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Março 30, 2007
PORRADEIRO NÃO CONVERSA... (NO MORE MR. NICE GUY)
desenho e pintura sobre xerox / 1991 - Você soube o que "os cara" fizeram? Bastava ouvir esta frase para se tomar conhecimento de mais uma peripécia da temida turma do Campo da Pólvora, nos anos 1960. Arruaceiros profissionais, exímios lutadores, brigões e boa gente com os amigos e protegidos. Bereréco, Bocáis, Nego Tóia, Oto, Liberato, Gil, Rui, os irmãos Villar aprontavam todas numa Salvador que mal passava dos 700 mil habitantes. Eu ainda era um garoto de dez anos e saía escondido à noite para presenciar as aprontações da turma do Campo da Pólvora. Por exemplo, assistir eles brincar de garrafão, à vera, com tapões e bofetadas fiches que estalavam na noite. Ou então saber em detalhes da briga em que Bereréco se meteu com um pelotão de cinco PMs e quebrou todos os meganhas. Ou das guerras entre turmas rivais de outros bairros que duravam horas. Também teve um episódio inesquecível e que presenciei. Era coisa de 7 da noite quando chegou a notícia que "os cara" estavam armando uma numa das esquinas do Campo da Pólvora. Fui para lá correndo e ao chegar vi que tinha um corpo no chão coberto com um lençol. Um amigo me colocou a par da jogada. Zé Antonio Tanajura, bem mais novo e que fazia de tudo para entrar na turma dos "cara", tinha pegado o carro do pai e simulado um atropelo em Bocáis. No mesmo momento outro da turma jogou o lençol por cima do "atropelado". O pessoal do bar de Espanha que presenciou tudo ficou quieto, pois jamais iria contrariar "os cara". E gente e mais gente se aproximava para ver o acontecido. Nisso chega um rapaz, todo de branco, se dizendo médico e pede para todos se afastarem. Retira o lençol que cobria Bocáís, se agacha e passa a diagnosticar o corpo. Uma mulher cai em prantos e diz: - tão jovem! E Bocáis parecia um defunto, não movia um músculo, não tremia os olhos. O médico, todo compenetrado e querendo aparecer, observa o corpo, toma o pulso de Bocáis e fala como um especialista: - o pulso dele está normal, mas parece que ele sofreu um grave traumatismo. Ninguém deve tocar nele até a chegada de uma ambulância. E o médico foi apressado até o bar de Espanha para fazer uma ligação e pedir assistência da clínica pública Sandú que era perto dali. Em menos de dez minutos chega a ambulância e o médico começou a dirigir os procedimentos para colocar o corpo de Bocáis no veículo. Exigiu maca, pediu soro, e quando, com Bocáis ainda no chão, tomou o seu braço e se preparava para enfiar a agulha na veia, Bocáis dá um pulo e sai gritando: - médico otário, médico otário... As trinta pessoas que a tudo acompanhava tiveram reações diferentes. Os que conheciam os "cara" caíram na gargalhada, os estranhos ficaram chocados. Já os comparsas de Bocáis ridicularizaram o médico que saiu de cena furioso e avisando que iria trazer os seus colegas para se vingar. E naquela noite eu vi mais uma batalha tomar conta da praça. Golpes certeiros, socos, martelos, bênçãos, rasteiras. E o médico e seus companheiros saíram escorraçados e sentiram na alma e na pele toda escrotidão e virulência da turma do Campo da Pólvora. Março 29, 2007
NOS CALCANHARES DE IBN BATTUTA
