|
Visitas:
Usuários On Line: ![]() SITE MARCELO NOVA Tv Bota Pra F... Rádio Bota Pra F... MIGUEL CORDEIRO colabora com textos & imagens notícias & blog ![]() Links: anjo baldio artforum bernardo almeida biajoni boca da arte clashcityrockers estudio realidade expecting rain flashartonline google news grupo arte hibrida imago urbis joão makiesse katherine funke lágrima psicodélica le ciel sur paris marcelo nova mojo music for grown ups óculos de cebola otavio filho rockloco rodrigo sputter são rock uncut wooster collective Comente: Faça aquí seu comentário! Arquivos: Manutenção: Alexandre Guimarães Construtor: Raphael Cunha Confira: CD neil young ![]() john fogerty ![]() patti smith ![]() karen dalton ![]() rickie lee jones ![]() jerry lee lewis ![]() j j cale & eric clapton ![]() bob dylan ![]() neil young ![]() willie nile ![]() Livro jorge luis borges ![]() timothy leary ![]() Filme o baile ![]() bullit ![]() Download: ![]() Rock Baiano História de uma cultura subterrânea. |
Dezembro 30, 2007
TUDO BEM NO ANO QUE VEM
pintura sobre papel - 2003 o pedaço da muralha da china que desabou, o presidente da maior potência do mundo que tropeçou na escada, o albatroz lambuzado de petróleo, a cantora celebridade mostra a genitália depilada, avalanche de neve e lama invadindo cidades européias, capital externo volátil, o leão encurralado pelos búfalos e perdido na savana, o refugiado que ateia fogo às vestes, o avião que explode na via urbana. o gesto obsceno do obsceno burocrata, o celular molhado volta a funcionar com aquecedor de cabelos, o gás venenoso no metrô de tóquio, o ferry boat a deriva em alto mar, resíduos de chumbo no leite materno, a água de côco engarrafada, a metralhadora do segurança na porta da escola, a droga infalível para a doença incurável, o político inimigo que virou um incondicional aliado, o automóvel portátil descartável. o viagra citotec vick-vaporube cialis pramil, a vaia no maracanã, o almoço no restaurante a quilo, o torcedor fanático que lambe a chuteira do craque, as geleiras que derretem no alaska, o ladrão de quadros flagrado pelas câmeras de circuito interno do museu nacional, o elogio com tapinhas nas costas, o idoso disposto e o jovem sem eira nem beira, a trairagem sem má intenção, o corrupto e o corruptor na missa da padroeira. o humilde na matriz é um boçal na província, o rei democrata e o colonizado ditador, a perna do surfista destroçada pelo tubarão, o deslumbramento pelo novo velho, a derrocada da indústria fonográfica, o sexo gravado na máquina pornográfica, roupas de papel celulose de fibra ótica, sites de conteúdo viral, refrigerantes para seres geneticamente modificados, ventos glaciais no deserto africano equatorial. os sapatos vermelhos do papa, o comunista que trabalha para a máfia da direita, vilarejos do interior com ares de metrópole, pneus reciclados para veículos anfíbios, roqueiros tristes marqueteiros, a extorsão nas barbas da lei, o sonho do poder infinito, o telemarketing sempre descobre milhares de otários a cada mês, vozes de extraterrestres interceptadas por espiões do dalai lama, correntes marítimas de ácido sulfúrico plutônio 146. equipamentos analógicos abandonados na porta do hospital, o jogo de cartas riscadas, grifes sofisticadas clonadas vendidas no camelô, faculdades particulares para futuros profissionais desempregados, o mendigo assassinado por menores de rua, o mártir fanático que se auto-explode pela fé, a supermodel anoréxica janta no restaurante japonês, a demagogia que insufla a guerra entre a elite e a ralé. o grafite