Novembro 30, 2007

EM UM PARQUE DE HONG KONG



pintura sobre tela e madeira (2,10 m x 1,50 m) - 1997



Para ele tratava-se de uma viagem de apenas três dias. Compromissos de trabalho. Ela participava de um congresso que se estenderia por toda semana.

Nunca haviam se encontrado anteriormente, mas naquele final de tarde em um parque de Hong Kong estavam sentados em bancos próximos.

Trocaram olhares uma, duas, três, inúmeras vezes e começaram a conversar. Arranhavam palavras no idioma inglês já que vinham de países totalmente diferentes.

A névoa cobria parte das árvores e enquanto a noite se aproximava, eles saíram conversando pela avenida entre sorrisos e anúncios luminosos.

Sem nenhuma pressa.

Em frente à baía de Hong Kong se abraçaram e se beijaram. O mar e as montanhas que limitam a cidade não os fizeram lembrar de como estavam longe dos seus lugares de origem e os isolavam de todas as recordações que até horas antes povoavam seus pensamentos.




Novembro 28, 2007

E LA NAVE VA



desenho sobre papel - 1984




O objetivo da viagem é celebrar a cerimônia fúnebre de uma famosa cantora lírica cujas cinzas serão lançadas em alto mar. E no limiar da primeira guerra mundial um navio zarpa do porto de Nápoles, Mediterrâneo afora, levando a bordo personalidades e personagens do círculo de amizade da diva falecida.

Um grupo de cantores é conduzido até a casa de máquinas onde os marinheiros trabalham banhados em suor e ali eles fazem uma performance vocal que parece vibrar o casco do navio. Em outro momento sublime, desta vez na cozinha, músicos tocam em cálices de cristais e em garrafas dispostas numa grande mesa.

Refugiados sérvios perdidos em alto mar são resgatados e embarcam no navio.

Do porão é içado até o convés algo totalmente inusitado: um rinoceronte.

Um cinegrafista a bordo é testemunha ocular deste cruzeiro marítimo surrealista. E la nave va.

E La Nave Va, magnífico filme de Federico Fellini, criador e criatura do seu próprio gênio e que, ao morrer - o homem, jamais a sua obra, transformou seu velório em mais uma peça cenográfica com filas intermináveis e declarações à beira do caixão em muito parecidas com passagens de seus filmes.

Uma senhora idosa se aproxima e ela tem um lenço em sua mão direita com o qual enxuga as lágrimas que escorrem pela face enrugada. Estende o braço e acena com o lenço em direção ao cadáver do cineasta e grita repetidas vezes:

- Federicoooo, Federicooooo, ciao Federico...




Novembro 27, 2007

FAUSTINO COLECIONA FLÂMULAS

(UM POUCO DE FALSA MODÉSTIA NÂO FAZ MAL A NINGUÉM)





desenho sobre papel - 1980




Faustino Coleciona Flâmulas.

O muro do cemitério amanheceu com esta frase pichada e estávamos nos primeiros dias do mês de janeiro de 1980. Semanas depois tomei conhecimento que esta mesma citação estava estampada nos quadros negros de quase todas as salas onde aconteciam as matrículas na Universidade Federal da Bahia.

Fiquei surpreso, pegaram minha frase e a reproduziram, foi um sentimento de reconhecimento de um trabalho (?) que, àquela altura, eu desenvolvia há quase dois anos. Os grafites do Faustino.

Só as pessoas mais próximas tinham conhecimento que eu era o autor das frases, só que a coisa estava ganhando proporções que eu jamais imaginara e assim prosseguiu numa escalada cada vez maior à medida que eu ia jogando mais e mais grafites na praça.

Aí, um dia, encontro com Paraná, um amigo dez anos mais velho que eu e, portanto, mais experiente. Ele me chamou para conversar e num tom professoral disse:

- Miguel, fique atento. Seu trabalho tem força e o criador nem sempre dimensiona o alcance da sua criação. Está mais que na hora de chamar para si e publicamente a autoria do Faustino, caso contrário vai aparecer um gaiato e roubar sua idéia.

Sua colocação me espantou, todavia, na verdade, eu já vinha observando algo estranho. Faustino era a pichação mais comentada na cidade, conhecida até em outros estados e certas figuras que também faziam grafites ali no início do movimento e que sabiam que eu era o criador do personagem sempre me pediam para pichar perto das suas intervenções com o intuito de chamar atenção aos seus trabalhos. Agíamos como parceiros, de minha parte, sim e eu assim o fazia porque achava que para mim não custava nada este gesto. Sempre acreditei, e ainda acredito que é fundamental o individualismo, mas que é legal e importante trabalhar em coletivo.