desenho sobre papel / 1996 Ibn Battuta já tinha percorrido uma grande distancia e esperava o nevoeiro dissipar para continuar sua jornada. Ele ainda não conseguia acreditar no que tinha visto quando encontrou Bagdá em ruínas, destruída pela fúria da invasão mongol. Battuta descreveu Zaila, na Somália, como a cidade mais suja do mundo e soube através dos habitantes de Calicut, localizada na costa malabar da Índia que o seu porto foi visitado por mercadores de Sumatra, da China, do Iêmen, das Ilhas Maldivas e do Iran. E maravilhado constatou que o porto de Zaitun na China era o mais grandioso de todos. Aos 20 anos, em 1325, ele saiu da sua Tangier no Marrocos e por mais de duas décadas perambulou pela Ásia. Battuta fazia questão de permanecer num local por meses, anos a fio. No nordeste do continente asiático testemunhou uma tribo das estepes combatendo os inimigos com virulência descomunal e eles avançavam sobre as vilas, queimavam documentos e livros históricos, pilhavam os templos e destruíam todo o sistema de irrigação que era vital para produzir os alimentos da população nativa. Anos depois encontrou dias tranqüilos viajando sozinho pelas trilhas asiáticas carregando consigo grande quantidade de dinheiro sem ser importunado ou roubado. Almoçou com reis, jantou com guerreiros, manteve contatos com governantes humildes e que andavam entre o seu próprio povo. Em outras situações percebeu que certos líderes eram sorrateiros, traiçoeiros e sedentos de sangue. Suas andanças cobriram a distancia de 121.000 km, três vezes mais que as viagens de Marco Polo. E ali por volta de 1331, nas montanhas da Ásia Central, Battuta estava pronto para seguir uma expedição rumo à região de Il-Khanate e lembrava que no dia anterior havia observado águias caçadoras serem treinadas. Ele que já tinha presenciado tanta coisa em suas andanças sentiu uma emoção diferente aos ver aquelas aves mergulhando vertiginosamente em direção à presa. Março 26, 2007
WIRED VILLAGE BLUES
desenho e colagem sobre papel / 2004 Talvez num antigo filme de ficção científica ou num documentário um homem em frente a um enorme equipamento, cheio de comandos e telas e aquilo era apresentado como um computador. Operar aquela geringonça não era tarefa para simples mortais e o cara que comandava a máquina tinha pinta, aspecto e até farda de cientista. O código da linguagem binária, o uso da tecnologia cibernética para fins bélicos ainda na Segunda Guerra Mundial, os computadores da NASA no auxílio aos vôos espaciais, o que estava sugerido no filme 2001 de Stanley Kubrick, tudo parecia tão próximo e tão distante do homem comum. Não sei se Bill Gates ou Steve Jobs ou ambos ou nenhum dos dois, na garagem da casa dos pais, futucando manuais e ferramentas montando aos poucos um protótipo de computador caseiro. Os preços altos e inacessíveis no início da nova tecnologia e os valores que se ajustam à medida que a indústria os absorve e os custos se barateiam. Tudo era muito caro. E hoje, na estreita rua incrustada no quilombo urbano a lan house está lotada e cobra apenas 1 real por hora pelo acesso a internet. E todo mundo está ligado, todo mundo está se conectando. E agora, o que está sendo tramado e articulado em termos de tecnologia nos círculos mais avançados da ciência? Março 21, 2007
PREVINA-SE OU CONTAMINE-SE