politicamente correto, o deputado safado na fila do cinema do shopping, animais de estimação estressados, aventuras apaixonantes e amores tediosos, cobertores termodinâmicos para travesseiros sensoriais, o filósofo de aluguel, o carteiro andarilho na era do correio eletrônico, o turismo sexual da terceira idade, a queda do valor da moeda, a mentira escrita como verdade. nuvens carregadas de sal, o relógio fluorescente da madrugada, o medo estratégico dos invejosos e a indiferença aos que fazem a diferença, festas populares com objetivos eleitoreiros, a ciência que desafia a existência de deus, racionamento de energia elétrica, répteis bípedes do quênia, o código de barras tatuado na pele, a notícia obsoleta da última hora, a obra prima sem autor, a bolha radioativa lança esporas. o contrabando de cérebros dos hospícios, índios da amazônia que vendem árvores milenares, a fita adesiva a prova dágua, crianças fabricadas por encomenda, cidades subterrâneas soterradas pelo terremoto, jogos de sorte para loterias eternamente sem ganhadores, bestseller de códigos secretos não revelados, ilhas que desaparecem lentamente, vidros de remédios contaminados. estradas virtuais bíblicas, a lava de vulcões para microondas, braços mecânicos movidos à energia solar, garrafas pet na rede de esgotos, a cidade cenográfica que não resiste a chuvas, último exemplar do tigre siberiano, uma cara para cada situação, radares escondidos monitorados pelo governo, a arquibancada enferrujada no estádio, aos aderentes o conforto das benesses, a vingança oportuna dos sábios. Dezembro 28, 2007
FALANDO SOBRE A GUERRA SEM FIM
pintura sobre papel - 2002 Realmente é muito difícil para nós ocidentais tentar compreender o que se passa nos países muçulmanos. Notadamente aqueles cujo funcionamento das instituições está sob o manto pesado do fundamentalismo religioso. O assassinato de Benazir Buttho além de nos deixar perplexos com a escalada de violência que ocorre nestas nações só faz confundir ainda mais nosso raciocínio ocidental perante a estreita paisagem que as burkas nos permitem olhar. A demonstração de força e poderio, a falta de diálogo e a intolerância com os contrários, o machismo exacerbado andam passo a passo com a estratégia truculenta de militares totalitários e avessos ao progresso econômico e social. Dezembro 26, 2007
A CAMINHO DE UAGADUGU
desenho e pintura sobre papel - 2003 O tenente-coronel Sangoulé Lamizana caminha pela densa floresta tropical que margeia um importante afluente do maior rio do então Alto Volta. Tribos contrárias guerreavam entre si e Sangoulé sabia que estava pisando num terreno minado. Seus acompanhantes tinham funções distintas e óbvias. Um médico para eventuais emergências. Um geógrafo para melhor analisar a região aonde poderiam estar. Três ou quatro trabalhadores para o serviço sujo e braçal. E também um feiticeiro para domar as entidades da floresta e proteger espiritualmente Sangoulé. Dezembro 25, 2007
GOOD TO TALK
pintura e desenho sobre papel - 1998 Good to talk how have things changed for tracks down modern-day black humour multi-cultures computer courses behind normally closed doors are still moving laughing again Dezembro 22, 2007
NATAL 2007
pintura sobre papel - 1992 À exemplo da Fênix que renasceu das cinzas, a ave que sobreviveu ao incêndio na floresta. O fogo queimou suas asas e impossibilitada de voar recolheu-se em uma calha nas pedras à margem do rio. E lentamente as penas foram crescendo mais fortes e resistentes. Dezembro 20, 2007
NÃO GOSTOU? ENTÃO VÁ RECLAMAR COM O BISPO.