Pois bem, passei a perceber que alguns antigos “parceiros” se fechavam em “grupinhos”, cada qual articulando com cada qual, armando esqueminhas mesquinhos e na hora de retribuir a parceria simplesmente ignoravam. Aquela manjada tática da geladeira, que funciona em curto prazo, porém não resiste perante aqueles que têm persistência e resignação.

As conversas entre Paraná e eu foram se tornando cada vez mais freqüentes, até um dia em que ele veio com uma novidade desconcertante.

- Miguel Cordeiro, meu amigo, você não sabe da maior... Jorge Amado é fã declarado do Faustino e fala entre os amigos dele que o autor das frases é Antonio Roberto - nome fictício de um cara que, na real, existe e até se tornou um desses “intelectuais da baianidade”.

E o amigo Paraná continuou falando:

- E o Roberto sabe dessa versão de Jorge Amado e fica na dele como se ele fosse mesmo o autor dos grafites. Miguel, você vai vacilar e vão te roubar a autoria de algo que você criou.

Fiquei convencido que havia chegado a hora de dizer que era eu que fazia os grafites do Faustino. Era um preço que eu tinha que pagar, um instant karma. Causaria surpresa, inveja, decepção, alegrias e reverências, mas fazer o quê? Deixar que me tomassem algo criado por mim, que havia saído da minha cabeça e que se tornou um “sucesso” de público e crítica?

E assim que foi se espalhando a verdadeira identidade do grafiteiro criador do Faustino, passei a ser procurado por jornais, publicitários, escolas e o diabo a quatro. Entrevistas e palestras eram ok, em contrapartida surgiam convites absurdos para transformar o personagem em algo que nada tinha a ver com a sua proposta.

Este seria o caminho mais fácil, ganhar uns trocados e jogar no lixo um troço que teve um valor simbólico para tanta coisa, para tanta gente e, mais ainda, para mim mesmo.

Ao recusar a estrada pavimentada das falsas ilusões que aos poucos se perdem nas curvas do caminho, eu ganhei a pecha de “radical”. Ao ganhar o reconhecimento por um trabalho à margem do mainstream e não ter usado essa independência como escada para os holofotes ofuscantes e defeituosos do showbizz (em qualquer escala), minha produção e atividades são avaliadas por outros prismas que fogem ao seu foco – o trabalho em si. Ao chamar para minha pessoa as minhas próprias opiniões e suas conseqüências, não sou mencionado e nem sou escalado para participar das confrarias, das panelas e dos grupinhos de uma fajuta fraternidade.

Melhor assim. A vida é breve. A arte é eterna.




Novembro 26, 2007

O HAITI É AQUI




desenho sobre papel - 1999




Deixei de freqüentar estádios no início dos anos 1970, ali por volta dos quinze anos e a última vez que pisei na Fonte Nova foi, salvo engano, em 1991. Nesta ocasião, fiquei chocado com as péssimas condições das suas dependências e instalações – arquibancadas desconfortáveis, bares sucateados, sujeira por todos os cantos, mau cheiro, goteiras com líquidos de origem suspeita e os banheiros fétidos e danificados faziam com que torcedores liberassem suas necessidades fisiológicas em meio às outras pessoas e sem a menor cerimônia.

Pra começo de conversa sou torcedor do Esporte Clube Bahia. Era um torcedor fanático na infância/adolescência quando eu tinha uma enorme bandeira tricolor e foi com ela que o treinador Paulo Amaral deu a volta olímpica quando o ex-esquadrão de aço ganhou um campeonato estadual naqueles já longínquos tempos.

Fico espantado com a paixão doentia dos torcedores atuais que ultrapassa qualquer noção de bom senso e simancol. Mas paixão tem isso, né? No entanto, como explicar esse fenômeno de um clube que patina na terceira divisão do campeonato brasileiro e, mesmo assim, leva multidões ao estádio e esta fiel torcida não exige nada dos cartolas dirigentes para reverter tal situação?