comp art / 2007 Conheci Eduardo Scott lá no longínquo ano de 1978 quando a gente surfava as ondas da ainda deserta praia de Stella Mares, aqui em Salvador. Ele era fanático pelo AC/DC e seu sobrenome era por causa do cantor da referida banda australiana, Bon Scott. Coisa de três/quatro anos depois, lá estava Eduardo Scott e sua turma do bairro do Stiep nos primeiros shows públicos do Camisa de Vênus. E logo logo ele começou a agitar a formação de uma banda que entrou para a história, não só do rock feito na Bahia, mas também do Brasil. Seu grupo, Gonorréia, ajudou a espalhar a pólvora do punk rock em terras soteropolitanas, levando à loucura o público e enchendo de raiva os telúricos e a tradicional família baiana. Afinal, assim como Camisa de Vênus, Gonorréia era um palavrão, algo indecoroso para os padrões da época. O Gonó, como era carinhosamente chamado pelo seu público mais fiel, arrastava multidões e estabelecia uma comoção nos palcos em que se apresentava. Eles tinham uma proposta anárquica e uma energia que não passavam despercebidas. A popularidade e o carisma da banda era tal que, em 1983, num festival feito para divulgar a então pulsante cena roqueira de Salvador foi descoberta uma armação. Não importava o talento das outras bandas porque o acordo prévio dos organizadores do festival seria o de premiar o Skarro, um grupo montado por músicos "profissionais" que enxergaram no rock uma forma de ganhar destaque. O Skarro poderia até tocar melhor que os outros concorrentes, mas a eles faltava uma coisa crucial: autenticidade. E ao tomar conhecimento da armação, um público de quase três mil pessoas encenou uma ruidosa bagunça em forma de protesto e berrava em uníssono: "Gonorréia... Gonorréia...". Os produtores do evento, amedrontados, desfizeram o conluio, a trama ardilosa, e o Gonó foi o vencedor com todos os méritos. Em cena eles eram hilários, mas sem essa de engraçadinhos. Sua sonoridade intensa e suas letras esculhambativas tiravam um sarro da nossa situação política, social e comportamental. As canções descreviam as situações mais absurdas: Coma Lixo Pra Morrer Banguelo, As Historinhas Que Ninguém Come, Satânico, Quero Me Casar, etc. Miltão na batera e Miguelão Bahiense no baixo faziam uma marcação colada com aquela clássica pegada punk balançada - tum tum tum tum. A guitarra de Paulinho era um esporro cadenciado. E Eduardo Scott, no vocal, liderava a banda com uma interpretação impecável, voz nítida e uma dança que ele dizia haver copiado do desenho animado Pepe Legal. O Brasil de 1983/84 estava saindo das trevas da ditadura militar, mas a mão pesada da censura ainda rondava. E ela foi cruel com o Gonorréia: num certo dia eles foram abordados pelos agentes federais da repressão que os obrigaram a acabar com a banda imediatamente. Hoje é impensável uma banda de rock ser censurada, ser considerada uma ameaça e ser proibida de tocar, mas isso aconteceu com eles. Assim, de forma arbitrária, o Gonó chegou ao seu fim sem nenhum registro fonográfico digno do seu potencial. Apenas fitas cassete gravadas em shows e que corriam de mão em mão. Antes do inesperado e truculento final eles foram citados em jornais e revistas do sul do país como uma banda de potencial destaque no rock brasileiro. E agora, mais de vinte anos depois da anarquia apocalíptica de 1982/83, Eduardo Scott numa manobra de mestre resgata a história do Gonó com um CD que traz as pérolas do antigo (e atemporal) repertório e algumas recentes. Além de um livreto muito bacana que relata a trajetória do grupo e escrito pelo jornalista Eduardo Bastos. No projeto do CD propriamente dito, Scott e Miguel Bahiense, únicos remanescentes da formação original, se aliam a músicos da pesada como o guitarrista e produtor André T, Jô Estrada, Rex (baterista dos Dead Billies e Retrofoguetes), a participação especial da guitarra de Gustavo Mullem (Camisa de Vênus), e