pintura sobre papel - 1996 Costumava-se dizer a uma pessoa quando ela não estava satisfeita com alguma coisa: - Não gostou? Então vá reclamar com o bispo! Hoje nem bispo para nos queixar temos mais. E o bispo com sua autoridade abalada, agora apela até para greve de fome com o intuito de ser ouvido. E tudo vira um espetáculo midiático com estrela de novela fazendo cara de choro ao encontrar com o religioso que vive em jejum. E ainda somos obrigados a testemunhar trocas de acusações ideológicas com impropérios disparados de parte da esquerda que agora virou direita versus desaforos de parte da direita que agora posa de esquerda. O bispo em questão é D. Luiz Flávio Cappio da cidade baiana de Barra que fica às margens do Rio São Francisco. E pela segunda vez ele entrou em greve de fome contra as obras de transposição do referido rio. Ele alega que elas irão prejudicar as populações ribeirinhas e que podem até mesmo matar o rio. A princípio a idéia de levar água para o sertão brasileiro é louvável, mas quem garante que a transposição vai solucionar definitivamente o problema da seca? E se a obra se transformar com o tempo numa espécie de Rodovia Transamazônica, hoje abandonada e com vários trechos sem a mínima condição de tráfego? Alguém aí já viu ou ouviu uma explicação r-e-a-l-m-e-n-t-e convincente, científica e em linguagem popular de como será mesmo esta transposição do Rio São Francisco? Qual a garantia concreta e como a água chegará até os confins da caatinga nordestina? Através de canais a céu aberto? E o calor e o sol inclemente da região não serão capazes de provocar uma grande evaporação da água que corre nestes filetes de cimento armado? Tais canais serão revestidos por algum material? E a posterior manutenção desses canais será rigorosamente realizada pelos futuros governos? Será que a transposição do São Francisco não tem um traço dessa característica brasileira de realizar obras faraônicas que são iniciadas sob um enorme estardalhaço publicitário e anunciadas como a salvação da pátria e com o passar dos anos se torna um elefante branco ou um monumento à inutilidade e ao desperdício do dinheiro público? Tomara que dê certo. A torcida canarinho deve mesmo torcer para que dê certo, se Deus quiser vai dar certo, e caso isso aconteça que desfralde com infinita vibração o pavilhão nacional verde amarelo como num gol da nossa seleção devidamente narrado pelo Galvão Bueno incluindo aí aquela simpática vinhetinha, “Brasíl-síl-síl”... Contudo não custa nada recordar um certo fanático religioso que no final do século 19 afirmou que o sertão iria virar mar e que o mar viraria sertão. Do mesmo modo, é de bom alvitre ressaltar que não dá mais para se queixar ao bispo e, também, é mais que prudente para nós brasileiros avivar pela memória, a qual sabemos que é fraca, e lembrar aquela célebre frase proferida lá nos anos 1960 pelo presidente da França, Charles De Gaulle. Disse ele: - O Brasil não é um país sério. Dezembro 18, 2007
STOCKHAUSEN
compart (2007) e pintura sobre papel (2000) Aos 79 anos faleceu no dia 5 de dezembro passado o músico alemão Karlheinz Stockhausen. Criador de vanguarda cuja obra verdadeiramente inovadora serviu de inspiração para diversas gerações das mais variadas expressões artísticas. Elaborou trabalhos inusitados com elementos alheios ao universo musical incorporando ruídos, freqüências sonoras e sons das máquinas, eletrodomésticos, automóveis, helicópteros e com isso traçou as coordenadas daquilo que veio a se chamar Música Eletrônica. Influenciou não apenas músicos e compositores eruditos como também uma variada geração de roqueiros. Beatles, Frank Zappa, Grateful Dead, Pink Floyd, David Bowie, Brian Eno, a turma techno, os DJs e foi fundamental para o surgimento e consolidação do rock alemão de tendência mais experimental e eletrônica. Kraftwerk, Can, Tangerine Dream não teriam existido não fossem os princípios estabelecidos por Stockhausen. A imagem do seu rosto está na capa de Sargeant Peppers, dos Beatles. Inclusive, Stockhausen e os Beatles chegaram a planejar um trabalho em parceria, mas que não se concretizou. Seu trabalho, sua postura e suas declarações dividiam opiniões e geravam controvérsias e é este um dos grandes trunfos de artistas revolucionários. Outro detalhe: