Junho 27, 2007

VOANDO FORA DO TEMPO E ELE ACHA QUE SERÁ PARA TODO O SEMPRE




pintura sobre papel - 2006



Lá do alto a Terra é diferente. Parece outra coisa. E na estação orbital o ar tem outros componentes, a percepção tem outro significado.

Ele não queria retornar da expedição ao espaço para a qual foi despachado e, então, começou a elaborar um plano. Iria se esconder no emaranhado das máquinas no dia da volta programada. Pensando incessantemente nesta idéia, decidiu conhecer e mapear toda a estação. Vasculhou cada setor e descobriu que havia um local de difícil acesso e totalmente desconhecido. No meio das engrenagens havia espaço suficiente para por em prática aquilo que estava em sua mente.

Nas horas vagas ele burlava as câmeras e, secretamente, começou a construir uma espécie de aposento-laboratório. Nele acondicionou um estoque clandestino de todos os tipos de suplementos capazes de abastecê-lo por anos a fio e aos poucos foi montando um terminal tecnológico com tudo que fosse necessário para receber a guardar informações.

Estava decidido a viver neste recinto pelo resto dos seus dias. Gostava do ambiente e da vida que levava no espaço e não sentia falta da rotina terrestre nem saudades da família que o esperava lá embaixo. Orgulhava-se ao imaginar como uma espécie de apátrida interestelar, um exilado espacial. Vagaria infinitamente pelos céus e um dia ele seria esquecido ou dado como desaparecido pelos homens do projeto.

Tudo que necessitava estava ao seu alcance e no seu aposento ele faria anotações que poderiam ser úteis no futuro. Ali ele seria uma experiência de si mesmo e teria tempo de sobra para fazer algo que mais lhe dava prazer. Passar horas observando o universo por uma escotilha tentando desvendar de onde todos nós viemos.




Junho 24, 2007

OS CONTOS PROIBIDOS DE GUSHIKEN - volume 1




comp art (2007) e pintura sobre papel (1992)



AQUELE HOSPÍCIO CHAMADO BRASÍLIA
(Um pesadelo curta metragem)


Caminhando pela rua principal nota-se a existência de um túnel. A figura de Delfim Neto assombrou os pesadelos da noite passada e um enorme bolo confeitado decora a entrada deste túnel e o bolo cresce a cada segundo, para depois ser dividido.

No pesadelo, Delfim mostra nas suas mãos gordinhas, duplicatas de trinta e sete anos atrás ainda assinadas por Robert McNamara e endossadas por ele próprio, Delfim, e com a autorização e rubrica do general Garrastazu Médici.

Na parede interna e logo na portaria do túnel um colorido pôster de uma praia nos lençóis maranhenses está sendo pendurado pelo senador Sarney em pessoa.

O túnel parece ser profundo e alguns passos adiante surgem clones de Zé Dirceu com o rosto ainda jovem de quando era militante estudantil. São dezenas deles que declamam discursos ideológicos diferentes entre si para desnortear o visitante.

Recepcionistas sósias da senadora Ideli Salvatti trajando minúsculos biquínis distribuem brindes do Bradesco. Um protótipo da Máquina do Tempo está sendo experimentado e Renan Calheiros se oferece como cobaia, e num espaço de três minutos ele aparece ora como chefe da tropa de choque de Collor, ora como chefe da tropa de choque de Lula.

Vejo Gilberto Gil de mãos dadas com outro Gilberto Gil. Um veste um sofisticado terno na cor cinza-petróleo da grife Yamamoto e o outro em trajes étnicos de alguma tribo perdida. Os dois Gil são acompanhados por um bando de garotos haitianos que gritam palavras de ordem pelo controle da cultura.

José Genoíno monta um stand e se apresenta como representante das cuecas Zorba. Uma enfermeira inflável faz uma demonstração aplicando injeções de botox no rosto de Marta Suplicy. E logo adiante pode-se observar a ministra Dilma Roussef ostentando uma faixa onde se lê Miss Simpatia e ela oferece aos passantes suco de limão amargo sem direito a açúcar ou adoçante.

Nos monitores de tela plana dispostos estrategicamente ao longo do túnel o professor Pasquale intermedia um diálogo entre Severino Cavalcanti e Luis Inácio Lula da Silva. Ele informa para quem quiser ouvir que a maneira como eles falam é a Nova Gramática, não da língua portuguesa, mas da recém criada Língua Nacionalista Brasileira da Inclusão Social.