Salvador, a capital baiana, está no fundo do poço no que se refere a opções de lazer e cultura. Há décadas uma terra devastada e em muito pelo elogio generalizado à “Estética do Cacête Armado”, na qual se tornou bacana a precariedade, o mau serviço prestado, a má educação e o improviso mambembe.

Enquanto estiver apenas escorada no tripé “axé/pagode, futebol e carnaval”, Salvador vai despencar cada vez mais rumo a uma situação irreversível. Triste para uma cidade que um dia gerou tanta coisa importante e criadores brilhantes.

E ontem o estádio da Fonte Nova foi o palco desta tragédia com quase uma dezena de mortes e não apenas isso. Cenas patéticas após um minguado empate com um timéco inexpressivo, resultado este que permitiu o meu Bahêêa passar à segunda divisão (!) do campeonato brasileiro com a torcida ensandecida invadindo o gramado e arrancando pedaços de grama, destruindo equipamentos. Uma cena grotesca que caberia num daqueles filmes de Glauber Rocha, nos quais ele escancarava essa irremediável condição brasileira pré-civilização.

E aí vem o Sr. Raimundo Nonato, o “craque Bobô”, hoje um burocrata e diretor geral da Sudesb – Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia, dizer que o estádio da Fonte Nova estava em condições precárias e que oferecia riscos. E, então, Sr. Bobô, por que vocês permitiram que o estádio continuasse funcionando e, pior, por que deixaram o estádio ser ocupado por um público acima da capacidade física estrutural?

É a tal insensibilidade dos agentes públicos brasileiros e seu oportunismo demagógico que se amolda a cada ocasião. Esses caras simplesmente estão cagando para o cidadão. Não estão nem aí.




Novembro 24, 2007

CHALISE GIRL



compart, pintura, desenho e colagem sobre papel - 2001/2007



- Os melhores vinhos são os vinhos baratos.

Assim ela costumava dizer enquanto abria uma garrafa de Chalise.

Eu concordava. Para nós bastava duas garrafas de Chalise e a especialidade daqueles momentos em que estávamos juntos se incumbia de todo o resto...




Novembro 21, 2007

O SARGENTO PIMENTA NO DIVÃ. FREUD EXPLICA?



pintura sobre papel e xerox - 1994




Em 01 de junho de 1967, há quarenta anos atrás, portanto, foi lançado Sargeant Peppers Lonely Hearts Club Band, o disco psicodélico dos Beatles. Talvez tenha sido o trabalho musical que mais causou impacto na cena cultural desde então. O Sargeant Peppers causou estranheza pela sua proposta revolucionária que envolvia não apenas música, mas literatura, artes plásticas, comportamento e tudo mais que pudesse caber no seu recipiente inundado de LSD e outras substâncias transformadoras da consciência.

E neste ano de 2007, quatro décadas depois daquele que foi batizado como o Verão do Amor (Summer of Love) e do qual o Sargeant Peppers foi a trilha sonora, várias foram as atividades realizadas para comemorar e celebrar esta verdadeira obra prima que se tornou um divisor de águas na cultura contemporânea.

E assim, um psicanalista gaúcho de nome Robson de Freitas Pereira organizou um livro muito bacana chamado Sargento Pimenta (Editora Libretos), em que convoca outros psicanalistas a fazerem suas abordagens sobre as canções que fazem parte deste disco. Cada um escreve sobre uma determinada canção e o resultado é um caleidoscópio instigante que provoca e tenta desvendar o que está na mente do tal Sargento Pimenta.

Entre os convidados, a presença de Marcus do Rio Teixeira, psicanalista baiano, escritor, ensaísta, um amigo de longa data. Além de ser um autêntico roqueiro cinquentão, ele também é um dos proprietários da Editora Ágalma, especializada em livros e publicações sobre psicanálise e literatura, e é com o Dr. Marcus que irei conversar sobre as sessões do imortal Sargento Pimenta naquele divã imortalizado por Sigmund Freud.



miguel diz:
então vamos lá, preparado?

marcus diz:
ok.

miguel diz:
e aí, Dr. Marcus, como surgiu essa idéia de psicanalistas escreverem sobre o Sargeant Peppers? afinal, Freud explica?

marcus diz:
a idéia do livro é do psicanalista Robson Pereira, da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Rio Grande do Sul), que sempre foi antenado com a cultura contemporânea. aí ele convidou 15 analistas para escreverem sobre as músicas do álbum Sargeant Peppers e mais Penny Lane e Strawberry Fields Forever, que foram lançadas em compacto na mesma época. o estilo de cada texto era livre, a única condição era que o autor de cada um desses textos curtisse os Beatles.