Stockhausen não usava a tecnologia apenas como um meio para emoldurar sua criação. Para ele, o conteúdo era tão ou mais importante quanto o veículo. Tachado como um chato ou radical por alguns, elevado à condição de gênio por tantos outros, Stockhausen nunca abdicou dos seus princípios. Ao assimilar os ensinamentos filosóficos orientais, ele fez a opção por uma vida discreta e dedicação integral à sua obra, alheio ao ôba ôba das celebridades vazias não se importando com os louros da fama. Fama, aliás, que ele tinha para dar, emprestar ou vender, a depender, é claro, do convite. O mais triste da perda de Stockhausen não é a sua morte física em si, pois esta é a única certeza que a vida nos oferece. É triste porque vamos ficando cada vez mais pobres de figuras humanas superiores e cada vez mais obrigados a conviver com a mediocridade generalizada. Dezembro 17, 2007
CLARICE LISPECTOR, LITERATURA FEMININA E KATHERINE FUNKE
compart, pintura e desenho sobre papel e xeros - 2006/2007 Nestes últimos dias tem se falado bastante a respeito de Clarice Lispector - são trinta anos do falecimento desta mulher que foi, talvez, a melhor das escritoras brasileiras. Mulheres que escrevem produzem algo de sabor diferenciado. Florbela Espanca, Gertrude Stein, Sylvia Plath, Simone de Beauvoir, Patti Smith, Emily Dickinson, Cecília Meireles, Anaïs Nin, só para citar algumas mais conhecidas. Cada qual com o seu jeito de ser e de se expressar. E por falar em literatura produzida por mulheres, um dos blogs que mais gosto de visitar é o Notas Mínimas que é feito por Katherine Funke. E os textos de Katherine Funke têm uma característica toda peculiar, não apenas no trato com as palavras como na abordagem. Geralmente são estórias curtas e de poucas frases, mas que surpreendem por sua leveza, sensibilidade e lirismo. Um trabalho de alto nível. Acesse aqui o blog de Katherine Funke. Dezembro 15, 2007
CINCO ESTÓRIAS DE VERÃO (FIVE SUMMER STORIES)
colagem, pintura e desenho sobre papel - 2003 Viagem de Férias Saí da minha cidade debaixo de um temporal de verão e desembarquei no outro lado do país com o sol reluzindo nas esquadrias de metal das janelas do aeroporto. Cada lugar tem o seu aroma e a brisa que soprava do mar para a terra trazia o cheiro de algas e sargaços que restavam na areia com a vazante da maré. Nas férias de verão tudo acontece rápido e de forma repentina. Tudo passa muito depressa. Frutas da Estação Abacaxi e manga eram frutas que só davam no verão. Agora elas aparecem o ano inteiro. Cajá, caju, umbu continuam sendo frutas específicas do verão. No caminho em direção a uma praia distante, ambulantes vendem mangas rosa à beira da estrada. Quinze mangas por um dinheirinho. O perfume das mangas rosa infestando o carro e em frente ao mar, se fartar do doce néctar e cravar os dentes na sua macia carne amarela. A Secret Love Affair Final de dezembro, festa de verão na praia em noite de lua cheia. Mais uma vez eu e ela no mesmo lugar. Mais uma vez usamos as mesmas cores em nossas roupas. Coincidências? Nossos olhares que se procuram. Olhares furtivos trocados por sobre os ombros das pessoas. Sorrisos cúmplices despercebidos por todos em nossa volta. Passos sorrateiros que nos aproximam, tão perto um do outro, nossos corpos que se tocam em busca de um desejo que não sabemos explicar. Não Há Nada Que Um Dia Clássico De Surf Não Cure O vento sul que soprou durante toda a noite era sinal de tempestade em alto mar e certamente traria uma forte ondulação às praias na manhã seguinte. Mal conseguia dormir de tanta ansiedade e aos primeiros raios da luz do sol eu já estava no mar. Sozinho no mar entre as ondas e cardumes de pequenos peixes que iam e vinham num movimento sincronizado. No horizonte observo a onda que lá se ergueu e ela começa a se formar. Remei em sua direção, busquei o melhor posicionamento e com braçadas fortes entrei na onda. Ssshhhh... O barulho da prancha deslizando na parede da onda enquanto eu fazia as evoluções. A velocidade e a sensação de leveza a desafiar a gravidade. O êxtase. A Maré de Março Um dia de muito calor e a ausência de vento provoca um suor pegajoso, o mar já tem uma cor diferente, as praias já estão vazias, as pessoas já não saem tanto à noite. Faz uma semana que ela voltou para sua cidade e as lembranças da sua presença estão espalhadas por toda casa. Ela esqueceu na gaveta parte do biquíni e a argola que ela usou na última noite está no chão ao lado da mesa de cabeceira. Acho que escutei trovoadas durante a madrugada. De manhã cedo as crianças e suas fardas escolares. Olho para o mar que quebra forte na beira da praia, as pedras que há poucos dias estavam encobertas pela areia já começam a aparecer. Dezembro 13, 2007