O ar rarefeito do interior do túnel demonstra que aquele ambiente é para poucos e quem é acometido por algum mal estar é atendido pelo doutor Dráuzio Varela com o amparo espiritual de Frei Beto.

Sei que é apenas um sonho meio esquisito e, sufocado, saio correndo rumo à saída do túnel derrubando colunas de papelão projetadas por Niemeyer. Alcanço a rua aos tropeços, sigo desembestado na direção do aeroporto e entro num avião das Linhas Aéreas Paraguaias.




Junho 20, 2007

EU TAMBÉM OUVI A VOZ DE UMA GERAÇÃO




compart - 2007



"I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked,
dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix;..."

Na tradução da edição brasileira dos anos 1980:
"Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa...".

Assim começa Howl (Uivo), o épico poema de Allen Ginsberg, declamado publicamente pela primeira vez em 1955, causando um rebuliço nas hostes literárias e levando o seu autor às barras da lei. Por causa desta obra Ginsberg foi acusado de obscenidade, atentado ao pudor.

Ao lado de Jack Kerouac, William Burroughs, Lawrence Ferlinghetti, Neal Cassidy e mais alguns malucos, Ginsberg formatou a Beat Generation, movimento da Contracultura que trouxe para as artes a uma nova força criativa. Ele foi um dos escritores mais prolíficos da cultura ocidental, um guru do underground, verdadeiro outsider. Howl, o seu uivo primal, de ritmo vertiginoso e encharcado de influências jazzísticas foi uma das fontes para as letras mais bacanas do rock´n´roll.

A fama de Ginsberg ultrapassava fronteiras, mas aqui no Brasil dos anos 1960/70 suas obras não eram publicadas e a gente tinha de se virar para conseguir nem que fosse um pedaço de papel com algo escrito por ele. Publicações da imprensa alternativa nacional reproduziam algumas coisas, algumas fotos suas, no entanto era muito pouco para saciar a curiosidade.

E não só eu, mas toda a turma que venerava o rock´n´roll e a contracultura tinha uma obsessão pela obra de Ginsberg. Através de informações passadas boca a boca, a gente tomava conhecimento da sua incessante produção, das suas performances tendo bandas de rock como apoio, do seu ativismo político. Das suas andanças, conversas e parcerias com Dylan, Lennon. Da sua participação na canção Ghetto Defendant, no disco do Clash, Combat Rock. Porém, só a partir de 1984, trinta anos depois de Howl, é que alguns dos seus livros foram lançados entre nós.

Caminhando pelo Greenwich Village no início da primavera de 1983, eu vi um cartaz anunciando para os próximos dias um recital de Allen Ginsberg num daqueles bares esfumaçados que infestam o bairro boêmio novaiorquino. Jamais poderia deixar passar tal oportunidade e tratei logo de adquirir ingressos antecipados. E na noite de estréia eu já estava rondando o local com horas de antecedência e fiquei surpreso, pois na porta tinha pessoas tão ansiosas quanto eu.

Ao entrar no recinto me espantei porque me deparei com um palco como se estivesse preparado para um show de rock. Spots de luzes, bateria montada, amplificadores de guitarra e baixo e um microfone no centro. Uáááu!! Que grata surpresa... E eu que pensava que recital de poesia fosse tipo aqueles que aconteciam (e ainda acontecem!) no sisudo e enfadonho Gabinete Português de Leitura, daqui de Salvador.

Tem início a performance de Ginsberg e ele conta histórias, vai declamando com voz cavernosa seus longos poemas. São canções quilométricas alternando bases sonoras intensas de blues, de ruídos, de free jazz, de rock. Ele está sendo acompanhado por alguns músicos da cena local e reconheço entre eles o guitarrista Robert Quine que também tocava na banda de Lou Reed.

A platéia magnetizada digere cada palavra mastigada pelo bardo e explode num urro uníssono ao término de cada música. No final da apresentação, enquanto a banda massacra um rock´n´roll insano, Allen desce do palco e se junta à platéia numa celebração pagã e vai saindo de cena entoando uma espécie de mantra enquanto sua voz ainda ecoa nas caixas de som.

Eu e minha namorada vamos andando pela rua 8 em direção ao Cooper Square e caminhamos quadras e quadras em silêncio. Era como se tivéssemos participado de um ritual religioso. As luzes dos arranha céus pareciam diferentes, o ritmo da cidade parecia diferente e um zumbido nos ouvidos permanecia repetindo a voz de trovão de Ginsberg.