miguel diz:
e então, como foi levar o Sargento Pimenta pro divã? ele deu trabalho?

marcus diz:
o Sargento é um sujeito muito especial, porque ele tem pelo menos 3 estilos, o de John, o de Paul e o de George. Ringo, como você sabe, era um catalisador, mas não apitava muito.

miguel diz:
e o George Martin na parada? ele era o alter ego do Sargento Pimenta? acho que quase tudo, musicalmente falando, dos Beatles tem o dedo de George Martin.

marcus diz:
ele fez, talvez, o melhor trabalho da sua vida e marcou o estilo do álbum. a canção For The Benefit Of Mr. Kite, por exemplo, é impensável sem ele. mas o Sargento Pimenta foi uma invenção de Paul, que os outros Beatles a princípio não curtiram muito.

miguel diz:
e o Paul tinha aquele lance de adorar o Pet Sounds dos Beach Boys...

marcus diz:
existe essa história de uma rivalidade no bom sentido, uma competição entre os Beatles e os Beach Boys. mas, ainda assim, o Pepper se mantém em pé sozinho sem essa história.

miguel diz:
e quando você começou a ouvir Beatles?

marcus diz:
quando eu tinha uns 10, 11 anos. o primeiro disco que eu comprei foi Help, que já tinha sido lançado uns 2 anos antes.

miguel diz:
sei. e quantos anos você tem agora?

marcus diz:
50 (cinqüenta).

miguel diz:
então você é mais um roqueiro velháco... rss

marcus diz:
pois é. sou da geração dos velhos roqueiros.

miguel diz:
e o que você acha do Their Satanic Majesties Request? aquela tentativa dos Rolling Stones em fazer um álbum ao estilo “sargeant peppers”?

marcus diz:
uma tentativa mal sucedida, porque o forte dos Stones sempre foi o que eles sabiam e sabem fazer bem, que é um som inspirado no rock´n´roll, no blues e no rhythm´n´blues. já os Beatles tinham mais uma linha de experimentação, de várias influências, música indiana, música eletrônica, etc. quando os Stones tentam imitar isso o resultado é um fracasso total.

miguel diz:
verdade. e os próprios Stones reconheceram isso. e me diz uma coisa Dr. Marcus, e todos aqueles personagens da capa do Sargeant Peppers? lembra da fissura que dava em desvendar quem era cada um deles?

marcus diz:
pois é... alguns autores do livro exploram essa vertente, contando algumas histórias engraçadas. dizem que John Lennon queria colocar Freud, mas Yoko o trocou por Jung.

miguel diz:
e por quê você acha que Yoko preferiu Jung?

marcus diz:
talvez porque no meio da vanguarda novaiorquina da qual ela fazia parte, Jung fosse mais "in".

miguel diz:
e Yoko, cumpriria, de fato, o papel da mãe no complexo edipiano de John? rsss

marcus diz:
John sempre teve essa história de buscar uma mulher que fosse uma espécie de mãe, coisa que a Júlia (mãe de Lennon), não foi no sentido tradicional. no meu texto que é sobre a canção Lucy In The Sky With Diamonds, eu falo um pouco dessa idealização. daí essa ligação em Yoko, que os outros Beatles e os fãs acharam meio exagerada e ele se ofendeu muitíssimo.

miguel diz:
exato. você, especificamente, escreve sobre Lucy In The Sky With Diamonds e essa canção tem todo aquele lance da conexão das letras iniciais do seu título com o LSD. também tem a história de um desenho feito por Julian, filho de Lennon.

marcus diz:
é, eu falo da história que todos conhecem sobre a suposta ligação com o LSD e a proibição da música na BBC. e da versão de Lennon de que tudo não passou de uma coincidência, pois, segundo John, o título da música foi em decorrência deste desenho de Julian que tem as palavras Lucy In The Sky With Diamonds.

miguel diz:
mas tem um lance interessante. poderia também ter sido uma influencia de Bob Dylan, já que na canção Mr. Tambourine Man, de 1965, Dylan fala em "to dance beneath the diamond sky". e Dylan exercia uma forte influência sobre Lennon e os Beatles. e mesmo existindo esta história do desenho, Lennon também poderia ficar em casa ao lado de Julian ouvindo e cantarolando o “diamond sky” de Dylan. e dizem que a Lucy era uma coleguinha da escola de Julian.

