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Setembro 28, 2007
LIKE A ROLLING STONE A MÚSICA QUE PARECIA QUE NUNCA IA TERMINAR
pintura sobre xerox - 2005 O poeta brilhante tem a capacidade de verbalizar aquilo que percebemos apenas no inconsciente. E isto ocorreu quando Patti Smith relatou a sua reação ao escutar pela primeira vez a canção Like A Rolling Stone de Bob Dylan. Ela falou que teve a impressão de que ela nunca ia acabar. Ali por volta de 1965/66, Like A Rolling Stone era bastante executada na Rádio Cruzeiro AM de Salvador, ao lado de outras canções dos Beatles, Animals, Rolling Stones, Manfred Mann, sucessos da Jovem Guarda e da MPB. Muito embora Blowin´ In The Wind, àquela altura, já fosse um clássico largamente conhecido de Dylan, a sua nova música destoava do seu repertório dominantemente acústico e enveredava por uma sonoridade elétrica, próxima do rock´n´roll. Depois de certo tempo, quando Like A Rolling Stone passou a ser mais tocada, era perceptível que algo desigual estava no ar. Era uma música longa, quase seis minutos, a primeira canção do rock a superar o padrão dos três minutos de duração, comum à época. Os acordes da guitarra, o órgão Hammond pontuando, as palavras torrenciais na voz de Dylan nos davam a certeza que diversas coisas estavam sendo ditas, mesmo para nós garotos que não entendiam bulhufas de inglês. E a música se alongava nas ondas do rádio nos deixando intrigados e loucos para saber sobre o que aquele cara fanhoso estava cantando. Havia algumas pistas, assim como pedaços soltos de um quebra cabeça que íamos montando mentalmente. Em Like A Rolling Stone não ouvíamos a palavra “love”, tão corriqueira às outras canções. Também não tinha “yeahs” intercalados entre os versos. E de tanto ouvi-la no rádio decorávamos aquelas frases, pescando versos pela fonética e depois com alguém que tinha certo conhecimento da língua inglesa, balbuciávamos a tal abertura: “uonseaponataimeiúdreçoufáine”... E o tradutor dizia que o tal cantor da voz anasalada parecia estar contando uma longa história e revelava pra gente estes primeiros versos: “era uma vez um tempo em que você se vestia tão bem”... Bem, parte inicial daquele mistério estava desvendado e isso só fez aguçar a nossa curiosidade em saber mais e mais do universo de Bob Dylan. O choque inicial que tivemos ao escutar aquela canção que parecia que nunca ia terminar dava uma certeza de que algo estava em movimento no universo do rock. E, repentinamente, todas as outras canções que, do mesmo modo, adorávamos e que falavam de amor juvenil e de carrões ficaram em outra prateleira da mente. Tocar e cantar Like A Rolling Stone foi, por anos a fio, um desejo meu. Quase uma obssessão. Há tempos é uma música que está no nosso repertório e executá-la sempre provoca uma emoção diferente. eu e a banda que integro - koyotes, tocando like a rolling stone ao lado do meu amigo de fé, meu irmão, camarada marcelo nova. Setembro 24, 2007
Setembro 21, 2007
QUEM VEIO PRIMEIRO, A MAÇÃ OU A BANANA?