Durante toda a primavera Allen Ginsberg permaneceu em Nova York instalado no seu loft da Bowery e era visto por todos, passando de um lado pra outro, sendo abordado por admiradores e, muitas vezes, distribuindo autógrafos. Embora fosse uma lenda viva, uma figura mítica, ele nada tinha de estrela ou pedantismo. No Café Veselka, onde grande parte do East Village se reunia para o café da manhã, ele surgia de repente e todos se calavam numa espécie de reverência. Allen fingia que não era com ele e ia passando pelas mesas distribuindo acenos e sentava no seu canto.

Ginsberg, assim como qualquer habitante daquele pedaço de Manhattan, conhecia todos de vista. E depois de passarmos por ele algumas vezes ficamos surpresos quando fomos saudados com um simpático "hello, my friends!".

Aquela era a voz de Allen. Inconfundível, cavernosa e uivante. A voz de uma geração. Idêntica àquela da sua performance inesquecível. E ele dirigiu para nós as mesmas palavras com que recebeu seu público. No caso de Ginsberg, muito mais que um público, seus seguidores fiéis.





Ginsberg & Paul McCartney numa apresentação conjunta no Royal Albert Hall, Londres, 1995.



Junho 17, 2007

MADONAS DO SÉCULO 21




pintura, desenho e colagem sobre papel - 2004 / 2005



Mestres da Renascença a exemplo de Rafael, Leonardo Da Vinci, Sandro Botticelli e outros eternizaram quadros que retratavam as Madonas. São representações de uma figura feminina carregando uma criança à semelhança da Virgem Maria que traz em seu colo o Jesus quando ainda criança.

Na fuga para o Egito, a Bíblia descreve todo o sofrimento da família sagrada atravessando o deserto e diante desta narrativa podemos imaginar uma Maria, contrita e angustiada com o filho junto a si, numa jornada simbólica em mais uma parábola sobre a dor, algo tão recorrente quando se trata de religião.

Mas deixando de lado os dogmas e as crenças religiosas, a imagem das Madonas permanece através dos tempos se adaptando a outras realidades ou circunstâncias.

E lá estão elas presentes, mais uma vez, redivivas em alguma catástrofe natural, em alguma ação de guerra que atinge a população civil, ou mesmo ao nosso lado numa esquina de uma cidade brasileira qualquer.

No início do mês de setembro do ano de 2005, em uma localidade russa de nome Beslan, terroristas chechenos invadiram uma escola no dia do retorno às aulas. Fizeram reféns centenas de pessoas e num final trágico trezentas delas foram massacradas, a maioria crianças.

Ao redor do mundo fotógrafos que cobrem situações deste tipo, paradoxalmente, se tornam espécies de pintores de madonas contemporâneas ao testemunhar e retratar cenas assim.




Junho 13, 2007

NAS SUAS FÉRIAS DO FUTURO OS ROBÔS IRÃO TE ATACAR




desenho e colagem sobre papel - 2006



Existem aqueles filmes que perduram na memória. Você os assistiu há anos, décadas atrás e eles ainda permanecem na sua mente, às vezes meio truncados, às vezes intactos na sua totalidade.

Lembro em especial de um que assisti no Cine Guarany ali por volta de 1975 e que se chamava Westworld. No Brasil recebeu o título de Onde Ninguém Tem Alma. Um filmaço ao estilo ficção científica, o qual me fez voltar várias vezes ao local para revê-lo. A história é mais ou menos assim...

Num tempo futuro têm-se espécies de colônias de férias temáticas nas quais alguns turistas escolhem passar uma temporada. E a eles são oferecidas três opções: Idade Média, Roma Antiga ou Velho Oeste.

Nestes locais os habitantes nativos são robôs humanos e eles são programados apenas para entreter os visitantes em todos os aspectos. Proporcionar emoções variadas, mas nunca machucar os hóspedes.

Os dois protagonistas, amigos que saem de férias, escolhem o Velho Oeste e ao chegar se vêem numa típica cidade da era do bang bang com todos aqueles clichês: cowboys, saloons, garotas sedutoras, duelos.

Tudo corre às mil maravilhas quando de repente algo estranho acontece com as réplicas humanas da estação. Elas, por algum motivo, desobedecem ao comportamento previsto e passam a enfrentar e atacar os visitantes. O robô que se rebela, magistralmente interpretado por Yul Brynner, começa a ficar invocado com um dos visitantes, se torna um assassino potencial e tem início uma escalada de violência que vai fugindo ao controle.