marcus diz:
é verdade, John teve uma fase "dylanesca". eu nunca tinha feito esta conexão, o que só faz provar que a música tem várias leituras possíveis. mas não sei se concordo, porque Lennon tinha uma criatividade que extrapolava as influências. talvez tenha juntado um pouco de tudo, mas sempre no estilo dele.

miguel diz:
e Lennon incorporava todas aquelas influências literárias. James Joyce, os escritores ingleses, os “angry young men”. e ainda nos Beatles, ele escreveu aqueles livros numa linguagem joyceana.

marcus diz:
isso! me interessou principalmente a influência confessa de Lewis Carroll, que Lennon considerava um dos seus autores favoritos. ele fala explicitamente em Alice No País Das Maravilhas, mas na verdade a letra de Lucy In Thr Sky tem mais a ver com O País Do Espelho. James Joyce, é claro, ao que tudo indica, foi quem influenciou os dois livros de Lennon (In His Own Write e Spaniard In The Works), e influenciou também a letra de I Am The Walrus.

miguel diz:
o livro de vocês é realmente muito muito interessante, não só pelo fato de focar num disco que é um marco da cultura ocidental, mas, ao mesmo tempo, fazer essa abordagem enviesada da psicanálise. e aí eu te pergunto uma coisa: não é complicado explicar uma coisa que num certo sentido foi feito mais sobre influência de drogas e substâncias psicoativas (LSD), do que numa intenção tão intelectualizada e racional?

marcus diz:
acho que não, porque a droga agiu mais como um catalisador. não creio que exista nada na molécula do ácido lisérgico que leve o sujeito a compor músicas geniais. se ele for um John Lennon ou um Paul McCartney, sim. todavia, se o sujeito for um mané, no máximo vai ficar meio atordoado, falando bobagens. então o que conta mesmo são as experiências, as influências artísticas, etc.

miguel diz:
com certeza! inclusive toda a concepção do Sargeant Peppers é profundamente artística. e isso talvez explique o enorme estranhamento que o disco causou não apenas nos beatlemaníacos mais antenados e informados, mas principalmente nos fãs mais ortodoxos que não tinham uma consciência, digamos, “cultural”.

marcus diz:
na época ninguém entendeu, e alguns fãs demoraram para gostar do álbum. foi um passo muito grande dado pelos Beatles desde a fase inicial da carreira deles que era mais rock´n´roll. no entanto, eles já vinham fazendo certas experimentações estéticas desde os álbuns Rubber Soul (1965) e Revolver (1966).

miguel diz:
e voltando a Dylan, ele, de certa forma e na mesma época, partiu numa direção totalmente oposta à proposta lisérgica-experimental do Sargeant Peppers quando lançou de forma pirata o álbum Basement Tapes que é um disco totalmente cru.

marcus diz:
as duas tendências musicais caminhavam paralelas na época. eram linhas totalmente diferentes, mas ambas faziam sentido naquele ambiente cultural, que era de muita efervescência.

miguel diz:
Beatles, Stones, Manfred Mann e toda cena musical de ponta inglesa se deixaram influenciar profundamente pelo Basement Tapes. tanto que no ano seguinte, em 1968, vieram o Álbum Branco dos Beatles e o Beggars Banquet dos Stones, ambos trabalhos de sonoridade mais crua e básica.

marcus diz:
claro, uma volta às origens...

miguel diz:
explica pra gente como foi sua análise da música Lucy In The Sky With Diamonds?

marcus diz:
basicamente, eu parti da visão que fala de uma música lisérgica, passando pelas influências literárias que nós já falamos, para chegar a uma terceira leitura que é a da música que fala do ideal da mulher segundo Lennon. mas até chegar lá corre muita água.

miguel diz:
e a canção When I´m 64"? você é um psicanalista, como enxerga a questão de envelhecer nos anos 1950/60 e nos dias de hoje?

marcus diz:
essa questão foi trabalhada de forma muito inteligente e criativa no livro por dois autores, um homem de 64 anos e uma mulher de 40. é interessante porque são duas visões de pontos de vistas diversos quanto ao sexo e à idade. a minha impressão pessoal é de que a visão do autor masculino foi mais pessimista e a da autora explorou a sensibilidade.

miguel diz:
certo. mas o envelhecer hoje não tem mais o peso de antes.

