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Fevereiro 28, 2007
SONHOS DE BORGES. ELE ADORAVA ROCK´N´ROLL E SUA REVANCHE CONTRA A HIPOCRISIA LATINO-AMERICANA
comp art (2007), pintura sobre tela (2001) e desenho sobre papel (2004) O universo de Jorge Luis Borges num sonho meio esquecido e lembrado em partes. O tigre que se aproxima e cresce e nos encurrala num canto qualquer de um espaço indefinido. Martín Fierro voando sobre os pampas e levando no alforje um escrito encontrado numa região a oeste da Mongólia dando conta que Lao Ping teria desbravado uma trilha no Himalaia que levava a uma civilização perdida. Nas suas palestras, Borges discorria sobre os espelhos que ele, afetado pela cegueira, não podia enxergar, mas os percebia nos ambientes em que eles, os espelhos e Borges, se encontravam. E a idéia do outro, o Borges refletido. E Borges gostava de rock´n´roll e foi sua viúva, Maria Kodama, que relatou um encontro num aeroporto internacional entre o escritor e os Rolling Stones. Ao vê-lo no saguão, Mick Jagger se aproxima e diz: - Mestre, é um prazer encontrá-lo. Sem saber quem estava à sua frente devido à cegueira, a mulher do escritor diz que é o cantor dos Stones, ao que Borges, de imediato, respondeu: - Saiba que sou um grande fã da música que vocês fazem. Eu adoro os Stones! Jorge Luis Borges, o mais brilhante escritor da América Latina, era desprezado pela grande maioria da intelectualidade esquerdista do continente que o classificava como um reacionário, um elitista, um homem de direita. Essa mesma esquerda que endeusava artistas absolutamente medíocres pelo simples fato do alinhamento ideológico. Também foram notórios os insultos de Borges às intenções autoritárias de Perón, assim como o seu desprezo pelo nacionalismo exacerbado. Borges adorava ridicularizar todos eles. Em contrapartida, em várias partes do mundo ele era considerado um gigante da literatura universal de todos os tempos. Só que Borges, o outro, aquele que desvendava os espelhos e domava os tigres de bengala, guardou para o ultimo parágrafo da sua vida uma revanche vitoriosa sobre essa mesquinharia hipócrita latino-americana. Nos seus momentos finais e perto da morte iminente ele foi para Suíça e lá quis fazer a sua passagem para a eternidade. E ordenou a sua família que seu corpo não fosse sepultado na Argentina. Ele sabia que, morto em território portenho, imediatamente seria reverenciado como um herói nacional. Seria guindado de um desprezo silencioso a uma glória unânime e homenageado, justamente, por aqueles que Borges, o outro, se opôs a vida inteira. Fevereiro 25, 2007
- QUE PAÍS É ESTE? - É A PORRA DO BRASIL!
pintura sobre jornal / 1991 Ao longo dos anos 1990 assistimos incessantemente pela TV imagens de guerra civil. Na Bósnia-Herzegovina, em Kosovo, e em outros países do leste europeu nas suas lutas separatistas. Em todos os casos a vida humana não valia um tostão e atrocidades eram cometidas a torto e a direito com a maior naturalidade possível. E a nossa guerra civil tupiniquim, sem nenhum ideal, sempre deflagrada e nunca admitida pelas autoridades brasileiras que viram as costas para a sociedade (ou será o contrário?) e insistem naquela velha idéia do país tropical abençoado por Deus, sem vulcões, sem terremotos e sem guerras? Somos uma nação fraterna, insistem os demagogos enquanto a realidade violenta do dia-a-dia vai provando o contrário com a escalada da barbárie que nos cerca e cada crime mais hediondo que o anterior sempre cai na vala do esquecimento. Somos uma sociedade desigual, apartada e, independente da condição social, quem paga o pato, a conta e a vida é o cidadão comum, aquele que não tem nada a ver com isso. A brutal morte do garoto João Hélio, de apenas 6 (seis) anos, arrastado do lado de fora e atado ao cinto de segurança por um carro furtado, num trajeto de sete quilômetros pelas ruas do Rio de Janeiro, a segunda cidade brasileira, é o sinal do ponto a que chegamos. E é asquerosa a desfaçatez e as posições de certas figuras públicas frente a esse crime. Alguns aloprados esquerdistas disseram que a indignação de parte da sociedade civil seria um sintoma da direita canalha, levando para o centro de uma tragédia dantesca uma disputa ideológica totalmente ultrapassada, senil. É a velha cantilena maniqueísta, de um lado a direita