fazem o registro fonográfico do Gonorréia. E é intrigante perceber que mesmo após todos esses anos o Gonó continua sendo, sem dúvida nenhuma, uma das melhores bandas do rock nacional. O resultado é muito bacana e este registro é importante e mais que oportuno, pois traz à tona uma coisa que estava meio que perdida na história cultural da cidade de Salvador. E também serve como informação, pois é perceptível que as novas gerações não se interessam em saber o que houve de vibrante em seu próprio quintal e, também, não têm o conhecimento do real significado do levante rock de 1982 na terra do axé. E o Gonó está de volta à ativa, de volta aos palcos. Março 19, 2007
ESPETÁCULO DO CRESCIMENTO
desenho sobre papel / 1998 em plena madrugada quando a sirene tocou você virou de lado e fingiu que não escutou se você não viu o muro desabar nem sentiu o vento soprando de lá pra cá antes quem vencia logo aparecia na propaganda do cigarro que levava ao sucesso hoje é reconhecido e é logo recebido com todas as honras no salão negro do congresso são noventa dias pro feijão crescer nove meses pra mulher dar à luz um bebê paciência de pescador pescando no lago azul nunca pode ter pressa o apressado come cru o coveiro do sistema na porta do cemitério convence o otimista que ele nunca leva a sério o artista de hollywood que enfia a mão na lama quer bem mais que os quinze minutos da fama no escuro do cinema quando a tela se ilumina você já viu o filme e sabe como termina o discurso que ele faz e parece tão perfeito promete mudar tudo pra tudo ficar do mesmo jeito são noventa dias pro feijão crescer nove meses para a mulher dar à luz um bebê paciência de pescador pescando no lago azul nunca pode ter pressa o apressado come cru Março 16, 2007
SURFANDO NA MÚSICA DAS ONDAS REAIS
desenho e colagem sobre papel / 2000 De repente a estrada ficou pequena e a vontade de ir a todos os lugares se tornou uma necessidade vital. Como seria bom se a gente pudesse conhecer todas as regiões imagináveis num simples ato de vontade. Numa ilhota quase perdida das ilhas Salomão ali no Pacífico tropical onde as ondas quebram perfeitas eu não conseguia acreditar que iria surfar o surf que sempre sonhei. Bem cedinho e no caminho da praia, as mangueiras com seus frutos maduros exalavam seu perfume característico. E eu fazia uma parada e juntava uma boa quantidade deles, os colocava num saco plástico e antes de entrar no mar cavava um buraco fundo na beira da água e enterrava as mangas para comê-las depois da sessão de surf. Com a cabeça feita das maravilhosas ondas. Faminto e saciado. As mangas enterradas à beira-mar era um truque aprendido com os surfistas nativos de Itacaré. Fazendo isso, elas resfriam e se tornam ainda mais deliciosas. Lembrava da minha primeira viagem até lá e que se confundia com a minha trajetória até às ilhas Salomão a bordo de um veleiro. As noites no meio do oceano. Vasto e misterioso. Ali na beira da praia e devorando as mangas eu jurava não ter a menor vontade de mais nunca sair daquele lugar. A visão do paraíso. Alimentos à disposição, o peixe assado no fogo no chão, o sorriso das belas mulheres de feições polinésias envoltas em tecidos floridos coloridos. Voluptuosas e sedutoras. O mundo sob os pés, ao seu inteiro alcance. O barulho musical das ondas explodindo nas bancadas de coral vivo. A paisagem da ilha vista do mar, as montanhas verdes cobertas pela floresta. Qual o sentido de sair, ir embora, deixar aquele lugar? Voltar pra quê?