CANIBAIS COMEM CARNE HUMANA
desenho e colagem sobre papel - 2003 canibais comem carne humana de manhã bem cedo antes de ir pra cama canibais comem carne humana toda noite todo dia eles não descansam seja madrugada seja sol poente canibais preferem quando a carne é quente eles pensam até que vão parar de pensar nas coisas que os levam a pensar canibais comem carne humana e passeiam calmos sorrateiros pelos becos pelos pátios dos conventos internos uma vez feridos eles mergulham e somem desaparecem por mais de uma semana e ninguém sabe onde foram parar perambulam pela noite rondam e farejam todo lugar no asfalto pelos campos eles não se enganam eles sentem cheiro de carne humana canibais comem carne humana seja madrugada seja sol poente canibais preferem quando a carne é quente toda noite todo dia eles não se enganam eles sentem cheiro de carne humana canibais comem carne humana de manhã bem cedo antes de ir pra cama e eles pensam até que vão parar de pensar nas coisas que os levam a pensar uma vez feridos eles mergulham e somem desaparecem por mais de uma semana e depois voltam e perambulam pela noite rondam e farejam todo lugar Dezembro 11, 2007
A GANG DOS STONES
intervenção sobre dinheiro - 1986 Em Salvador, de frente para o mar, no canto direito da praia do Porto da Barra, ali bem no cantinho mesmo, na estreita faixa de areia está rolando uma pelada de futebol improvisada em meio a uma grande quantidade de banhistas. O jogo é tenso com troca de palavrões e nas disputas de bola a areia sobe pra tudo quanto é lado e atinge quem está nas proximidades. Embora aquele pedaço de praia encostado nas pedras fosse freqüentado pelas pessoas “in” da cidade, ninguém ali em sã consciência era doido de contrariar os caras que estavam jogando bola. Afinal tratava-se de nada mais nada menos que a turma dos Stones se divertindo à sua maneira e a praia do Porto da Barra era território exclusivo deles, quase uma propriedade. Os Stones barbarizavam a zona sul de Salvador no início dos anos 1980. Jovens boa pinta da alta classe média, inimigos confessos de qualquer tipo de trabalho que vertiginosamente despencaram para o mundo do crime. De início praticavam pequenos assaltos a estabelecimentos comerciais, roubos de toca-fitas, e daí foram descambando para furto de carros e depois para ações mais ousadas e truculentas a exemplo de assaltos a bancos, estupros e vandalismos barra pesada. Era uma época em que o consumo da cocaína se espalhava na sociedade e eles adoravam o produto. Em uma investida que ganhou fama nas areias da praia, ao tomarem conhecimento que um velejador estrangeiro escondia em seu barco uma grande quantidade da droga, integrantes dos Stones, em plena madrugada, remaram numa minúscula embarcação até o iate do velejador, o amordaçaram e o saquearam em meio a violências e ameaças. Eles frequentavam os bares da moda, as festas badaladas, cumprimentavam e eram cumprimentados pelos conhecidos, pagavam rodadas de bebidas caras para os que estavam presentes, eram paquerados por belas garotas. Sempre marcavam presença nos shows das bandas de rock da época, curtiam os grafites estampados nas paredes da cidade e chegaram a fazer incursões nesta área espalhando pelos muros garranchos em spray na cor vermelha com os dizeres: “Não faça amor, faça sexo!”