marcus diz:
eu também acho que não. veja esses coroas, o próprio Paul McCartney e o Eric Clapton. eles não têm nada a ver com o estereótipo do velho, como se dizia antigamente. ou do idoso, sei lá qual o termo politicamente correto que deva ser mais apropriado.

miguel diz:
pois é. então vocês colocaram o Sargento Pimenta no divã e me diga qual o diagnóstico desse quarentão que se recusa a envelhecer e se tornar um ser irrelevante? rrss

Ágalma diz:
rrss. aí não dá para contar tudo, senão as pessoas não vão mais comprar o livro. rrs.

miguel diz:
mas Dr. Marcus, esse povo de internet quer tudo de graça. livro, disco, jornal... e esse é o grande barato...

marcus diz:
pois é. tem um limite para isso, que é a sobrevivência do editor, do autor, no caso do livro. nosso ministro da cultura acha que é possível liberar os direitos autorais. ok, e os autores vão viver de quê? recentemente teve uma banda que colocou o disco na web para baixar e cada um pagava o que quisesse. a maioria não quis pagar nada. e a banda vive de vento?

miguel diz:
essa garotada quer tudo de graça. mas meu caro, que coisa sintomática... a gente falando do disco Sargeant Peppers e você vem com o nosso sinistro ministro Gil, um cara que foi influenciado pelo Sargento Pimenta e hoje se transformou num burocrata da cultura de inclinação soviética...

Ágalma diz:
rrsss. pois é... e esta é a visão da garotada que quer que continue existindo música de alta qualidade tecnológica, etc, mas sem pagar, seria um socialismo mauricinho?

miguel diz:
rsss. é por aí...

marcus diz:
vamos fazer então a propaganda do lançamento do livro, já que a gente sabe que os produtos culturais custam um bocado. o livro Sargento Pimenta vai ser lançado na terra do axé neste sábado, dia 24, na loja Midialouca que fica na rua Fonte do Boi, Rio Vermelho, a partir das 20 horas, com show da banda Beatles in Senna e participação de convidados.

miguel diz:
ok, Dr. Marcus do Rio Teixeira. o recado está dado e todos os profissionais da área da saúde mental, os beatlemaníacos e os rockers devem ir até lá e comprar o livro. ele custa quanto?

marcus diz:
apenas a merreca de 26 reais.

miguel diz:
ok. valeu, Dr. Marcus... foi muito bom conversar com o senhor. rsss

marcus diz:
Valeu, Miguel. um abraço.




Capa do livro Sargento Pimenta. Para maiores detalhes acesse o site www.sargentopimenta forever.com.br



Novembro 19, 2007

SOBRE A MITOLOGIA MARINHA



pintura e desenho sobre papel - 2007




Peixes alados navegam mares tormentosos.

Seres imaginários se materializam em rochedos, inimigos fatais para os navegantes desavisados.

O canto das sereias.

Os ruídos de baleias gigantescas tiravam a concentração dos marujos solitários que ao enxergar as suas caudas, adicionavam à imaginação um busto feminino semelhante ao da mulher amada ausente.




Novembro 14, 2007

O REI E O CORONEL BUFÃO




pintura, tinta spray, e colagem sobre papel - 2000




Existe uma máxima que diz que a História sempre se repete. Às vezes duvidamos ao achar que a História está sempre a (re)começar, mas aí surgem fatos que provam o contrário. A História, em certos momentos, se repete, sim.

Percebe-se isto quando observamos as evoluções do atual presidente venezuelano, o coronel Hugo Chávez. Caramba, não é que o cara se parece com Benito Mussolini com aquele ar bufão, atitudes autoritárias e fascistas e o discurso ultranacionalista? Herdeiro direto do stalinismo mais rasteiro, Chávez se acha o líder iluminado, o único capaz de encaminhar não apenas o povo venezuelano, mas toda a América Latina a um fictício e abstrato paraíso terrestre.

Suas bravatas o tornaram ídolo de grande parte da esquerda latino americana que andava em busca de um substituto para “el comandante” Fidel Castro. Só que o venezuelano não tem a sofisticação do ditador cubano. Hugo Chávez é um milico truculento que na rígida disciplina da hierarquia militar alcançou apenas a patente de coronel.

É um exemplo perfeito do sujeito espaçoso, indelicado e mal educado que entra na casa alheia para determinar o que deve ser feito e proferir impropérios ao seu dono. Anda mundo afora esbravejando sua arrogância sem ser confrontado, verbalmente, frise-se, por ninguém.

