Outubro 31, 2007

SHOW DO PIL (PUBLIC IMAGE LTD) EM NOVA YORK - 1982










colagem, xerox e escrita sobre papel - 1982



Outubro 29, 2007

NAS CORRENTES MARÍTIMAS, NOS PORÕES DOS NAVIOS



tinta spray e desenho sobre papel - 2000




(segundo Câmara Cascudo)

a Índia deu o leite de côco
cuscuz e cuíca são árabes
sarapatel é hindu
papagaio de papel veio da China
capoeira, do sul da África
o beijo, da Ásia
a mistura de camarões nas comidas baianas veio da China
as sereias angolanas são sempre pretas




Outubro 25, 2007

BIOTECH IS GODZILLA




pintura, colagem e compart - 2000 / 2007



Outubro 23, 2007

A MORTE E A MORTE E A MORTE E OUTRA MORTE DE QUINCAS BERRO D´ÁGUA



desenho sobre papel e colagem - 1990 / 2007



Escritores, artistas e pessoas da área de criação em geral, além daquilo que produzem, têm o costume de guardar anotações do próprio punho em papéis soltos, rascunhos em cadernos, recortes de jornais, observações em páginas de revistas ou livros de outros autores, registros de idéias em guardanapos, cartas, bilhetes, fotografias, o diabo a quatro.

A isto se dá o nome de Acervo que em seu conjunto forma um amplo caleidoscópio da alma do autor, um intricado jogo de peças que se torna fundamental para o entendimento da sua obra. Este aparente amontoado de coisas aleatórias é uma rica fonte de referência do universo daquela personalidade. E quando essa personalidade extrapola seus limites geográficos e tem o seu trabalho amplamente reconhecido e admirado internacionalmente, o seu acervo passa a ser uma espécie de tesouro sagrado, uma riqueza nacional e motivo de orgulho de uma nação.

Fosse eu da família Jorge Amado e com poder de decisão já teria batido o martelo: o acervo do escritor baiano já estaria todo empacotado e pronto para ser mandado para a Universidade Harvard, nos Estados Unidos, a qual demonstra interesse em tê-lo em suas dependências. Com absoluta certeza, em Harvard o acervo de Jorge Amado será tratado com o respeito merecido.

Porque a continuar na Bahia e pelo andar da carruagem, mais cedo ou mais tarde o acervo estará detonado, corroído pelas traças e pelo descaso das autoridades que só enxergam a Cultura como forma de autopromoção. Qual país decente neste mundo trataria o legado de um escritor nascido em suas fronteiras e da magnitude de Jorge Amado com tamanha falta de respeito? Nenhum! Este descaso pela Cultura é típico de paisecos atrasados e/ou autoritários e não adianta espernear porque o Brasil é um deles.

O caso do acervo de Glauber Rocha é também simbólico. A mãe do cineasta, D. Lúcia Rocha, mantém o imenso arquivo do filho a trancos e barrancos, transportando-o de lugar para lugar à espera de benesses das autoridades culturais que não estão nem aí para a preservação da memória artística do país.

Outro dia soube que problema parecido acontece com o também numeroso acervo de Raul Seixas, os famosos “baús do Raul”, que são preservados com total dedicação, mas imensa dificuldade por Sylvio Passos. São milhares de documentos, anotações, filmes, fotos. Só que o Maluco Beleza mesmo sendo um cara altamente politizado não acreditava nessa conversa fiada político-partidária. Era um anarquista convicto, ao contrário de Jorge Amado e Glauber que num certo período de suas vidas acreditaram no papel transformador da política perante a sociedade (sic). Então, os abutres sempre querem tirar uma casquinha na fama de Glauber e Jorge com falsas promessas e embromações.

Raul nunca foi bem visto pelo poder público. Sua música, suas letras, suas declarações, sua postura, enfim, toda sua obra é um libelo filosófico de libertação das amarras politiqueiras. Deste modo é complicado tirar proveito eleitoreiro em cima dele, embora alguns até tentem. Os “baús” do maior roqueiro do Brasil certamente estariam com o seu futuro preservado se fossem doados ao Museu do Rock and Roll que fica em Cleveland, nos EUA, tendo Sylvio Passos como seu curador oficial.

O mesmo vale para Glauber. Seria muito mais digno para a sua memória que se mexesse os pauzinhos e fizesse interferências junto a cineastas americanos influentes e respeitados, a exemplo de Martin Scorcese e que demonstram abertamente nutrir uma grande admiração por tudo aquilo que representou Glauber Rocha para a cinematografia universal, e não apenas brasileira. E todo seu acervo iria para uma entidade estrangeira que se responsabilize pela sua preservação.

