados emergentes. O cenário mundial da economia nunca esteve tão favorável, sem crises e o governo brasileiro, qual a canção de Chico Buarque, onde "lá fora uma rosa nasceu, todo mundo sambou e só Carolina não viu...". E agora teremos Lula Word Versão 2007. E o país vai ou não vai? Vamos pra frente ou vamos ficar emPACados? Janeiro 24, 2007
JACK KEROUAC BLUES
grafite em Vilas do Atlântico - Salvador, Bahia / 2002 ouvindo o som metálico do sax dourado deixei de lado as lembranças já nem sei o que é passado e o que falam de mim é uma sombra do que não sou durante todo o trajeto contei as placas da estrada me perdi num labirinto de um hotel nas montanhas se nada que eu procuro eu encontro hoje estou aqui amanhã não sei mais se todos os caminhos levam a roma se todos os caminhos já foram percorridos observei um bloco de gelo derreter ao sol mexicano guardei livros em garrafas de vidro desci e subi as escadas dos subterrâneos coloquei moedas na máquina do cassino e ganhei copiei num papel o discurso do mendigo da rua 4 andei quarteirões sem fim ouvindo um órgão de igreja na varanda de uma casa no marrocos respirei o mediterrâneo alimentei as gaivotas na beira do cais hoje estou aqui amanhã não sei mais num parque na fronteira do canadá esperei a cerveja congelar almocei na madrugada e fiz o desjejum ao por do sol na desordem dos dias em busca do equilíbrio flutuando entre as fendas do grand canyon se tudo que eu procuro eu acho decidi ir para o norte quando estava a caminho do oeste na grande reta vi os trilhos se juntarem hoje estou aqui amanhã não sei mais pensei ter um barco e nele cruzar todos os oceanos e no museu pulei pra dentro de um quadro de gauguin passei a noite com a bailarina do musical da broadway o que eu criei me levou ao sabor do vento meus amigos levaram adiante o que eu imaginei pela janela percorri mundo a fora se todos os caminhos já foram pisados corri tantos lugares e todos eles viraram meu lar uma outra trilha há de existir o tempo que passa rápido e fugaz hoje estou aqui amanhã não sei mais Janeiro 21, 2007
O CULTO DA OSTRA AZUL - BLUE ÖYSTER CULT
Night fishing Itacaré / pintura sobre tela - 70 cm de diâmetro / 1993 Na noite de um mês de maio, do alto mar olhando para terra firme, um fio de luz era percebido entre o balanço das ondas. Navegando rumo ao norte, na direção da Baía de Camamu, o barco de pesca arrastava a rede. Em um determinado ponto, chamava a atenção um clarão avermelhado, sinal de fogo, com labaredas faiscantes e um bolo de fumaça que parecia fazer uma ligação entre a terra e o céu. No silencio de uma época sem satélites monitorando o clima do planeta Terra empresas estrangeiras desbandeiradas queimavam o que restava da floresta atlântica, já rarefeita por eles mesmos. E tratores gigantes juntavam os destroços fazendo um amontoado de galhos, gravetos, raízes e folhas e os empilhavam numa espécie de fogueira do tamanho de um prédio e tudo se tornava cinza e carvão. Na parte interna da Baía de Camamu, num igarapé estreito e de difícil acesso onde cipós descem de árvores centenárias e adentram a água e ruídos de pássaros e o canto da araponga martela e ecoa na mata, o resultado do arrasto da rede é conferido. Badejos, pescadas, vermelhos, cações e entre os peixes capturados, uma concha chamava a atenção pelo intenso tom azul do seu casco. Era uma concha quase do tamanho de uma bola de futebol e à noite ela irradiava uma luz e se tornou uma espécie de amuleto do barco. Colocada no convés ela iluminava tudo em sua volta. Postada contra a luz da Lua, através do seu casco, via-se com perfeição o relevo da superfície lunar. Na volta da jornada, mais uma vez em alto mar, o fio de luz da terra firme e a coluna de fumaça subindo das matas queimadas. E em algum ponto do oceano, enquanto irradiava sua misteriosa luz, decidimos devolver a ostra azul ao seu lugar de origem. Janeiro 17, 2007
RESGATE NA BIOGRAFIA CAT STEVENS / YUSUF ISLAM