Os técnicos da colônia de férias percebem o problema e o recolhe para manutenção e, depois de acreditarem que haviam solucionado o defeito, o manda de volta ao convívio do Velho Oeste.

Mas o transtorno vai se repetindo sucessivamente. Uma espécie de revolta dos robôs se generaliza alcançando, também, os outros ambientes - Roma Antiga e Idade Média. E se torna cada vez mais virulenta e emocionante até o desfecho final, quando o espectador, já transportado para a atmosfera do filme, finalmente, consegue respirar aliviado.

Assista Westworld e viaje para uma espécie de Disneylândia do futuro onde alguma coisa foge ao controle e dá errado.




cartaz do filme



Junho 10, 2007

O DIA EM QUE RAUL SEIXAS E JOHN LENNON SE ENCONTRARAM




comp art (2007), colagem e desenhos (1999)



Se é verdade ou não que Raul Seixas teve encontros e conversas com John Lennon ninguém sabe precisar. Uns dizem que isso não aconteceu. Raul afirmava categoricamente que sim, que eles passavam horas batendo papo e discutindo os mais diversos assuntos.

Mas Raul era um soteropolitano retado e tirado a moleque e não hesitava em inventar mentiras fantasiosas - culhudas, como ele gostava de dizer, para alcançar seus objetivos e, também, ser ferino.

Quando do seu exílio nos Estados Unidos, após ser "gentilmente" convidado pelos milicos brasileiros a sair do país acusado de subversão, Raul afirmava ter tido várias experiências marcantes.

Vagueando em terras americanas, ele estava em Memphis e lá, presenciando um show de Jerry Lee Lewis foi convidado a subir ao palco e teriam cantado várias músicas juntos.

Morando em Nova York, Raul falou que uma madrugada andava pelo Greenwich Village e num beco escuro se deparou com um mendigo e este o convidou para um banquete com restos de comida encontrada no lixo.

Repórteres brasileiros chocados com essa história, perguntaram qual foi a sensação e Raul, irônico como ele só, respondeu:

- meus caros, era o lixo de Manhattan, não era um lixo qualquer...

Já o encontro com John Lennon foi relatado com mais minúcias. Ele dizia que fez vigílias na porta do prédio onde o beatle residia e um agente conseguiu marcar uma conversa entre os dois.

Aí os relatos se sucedem. Raul falou pra Lennon sobre a Sociedade Alternativa e este para o brasileiro à cerca da Nutopia. Sociedades propostas por cada um deles individualmente e muito parecidas entre si.

Raul contou que ele e Lennon conversavam sobre grandes figuras da humanidade de todas as épocas, e que lá pelas tantas John chega para ele e pergunta:

- e lá no Brasil, qual a grande figura da humanidade que surgiu no seu país?

Raul dizia que nessa hora se embananou todo e não querendo parecer vacilante respondeu de imediato:

- Café Filho!

Pois é... Café Filho foi um inexpressivo presidente da república que teve de assumir o posto devido ao suicídio de Getúlio Vargas em agosto de1954, permanecendo no cargo pouco mais de ano até a posse de Juscelino Kubitschek em 1956.

A escolha de Café Filho na resposta de Raul tinha muitos significados. A própria palavra "café" tem um alcance internacional e em quase todos os lugares do mundo ela está associada ao Brasil. Assim sendo, era algo plausível para um estrangeiro como Lennon; mas para nós, brasileiros, soa como uma piada de humor negro, uma escrotidão hilária que só a inteligência e mente anárquica de Raul poderia conceber.

E, afinal, qual a grande figura humana nascida por aqui e que tenha uma real importância na história universal? Tudo bem, é claro que Raul poderia dar um drible em John e citar Santos Dumont, Oscar Niemeyer, Villa-Lobos ou Pelé.

Porém, ao narrar para a mídia nacional esse diálogo com Lennon e por tudo que este representava naquele momento, o beatle radical e politizado, Raul escolheu a personalidade certa para fustigar e ridicularizar a nossa falsa brasilidade ufanista e triunfalista.

Sim. Café Filho...

Raul era mesmo genial.




Junho 6, 2007

O ANGUSTIANTE RUÍDO DE UNHAS POR TRÀS DA PORTA FECHADA



comp art - 2007



Eram quase 3 horas da madrugada quando ela acordou sobressaltada. Foi até a cozinha beber um copo de água e na volta percebeu que o telefone estava fora do gancho. Mas como? - ela pensou. Estava convencida que da última vez que tinha feito uma ligação, ela havia encerrado a conversa e desligado o aparelho.

