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Fevereiro 28, 2008
GALERIA DOS PRESIDENTES DO MEU TEMPO # 04 JOÂO BAPTISTA FIGUEIREDO
compart - 2008 Corria o ano de 1979 e assim que foi anunciado como o próximo presidente do Brasil, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo apareceu na capa da revista Manchete fazendo exercícios físicos e trajando apenas uma sunga preta. Para não fugir à regra, mais um presidente muito doido... E foi logo dizendo para que veio, bradando aos quatro ventos que continuaria o processo de abertura política, prometendo mais liberdades civis e políticas e mandava um recado preventivo, curto e grosso para aqueles que não desejavam a democracia: - eu prendo e arrebento! Curto e grosso, sempre, e dotado de humor ferino, Figueiredo não tinha papas na língua, estava cagando para o que hoje chamamos de politicamente correto e pronunciava frases de efeito que desnorteava tanto a esquerda quanto a direita. Perguntado por jornalistas sobre o que ele achava do povo, o general respondeu de bate-pronto: - prefiro o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo. Em outra oportunidade, questionado sobre o que faria caso ganhasse o salário mínimo pago no Brasil, apontando para a própria cabeça, Figueiredo respondeu: - eu daria um tiro no côco. E quem era doido de contrariar o general a não ser dar risada das suas polêmicas declarações? Dias estranhos misturados a um sentimento de liberdade cada vez maior. A anistia política veio no segundo semestre de 1979, trazendo de volta ao Brasil uma enxurrada de exilados quer eram recebidos como heróis. E Fernando Gabeira chegou fazendo barulho ao trazer para o centro do debate temas tabu para época e desfilando pelas praias da zona sul do Rio de Janeiro em uma minúscula tanga feminina de crochê. Nem tudo era flores sabendo-se que parte dos militares e setores da extrema direita tinham pavor da idéia de um retorno à democracia e conspiravam da maneira mais suja. Atentados que vitimavam inocentes e o mais grave deles que foi a tentativa de colocar uma bomba no Riocentro (1981), quando ali acontecia um show em comemoração ao Primeiro de Maio, dia do trabalho, com presença de numeroso público e participação de artistas politizados e francamente opositores ao regime militar. O artefato estourou na garagem do sub solo do Riocentro provocando a morte de um dos militares que estavam envolvidos na ação. Caso a bomba explodisse no local do show por certo atingiria um grande número de pessoas. Figueiredo, sujeito de pavio curto, tentava manter as rédeas num ambiente político ainda incerto em meio a crises econômicas e tendo de ouvir uma sociedade cada vez mais opinante. Numa visita a Santa Catarina viu-se diante de um protesto estudantil e foi xingado, quis enfrentar os garotos, correu pra dentro dos manifestantes, trocou sopapos com a estudantada. A estrada para a democracia já estava aberta e daí para a campanha das Diretas Já foi um pulo e multidões tomaram as praças e ruas num clamor que exigia eleições diretas e livres para escolha do próximo presidente. Sem dúvida era uma festa bonita, mas como o Brasil sempre arranja uma alternativa conciliadora quando a ruptura é mais que eminente, o movimento das Diretas Já ficou só na vontade, pois a emenda foi derrotada no Congresso e como resultado disso passamos por mais uma eleição indireta com o presidente sendo escolhido pelo Congresso. De qualquer forma o eleito foi o oposicionista Tancredo Neves. Então veio o clímax, ou para ser mais preciso, o anti-clímax. Acostumados que somos com o espírito camaleônico e calhordice sem fim dos políticos brasileiros, não foi surpresa ver muitos dos que antes defendiam com unhas e dentes o regime militar abandonarem o barco para pongar na candidatura de Tancredo Neves. Diante disso, Figueiredo, temperamental e esquentado, sentiu o golpe traiçoeiro daqueles que bajulavam ele proprio e seus companheiros de farda de repente passarem pro outro lado e foi ficando cada vez mais isolado e esta situação o acompanhou até o fim do seu governo. Mas antes do general sair do palácio, acontecimentos inesperados. Na véspera da posse de Tancredo Neves, ele que seria o primeiro presidente civil depois