pintura e crayon sobre papel e xerox - 1992 Quando os discos dos Beatles começaram a ser editados com a ilustração de uma maçã impressa no rótulo do vinil propriamente dito a reação (positiva) das pessoas foi imediata. A banda de Liverpool era mesmo muito criativa e o seu arco de interesses extrapolava o limitado universo do rock´n´roll. Soube-se depois que a escolha da maçã tinha uma explicação específica. Paul McCartney era fissurado na arte moderna da primeira metade do século 20 e com a fortuna que amealhava devido ao sucesso dos Beatles se tornou um potencial comprador de obras dos mestres modernistas. E ele tinha uma especial predileção pelo pintor belga René Magritte chegando mesmo a adquirir diversos quadros dele; inclusive um dos mais famosos e justamente aquele que retrata uma maçã. E a partir de então, por influencia dessa obra prima do modernismo todos os lançamentos dos Beatles traziam o logotipo de uma maçã bastante similar à de Magritte. No entanto, com o tempo, uma dúvida sempre me acompanhou e ainda me acompanha. Quem veio primeiro, a maçã de Magritte apropriada pelos Beatles ou a banana criada por Andy Warhol especialmente para a capa do disco de estréia da banda novaiorquina Velvet Underground? Informações que não posso afirmar como 100% corretas dão conta que o logotipo da maçã foi inicialmente utilizado pelos Beatles em 1968. Já o lançamento do disco homônimo do Velvet Underground com a banana de Warhol estampada na capa data de março de 1967. Como os Beatles tinham uma queda e ligações com a vanguarda artística desde o período dos shows em Hamburgo, na Alemanha e o Velvet era uma banda com ligações explícitas com o avant-garde de Nova York, pode ser que estes tenham influenciado aqueles. Talvez, quem sabe? Setembro 19, 2007
Setembro 17, 2007
DRUMMOND
desenho sobre papel - 2005 Nestes últimos meses muito tem se falado a respeito de Carlos Drummond de Andrade. Em agosto passado completou vinte anos da sua morte. Taí, nunca fui fã ardoroso das coisas que Drummond escrevia. Gostava de algo aleatório aqui e ali, algumas frases soltas, palavras que ele criava. Mas isso não quer dizer nada, é só uma questão de preferências pessoais e, sem dúvida, ele foi um grande poeta. Na escola, segundo grau, os professores de Português gostavam de nos apresentar poemas e crônicas de Drummond. Era legal lê-lo, no entanto, nós que formávamos uma turma de roqueiros não curtíamos sua extrema melancolia, aquele blues de Itabira de forte conteúdo provinciano que ele carregava consigo. Preconceito bobo e, então, despertávamos encantados para versos como: “No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho”... Ou aquele célebre poema “E agora, José?”, tão brasileiramente nosso e real na sua concepção. Setembro 12, 2007
CIRCULANDO, CIRCULANDO!!...
desenho e pintura sobre papel e xerox - 2005 É bom prestar atenção. Infelizmente o Brasil caminha a passos seguros rumo a uma ditadura. Não uma ditadura militar como aquela de décadas atrás, mas um regime de exceção onde a cidadania não fará mais nenhum sentido. E o julgamento de Renan Calheiros é bastante ilustrativo deste cenário que se descortina. De tudo se fez para que a população nada soubesse sobre o que se passaria no Senado, cujos representantes foram escolhidos pelo tal do povo. E lá é determinado que a decisão fosse numa sessão ultra-secreta, às escondidas e com o cerceamento de todos os canais que possibilitassem ao mesmo tal do povo testemunhar o que poderia acontecer. E o que é pior, tudo sob a égide de um governo cujo partido foi um dos que mais lutaram e esbravejaram pelas liberdades democráticas e pela transparência das instituições. E é lamentável tomar conhecimento que o senador petista Aloísio Mercadante teve participação ativa pela absolvição de Renan e se empenhou de corpo e alma para salvá-lo. Assim sendo, podemos deduzir que ele concordou com todas estas (obscuras) medidas citadas acima. Não lembro qual o filme, mas recordo que era sobre um país envolto em turbulências políticas e civis; e a certa altura, uma vez no poder, o antigo paladino da moral e das liberdades estava utilizando os mesmos métodos dos anteriores e autoritários dirigentes da referida nação. Ao agir desta maneira ele é confrontado pelo seu próprio irmão de sangue que lhe fala: - antes você era um militante da liberdade, agora você é parte da milícia que é contra a liberdade. É por aí... E ainda existe gente que acredita que o Brasil tem jeito. Setembro 9, 2007
O SUSPEITO NA ESQUINA