. Ou se apropriando de outro grafite que foi muito popular anos antes: “Traia seu marido”. E sempre finalizados com um detalhe revelador: “ass: Stones”. Nas areias do Porto da Barra gostavam de tirar sarro com aqueles que não simpatizavam, independente do status ou da importância social ou cultural. Houve uma vez que Moraes Moreira foi vaiado pelos Stones ao descer a escada que dava acesso à praia. Numa tarde do verão de 1981, Caetano Veloso que à época usava aquelas batinhas femininas bordadas de renda foi recebido com palavras nada abonadoras. Ao se sentirem impunes, as ações do bando ficaram mais e mais arrojadas. Após suas ações criminosas, eles eram vistos na praia do Porto dando sonoras gargalhadas e era inevitável para quem os conhecia não ligar um fato ao outro. A barra começou a pesar e o começo do fim se anunciou quando alguns integrantes do grupo estupraram a namorada do filho de um político. Aí a casa dos Stones começou a cair e eles passaram a ser monitorados pela polícia. O cerco estava se fechando e as primeiras prisões tiveram início. Houve uma debandada do núcleo central do grupo. O líder, o mais boa pinta de todos e que gostava de desfilar pelo Porto da Barra em trajes idênticos ao personagem Alex, do filme Laranja Mecânica, foi passar uma temporada no Rio de Janeiro. Outros tomaram o rumo do interior do estado e os mais ingênuos foram os primeiros a dançar feio, enquanto os cabeças do bando estavam foragidos, longe de Salvador. A derrocada estava próxima e, um a um, foram caçados pela lei ou pelo destino. Retornando do Rio de Janeiro ao lado da namorada e logo após a primeira edição do Rock in Rio em 1985, o líder dos Stones dirigia seu buggy quando na altura de Santo Estevão, próximo a Feira de Santana, uma carreta passou por cima do pequeno veículo. Morte instantânea dos dois que ficaram com os corpos irreconhecíveis. Boatos circularam que teria sido uma morte encomendada. Outro integrante, talvez um dos mais virulentos, já tinha fugido para o Rio Grande do Norte e ao dar continuidade à sua vida bandida por aquelas plagas, viu-se encurralado num cerco policial. Tentou furar o bloqueio e morreu com o corpo crivado de balas. Um outro, vaidoso e conquistador, já estava refugiado numa cidade do interior baiano e lá mantinha um romance com a noiva de um herdeiro poderoso da região. Falastrão, não escondia de ninguém suas cafajestadas com a garota. Resultado: ao tomar conhecimento da história, o pai do herdeiro chamou o filho, estendeu uma escopeta e lhe disse: - aquele marginal está falando para toda cidade que está comendo a sua noiva. E você só volta para casa quando descarregar essa arma naquele desgraçado. O filho do coronel dirigiu-se até a pizzaria da praça onde o Stone batia ponto. Pegou a arma, saiu do carro, foi até a mesa onde ele estava sentado e ao se aproximar, deu o aviso: - se prepare para morrer agora! Ao reconhecer o noivo da sua amante apontando a arma de grosso calibre em sua direção, o Stone correu para dentro da pizzaria. Os tiros começaram a pipocar e ele ainda tentou se proteger por trás de mesas, mas ao perceber a inutilidade desta estratégia correu em direção àquela pequena janelinha por onde passam as refeições e que separa a cozinha do salão onde ficam os clientes. Forte, porte atlético, o Stone não conseguiu passar e ficou entalado no buraco. O tronco de um lado e parte do corpo do outro. E o herdeiro traído não se fez de rogado e descarregou sobre ele, sem dó nem piedade, toda a munição da escopeta de cano serrado. Após o serviço deu meia volta, entrou no carro e sumiu. Após esta morte simbólica e com vários dos seus integrantes na cadeia, o ciclo dos Stones chegou ao fim. Os que restaram ficaram receosos em ter um desfecho trágico e sumiram. Os que ainda permaneceram em Salvador recolheram-se e quando apareciam em algum local público pareciam meio paranóicos, olhando desconfiados para um lado e para o outro. Faziam, em vão, um enorme e desconfortável esforço para não deixar transparecer aquilo que um dia o foram. Dezembro 9, 2007
OTIS REDDING
compart - 2007 - Aquela garota roubou a minha música... Estas palavras foram proferidas por Otis Redding, a garota que cometeu o delito chama-se Aretha Franklin e a música em questão é Respect. No dia 10 de dezembro de 1967, um acidente aéreo vitimou Otis Redding e a maioria da sua banda de apoio, The Bar Kays. Quarenta anos se passaram, uma perda e tanto e esta lacuna ainda permanece em aberto. Otis Redding era um negão da pesada, voz poderosa, performance de palco que destilava carisma por todos os poros, compositor talentoso. Começou sua carreira profissional em 1960 e foi conquistando cada vez mais espaço, alcançando o topo das paradas musicais, tornou-se um símbolo da negritude consciente, suas criações foram regravadas pelos garotos branquelos