malvada e do outro a esquerda boazinha... E ainda vem o Paulo Coelho, com sua moral de jegue, místico de araque, escrever que todos nós somos culpados pelo assassinato de João Hélio. Com o mesmo raciocínio torto, vem um padre afirmar que o crime é culpa da sociedade. E, claro, Lula não podia ficar sem emitir sua opinião equivocada e escorregadia: a culpa, segundo o presidente, é da sociedade. Não! Não somos culpados não, ilustres senhores. Os culpados por isso, em primeiro lugar, são os próprios assassinos do garoto, os quais ainda debocharam dizendo que o corpo de Joãp Hélio era o Judas deles. E, em segundo lugar, os culpados são as autoridades brasileiras, de todos os poderes, que ditam os rumos do país e nada fazem para reverter essa situação e só são ágeis para trabalhar em proveito próprio e serem corporativos. Pois é, Paulo Coelho, lembra da música Al Capone que você escreveu com Raul Seixas? Os culpados pela escalada da violência no Brasil são os Al Capones, os Ali Babás que infestam a vida pública nacional. Nós não temos culpa por esse estado de coisas. Nós somos vítimas também. Já o senhor, Paulo Coelho, é um privilegiado, aliado e defensor do poder estabelecido. Mesmo quando alguns dos seus representantes são pegos em atos que não deveriam corresponder às suas funções. Fevereiro 22, 2007
SALVADOR NA ROTA DO GHETTO BLASTER
pintura e desenho sobre papel / 1987 Ao longe se escutava uma música que ia aumentando gradativamente e, aos poucos, se tornava mais e mais nítida. Logo depois vem se aproximando um cara com um enorme rádio toca-fitas "ghetto blaster" a tiracolo, todo orgulhoso, uma espécie de DJ ambulante tocando suas canções favoritas pra quem quisesse e quem não quisesse ouvir. Um velho amigo, Antonio Albertino, também conhecido pela alcunha de Professor Astromar, presenciou essa cena enquanto andava pela Quinta Avenida em Nova York. E ele teve a idéia de tentar incorporar a onda do blaster nas ruas de Salvador. Aí, o Professor Astromar trouxe de Miami um ghetto blaster prateado e nos dias de folga do trabalho ele saía caminhando pela Avenida Sete, Vitória e Barra Avenida detonando a todo volume Siouxsie and The Banshees, X-Mal Deutschland. Pessoas paravam para observar e ele virou uma espécie de ídolo dos funcionários dos prédios que, àquela época, tinham verdadeiro fascínio por rádios. E não faltaram propostas feitas pelos porteiros para trocar o blaster por relógios Seiko e Orient. Numa tarde chuvosa de sábado combinamos uma incursão pedagógica, espécie de test drive, com o blaster pelo shopping Iguatemi. E Albertino fez uma seleção de hits da New Wave para deixar os ouvintes passantes literalmente babando. Dito e certo. Depois de duas rodadas no terceiro piso e com o som bem alto, uma turminha de garotas nos seguia, achando tudo maravilhoso. Algumas se tornaram nossas amigas e namoradas. Após vários passeios-perfomance pela cidade a coisa começou a dar frutos. Um pessoal da Boca do Rio passou a freqüentar os lugares com seu blaster e também arrastavam suas fãs femininas ao som de rockabilly, Stray Cats, The Cramps e Meteors. Surfistas, do mesmo modo, aderiram à onda do blaster levando-os para a praia, mas tendo o cuidado de enrolar numa toalha para o salitre não corroer o aparelho. Porém, nem sempre o blaster era bem vindo nos locais. Sêo Jones, gerente de um bar no Canela onde se reunia a jovem boemia admitia tudo em seu espaço menos o enorme rádio. Ele achava que aquilo atrapalhava suas vendas. Então o pessoal que andava com blaster, além do próprio rádio, levava um isopor com cerveja e gelo e ficava reunida em frente ao bar, do outro lado da rua, bebericando e ouvindo o som da sua preferência. Além disso, a seleção musical da casa de Sêo Jones agradava bem mais aos telúricos que curtiam MPB e quando, lá dentro, tocava algo que os roqueiros não gostavam, o blaster, lá fora, explodia em decibéis e abafava a música do estabelecimento. Interessante lembrar que ali pela metade dos anos 1980 a turma do rock de Salvador vencia todas as paradas. Hoje, pobres coitados, os roqueiros não ganham nem em jogo de pauzinho... Parece que o espírito excessivamente "indie" os tornaram acomodados, melancólicos e desprovidos de qualquer senso de humor. Porque algo está acontecendo aqui e você não sabe do que se trata. Não é, senhor Jones?