comp art / 2007 Assim como ocorre com um time, um grupo ou uma brigada o glorioso rock´n´roll também sofre algumas baixas em suas fileiras. Estes desfalques se dão por diversos motivos. Um dos mais comuns, sem dúvida, é de ordem religiosa. A vida no rock é contraditória, sujeita a situações extremas e se o cara não segura a pressão da cabeça e o fogo da alma, o caminho da religião torna-se o mais fácil para escapar das angustias existenciais. Simplesmente não é para qualquer um ter três nomes em uma única existência. Ele nasceu Stephen Demetre Georgiou, depois virou Cat Stevens e anos depois decidiu ser Yusuf Islam. Sua carreira musical teve início com sua segunda "encarnação" e era impossível ouvir Cat Stevens e não ficar emocionado. Que voz! Que belas canções! Ele sabia esculpir hinos pacifistas e de amor que se tornaram símbolos de uma era em que alguns roqueiros sonhavam mudar o mundo com músicas e palavras. Uma luta desigual porque, apesar de tudo, o mundo segue seu rumo em direção ao caos, mas a verdade é que Cat Stevens fazia tudo parecer possível. Where Do The Children Play, onde ele dizia ser bacana construir aviões gigantescos ou passear num trem cósmico e lançava uma pergunta no refrão: "onde as crianças iriam brincar?". Father and Son, o difícil diálogo entre um pai e o filho que mostra o abismo que separa as gerações. Wild World, a despedida para um amor que se vai e o aviso para se cuidar porque... "oh baby baby este é um mundo selvagem". Morning Has Broken, a manhã que nasce "como se fosse a primeira manhã". The Hurt, quando ele canta "que você quer ver a verdade, mas é difícil encontrá-la". Moonshadow, o despreendimento zen frente a transitoriedade da vida. The First Cut Is The Deepest, a tentativa de uma reconciliação amorosa, ressaltando, porém, que "o primeiro corte é sempre o mais profundo". Peace Train, o ruído do trem da paz que "soa cada vez mais alto". Todas estas canções estão incluídas em seus melhores álbuns como Mona Bona Jakon (1970), Tea For The Tillerman (1970), Teaser And The Firecat (1971), Catch Bull At Four (1972), Foreigner (1973), Buddha And The Chocolate Box (1974). Mas a partir deste último trabalho, Cat Stevens começou a ficar confuso e seus lançamentos posteriores deixavam a desejar dando claras amostras que a sua criatividade já não era a mesma. Em busca de inspiração, um pouco de descanso e novos ares, ele veio para o Brasil em 1977 e ficou uma longa temporada. Já tinha estado por aqui alguns anos antes, inclusive em Salvador onde foi visto na festa do Bonfim e várias foram as noites em que cantou e tocou seu violão num apartamento de amigos baianos ali no Farol da Barra. No entanto, a partir de 1976, o mundo da musica pop estava sacudido pelo furacão punk, new wave, anarquia, niilismo e cinismo e as mensagens de Cat Stevens passaram a soar datadas. Surpreendentemente, em 1979, chocou seus fãs ao divulgar uma nota pública onde anunciava sua despedida do show business, abraçava os ensinamentos da religião muçulmana e que dali em diante o seu nome seria Yusuf Islam. O Cat Stevens não existiria mais e o universo do rock foi abandonado em troca de uma inabalável fé no Corão. Permaneceu no anonimato por uma década até surgirem as polêmicas em torno do lançamento do livro Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, quando os aiatolás e os fundamentalistas muçulmanos baniram o best seller por considerá-lo ofensivo ao islamismo. Eles instituíram a Fatwa (uma sentença de morte) ao escritor e um prêmio milionário a quem o executasse. No olho do furacão deste acontecimento ressurge Yusuf Islam/Cat Stevens com declarações a imprensa mundial dando apoio a decisão dos aiatolás. O público que conhecia sua obra musical não conseguiu entender como um ícone do pacifismo e militante da tolerância entre os homens pudesse concordar com uma decisão tão brutal. E a todos ficou uma impressão que o fanatismo religioso de Yusuf Islam havia vencido o pacifismo de Cat Stevens. Em março de 2003, por conta da invasão e ocupação do Iraque por tropas norte americanas, ele reaparece desta vez pregando o diálogo. A sua canção Peace Train é resgatada como trilha sonora para a paz e incorporada ao repertório de vários artistas, inclusive Patti Smith. Mas, ao tentar entrar nos Estados Unidos em 2004 viu o avião comercial que o conduzia ter sua rota desviada para outra cidade. E por mais incrível que possa parecer, isto aconteceu por causa da sua presença na aeronave. Resultado: ele foi proibido de permanecer em solo norte americano e mandado de volta para a Inglaterra, acusado de ser um provável terrorista. Em 2006, após 28 anos sem lançar um trabalho de estética pop, ele retorna à cena com o álbum An Other Cup e com sua voz peculiar e seu violão idem, ele demonstra sua capacidade em criar canções como um espelho invertido de uma época conturbada. E ele está de volta aos palcos, cantou Peace Train no show da entrega do Prêmio Nobel e faz apresentações pelos Estados Unidos. Agora sem problemas com as autoridades do governo Bush. Ele, que sempre foi um artista muito especial está de volta a mídia e por mais que tente ser apenas Yusuf Islam, o Cat Stevens dentro de si não consegue escapar do seu karma e da sua lenda pessoal.