de vinte anos de governantes militares é internado às pressas num hospital de Brasília e fica impedido de assumir o cargo. E então foi combinado que o vice candidato, o maranhense José Sarney se tornasse presidente provisório até o retorno de Tancredo. E o último dos generais, sujeito de pavio curto que falava às claras o que vinha na telha foi embora e mandou um recado de despedida, mais uma vez curto e grosso: pediu literalmente ao povo que o esquecesse. E furioso ao ver Sarney, um ex aliado dos militares chegar ao posto máximo da república, recusou-se a passar-lhe a faixa presidencial na cerimônia da posse em 15 de março de 1985, e saiu pelos fundos. Tancredo Neves, aquele que foi sem nunca ter sido, veio a falecer em 21 de abril, pouco mais de um mês após a internação e depois de uma via crucis que emocionou todo o país. E Sarney, matreiro e sonso como ele só se tornou de fato o presidente e ainda está aí, firme, forte, cada vez mais poderoso, sempre mudando de lado e apoiando todo e qualquer governante que alcance a presidência do Brasil. Figueiredo foi embora, esquecemos dele e com ele a ditadura que perdurou por vinte longos anos. Fevereiro 26, 2008
JOHN COLTRANE BLUES
desenho sobre papel, colagem e compart - 1999 / 2007 quando você perde seu tempo tentando dizer algo para alguém sem nenhuma consciência e se tem uma coisa que não funciona por mais que você insista por mais que leia as instruções você perde por completo a paciência não quer perder um só segundo e se o mundo mudou para todos já não é como foi antes você já não se ilude nem acredita mais vê que ficou pra trás a era da inocência à distância ouve-se uma canção entrecortada num radinho de baixa freqüência ela afirma que não existe cura para o blues da existência Fevereiro 24, 2008
CÉREBRO CORAÇÃO
pintura sobre tela - 1998 Dois palmos apenas separam o cérebro do coração. A massa cinzenta cerebral num emaranhado de filamentos na parte superior do crânio e o músculo cardíaco de cor vermelha no lado esquerdo do tórax nem sempre caminham no mesmo passo. O que um ordena, nem sempre o outro obedece Ainda ao tempo da civilização Inca, entre dois vilarejos situados na cordilheira dos Andes existia um santuário, local em que os habitantes da região ali colocavam em tumbas de pedra, o cérebro e o coração dos seus entes queridos depois de mortos. Eles usavam uma fibra vegetal de alta resistência e supostos poderes espirituais, e com ela amarravam o cérebro ao coração, juntos. Ao agir assim eles acreditavam que a alma dos mortos estaria livre dos dilemas mundanos e das dúvidas que acompanham o ser humano por toda sua existência terrestre. Fevereiro 21, 2008
O ROCK QUE TIRA O SONO DA ILHA DE FIDEL
pintura, desenho sobre papel e compart - 1987/2008 A imagem e idéia que temos da música cubana é aquele batido estereótipo onde proliferam os saltitantes ritmos caribenhos e boleros chorosos, ou então as canções “revolucionárias” dos aderentes artistas oficiais. E mais recentemente o rap/hip hop que é bem visto pelas autoridades locais, talvez por conta da sua fachada de inclusão social, e os políticos latinos que adoram uma demagogiazinha sempre levam a tal cultura no banco do carona para chegar ao seu destino favorito, o poder. O exemplo do Buena Vista Social Clube tem outras variantes. O grupo dos velhinhos músicos que alcançaram o estrelato pelas das lentes do cineasta alemão Wim Wenders através do filme homônimo eram astros antes mesmo da Revolução Cubana de 1959. Naquele tempo eles se apresentavam nos cassinos locais e aí veio Fidel e companhia pregando o fim da “cultura burguesa” e fechou os cassinos e a maioria desses músicos foi despedida. Muitos abandonaram a carreira e alguns foram trabalhar como engraxate (Ibrahim Ferrer) ou enrolando charutos (Compay Segundo). Esquisito é que o sucesso do Buena Vista meio que encobriu a atitude dos líderes revolucionários cubanos que jogou, compulsoriamente, tanta gente talentosa no ostracismo. Só que com a fama proveniente do filme, é claro que Fidel iria tirar proveito dos velhinhos, como veio a tirar, claro. Depois de várias apresentações mundo a fora e aclamados internacionalmente, as autoridades de Cuba promoveram um grande concerto do Buena