E, além disso, ele serve como espelho para outros tantos líderes populistas e caudilhescos da América do Sul que se fortalecem quando enxergam o igual. Chávez está levando a Venezuela a uma ditadura ao fazer uso de todos os métodos para se perpetuar no poder e os seus esbirros autoritários acirram os ânimos de companheiros vizinhos que, da mesma forma, fazem e farão de tudo para continuar no centro das decisões.

Diante de tudo isso, ganhou um sabor todo especial a reprimenda pública do Rei Juan Carlos da Espanha a Hugo Chávez durante a Conferência dos Países Ibero-Americanos, ocorrida em Santiago do Chile há poucos dias.

Numa mesa de discussões onde se exige dos participantes um elevado espírito diplomático, o ditador tagarela falava sem parar ao abordar temas fora do contexto do encontro; e de maneira totalmente grosseira, como é de seu costume, insistia em atacar a Espanha. Falou tanto e tanta besteira que foi abruptamente interrompido pelo rei da Espanha com um apropriado “por que não cala sua boca?”

Naquele momento todos nós presenciamos um fato que certamente entrará para a História. Porque ali presenciamos como testemunhas da História um embate entre um monarca que soube livrar sua nação, a Espanha, do atraso econômico e social, do obscurantismo autoritário, do fascismo e da intolerância frente a um típico ditador latino americano, tanto faz que seja de esquerda ou de direita, com seus delírios totalitários sem limites.

Viva o Rei de Espanha!




Novembro 12, 2007

O DIÁRIO DO SOLDADO BÁRBARO



pintura, tinta spray, desenho e colagem sobre papel - 2007




Verdade ou não, ao decorrer dos séculos um mistério envolve as anotações feitas em um livreto que pertenceu a um soldado bárbaro que participou da invasão de Roma no ano de 455.

Tratado como relíquia, o diário do capitão da guarda germânica ganhou notoriedade entre os pensadores e escritores europeus e por um acordo secreto firmado em 1493, a totalidade do seu conteúdo permaneceria guardado para todo o sempre.

Das poucas coisas já divulgadas, fala-se que em uma passagem está escrito:

“Ao não fazer parte de determinado grupo que age e gira em torno dos seus próprios interesses costuma-se pagar um alto preço. Ao caminhar sozinho, corre-se o risco de chegar a lugar nenhum. Pensar por si mesmo pode trazer conseqüências, de imediato, não satisfatórias.

Mas o tempo, quase sempre, se encarrega de colocar as coisas no devido tempo. Porque os interesses próprios, por serem mesquinhos, não duram para sempre. O caminhar longe da manada, mesmo com todas as dificuldades e percalços, dá mais força e resistência e isso permite chegar, sim, a algum lugar. E pensar por si mesmo assusta aqueles que só pensam pelo senso comum.

Sempre foi assim, os que estão aparentemente próximos fazem ressalvas para não aceitar a verdade daquele que está ao seu lado, mesmo tendo consciência da autenticidade desta verdade. E eles ficam tão obcecados em não aceitar o que está ao seu ombro e esquecem que outros muitos que estão distante podem perceber e aceitar o sinal que vem da outra margem do rio”.




Novembro 9, 2007

O ÚLTIMO SONHO DE DOM PABLO



pintura sobre papel - 1982




No calor do alto verão ele costumava dormir numa cama colocada no jardim e certa manhã, ao acordar, a água estava beirando o colchão. A paisagem havia mudado, as ruas se transformaram em vias aquáticas e nas montanhas ao longe, prédios descomunais numa mistura de estilos que ia do barroco ao futurista.

As árvores estavam em todos os lugares e mulheres, muitas mulheres, o mundo se transformou e ele estava ali e presenciou toda aquela metamorfose. Em apenas uma noite parecia que tinha se passado uns cento e trinta anos e a ele, mesmo assim, tudo era tão familiar.

As ruas alagadas infestadas de peixes, crianças os capturavam com a mão e lhe ofereciam sabendo que os esqueletos de espinhas seriam aproveitados para servir como molde para as gravuras e porcelanas que ele estava a pintar.