eu, eu mesmo, sozinho no mar e desfrutando da perfeição itacareense no inverno de 1986 Março 13, 2007
PATTI SMITH
grafite em Olivença - Ilhéus / 1997 Patti Smith acaba de ser indicada para o Rock´n´Roll Hall Of Fame e o prêmio é mais do que merecido já que se trata de uma das mais brilhantes e inquietas artistas dos nossos dias. Dias turbulentos e infestados de nulidades que são promovidas a celebridades instantâneas pelo hype nosso de cada dia. Alimentando uma teoria conspiratória, eu diria que o hype se articula e se processa através de uma rede internacional, invisível e desenvolvida para alimentar um mercado que, para se manter, precisa de uma novidade a cada segundo. E os desavisados meio que lobotomizados sempre estão dispostos a embarcar nessa viagem. Mas o barco de Patti Smith não navega por estes mares manjados da rota musical efêmera. Sua obra está alguns quilômetros acima do nível desse imenso oceano de bobagens que povoam o rock da atualidade. E foi uma alegria e uma grata surpresa ler o editorial escrito por ela para o New York Times publicado ontem, 12 de março de 2007, em que ela fala como se sente e sobre o que representa receber tal premiação. As contradições, mas acima de tudo o rock´n´roll como uma militância, um ideal revolucionário e de transformação. Com toda certeza, a reação de milhares de seus admiradores foi: - uáááu, Patti Smith escalada para escrever um editorial para um jornal da magnitude do NYT?... E logo na abertura ela descreve que quando era uma garotinha e andava pela rua com sua mãe, ela ouviu Little Richard cantando Tutti Frutti e o impacto daquilo foi tão forte que a fez se soltar da mão materna. Bela metáfora, Patti. Um textaço, uma obra de arte. E no rodapé do editorial do New York Times uma informação crucial e que a diferencia dos seus colegas de profissão. "Patti Smith is a poet and performer". Então, aí segue o texto de Patti na íntegra e vai sem tradução mesmo. Qualquer tradutor online pode fazer esse serviço bem rápido pois a escrita é simples e cristalina, sem complicações e sem firulas.
Op-Ed Contributor AIN´T IT STRANGE? By PATTI SMITH Published: March 12, 2007 On a cold morning in 1955, walking to Sunday school, I was drawn to the voice of Little Richard wailing "Tutti Frutti" from the interior of a local boy´s makeshift clubhouse. So powerful was the connection that I let go of my mother´s hand. Rock´n´roll. It drew me from my path to a sea of possibilities. It sheltered and shattered me, from the end of childhood through a painful adolescence. I had my first altercation with my father when the Rolling Stones made their debut on "The Ed Sullivan Show". Rock´n´roll was mine to defend. It strengthened my hand and gave me a sense of tribe as I boarded a bus from South Jersey to freedom in 1967. Rock´n´roll, at that time, was a fusion of intimacies. Repression bloomed into rapture like raging weeds shooting through cracks in the cement. Our music provided a sense of communal activism. Our artists provoked our ascension into awareness as we ran amok in a frenzied state of grace. My late husband, Fred Sonic Smith, then of Detroit´s MC5, was a part of the brotherhood instrumental in forging a revolution: seeking to save the world with love and the electric guitar. He created aural autonomy yet did not have the constitution to survive all the complexities of existence. Before he died, in the winter of 1994, he counseled me to continue working. He believed that one day I would be recognized for my efforts and though I protested, he quietly asked me to accept what was bestowed - gracefully - in his name. Today I will join R.E.M., the Ronettes, Van Halen and Grandmaster Flash and the Furious Five to be inducted into the Rock and Roll Hall of Fame. On the eve of this event I asked myself many questions. Should an artist working within the revolutionary landscape of rock accept laurels from an institution? Should laurels be offered? Am I a worthy recipient? I have wrestled with these questions and my conscience leads me back to Fred and those like him - the maverick souls who may never be afforded such honors. Thus in his name I will accept with gratitude. Fred Sonic Smith was of the people, and I am none but him: one