Rolling Stones e sua apresentação no Festival de Monterey em 1967 foi das melhores de todo evento. Vinha num ritmo muito forte e ascendente até que a fatalidade interrompeu sua trajetória. Durante os dias que antecederam o desastre aéreo, Otis já havia gravado as bases de uma canção na qual ele planejava uma guinada na sua carreira: (Sittin´On) The Dock Of The Bay. Editada após a sua morte, consolidou definitivamente o nome de Otis Redding. Quanto a Respect, canção de sua autoria e lançada por ele próprio, ela até que conseguiu um razoável destaque na época do seu registro original em 1965. No entanto foi em 1967 que Respect balançou definitivamente o coreto na interpretação de Aretha Franklin. Chegou ao primeiro lugar em execução e vendas e passou da condição de simples canção popular para o patamar de um hino da libertação feminina, do orgulho negro e das lutas pelos direitos civis. Quando ouviu pela primeira vez Respect na voz de Aretha a reação inicial de Otis foi de não mais querer cantá-la já que jamais conseguiria imprimir o significado que havia adquirido. Daí veio sua frase que abre esse texto: - Aquela garota roubou a minha música... Aretha Franklin ao vivo em 1967 - Respeito é bom e todos gostam! Dezembro 6, 2007
O PAPAGAIO DE GETÚLIO VARGAS, A VOZ DO BRASIL E A TV PÚBLICA
pintura e desenho sobre papel - 1983 Já está no ar o canal da Televisão Pública, a tal TV Pública ou como alguns piadistas preferem chamar, a TV Lula. E o atual governo fez um esforço descomunal para colocá-la no ar o mais rápido possível. Quanto isso custará aos cofres públicos? Não importa. O que está por trás desta iniciativa e o que interessa mesmo é o governo ter um canal exclusivo no qual ele possa dourar a própria pílula ou se defender quando for acusado de algum deslize. Sabe-se que o governo do PT é useiro e vezeiro em acusar parte da mídia de ser tendenciosa ou até golpista ao noticiar fatos que o prejudique, o que não deixa de ter sua pequena porção de verdade. Só que a maioria dos representantes deste próprio governo finge esquecer que quando eram da oposição, a mídia para eles era algo sagrado e intocável e eles não demonstravam nenhum pudor em tirar benefício da liberdade de expressão para ecoar suas denúncias, muitas delas puras bravatas. Todavia, deve-se ressaltar que a TV Pública que entra no ar sob as bênçãos da atual legislatura será mantida e devidamente alimentada, com absoluta certeza, por todo e qualquer governo daqui para frente. Mas voltando no tempo... Quando éramos crianças gostávamos de ouvir histórias contadas por um senhor de idade que costumava fazer relatos de um período que despertava em nós uma enorme curiosidade. Uma noite, nós estávamos em torno daquela figura na porta da sua casa e, de repente, irrompeu no rádio que sempre o acompanhava o programa da Voz do Brasil. Grande parcela da população odiava a Voz do Brasil, um informativo obrigatório que foi criado em 1935, pelo presidente Getúlio Vargas (à época com o nome de Hora do Brasil), e que ainda hoje é a mais pura personificação do oficialismo auto-bajulatório. E não existia nada mais repugnante nas ondas do rádio que aquele amontoado de notícias sempre levantando a bola do governo, amplificando além da conta seus êxitos, aumentando com o devido exagero suas realizações. E, às sete da noite, quando teve início mais uma edição diária da Voz do Brasil, o velhinho contador de histórias da nossa rua começou a narrar um fato que ganhou fama ainda nos anos 1940. O então presidente Getúlio Vargas tinha um papagaio de estimação e, ninguém sabe como ou através de quem, ao bicho eram ensinadas frases e palavras que surpreendiam o seu ilustre dono. E um dia, ao encerrar o expediente mais cedo, Getúlio estava ouvindo o rádio e quando a voz do locutor anunciou "na capital federal, dezenove horas" e o tema musical com os acordes do Guarani de Carlos Gomes soou, o papagaio instintivamente repetiu aquilo que havia aprendido: - desliga essa merda que vai começar a Hora do Brasil! Getúlio, claro, ficou sem reação a não ser se morder de raiva. Portanto, sendo assim, instalada a tal TV Pública será engraçado e mais que apropriado ouvir um papagaio tagarela falar: - muda essa merda de canal que é a TV do governo! Dezembro 4, 2007
CHET BAKER´S JOURNALS (NOTAS DE MAIO 2003)