Vista ao ar livre e lá estava Fidel na primeira fila como se ele próprio não tivesse nada a ver com a abrupta interrupção de suas carreiras. Em 2002 eu recebi um exemplar de uma revista musical estrangeira e ao folheá-la me deparei com uma reportagem sobre a cena e grupos cubanos de rock. Lendo a matéria fiquei abismado com os fatos e desde então procuro me informar sobre o que está ocorrendo por lá, pois o rock local é totalmente proscrito, proibido mesmo e reprimido pelo governo que não libera teatros ou espaços para os grupos se apresentarem e muito menos dá licença para exercer livremente suas atividades artísticas. Tudo é feito às escondidas e à revelia do regime ditatorial e as bandas usam a tática de realizar shows relâmpagos em terrenos baldios, em residências e divulgados na surdina, sempre fugindo da repressão e dos informantes dedo duro que infestam os bairros de Havana. Propositalmente, a proposta dos grupos cubanos de rock é ir contra todo e qualquer traço que possa demonstrar um orgulho cultural cubano pré ou pós revolucionário. Eles apenas querem tocar rock´n´roll e diferem do rap/hip hop cubano que usa e abusa das misturas musicais. E ainda por cima, participa também deste caldo pessoas "antenadas", as quais têm voz na comunidade e apóiam o regime por baixo do pano. E elas fazem uma sutil campanha contra o rock´n´roll ao afirmar que os roqueiros são rancorosos, reclamões, radicais e que são artistas menores por desprezarem as tradições culturais de Cuba. Um desses grupos representativos do rock feito em Cuba, certamente o mais importante e popular entre a garotada é o Porno Para Ricardo. Eles são uma autêntica banda punk de sonoridade crua, de um anarquismo sarcástico com discurso politizado, mas que não prega zorra de ideologia nenhuma. Esculhabam abertamente com a ditadura e tira um tremendo sarro dos líderes do governo, a começar por Fidel e seu irmão Raul. Alguma coisa está se movendo no underground cubano e é bacana ver que uma simplória banda de punk rock está tirando o sono da ditadura que, cambaleante e senil, ainda insiste em ficar de pé. em ação a banda punk cubana Porno Para Roberto, personas non grata para os seguidores de Fidel Fevereiro 20, 2008
UM LONGO E DEMORADO ADEUS
compart - 2008 "O exílio me fez perder meu leitor natural, que seria um cubano e possivelmente um morador de Havana. Vivo nesse conflito, porque meus livros estão proibidos em Cuba... Descobriram uma professora que tinha em sua casa meu livro Havana Para um Infante Defunto. Ela foi levada presa e condenada a pagar uma multa de 500 pesos, pesada para um cubano”. Guillermo Cabrera Infante (1929-1997), escritor e dissidente do regime comunista cubano que morreu no exílio em Londres. Um amigo que tem um coração esquerdista visitou Cuba no início dos anos 1990, e na volta falava sobre coisas da ilha de Fidel Castro e dizia que para ele a experiência tinha sido uma alegria e uma decepção. Uma alegria em pisar no solo de uma nação que no período anterior à revolução, ainda no tempo de Fulgêncio Batista, dizia-se que seu território era uma espécie de quintal e bordel dos americanos que para lá se dirigiam a fim de depenar suas riquezas, jogar nos cassinos e prostituir as mulheres locais. Aquelas imagens de Castro, Che Guevara e seus companheiros descendo de Sierra Maestra em 1959, e ocupando a capital Havana eram fortes demais e emocionavam grande parcela da juventude mundial ávida por justiça e liberdade. Alegria pelo orgulho revolucionário que ousou desafiar o império norte americano por décadas, alegria por presenciar os eficientes serviços elementares - a saúde pública e a educação. E o amigo sentiu uma profunda decepção ao constatar que quase todos aqueles ideais tinham descido pelo ralo. A escassez material se espalhava por toda ilha, a ausência da liberdade de expressão e a degradação das cidades eram visíveis. Um cordão separava os visitantes dos nativos, os privilégios da moeda estrangeira versus a pobreza da moeda cubana. O encarceramento e em alguns casos o assassinato de opositores mais salientes, salários baixíssimos, o turismo sexual espalhado pelas ruas e os malabarismos dos nativos para levantar um ganho extra sob o olhar repressor