Março 30, 2008

MAGELLANICA




pintura e desenho sobre papel - 2001





o discurso ideológico que o partido arrebenta
em suas palavras complexas de contextos que ninguém entende
vale muito mais como símbolo e mito
são cooptadas pelas ardilosas manobras do problema que preocupa os dirigentes
a ponto de se rastejarem pelos tapetes das salas de reunião refrigeradas
frutos estragados da mentalidade política
objetos que fazem a alegria dos fetichistas




Acometida por uma febre devido a uma picada do mosquito da dengue, seu sangue parecia ferver.

Febre. Fever.

Fever in the morning, fever all through the night... Fever isn´t such a new thing, fever started long ago.

Àquela altura dos acontecimentos e sentindo o corpo doído, ensopado de suor e quase delirando tanto fazia se era Elvis ou Ella Fitzgerald que cantava Fever no rádio da cabeceira. Também lembrou da velha canção de Dorival Caymmi: é dengo, é dengo, é dengo, meu bem. É dengo que nega tem.

Aspirina não pode, levantar não consegue. A culpa é da planta do jarro que estava na varanda, então que se elimine a planta. Todas as plantas. O presidente finge que não vê o vôo rasteiro do mosquito, faz de conta que não escuta o zumbido do mosquito.

Logo ele que antes era tão atento e reclamava de tudo. Ah sim, a gente sabe, era só de brincadeirinha e o palácio é semanalmente dedetizado e lá tem mata-mosquitos importados da Tailândia.

Fever. Everybody's got the fever, that is something you all know. Now you've listened to my story, here's the point that I have made

E se for malária ou febre amarela? O prefeito aparece na televisão com unhas de vampiro. Está tudo sob controle e não há motivo para pânico, as providências estão sendo tomadas. Mortes? Todos que nascem, mais cedo ou mais tarde, um dia irão morrer.

É dengo, é dengo, é dengo, meu bem. É dengo que nega tem.

Feeeever!!! Fever if you live and learn. Fever! 'Till you sizzle, what a lovely way to burn, what a lovely way to burn, what a lovely way to burn.

Febre trêmula, que adorável maneira de derreter...




Março 27, 2008

SOUVENIRES INVISÍVEIS



pintura e colagem sobre papel - 2006






Pé que não anda não dá topada e quem caminha pelas calçadas destas cidades cada dia mais abandonadas vive a tropeçar nos buracos que se multiplicam pelo trajeto. E a inversão meteorológica que nas grandes metrópoles provoca uma neblina de fumaça com gases tóxicos.

Smoke + Fog = Smog.

Quem vive de comer licuri morre com a pedra na mão e aqueles que residem nas áreas mais distantes dos centros urbanos estão sujeitos aos humores do clima. Chuvas torrenciais ou sol inclemente, o que se planta floresce com as águas e se perde nas secas prolongadas.

A lagoa sagrada do cartão postal está cada vez menor e em breve não passará de uma minúscula poça de água protegida por cercas eletrificadas e alimentada pela empresa estatal de abastecimento e saneamento.

É preciso preservar os sítios históricos mesmo que eles não mais existam. E que se transformem em parques temáticos com projetos paisagísticos e seus canteiros de plantas rasteiras que não dão sombra. Souvenires e lembranças de algo que apenas persiste na memória.




Março 24, 2008

FAUSTINO

1984 - O ANO QUE VIVEMOS EM PERIGO




desenho sobre papel - 1984






O ano de 1984 havia começado e já estava exposta pelos muros uma nova coleção de grafites de Faustino. Poucos meses antes do início daquele ano eu havia retornado de uma estadia de dois anos em Nova York e lembro que nas vésperas da minha partida do Brasil, em 1982, eu tinha espalhado grafites do mesmo Faustino pela cidade. Dois anos se passaram e, em 1984, com minhas recentes intervenções na rua eu pude, mais uma vez, constatar a repercussão e o impacto que eles causavam; no entanto, desta feita, a coisa toda foi ainda maior e não houve outra alternativa a não ser chamar para mim a autoria daqueles misteriosos grafites.

Como sempre diz um velho amigo, na Bahia nada acontece na área artístico-cultural - no sentido profissional, é bom frisar. As pessoas comuns admiram o trabalho e dão força, porém os "especialistas" entendem diferente e costumam depreciar tudo que surge aqui e alimentam um provinciano costume de incensar trabalhos vindos de outras partes, notadamente do sul do país. Assim, embora a população em geral fosse fanática pelo Faustino, nenhuma proposta decente ou convite para trabalho a mim foi oferecida.