Só para ilustrar, coisa de uns três meses atrás li que uma universidade dos Estados Unidos havia adquirido todo o acervo de Michael McClure, um poeta, escritor e dramaturgo ligado aos escritores beatniks. A explicação era que McClure teria farta documentação pessoal que cobre mais de meio século da literatura norte americana.

Qual instituição brasileira seria capaz de um ato deste tipo? Mais uma vez, nenhuma! Isso dá uma dimensão de como o nosso país ainda está longe, muito longe de algo que venha a ser chamado de civilização.




Outubro 22, 2007

REMBRANDT BLUES




pintura, desenho e colagem sobre papel - 2007



Os auto-retratos que rondavam seus desenhos, a boina caída de lado, a jaqueta de tecido grosso pesando sobre os ombros, sua Holanda e seus diques.



Outubro 19, 2007

NO CORAÇÃO DAS TREVAS






comp art, pintura e desenho sobre papel - 2000 / 2004 / 2007



Outubro 16, 2007

TEATRO VILA VELHA
DA EFERVESCÊNCIA AO MARASMO DE UM CONTROLE TOTAL




compart sobre fotos - 2007




Não se trata de saudosismo, longe disto, mas como era vibrante o cenário cultural na cidade de Salvador no início dos anos 1970 até meados dos anos 1980. E o Teatro Vila Velha era o palco das coisas mais instigantes, com atrações consecutivas e em muitas ocasiões com apresentações às 21 horas e à meia noite.

Entre 1972 e 1980:
Gal Costa, bela e sexy, ainda uma roqueira descabelada e acompanhada da guitarra de Pepeu Gomes.
Gilberto Gil. Novos Baianos. E como esquecer um show de Jorge Mautner numa sessão de meia noite que encerrou quase às 4 da madrugada? E pelo Vila Velha passaram Luis Melodia, João Bosco, Beto Guedes, Belchior, Gonzaguinha, Sá & Guarabyra, Ivan Lins, Alceu Valença, Sivuca e tantos outros.

Concertos de grupos de rock locais que arrebanhavam um bom público, a exemplo dos Cremes que contava com Perinho Santana na guitarra. Também se destacava uma multidão que para lá se dirigia para ver e ouvir o Quinteto Violado, aquele grupo de Pernambuco que fazia uma bela mistura entre o regional forrozeiro, o folk e referências musicais renascentistas.

Era mesmo muita coisa que acontecia e ao longo da década de 1970 o Teatro Vila Velha era uma referência cultuada na cidade. Lembro bem de um show com quase cinco horas de duração pela Anistia e redemocratização do Brasil no ano de 1978 e com o espaço entupido de gente. Os músicos sentados no chão do palco se revezavam ao microfone em apresentações solo, em duplas, em grupo, com ou sem a banda de apoio. E ali estavam presentes: Caetano Veloso, Gil, Fagner, Pepeu & Baby, Zezé Mota, Alceu Valença, Ednardo, Fafá de Belém, Moraes Moreira, Hermeto Paschoal, Luis Melodia, Aldir Blanc, Milton Nascimento...

Uma turma local composta por Diana Pequeno, Dércio Marques, Rose, Dorothy Marques, do mesmo modo, costumava se apresentar por lá juntando uma numerosa platéia e desfilavam um repertório focado em canções de protesto à base de violões.

Outra noite inesquecível no Vila Velha foi com Angela Rô Rô logo quando despontou para o sucesso, ela sozinha no palco cantando e tocando em um piano de cauda. E o que dizer da temporada de fim de semana da banda mineira 14 Bis que teve de ser espichada até terça feira? E não dá para passar em branco que naquele palco foi encenada a peça que mudou a face do teatro brasileiro: Trate-me Leão, do grupo carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone que tinha em seu elenco Regina Casé, Evandro Mesquita e Luis Fernando Guimarães. Mais uma vez deve-se frisar que vários destes eventos com lotação esgotada e shows extras.

Com a chegada dos anos 1980, o Vila se transformou numa espécie de templo do rock local e nacional. Em 1981, sessões semanais com o filme The Song Remains The Same, do Led Zeppelin que se tornaram coqueluche nas noites de quinta feira. No ano seguinte o espaço foi invadido pelas bandas punks soteropolitanas: Camisa de Vênus, Delirium Tremens, Gonorréia, Espírito de Porco, Trem Fantasma, Rolo Compressor. Sendo que os shows do Camisa conseguiam o feito de bater todos os recordes de público do local com pessoas penduradas até nas estruturas de ferro do teatro.

Não demorou muito e roqueiros nacionais começaram a se apresentar ali ao lado da segunda leva de bandas baianas. Plebe Rude, Legião Urbana, Inocentes e Cólera com 14º Andar, Ramal 12, Dissidentes. Além dos costumeiros shows de rock, uma performance do genial dramaturgo e escritor paulista Plínio Marcos.