Perdeu o sono intrigada com o ocorrido. Levantou-se mais uma vez, saiu do quarto e o coração disparou ao ver a luz da cozinha acesa. Teria esquecido a luz acesa? Não lembrava.

Conferiu as trancas das portas que davam acesso à parte externa da residência. Fechou as janelas. Ouviu ruídos noturnos e a sua insegurança os amplificava nos seus ouvidos. Acendeu a luz e se trancou no quarto. Ligou o rádio, mas estava sintonizado numa estação que ela não costumava escutar.

Ela agora estava imersa em dúvidas.

Pelo lado de fora da porta do quarto, unhas riscavam a madeira. Era o gato de estimação, mas na sua mente já tomada pela confusão tratava-se de um monstro imaginário. Suou frio. Não estava mais certa de nada e não queria entrar em pânico.

Pegou o terço e começou a rezar, porém achou aquilo fora de propósito já que ela não tinha nenhuma fé, nunca orava e o terço servia como objeto de decoração. Olhou o relógio, marcava cinco horas e ela respirou aliviada, pois àquela hora o dia começava a clarear. Mas pelas frestas da janela do quarto nenhum sinal de luz.




Junho 3, 2007

ROBERTO CARLOS EM DETALHES



Roberto Carlos, o outro, no Relógio de São Pedro em Salvador - circa 1966/67

comp art - 2007




Não, essa não é uma história sobre o Rei ou, muito menos, uma resenha sobre o tal livro proibido. Este Roberto Carlos é outro, muito embora ele também tenha uma ligação com o original, o Rei.

No auge da Jovem Guarda, ali pelos idos de 1966/67, eram muitos os rapazes que imitavam o Rei. Copiavam seu jeito de falar, seu modo de vestir, o seu penteado. E em Salvador não podia ser diferente e todos os dias perambulava pelo centro da cidade um cara que era meio sósia de Roberto Carlos.

Ainda não existiam shoppings em Salvador, nada disso, e o centro da cidade fervilhava, era o point, o local indicado para encontrar as pessoas, paquerar. E a partir das quatro e meia da tarde, fizesse sol ou chuva, lá estava ele de um lado pro outro entre a Avenida Sete, Relógio de São Pedro e Rua Chile dentro de uma calça Calhambeque apertadinha, botinha pontiaguda, camisa espalhafatosa, cabelo pastinha e lançando seu olhar sobre as garotas.

E ele era tão parecido, ou tentava ser, com o Rei que todos só o conheciam como Roberto Carlos. Do ambulante ao vendedor da loja de discos, do mendigo ao doutor transeunte.

Mas o Roberto Carlos da tarde tinha um jeitão meio esquisito e, talvez, por não ser um playboy endinheirado, as garotas, à época muito caretas e conservadoras (mas bote muito nisso!), achavam que ele era tarado, maluco, essas coisas.

Mas eis que em um determinado inverno começou a correr a notícia de que um maníaco circulava pelo centro munido com um estilete cirúrgico e sua estratégia maligna era passar o bisturi nas nádegas das garotas. E elas só percebiam o estrago bem mais adiante já que o corte era bem fino.

Uma cisma se instalou em Salvador.

Rapidamente o boato se espalhou pela cidade e o que se mais indagava era quem seria o desequilibrado que estava fazendo tal barbaridade. Claro, de imediato um dos suspeitos passou a ser Roberto Carlos e ele, mesmo sendo inocente, sentiu o clima pesado e sumiu por uns tempos.

A verdade é que nunca se soube ao certo quem seria o tal "tarado do canivete", como ele ficou popularmente conhecido. Mas com certeza absoluta não era Roberto Carlos. Com o passar do tempo, as pessoas se acostumaram com sua presença e se deram conta que ele era um cara pacífico, gente boa e que a única inconveniência era olhar as garotas com um jeitão esquisito.

Roberto Carlos, o outro, assim como o Rei, sempre foi um bom menino. Gostava de tirar onda de rapaz jovem guarda, tinha o cabelo grande demais para os padrões locais, era apaixonado pelo jeitinho maroto das menininhas, um aficionado colecionador de revistas em quadrinhos e, com certeza, amava os Beatles e os Rolling Stones.

Uma brasa, mora?