e violento do governo. Tirando de cena toda e qualquer coloração ou alinhamento e fanatismo ideológico, para os que acompanham os métodos da ditadura comunista de Cuba ou, de igual forma, conhecem o comportamento social e cívico da maioria dos povos latino-americanos é difícil acreditar que mesmo com a renúncia de Fidel vá ocorrer alguma mudança a curto ou médio prazo que possa representar uma direção rumo a uma democracia e liberdades individuais. Se nos países do leste europeu a população foi às ruas para exigir a queda do regime comunista e transformações profundas na estrutura das suas instituições, parece que o povo que reside em Cuba já está há muito tempo anestesiado e acomodado para tal atitude, seja pelo medo ou pelo comodismo ou pela própria ausência de reivindicação cívica da sua formação histórica. É triste constatar isso, mas infelizmente, são mínimas as possibilidades do povo cubano ir às ruas exigir mudanças. No futuro, numa próxima geração pode ser que sim. Contudo, eu gostaria muito em estar errado nessa minha previsão. Fevereiro 19, 2008
OS MAMUTES ABANDONADOS NAS PLANÍCIES DE GELO
pintura sobre papel - 1982 Não haverá mais divisão na paisagem da Terra devastada e a atividade humana se resumirá a um deserto situado entre o mundo das celebridades e o show virtual daquilo que nunca existiu. Ventos em grande velocidade irão envergar torres de alumínio de emissoras de televisão, antes tão seguras em suas fundações. Em escavações na região polar do Ártico encontram-se mamutes intactos congelados e pegadas do Abominável Homem das Neves, e suas descobertas desafiam os cientistas em busca de uma explicação para a origem da vida no planeta. Em um breve período de anos, mamutes serão clonados a partir de um único fio de pêlo e eles ganharão vida própria e serão largados nas planícies geladas do norte da Noruega. Quando o eixo da esfera terrestre sofrer uma minúscula alteração em seu ângulo, as regiões frias se tornarão acaloradas e as regiões equatoriais sofrerão um esfriamento, daí o avanço constante das águas oceânicas e o provável início de outra era. Fevereiro 17, 2008
VERSOS BAIÂNICOS A PATRULHA DA BAIANIDADE
compart - 2008 Existe uma patrulha em cada porta de todo e qualquer cidadão que se manifeste artística e culturalmente na cidade de Salvador. É a Patrulha da Baianidade. Não importa qual tipo de sua expressão artística, seja gênero musical, literatura, artes plásticas, teatro, ou o que for. A tal baianidade é um troço que em grande parte foi divulgado inicialmente por Jorge Amado e Dorival Caymmi através de suas obras, os quais descreviam esse lado exótico e folclórico da Bahia, e assim, os políticos se apropriaram disso e adicionaram um apelo turístico-cultural e, claro, um projeto de poder Se uma pessoa não gosta, não comunga com os dogmas da tal baianidade, um só que seja, rejeita essas influências e diz de forma clara e aberta que não gosta das “coisas culturais da Bahia” é logo tachado de radical, purista, sectário, elitista, conservador, reacionário, problemático, anti-povão e por aí vai. E, imediatamente, é colocado à parte por essa Patrulha da Baianidade que já está impregnada de forma mesmo inconsciente e até a medula no coletivo cultural. Sincretismo religioso, o misticismo, o candomblé, o exotismo, o colorido, a “música baiana” são espécie de CPF exigido para ter o aval dos formadores de opinião locais. E aquele que não milita no território da baianidade e tem um trabalho de qualidade pode até ser respeitado, contudo, com certeza será conduzido a um Gulag abstrato, posto no isolamento e tratado com indiferença e o “gelo”, não importa o valor ou importância cultural da sua criação. Uma coisa meio ditatorial que em menores proporções, é claro, se parece com aquela história dos dissidentes russos que eram despachados para a Sibéria por não demonstrarem um alinhamento ideológico com a causa nacionalista soviética. Ao longo de décadas, parte da inteligentzia baiana acusava o esquema de Antonio Carlos Magalhães de fomentar e incentivar com interesses políticos esse lado cultural exótico da baianidade, mais notadamente a axé music. A oposição pregava que ao chegar ao poder instalaria a diversidade esquecendo que para