Cat Stevens (no círculo) com Hendrix, na Londres dos anos 1960 Janeiro 14, 2007
VAMOS ACREDITAR...
colagem,desenho e pintura sobre papel / 2006 Transcrevendo o que está no desenho acima: "Régis Michel, conservador-chefe de artes gráficas do Louvre afirma: ..."o problema é que acabamos tendo uma cultura burocrática, que, em vez de inspirar, faz o contrário: suscita a tecnocracia e repudia a criação. É muito difícil se expressar de forma crítica num sistema em que tudo - teatro, museus - é financiado pelo Estado. É um mundo de compadrio e cooptação, e essa é a forma mais perigosa de cultural oficial. Vivemos um sistema que, em grande medida, é um consenso totalitário, um stalinismo sem Stálin". Interessante esta afirmação! E como ela combina e cai como uma luva nas coisas do Brasil. Não é loucura afirmar que vivemos um dos períodos mais medíocres em termos de política cultural da história do país. Existe algum projeto cultural de parte do governo digno de ser mencionado? Sob o guarda chuva da tal inclusão social vemos uma proliferação de picaretagens na figura do "produtor cultural" e mais uma leva de demagogia barata dos agentes oficiais. Parece que a manifestação artística e cultural de cunho independente virou inimiga do estado. E se ela lidar com os elementos que não fazem parte do vocabulário oficial, torna-se uma execrada produção elitista. O discurso da pluralidade pregado na época da oposição era de mentirinha. As táticas da esquerda, quando chegam ao poder, são IDÊNTICAS às táticas da direita. Nomes pomposos para estruturas arcaicas da burocracia cultural são criados para gerar um falatório, mas os bobos da corte do velho esquema são os mesmos beneficiados do novo esquema. O dono do pedaço de antes que tomava banho de perfume nas festas populares do sincretismo religioso transferiu em todos e pequenos detalhes o mesmo costume para o novo dono do pedaço. Mas a gente combina assim: eu acredito, você acredita, todos nós acreditamos. Eles agradecem. Janeiro 10, 2007
O GRANDE IRMÃO ESTÁ TE OBSERVANDO
desenho e crayon sobre papel / 1991 Sorria, você está sendo filmado. No livro 1984, de George Orwell, onde ele traça um mundo do futuro sombrio e de poucas liberdades, no qual os cidadãos são permanentemente vigiados por uma câmera. Todo mundo já está careca de saber que vivemos num mundo vigiado. Há muito, a discrição deixou de ser uma virtude e querer aparecer de qualquer forma move os anseios de muitas pessoas. As celebridades de cabeça oca correm atrás de factóides e são capazes de (quase) tudo para não saírem dos holofotes e da mídia. Daniela Cicarelli e seu namorado foram filmados numa praia badalada ao sul da Espanha, em cenas explícitas de prazer carnal. Se a deliciosa modelo e apresentadora brasileira quer mesmo preservar a sua imagem pública, por quê diabos ela, uma pessoa notória, vai fazer sexo numa praia famosa e bastante frequentada? Como diria os antigos, por quê Cicarelli foi inventar de "rosetar" num local público? E que idéia imbecil é essa de querer censurar o YouTube? Dani gostosa Cicarelli, faz isso não! Quer "rosetar" na praia? Então arranja uma bem deserta, onde os urubus da mídia não tenha acesso. Lembra que voce é uma mulher famosa... E leia o livro 1984 e você vai entender direitinho o mundo em que vivemos. No universo da ficção de George Orwell, e que a esta altura já nos alcançou, as pessoas são diuturnamente advertidas por uma frase: "Big Brother is watching you". O Grande Irmão está te observando. Janeiro 6, 2007
CELACANTO VIU HENDRIX FICAR MANDRAKE DE MANDRIX