desenho sobre papel - 1992) Na esquina tudo permanecia como sempre e tudo parecia estar em sua rotineira calma. O ambulante sob a sombra da árvore, a banca de revistas e o vigilante da agência bancária postado à sua porta. Um homem se aproxima, vai até a banca, pede um cigarro a retalho, o acende e encosta num carro que estava ali parado. Minutos depois, ele caminha de um lado para o outro enquanto dá longas tragadas. O vigilante observa seus passos. Para ele, o homem parece inquieto, desconfiado. O que esconde aquele homem com aquele comportamento, o que ele pensa? - Refletiu o vigilante e começou a estudar os detalhes. O homem estava bem vestido, mas tinha a barba por fazer, apresentava cacoetes estranhos e olhava para cada canto da esquina. Pensamentos esquisitos invadiram a cabeça do vigilante. O que aquele homem trazia no interior da sua bolsa tiracolo? Uma arma de grosso calibre, uma bomba programável? Deduziu que poderia ser um assaltante, um terrorista e descartou de imediato a hipótese dele ser um cidadão comum apenas fumando seu cigarro. Não, nada disso. O homem era um suspeito em potencial e lembrou até que tinha uma vaga recordação de ter visto sua foto num arquivo de criminosos. E sentindo um calafrio enquanto vigiava os passos do suspeito, passou a mão por sobre a arma à cintura só para conferir se ela estava ao alcance no caso de uma eventual necessidade de usá-la contra o homem. Pegou o walkie talkie e informou a presença do suspeito ao gerente do banco. Pediu para que solicitassem um forte aparato policial porque se tratava de um meliante de alta periculosidade e que estava ali na esquina à espera dos comparsas para efetuar um assalto de grandes proporções. A polícia foi acionada e a informação se espalhou entre os funcionários do estabelecimento. Uma operação de guerra foi montada, viaturas com agentes fortemente armados dirigiram-se para o local. E na esquina, o homem se agacha com um sorriso no rosto, uma criança corre em sua direção e se joga em seus braços. O homem se levanta com ela em seu colo e rodopiam no passeio. A mulher que acompanhava a criança se une num abraço entre pai, mãe e filho. O ambulante sob a sombra da árvore acompanha o encontro de uma família supostamente feliz, e eles caminham juntos em direção ao ponto de ônibus e sobem no primeiro coletivo que passa. O vigilante entra apressado na agência bancária e ao longe reverberam as sirenes dos carros da polícia que se aproximam em alta velocidade. Setembro 6, 2007
BRAVA GENTE BRASILEIRA! LONGE VÁ TEMOR SERVIL
desenho sobre papel - 2005 O célebre quadro pintado por Pedro Américo, Independência ou Morte, que retrata o grito de independência do Brasil e que era costumeiramente impresso nas contracapas dos cadernos escolares enchia de orgulho os estudantes do primeiro grau. Numa ânsia de liberdade e às margens do riacho Ipiranga, D. Pedro I teria berrado: - independência ou morte! E ao que tudo indica, não houve reações violentas dos que não desejavam sair da sombra de Portugal. Dizem que pelos lados da Bahia, ainda em 1823, os portugueses bateram pé firme e recusaram aceitar a independência. Brasileiros & brasileiras, caboclos, mercenários, um lord inglês e uma mulher soldado já se davam por vencidos e decididos a baixar as armas. No entanto, ao se atrapalhar e executando o toque de avançar invés do toque de recolher, o Corneteiro Lopes reverteu a situação e os livros de história alardeiam que ali, naquele momento, o Brasil se liberta de vez do julgo do império. Devemos acreditar. Contudo, mesmo imponente, o quadro Independência ou Morte é meio estranho. D. Pedro I ergue a espada, mas não demonstra emoção; o seu cavalo, ao contrário dos da infantaria, está paradão sem esboçar nenhum movimento. Para a grandeza e importância do momento histórico seria muito mais digno se D. Pedro I fosse retratado como um D. Quixote, bravio, gesto firme, equilibrando-se num cavalo que se empina apoiado nas duas patas traseiras. Mas fazer o quê? Essa é a trajetória do Brasil, um país sempre na borda, nem lá nem cá. Aonde as coisas vão se ajeitando sem causar grandes traumas ou grandes mudanças, onde a história caminha a passos lentos e curtos. Setembro 4, 2007
NEVER GROW OLD
desenho, pintura e colagem sobre papel - 2000 sell out street battles it makes an enormous difference squeezed within an inch harsh new laws against ancient churches and corridors of power dogday afternoon something different from tattoos to toys to industrial icons language barriers of pop management (2000) Setembro 2, 2007
SE NOVE FOSSE SEIS
desenho sobre papel - 2000 se nove fosse seis hendrix ainda estaria tocando na noite de londres e com a mão direita glauber ainda estaria filmando o bang bang brasileiro ensinando a tarantino como semear o deserto do arizona com o sangue dos ianques que enfrentam os cangaceiros futuristas se nove fosse seis (1996) |