Daniel Carne de Pescoço, primo do Professor Astromar, com o blaster que fez história em Salvador, a cidade do axé a cidade do horror. Fevereiro 11, 2007
FAUSTINO (NOTA DE UTILIDADE PÚBLICA, CONSELHO AOS DESAVISADOS)
desenho e comp art / 2007 E Faustino estava animado para o carnaval e fazia um punhado de anos que ele não brincava. A cidade, cheia de turistas, já respirava o clima de animação. Depois de passar uma boa temporada do mês de janeiro em sua casa num condomínio na Estrada do Côco, Faustino se juntou a alguns amigos e resolveram se hospedar num apart na Barra para melhor aproveitar a folia momesca. E, claro, teve o cuidado de alugar uma garagem próxima para guardar seu Ford Eco Sport tirado num consórcio. Na semana do carnaval eles já estavam instalados, um big supermercado abastecendo a geladeira e a cozinha. Na noite de quinta feira a animação já estava rolando solta no circuito Barra-Ondina e quando o grupo de Faustino estava para sair, um deles observou a roupa que ele usava e o chamou a atenção. A bermuda cargo que ele vestia, com seus bolsos laterais era um convite aos malandros que se aproveitam da aglomeração de pessoas para praticar furtos. E Faustino tinha no bolso a chave do apart e uma pequena carteirinha de couro com dinheiro e seus amigos começaram a tirar onda com ele. - Faustino, você vai ser roubado. Quando vier o Chicletão não vai sobrar nada no seu bolso. E mais, quando eles tiverem se aproximando, caia fora e vá para uma rua de dentro porque o couro come. Ele perguntou como seus companheiros levariam a chave e o dinheiro para a noitada e eles demonstraram. A chave amarrada, por dentro, no cós da bermuda e a grana dentro do tênis. Era a maneira mais segura de driblar os ladrões de carnaval. Porque, de qualquer jeito, eles sempre encostam na cara de pau e metem a mão no bolso de quem está do lado. Faustino ouviu todas as explicações com atenção, mas deixou para fazer tudo isso na saída e já com umas biritas na cabeça terminou esquecendo da prevenção. Mais tarde, a turma estava reunida na área dos hotéis em Ondina e de longe ouvia-se uma música com o cantor de voz estridente: - ..."intão diga qui valeeeu".... Quem percebeu do que se tratava e não queria passar sufoco tratou de sair dali rapidinho e ir para um local mais tranqüilo e tomar uma cerveja. Faustino esperou além da conta e quando caiu na real já estava dentro de uma rodinha de marmanjos malhados que fingiam dançar pulando e o empurravam de um lado pro outro. Mãos e mais mãos alheias entravam nos seus bolsos e lembrou do que seus amigos tinham alertado. E ele foi tomado por uma sensação horrível e que era amplificada pelo som ensurdecedor do trio elétrico. Tarde demais. Faustino tinha esquecido de esconder seus pertences no tênis e levaram tudo que estava nos seus bolsos. Até a chave do apart eles levaram e ele ficou sem grana, desanimado e virou alvo de gozação da rapaziada que já tinha passado por isso. Mas tudo bem, no dia seguinte Faustino estaria na rua curtindo mais uma noite de carnaval, mas, desta vez, seria mais precavido e não iria dar mole. Fevereiro 7, 2007
OS FLINTSTONES, OS JETSONS E O BRASIL
pintura e desenho sobre papel / 2004 - Vilmaaaaa! Abra a porta, Vilmaaa! Essa era uma cena comum nos desenhos dos Flintstones, quando Dino, o dinossauro de estimação da família, aproveitava de um vacilo do seu dono Fred e, na calada da noite, trancava a porta e o deixava do lado de fora a gritar pela esposa. Os Flintstones viviam na pré-história, na cidade de Bedrock e mesmo assim, levavam um modo de vida "moderno", com seus eletrodomésticos toscos e adaptados com pedras, seus automóveis também de pedra e que eram postos para funcionar com a ajuda dos pés. Fred e Barney, amigos inseparáveis, sujeitos pregos e sempre amparados pelas zelosas esposas Vilma e Betty, respectivamente. Já os seus similares do futuro, Os Jetsons, desfrutavam das maravilhas de um mundo automatizado, carros-foguete e residências cibernéticas. No entanto ambos universos tinham seus encantos e vantagens e quando assistíamos Os Flintstones nos identificávamos com as coisas cotidianas de qualquer sociedade. E com Os Jetsons, sonhávamos com as múltiplas facilidades e possibilidades da vida futura. Mas não lembro de haver entre a garotada brasileira dos anos 1960 uma distinção clara ou uma polarização entre a nossa realidade que, logicamente, seria mais atrelada ao universo pré-histórico dos Flintstones em contraste ao ambiente avançado do primeiro mundo dos Jetsons. Vivíamos numa época de grande ufanismo e a idéia de um Brasil 2000, o país do futuro, era massificada pelos governos militares. Então, assistíamos os dois desenhos um como complemento do outro. Mas o futuro é um tempo que nunca acaba e nós, qual um Fred Flintstone, tropicalista e vacilão, sempre terminamos do lado de fora pedindo para que abram nossa porta, nosso caminho. Fevereiro 4, 2007