desenho e colagem sobre papel - 2003 agnaldo rayol canta com topete chet baker num programa de televisão em homenagem às mães o metrô vazio de hong kong pelo medo da pneumonia asiática a história da bela estudante atingida por um tiro no interior de uma faculdade do rio de janeiro num fim de semana perdido no deserto de rocky mountain west um alpinista amputa o próprio braço preso a um pedregulho rolante bento carneiro vampiro brasileiro aparece nas doze badalada notúrnica sugando sangue no congresso nacional alô houston a águia acabou de pousar no solo da lua quem deve na praça precisa de soluções radicais livres surgem em decorrência do stress o banco central tem o dever de encontrar um ponto de equilíbrio para o mercado Dezembro 2, 2007
ROLLING STONE NA BANCA DE SÊO MENDES
compart - 2007 Volta e meia eu aparecia na banca de Sêo Mendes que ficava ali no Campo da Pólvora, perto da minha casa, e perguntava: - chegou a minha revista? Aos dezesseis anos eu era um velho freguês do seu estabelecimento. Ainda garoto, eu colecionava e comprava ali, clandestinamente, "catecismos" que eram aquelas revistinhas de sacanagem desenhadas pelo genial Carlos Zéfiro. Na época não existia nenhuma publicação nacional sobre rock´n´roll e dava-se um jeito para acompanhar as notícias através dos programas de Big Boy numa estação de rádio carioca ou ouvindo a BBC de Londres em ondas curtas. Em ambos os casos fazendo malabarismos eletrotécnicos com antenas improvisadas de arame que tomavam quase todo o quarto de dormir. Todavia, em 1972, começou um zum zum zum pelas galeras dando conta que a revista Rolling Stone seria lançada no Brasil. Certa manhã dei uma passada na banca de Sêo Mendes e lá estava a tal revista. Adquiri o meu exemplar. Caramba!! Aquilo era demais para ser verdade. Reportagens e fotos das bandas e artistas que eu curtia e tinha ouvido falar: Ten Years After, The Band, Humble Pie, Alice Cooper, Chuck Berry, Howlin´ Wolf, The Faces, histórias sobre o surgimento do rock´n´roll, suas raízes, o rhythm´n´blues, o blues e suas figuras obscuras... Nunca esqueci uma matéria em que John Lennon dizia quais músicas dos Beatles ele escreveu e quais músicas McCartney escreveu. Ou da reportagem que narrava as aventuras malucas de Keith Moon, batera do The Who. E também a coluna de Ezequiel Neves (Zeca Jagger), os textos cheios de significados de Luis Carlos Maciel (o editor da revista). Na Rolling Stone, pela primeira vez e hipnotizado, eu li (em português) algo sobre Timothy Leary, Jack Kerouac, Ginsberg e outros autores beat. Comprei todos os números que sairam e nunca caía na asneira de emprestar a amigos ou sequer recortar para fazer colagens nos cadernos escolares. Nada disso. Lia cada edição de cabo a rabo e as guardava como um troféu junto dos meus discos. Por razões mais que óbvias, não devia ser nada fácil colocar nas bancas uma revista naqueles moldes num Brasil de 1972. Censura, ditadura militar, mercado limitado, grana curta, tudo conspirava para que a Rolling Stone não tivesse uma vida longa. De qualquer modo, ela durou quase um ano e a cada dia que antecipava a chegada de mais uma edição, eu já estava rondando a banca de jornal do Campo da Pólvora. Nem precisava eu perguntar pela Rolling Stone. Sêo Mendes me via passar pelo outro lado da rua, observava que eu olhava para ele como se quisesse saber de algo e de dentro da barraca ele gritava: - sua revista chegou e já tenho uma aqui separada pra você. PS: Este é um relato pessoal das lembranças de quando a revista Rolling Stone foi lançada entre nós no início dos anos 1970. Em 2007, ela voltou ser editada no Brasil e é bem diferente daquela de trinta e cinco anos atrás, à época uma publicação underground bem de acordo com os ditames da imprensa nanica nacional de então. Contudo, a Rolling Stone continua sendo uma revista interessante e direcionada a um público segmentado. Por certo perdeu a aura anti-estabilishment, mas conseguiu sobreviver, ganhou sofisticação gráfica, atraiu anunciantes capitalizados. Ademais os tempos mudaram, tudo mudou, todos nós mudamos e é sintomático lembrar que foi nas páginas da Rolling Stone que John Lennon decretou o fim de uma era ao afirmar que o sonho havia acabado.
capa da Rolling Stone brasileira em 1972 |