Enfim, o Teatro Vila Velha sempre foi, repito, sempre foi durante décadas um espaço democrático e aberto às mais diversas manifestações dos mais variados estilos, e mesmo num período em que a censura do regime militar assombrava a sociedade. Os antigos diretores eram abertos ao diálogo, ao livre trânsito da informação e divulgação artística e cultural.

Até então, tudo bem. Mas eis que em meados dos anos 1990, inventaram de fazer uma reforma geral no teatro e o que de início parecia ser uma brilhante iniciativa se tornou um problemão de difícil solução. Se, por um lado, suas dependências melhoraram e muito, por outro lado o Vila Velha perdeu por completo o charme e sua aura democrática.

O teatro foi privatizado no sentido mais mesquinho, virou um ambiente monopolizado e à mercê dos caprichos de uma direção que se entronizou no poder. E ao apresentar apenas e quase que exclusivamente produções próprias e dirigidas pelos atuais “donos” do pedaço, o Vila Velha se transformou num espaço cultural provinciano e elitista às avessas.

Não mais shows históricos com medalhões e/ou emergentes da música brasileira, não mais o palco de verões efervescentes, não mais o templo das mais variadas expressões, não mais uma referência cultuada na cidade de Salvador.

Com isso, perdeu a cidade, perdeu a diversidade cultural. Todos nós perdemos.

Uma pena.




Outubro 14, 2007

CANÇÃO DO VELHO CHICO





compart, spray e desenho sobre papel / 1998



Logo após o lançamento do nosso CD de estréia, Filme de Estrada, no final de 2001, um empresário musical do oeste baiano convidou os Koyotes para uma série de apresentações na região. Os shows foram em dobradinha com um grupo de forró daquela área chamado Fole de Ouro e ocorreram em salões de clubes ou auditórios de associações.

Foi uma excursão muito divertida pelo inusitado das atrações e pela sensação de tocar em cidades tão distantes da capital. Localidades como Santa Maria da Vitória, Santana, Bom Jesus da Lapa, Ibotirama e Barra tinham um público ávido e aberto para assimilar gêneros musicais tão distintos. Além disso, todas elas têm uma coisa em comum: vivem em torno do Rio São Francisco, o Velho Chico.

A partir da terceira noitada, a gente passou a convidar o sanfoneiro do Fole de Ouro, Altair, para nos acompanhar durante a nossa canção de nome São Francisco. O público vibrava com o som da sanfona dentro do rock´n´roll, sem que com isso desfigurasse a nossa proposta nem soasse como uma mistureba.

Na verdade o som da sanfona de Altair integrado ao rock´n´roll básico dos Koyotes fazia com que a nossa música sobre o Velho Chico se transmutasse num "zydeco" que aproximava musicalmente, e mentalmente, o Rio São Francisco ao Rio Mississipi.




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Outubro 11, 2007

EU TAMBÉM DEIXEI MINHA MARCA NA AVENIDA B




pintura sobre tapume da Avenida B em NY - 1983




Lá pelos lados da Avenida B, East Village, prédios estavam sendo recuperados e os tapumes de madeira eram um convite aberto aos grafiteiros.

Como sempre passava pelas redondezas não pensei duas vezes e também deixei minha marca por ali.




Outubro 8, 2007

VARIAÇÕES EM TORNO DE UMA GRAVURA DE PAUL KLEE



desenho sobre papel - 1999





uma casa bauhaus pendurada numa encosta do litoral
uma garota de cabelos loooongos como se estivesse saído de uma música dos beach boys
uma estrada beirando o oceano, passando parques, balneários
um laptop perdido encontrado num banco de praia à beira mar
uma gravura de paul klee colada por trás do vidro de um café numa rua transversal ao museu de arte contemporânea
uma manhã de sol intenso e frio e bicicletas amarradas estacionadas na entrada do shopping
uma pilha de revistas raras na porta de um prédio permanecem despercebidas
uma garrafa fechada de vinho esquecida espera alguém para levá-la consigo
uma celebridade anônima num carrão de vidros indevassáveis
um grupo de garotos orientais brancos negros hispanos cantam rap na esquina
um surfista passa correndo em direção às ondas
tufos de tulipas da primavera infestam o canteiro da avenida




Outubro 5, 2007

MISSÃO EM BURMA




pintura e desenho sobre papel - 2000





No ano de 1172, um terremoto de grandes proporções isolou uma parte da região de Chiang Tung, situada no leste da Birmânia. Em locais de difícil acesso o abalo sísmico deixou um rastro de destruição, fome e epidemias.

Diante de tal situação, um grupo de monges que viviam em monastérios perto dali deram início a um trabalho de ajuda humanitária.