who has loved rock´n´roll and crawled from the ranks to the stage, to salute history and plant seeds for the erratic magic landscape of the new guard. Because its members will be the guardians of our cultural voice. The Internet is their CBGB. Their territory is global. They will dictate how they want to create and disseminate their work. They will, in time, make breathless changes in our political process. They have the technology to unite and create a new party, to be vigilant in their choice of candidates, unfettered by corporate pressure. Their potential power to form and reform is unprecedented. Human history abounds with idealistic movements that rise, then fall in disarray. The children of light. The journey to the East. The summer of love. The season of grunge. But just as we seem to repeat our follies, we also abide. Rock´n´roll drew me from my mother´s hand and led me to experience. In the end it was my neighbors who put everything in perspective. An approving nod from the old Italian woman who sells me pasta. A high five from the postman. An embrace from the notary and his wife. And a shout from the sanitation man driving down my street: "Hey, Patti, Hall of Fame. One for us." I just smiled, and I noticed I was proud. One for the neighborhood. My parents. My band. One for Fred. And anybody else who wants to come along. Patti Smith is a poet and performer. Patti Smith. That´s what rock´n´roll is all about. Março 11, 2007
A BALADA DA ESTRELA CADENTE
desenho e pintura sobre papel / 2006 estrela cadente ilumina a madrugada são tantos os pedidos das pessoas acordadas já faz tanto tempo que a gente não se encontrava no rastro da estrela fui parar em sua casa mas se for assim nada disso vai ter fim a estrela que caiu talvez não mude nada porque o futuro é o tempo que nunca acaba estrela cadente vem de forma inesperada quem viu fez o pedido quem não viu não pediu nada na fração do segundo a estrela correu o mundo pensei logo em você e até mudei meu rumo mas se for por mim nada disso vai ter fim a estrela que caiu vai mudar a madrugada porque o futuro é o tempo que nunca acaba Março 7, 2007
DELIRIUM TREMENS - O FANZINE
xerox art / 1981 Karl Franz Hummel estava na Europa fazendo um curso logo após ter concluído a faculdade e o Camisa de Vênus estava dando um tempo em suas atividades esperando a volta do seu guitarrista. A anarquia apocalíptica tinha de ter prosseguimento e o ano de 1981 precisava de algumas ações para ajudar a sacudir o marasmo que sempre (sempre!!) esteve presente em Salvador da Bahia. Bem, de nossa parte a peteca não caía e desde 1978/79 eu espalhava os grafites do Faustino pela cidade e Marcelo Nova comandava o programa Rock Special na Rádio Aratu. E conseguíamos uma resposta surpreendente do público às nossas atividades. Em meados de 1981, numa conversa entre mim e Marcelo surgiu a idéia da gente fazer um fanzine em xerox para dar vazão ao turbilhão de propostas que tínhamos em mente. O nome escolhido para o fanzine foi Delirium Tremens. E com a ajuda e participação igual de Rosana Almeida e Marla Nova, reunimos desenhos e textos e passamos a nos dedicar a esse projeto. Estávamos conscientes do que queríamos e fazíamos questão de marcar um outro território na cultura local. Logo na página de apresentação colocamos uma espécie de anti-homenagem com os dizeres: "Delirium Tremens não é inspirada em:..." E, então listamos alguns personagens e temas que não desejávamos, em hipótese alguma, ter o nosso trabalho ligado. Nesta lista, pela primeira vez, é citada a famigerada (para nós, graças a Deus!) cultura axé, representada ao nosso ver pelo "pessoal do axé", além de outros medalhões da baianidade. De nossa parte, a tal cultura baiana - que começava a ganhar força com o apoio oficial, foi uma escolha intencional e proposital como alvo e algo totalmente antagônico e contrário à nossa proposta artística. Com quinze dias reunimos todo material e o reproduzimos, de maneira clandestina, nas copiadoras xerox da Telebahia e da Rádio Aratu, locais onde eu e Marcelo, respectivamente, trabalhávamos. E numa tarde de sábado, já com as cópias prontas, montamos cerca de 700 (setecentos) exemplares do Delirium Tremens. Depois conseguimos fazer o lançamento do