desenho, pintura e colagem sobre papel / 1985 Uma vez, faz tempo, eu estava num ônibus e quando parou num ponto, ouvi uma frase de um coroa sisudo que estava ao meu lado e ele, apontando para um espirituoso grafite, disse: - Isso não é brincadeira de adolescentes. Isso é serviço de profissionais. Balancei a cabeça como se concordasse. Realmente uma criatividade e um senso de humor daqueles teria de ser mesmo coisa de profissionais. Cada cidade brasileira tinha um estilo bem específico de grafites. E foi no Rio de Janeiro que apareceram alguns bem enigmáticos, a exemplo de: CELACANTO PROVOCA MAREMOTO. Natural que as pessoas ficavam sem entender direito do que aquilo se tratava e as mais absurdas divagações possíveis surgiam. Mensagem cifrada de grupos contrários à ditadura militar, curtição de garotos desocupados da zona sul carioca. Todas e quaisquer suspeições cabiam, mas Celacanto, na real, era um monstro marinho que surgia das profundezas do oceano para atazanar a vida das pessoas numa fictícia metrópole japonesa, nos capítulos de um seriado de TV chamado National Kid. O legal dos grafites escritos é que eles podem ter mais mistérios que a maioria dos desenhados, por incrível que pareça. Esses grafites de ONG que imitam aqueles desenhos que eram pintados nas laterais dos vagões do metrô de Nova York no ínicio dos anos 1970 geralmente são tediosos e enfadonhos. Uma frase desconexa ou um garrancho solto numa parede, às vezes, provoca um maior estranhamento e tem muito mais tensão embutida. Quase sempre as pichações são mais interessantes que os tais grafites ongueiros. Lá nas antigas, uma dessas pichações que eu gostava era uma que estava exposta num muro da avenida principal do Jardim Botânico, no Rio: HENDRIX MANDRAKE MANDRIX Eu sempre achei muito chato aquela coisa de poesia concreta, e tal. A turma do rock´n´roll que gostava de literatura beat e não curtia poesia concreta sacaneava dizendo que preferia poesia "cimento mentol", e a turma intelectualizada que apreciava MPB ficava uma arara. Poesia concreta sempre nos pareceu uma coisa por demais cerebral e sem nenhum senso de humor. Uma espécie de trocadilho com as palavras. Mas o Hendrix Mandrake Mandrix, meio que redimensionava o conceito experimental concreto porque lidava com símbolos do cotidiano. Numa só frase, 3 ícones Pop: Jimi Hendrix, o gênio da guitarra elétrica; Mandrake, o personagem das histórias em quadrinhos; e Mandrix, o poderoso calmante que alcançou fama. Os 3 nomes juntos criavam um universo unificado e a combinação de suas letras fazia todo um sentido, ou vários. Sem dúvida, o criador deste grafite fez um serviço profissional. Janeiro 3, 2007
DO DESCONHECIDO NA ESQUINA (TAKIN´ IT TO THE STREETS)
grafite / 1999 Na falta de uma lata de tinta em spray mistura-se látex branco e pigmento preto num reservatório plástico. Mais um pincel e na madrugada uma parede na rua vazia serve como suporte para uma intervenção. Imaginar que o mundo vá mudar na passagem de um século para o outro é um pensamento que domina os homens. Por certo, caminhava pelas ruas observando objetos comuns que, na maioria das vezes, fazem mais sentido que quadros cheios de formas e tintas. Um desconhecido na esquina e seu desejo em tomar o mundo em suas mãos. A ordem caótica das coisas que, por algum mistério, mantém o universo no seu eixo. Como se sentiram os que presenciaram a chegada do ano de 1900? E hoje à noite teremos uma festa como se estivéssemos celebrando os últimos segundos de 1999. Trazendo às ruas o que foi imaginado em casa. |