A notícia do desastre e as ações dos monges chegaram até os ouvidos do rei que governava a Birmânia com mão de ferro e irritando profundamente os líderes mais violentos.

E para a região devastada eles enviaram batalhões do exército com uma ordem expressa de reprimir, até com violência, caso necessário, toda e qualquer ação daqueles religiosos.

Não demorou muito e os monastérios foram pilhados, livros milenares foram queimados e filetes de sangue escorreram pelas entranhas e vales das montanhas íngremes de Chiang Tung.




Outubro 3, 2007

GALERIA DOS PRESIDENTES DO MEU TEMPO # 01

JÂNIO QUADROS




comp art - 2007





Jânio Quadros era muito doido.

Com sua base de ação na cidade de São Paulo, ele teve uma fulminante carreira como político: de vereador a deputado estadual, e daí a prefeito e então governador do estado e depois deputado federal até alcançar a presidência da república.

Era mestre em truques populistas que pudessem aproximá-lo do tal do povo. Ganhou notoriedade e popularidade ao usar em suas campanhas uma vassoura como símbolo, inclusive para presidente e com aquilo ele prometia uma faxina ética no país. Em discursos de palanque em plena campanha presidencial simulava passar mal e estendia o braço para um enfermeiro aplicar uma injeção.

Jânio andava como se tivesse calçado os sapatos com os pares trocados, vestia ternos malamanhados com a gravata desalinhada e o colarinho da camisa amarrotado. Falava fazendo gestos contorcidos e usava óculos de aros grossos que ficavam tortos em sua face e as lentes deixavam seus olhos ainda mais esbugalhados como se fossem pular fora da órbita ocular. Exibia um português perfeito, carregado e eruditoso. Celebrizou a frase “fi-lo porque qui-lo” quando poderia simplesmente dizer “fiz porque quis”.

Lançou mão de leis controversas como a proibição de lança-perfume e também o uso do biquíni e a briga de galos. Vetou a circulação da revista em quadrinhos do personagem Brucutu. Deu uma medalha ao guerrilla man Che Guevara, fato que causou alvoroço nas hostes direitistas.

Foi eleito presidente do Brasil com uma votação esmagadora e assumiu o posto em 31 de janeiro de 1961, todavia num ato ainda hoje nebuloso renunciou ao cargo com apenas sete meses de duração do seu mandato. Para justificar a desistência alegou a pressão de misteriosas “forças ocultas, forças terríveis” as quais ele nunca revelou.

Na verdade esta decisão teria sido um blefe de Jânio numa tentativa de obter mais poder, porém o tiro saiu pela culatra quando o Congresso aceitou sua renúncia. Isto gerou um quiproquó dos diabos criando dificuldades para o seu vice João Goulart assumir a presidência. Historiadores afirmam que a renúncia de Jânio foi uma premissa para se estabelecer o ambiente de um golpe militar que veio a acontecer em março de 1964.

No poder os milicos cassaram os direitos políticos de Jânio e ele foi trabalhar como advogado (sua profissão), escrever dicionários e pintar telas. Com a anistia de 1979, e a volta da democracia ele retoma a vida política com a mesma verve polêmica de antes e para surpresa de todos elegeu-se prefeito de São Paulo em 1985, numa disputa acirrada com Fernando Henrique Cardoso que era o favorito disparado em todas as pesquisas. E este episódio gerou um dos fatos mais hilários da história política brasileira.

Nas vésperas do pleito e certo da sua vitória, Fernando Henrique se dirigiu à sede da prefeitura paulistana e foi fotografado pelos repórteres sentado na mesa do prefeito como se já estivesse eleito. Abertas as urnas, a apuração dos votos deu a vitória a Jânio que, ao tomar posse, chamou os jornalistas ao gabinete do prefeito, puxou a cadeira que Fernando Henrique precipitadamente havia sentado e com um vaporizador de Detefon nas mãos borrifou o assento da mesma como se o estivesse desinfetando.

Os presentes ficaram atônitos com a atitude de Jânio e lhe perguntaram:

- Prefeito, por que o senhor está aplicando inseticida na cadeira?

E Jânio rebateu:

- Desinfeto porque nádegas indevidas se sentaram nela.

Neste cargo de prefeito encerrou a carreira política e perto do fim do mandato, em mais uma provocação bem ao seu estilo, pendurou uma chuteira na porta do gabinete como se anunciasse o final da sua trajetória como homem público.

Faleceu em 1992.




Outubro 1, 2007

TEMPOS TRANSGÊNICOS




desenho e pintura sobre papel - 2001





templos de chumbo
campos de nylon
nuvens de sal

nuvens de chumbo
templos de nylon
campos de sal

campos de chumbo
nuvens de nylon
templos de sal