fanzine numa festa na casa noturna Dose Dupla, e assim o Delirium Tremens começou a circular na cidade. Em pouco tempo todos os exemplares evaporaram. Ainda tive o cuidado de enviar um deles para uma revista do sul do país de fotografia e cultura em geral de nome Íris e ela deu um bom e inesperado destaque a nossa publicação. Também fizemos um segundo número, melhor ainda que o anterior, mas em quantidade bem menor. Uma outra alegria é que o nome do nosso fanzine serviu como inspiração para batizar outra grande banda de rock de Salvador, a Delirium Tremens, de Hélio Rocha, Jerry Marlon e João Maia. No entanto, numa dessas manobras do destino não guardei, nem como lembrança, um exemplar sequer do nosso comentado e lendário fanzine. Este primeiro número me foi presenteado meses atrás por Tony Lopes, baterista da banda que faço parte, Koyotes. E se alguém ainda tiver uma cópia do número 2 do Delirium Tremens e quiser me passar, eu agradeço. Nem que seja em arquivo eletrônico. Março 4, 2007
KAREN DALTON KATIE´S BEEN GONE
comp art / 2007 Durante três décadas um LP foi cultuado por aficionados, disputado por colecionadores e chegando ao extremo de ser escondido por aqueles que o tinham e que não o deixavam à mostra com receio de vê-lo ser furtado até por amigos. In My Own Time, o segundo álbum de Karen Dalton, era considerado um tesouro perdido do folk rock. Lançado em 1971 com produção de Harvey Brooks, baixista que participou das gravações de Highway 61 Revisited de Bob Dylan e de Bitches Brew de Miles Davis. Dotada de uma personalidade arredia, nascida no estado de Oklahoma em 1938 e descendente de nativos índios norte-americanos, Karen era uma das performers preferidas dos bares novaiorquinos de música folk ali por volta de 1961/62. Bob Dylan falou sobre ela no seu livro Chronicles dizendo ser sua cantora favorita dos seus tempos iniciais no Greenwich Village. Ela não era compositora, interpretava canções alheias adaptando-as à sua própria maneira de cantar com sua voz parecida com a de Billie Holiday, algo que a deixava desconfortável com esta comparação. Sabe-se que ela não gostava dos estúdios de gravação e tinha de ser persuadida e até enganada para a realização das sessões. Só veio gravar o seu primeiro disco em 1969, entitulado It's Hard To Tell Who's Going To Love You The Best e as canções foram registradas num primeiro e único take. Em 1971, Harvey Brooks consegue a façanha de, finalmente, produzir um disco de Karen com calma e com o acompanhamento de músicos mais qualificados, e embora tenha sido um fracasso de vendas se transformou num clássico com o decorrer do tempo . Assim, em In My Own Time, Karen Dalton passeia pelo folk rock, pelo folk tradicional, pelo soul, pelo jazz, pelo blues, moldando tudo isso ao mesmo tempo e criando uma atmosfera única. A belíssima faixa inicial, Something In Your Mind, de Dino Valenti, abre com um instrumental denso e quando a voz de Karen surge tem-se toda a dimensão do seu talento. Após In My Own Time, Karen fez participação vocal num LP do The Holy Modal Rounders gravado em 1973 e, depois disso, poucas informações se tem dela além do seu vício em álcool e drogas. E o enigma de Karen Dalton permanece até hoje e o interesse em sua vida e obra só faz crescer à medida que novas informações surgem. Afinal pouco se sabe sobre ela, o que fez e por onde andou depois de 1974. Caiu no esquecimento e morreu em 1993, como uma sem-teto, homeless, nas ruas de Nova York. O LP, vinil, de In My Own Time que durante mais de trinta anos foi um fetiche, dificílimo de ser encontrado e cotado a peso de ouro foi relançado no ano passado no formato CD com textos adicionais de Lenny Kaye e Nick Cave. Conta-se que Karen Dalton escrevia poemas e que ela pode ter escrito também canções e, mais enigmático ainda, não se sabe o que ela fez com o seu acervo particular. Se ela o entregou a alguém. Se ela própria jogou fora em algum container de lixo de Nova York ou outra cidade americana. Se ela queimou ou mesmo enterrou os seus papéis.
(da esquerda para direita) Dylan, Karen Dalton e Fred Neill no Cafe Wha? - fevereiro de 1961 Karen Dalton mostra sua versão para It Hurts Me Too, originalmente popularizada pelo bluesman das antigas Elmore James |