que isso venha a se concretizar, ela própria teria de se despir da baianidade esquerdista encruada em suas mentes, a qual é tão prejudicial quanto à outra, a baianidade de direita. E mais, não se instaura uma diversidade cultural num ambiente já contaminado em todos os setores sem que à população seja dada uma enxurrada de opções e informação que venha desmistificar a baianidade como algo superior a toda e qualquer manifestação. Sim, porque a baianidade faz crer que o mundo gira em torno do seu próprio umbigo, a Bahia, e que não existe nada em todo o Universo mais importante que ela, ou mais rica em traços culturais e que todos e tudo tem de se curvar perante sua relevância. E isso é de uma bobagem sem tamanho. Somos iguais em importância naquilo a que todos são diferentes e somos minúsculos àquilo a que todos se fazem diferenciar já que vivemos num mundo sem barreiras e plural em sua coletividade. Abaixo a Patrulha da Baianidade. Liberdade de expressão a toda e qualquer criação. Fevereiro 15, 2008
O BUMERANGUE E O ARTISTA ENGAJADO
desenho sobre papel - 2005 a mesma força com que vai o bumerangue vem palavras ao vento que são ditas quando convém rodopiam no ar se desfazem ou dizem outra coisa mas quando voltam cortam feito lâmina retalhando com desdém Fevereiro 12, 2008
FAUSTINO O BATISMO DE FOGO DE UM PICHADOR
grafite - 1983 / foto de José Paranaguá Na era pré-diluviana do grafite de rua contemporâneo - 1978/1979, quando pichar muros era uma atividade independente e totalmente subversiva já que ainda vivíamos num regime de exceção e não tinha essa de pedir autorização aos agentes públicos e muito menos apoio de ONGs para realizar tal tarefa, o jeito era atuar na calada da noite e de preferência acompanhado por outro carro para vigiar e dar cobertura. Ser pego em flagrante pela polícia não era uma coisa nada agradável e a gente ouvia falar de casos de prisão e violência. Tinha um grupo de grafiteiros de Salvador chamado ML e muitas das suas intervenções eram sistematicamente apagadas pelas autoridades. O grafite mais famoso deles era um acróstico com as iniciais ACM que dizia: Avante Com Miséria E o mais engraçado é que bastava eles picharem isto para que na manhã seguinte o grafite aparecesse apagado com tinta branca justamente as letras A, C e M e deixavam o resto: vante om iséria O porquê do nome ML gerava muita especulação e Movimento Libertário era o que mais prevalecia devido a sua temática quase sempre politizada, porém anárquica, Poucos anos atrás conheci um dos seus integrantes e ele me falou que ML significava apenas Muito Louco, o que me causou uma enorme surpresa, é claro. E ele também revelou que saíam para pichar em comboio de dois ou três carros e faziam uso de walkie talkies para se comunicarem e passar informações do movimento na área em que iriam atuar. Era preciso ter cuidados redobrados já que ninguém estava imune à repressão. No entanto, uma madrugada eu fui surpreendido quando grafitava uma frase de Faustino num paredão da Avenida Contorno. Estava totalmente concentrado, adrenalina a mil e perto de finalizar o serviço percebi as luzes de um camburão piscando ao meu lado. E aí um dos policiais falou: - pichando muro, hein comunista! Tremi nas bases, tinha sido pego com a boca na botija. Esperei o pior até que outro oficial disse: - é o Faustino! Deixa ele pichar e vamos embora que tem coisa mais importante pra gente fazer. Não acreditei no que estava acontecendo. Foi uma tremenda sorte, mas àquela altura dos acontecimentos eu não tinha mais nenhuma dúvida que o Faustino era um personagem que tinha caído no gosto popular. Aparentemente, o policial que livrou minha cara tinha uma patente mais alta que seus acompanhantes e, por certo, era um admirador dos grafites de rua. Naquela madrugada eu senti na pele que algo diferente estava em curso no Brasil e senti uma ponta de orgulho por fazer parte desta transformação. Fevereiro 10, 2008
TERRA SEM LEI