Da janela ele observava o novo mundo para o qual acordara e lembrou do amigo que um dia foi visitá-lo em seu estúdio e ao olhar pela primeira vez um quadro que acabara de pintar, teria lhe falado:

- Dom Pablo, suas pinturas parecem querer nos convencer que é possível para nós humanos beber petróleo.




Novembro 6, 2007

UMA PEÇA QUE SE PERDEU AO LONGO DO CAMINHO



desenho sobre papel - 1987




E de repente tudo virou rock. Só que ao longo do caminho o roll se separou do rock e sem o roll o rock não rola. Tudo ficou muito chato e certinho, tudo no seu lugar, quem somos nós para opinar. Tudo é válido, vale misturar, só não vale incomodar porque tudo é moderno. Ao longo do caminho o rock virou pedra que não rola mais e pedra que fica parada e não rola é pedra que cria limo.

E nestes tempos politicamente corretos tem-se a impressão que apenas os veteranos ainda demonstram disposição em fazer o rock, com o roll...

Status Quo tocando Once Bitten Twice Shy, música de outro coroa rock´n´roller, Ian Hunter.







Novembro 3, 2007

GALERIA DOS PRESIDENTES DO MEU TEMPO # 02

ERNESTO GEISEL




comp art - 2007




No dia 15 de março de 1974 assume a presidência do Brasil mais um militar gaúcho, o general Ernesto Geisel. Sisudo, cabelos brancos e não lembro de tê-lo visto esboçar um único sorriso largo, apenas sorrisos burocráticos em suas aparições públicas. Tinha mais dois irmãos poderosos, igualmente generais do Exército, Orlando e Henrique Geisel.

No ano anterior uma crise internacional provocada pela alta dos preços do petróleo deu uma dura freada no ímpeto de desenvolvimento que o país atravessava. Tal crise levou o Brasil a entrar num redemoinho de problemas financeiros sucessivas cujos reflexos e efeitos sentimos ainda hoje. Até 1973 vivia-se uma certa euforia por conta do Milagre Econômico, período que trouxe significativos índices de crescimento, muito mais no sentido econômico que social, como não poderia ser diferente quando se trata de Brasil.

No início do governo Geisel as restrições políticas continuavam em marcha, porém os grupos (esquerdistas) de luta armada e de resistência à ditadura militar já estavam combalidos e derrotados. Se articula nos bastidores um movimento pelo retorno da democracia reunindo personalidades de ponta da sociedade brasileira.

Em 1975 a ditadura militar sofre um duro revés com a morte do jornalista Wladimir Herzog que foi encontrado enforcado nas dependências do DOI-CODI, o famigerado órgão de informação e repressão. As autoridades fizeram de tudo para alegar suicídio, contudo as evidências apontavam para um assassinato.

Entre agosto de 1976 e maio de 1977, faleceram, sucessivamente, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda, três líderes políticos que tiveram seus direitos cassados pelo movimento de 1964. Eles estariam articulando uma frente unificada de oposição ao regime militar e suas mortes fizeram brotar teorias conspiratórias de que teriam sido eliminados com o intuito de enfraquecer a representatividade civil.

A mobilização nacional pelo retorno às liberdades democráticas ganha cada vez mais força e as lideranças militares percebem que não poderiam manter aquela situação infinitamente. No entanto, alguns oficiais ligados à linha dura e que se opunham a esta idéia criaram problemas para o governo de Ernesto Geisel, fato este que culminou com a demissão do general Silvio Frota, Ministro do Exército.

Àquela altura o caminho em direção ao estado de direito já estava desbravado, porém o ambiente político ainda era tenso e no ano de 1978 é deflagrada uma greve liderada por Luís Inácio da Silva, o Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Através de uma frase que se tornou célebre durante o seu governo, Geisel reitera o seu compromisso em conduzir o Brasil rumo à democracia, mas que fosse de “uma forma lenta, gradual e segura”. A este conjunto de ações deu-se o nome de Abertura e isto, com toda certeza, tenha sido o grande mérito da sua passagem pela presidência.

O general Ernesto Geisel tinha uma filha não muito formosa, fã declarada da MPB de protesto e em especial de Chico Buarque e foi pensando nela que este compôs aquele famoso rock cujo refrão diz: “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.

Novos ares começavam a soprar no território nacional e em março de 1979, Geisel encerra o seu mandato. Logo após torna-se presidente de poderosa empresa do setor petroquímico, cargo que veio a exercer durante muito tempo.

Aos 89 anos, em 1996, morre Ernesto Geisel.