O AQUECIMENTO GLOBAL E EM BUSCA DO DR. CHAD
cartão de apresentação do Dr. Chad - 1982 / desenho e colagem sobre papel - 1997 Andando sob o sol inclemente pela avenida Manoel Dias da Silva, nenhuma sombra, nenhuma árvore. Salvador, na Bahia, é um lugar que faz muito, muito calor. Abafado, diferente, melado. Uma zona urbana desarborizada e árida em quase toda sua extensão e a sensação térmica do calor na capital baiana é das mais altas. Recordo que, em devaneios, sempre ficava, e ainda fico, a imaginar a invenção de algo realmente revolucionário. Uma coisa que, por certo, mudaria a vida dos habitantes de regiões que penam com o clima equatorial. Que tal criar um remedinho, sem efeitos colaterais prejudiciais a saúde e que, ao ser ingerido, amenizasse os sintomas do calor insuportável? Bastaria um comprimido diário, pela manhã, e a temperatura ambiente para o ser humano ficaria, sempre, na casa dos 22 graus centígrados. Sem suores, sem odores e sem fisionomias contritas pelo sol. Na Cooper Square, praça que é porta de entrada para o East Village em Nova York, estudantes-camelôs vendem livros, discos, uniformes militares e roupas vintage dos anos 1950/60. Fico interessado num paletó preto e pago meros quatro dólares pela peça. Chegando em casa sou tomado pela surpresa ao encontrar no seu bolso interno, cartões de apresentação de um médico especialista em doenças do ouvido, nariz e garganta, e residente na cidade de Saint Louis, estado de Missouri e que tem o pitoresco nome de P. Chadaratana, Dr. Chad. Não sei bem ao certo, mas lembrei no ato de Salvador, do seu clima abafado e daquela minha idéia do remédio para atenuar os efeitos do calor infernal. Pensei, por quê não vender esta minha idéia a algum médico meio cientista? E por quê não ao Dr. Chad, o P. Chadaratana? Antes de qualquer contato tive o cuidado de ir a um cartório e registrar a minha idéia. Escrevo uma carta ao Dr. Chad e falo sobre a minha proposta de cunho científico e pergunto se ele tem interesse em desenvolvê-la. Dez dias depois recebo sua resposta pedindo para explicar em minúcias do que se tratava. Expliquei tudo direitinho ao Dr. Chad e ele ficou entusiasmado. Depois de alguns telefonemas acertamos um encontro para discutirmos várias questões, inclusive algumas de cunho comercial e de royalties. A bordo de um ônibus Greyhound, percorrendo as estradas da Amerika, paisagens cheias de metáforas enquanto avisto o encontro das águas do Rio Missouri com o Rio Mississipi, ao norte próximo da cidade de Saint Louis. P. Chadaratana, Dr. Chad, me apresenta a cidade e, por cerca de dez dias, conversamos sobre o nosso invento, sobre engenharia genética e assinamos vários documentos referentes ao nosso comprimido anti-calor. Depois, rumo para o Deserto de Mojave, mais precisamente uma localidade chamada Little Stone Valley e depois, Califórnia, a Terra Prometida. De lá, após 6 meses vivendo e torrando o dinheiro da venda da idéia inicial para o Dr. P. Chadaratana, pego um vôo para o Brasil. Chegando aqui encontro o país numa coqueluche em torno do grupo musical Menudo, reforçado com um marketing pesado afirmando que eles eram maiores e mais importantes que os Beatles. E numa madrugada, tomado por um ímpeto inexplicável, fui para as ruas e pichei nos muros da cidade: MENUDO PROVOCA PARALISIA INFANTIL Ass: DR. CHAD Jornais de grandes cidades brasileiras publicaram fotos do grafite, fizeram análises e teceram comentários sobre a frase. Recortei o que estava estampado em alguns periódicos e enviei para o verdadeiro Dr. Chad, o P. Chadaratana. Recebi de volta uma encomenda despachada por ele próprio agradecendo por eu ter citado o seu nome na pichação e parabenizando pela repercussão. Falou sobre o remédio anti-calor, mas, misteriosamente, descartava a sua concretização. E anexado à correspondência, um compacto de Johnny B. Goode, com uma dedicatória para mim e autografado por Chuck Berry. Na carta, o Dr. Chad afirmava ser o seu médico otorrinolaringologista. Depois daí, perdemos o contato. P. Chadaratana, em Saint Louis, dizia tratar de Mr. Berry. E o Dr. Chad, aqui, no calor insuportável de Salvador, ajudou a estragar a festa dos Menudos. |