pintura sobre tela e compart - 1998 / 2008 o sol quando nasce já traz uma verdade que qualquer um pode ver mas existe uma maneira que ninguém vai impedir porque a lei não existe aqui um homem segura uma arma e pára bem em frente ao posto policial e ele segue andando sem ninguém impedir porque a lei não existe aqui terra sem lei terra do mal terra sem lei terra do mal na esquina confusa do centro financeiro todos falam na lenda do grande justiceiro aquele a quem todos tentam proibir e que outros pensam destruir e no final da tarde quando fica escuro é bom ter a certeza que você está seguro observe em volta e fique bem concentrado porque o inimigo pode estar do seu lado terra sem lei terra do mal terra sem lei terra do mal Fevereiro 7, 2008
O GAROTO E O PÁSSARO
pintura e desenho sobre papel - 2008 O ônibus seguia veloz pela estreita estrada vicinal de barro batido e o carro em que eu estava esperava o momento apropriado para ultrapassar quando percebi um garoto com parte do corpo projetado para fora da janela. O seu braço estendido e no dedo indicador um pássaro com suas asas abertas a cortar o vento. Continuamos seguindo o ônibus a observar aquela bela imagem. Uma prova desafiadora de amizade e confiança mútua. O garoto e seu pássaro de estimação numa brincadeira de alto risco, pois qualquer descuido e eles poderiam se separar para sempre. E eles pareciam se divertir. O garoto a sorrir olhando seu amigo pássaro cortando o vento. O pássaro parecia feliz ao demonstrar ao seu parceiro a cumplicidade que os unia. Ao presenciar aquela cena, de imediato a idealizei dentro de um filme. A emoção de ambos neste quadro da vida de profundo simbolismo. E imaginando o equilíbrio e a firmeza da pressão das patas do pássaro cravadas no dedo do garoto, percebi que ambos voavam juntos. Fevereiro 4, 2008
ABSTRACT
pintura, desenho e colagem sobre papel - 2004 Gritos no vale das águas provocam eco nas paredes e criam palavras abstratas. Caminhos indecisos levam a um destino incerto e abstrato. Árvores tortas com folhas deformadas produzem sombras abstratas. Rock´n´roll em pleno carnaval da Bahia, a terra do axé, abre uma brecha que pode vir a ser algo diferente e interessante ou, talvez, um woodstock surrealista e abstrato. Sha Na Na vira Axé Na Na. Destrona o rei do rock que disse que é preciso ter cultura pra cuspir na estrutura e chegam as guitarras miúdas de alta estridência a balançar o chão da praça. Óleo e sangue, fumaça de gelo seco e monóxido de carbono. Um choque de culturas abstratas. Fevereiro 1, 2008
MEMÓRIAS DE 68 CARNAVAL EM COPACABANA
pintura, tinta spray, desenho e colagem sobre papel - 2007 Era uma alegria passar as férias no Rio de Janeiro. Início de 1968, um verão sempre revisitado. Hospedado na casa de primos, pela manhã ir à praia, pegar onda no Posto 5 com prancha de isopor e tomar Chicabon. À tarde passear pela avenida N. Srª Copacabana inebriado pela beleza das meninas cariocas. Doze anos de idade e o Rio tinha um cheiro diferente, tudo era diferente. A primeira vez que ouvi Hendrix, o primeiro conselho para evitar conversas políticas com estranhos. Assistir filme no Roxy em tela cinerama e depois um lanche no Bob´s. A chegada do carnaval, o palanque montado na Rua Miguel Lemos que se transformava num salão da folia momesca. Final de tarde, baile para menores de idade e lá eu estava ao som das marchinhas tocadas pela orquestra de metais, sopros e percussão. As garotas circulando pelo salão e ela passou uma, duas e mais vezes olhando com um sorriso. Na outra volta coloquei minha mão no seu ombro e começamos a rodar. Conversas e aproximação e a ingenuidade abre espaço para uma malícia furtiva com o coração aos pulos. Lígia, seu nome. Morena fantasiada de havaiana num sarongue florido, uma linda menina de Copacabana que morava na Rua Santa Clara e marcamos outro encontro para o dia seguinte ali no baile de carnaval. Já estava ansioso a esperar por ela que não chegava. Não enxergava mais alegria naquele lugar, ficava andando sem rumo pelos quatro cantos a sua procura. E de repente alguém pega em minha mão e quando viro é Lígia ao meu lado com o mesmo sorriso do dia anterior. Disse que tinha se atrasado e que foi para o baile apressada querendo me ver. Finais de tarde inícios de noite de carnaval com Lígia e, a seguir, nossos encontros diários na praia, na sessão do cinema. A proximidade do fim das férias, o coração apertado pela despedida e a lembrança do seu perfume. Adeus infância, bom dia adolescência. |