Parece que os produtores culturais e certa parte dos formadores de opinião baianos sofrem de uma espécie de inveja crônica aliada a um eterno complexo de inferioridade e agem, até mesmo inconscientemente, à maneira pela qual Otávio Mangabeira sabiamente diagnosticou este sintoma e o chamava de "Socialismo Baiano" - o baiano gasta 1.000 pro vizinho não ganhar 1.

No início de agosto de 1984 viajei para o Rio de Janeiro com minha namorada e com poucos dias em terras guanabaras tomei conhecimento de uma grandiosa exposição no Parque Lage, chamada “Como Vai Você, Geração 80?” Ali estavam expostos trabalhos de centenas de artistas, uma mostra bacana de se ver e que refletia todo processo de efervescência pelo qual o Brasil atravessava. Inclusive tinha trabalhos de grafiteiros do Rio e São Paulo - Alex Vallauri, Matuck e outros. Era muito instigante visitar o Parque Lage e ver pinturas, esculturas, grafites que ocupavam todas as dependências do secular prédio, e eu costumava ir até lá e em uma dessas visitas me ocorreu uma idéia e um plano.

Na manhã seguinte resolvi retornar ao Parque Lage sozinho e no caminho passei numa papelaria, comprei dois pincéis atômicos grandes na cor preta e os coloquei no bolso. Ao chegar lá percebi que o ambiente estava deserto, ninguém circulando e entrei em ação pondo em prática tudo aquilo que eu imaginara. Comecei a espalhar grafites do Faustino aliando frases e desenhos do tamanho de um palmo e, estrategicamente os fazia nos espaços em branco das paredes tomando o cuidado de não danificar os trabalhos ali expostos. Lá deixei bem uns cinqüenta grafites e depois caí fora.

No sábado posterior e aproveitando o maior movimento que a exposição proporcionava nos finais de semana, fui até o Parque Lage e não conseguia acreditar no que via. Todos os espaços das paredes tinham sido preenchidos pelos grafiteiros de rua com aquelas suas assinaturas estilizadas feitas também em pincel atômico. E um detalhe: ninguém escrevia por cima do outro e respeitaram todos os grafites do Faustino. E a exposição ganhou outra atmosfera, outro aspecto, certamente outro rumo. E numa determinada sala foi difícil conter a emoção ao ler nas paredes rabiscos, frases, desenhos, mini tratados sociológicos e antropológicos, depoimentos, declarações e mensagens, marcas de bocas de batom com números de telefones, vivas e palavras de carinho feitas pelo público e endereçadas ao Faustino.

Caramba, eu tinha provocado aquilo tudo!!

Com toda certeza eu empurrei uma mostra de arte que era a sensação da temporada para uma outra direção. Anônimo, a cada três dias eu me dirigia ao Parque Lage e sempre que adentrava naquela sala encontrava mais e mais inscrições sobre o Faustino. Muito embora a “Como Vai Você, Geração 80?” fosse citada quase diariamente na mídia, não lembro em ter visto nada a respeito da minha performance ou dos grafites feitos por mim. Estranho, mas compreensível, afinal estávamos em 1984 e aquele era um tipo de grafite ainda considerado marginal, mal visto pelos tais “especialistas”, e eu me infiltrei sem ser convidado, um forasteiro outsider e “fora-da-lei”.

De nenhuma forma ou maneira fiquei ressentido, pois há tempos já estava convencido que neste sentido o Brasil é idêntico à Bahia. Entretanto havia momentos em que eu era surpreendido e ficava felicíssimo quando, ainda no Rio de Janeiro, ia a um local público e escutava pessoas por perto comentando as histórias do Faustino. Na praia, nos shoppings, em shows do Circo Voador, nos bares boêmios de Ipanema, Gávea, Leblon o Faustino era o tema das conversas.

Ouvia em surdina os comentários e pensava comigo mesmo: e daí se alguns fingem que não aconteceu? A história pode ser contada eliminando certos fatos e tal, mas quem estava lá e a presenciou sabe o que aconteceu...

Antes de voltar do Rio a irmã da minha namorada ofereceu seu carro para uma incursão noturna e, então, deixei uns grafites em várias paredes urbanas cariocas. E recordo com clareza de algumas frases ilustradas e seus respectivos locais. Faustino Vê Chispita, pichado em um muro da Lagoa Rodrigo de Freitas. E nas cercanias do túnel que liga o São Conrado à Barra da Tijuca, Faustino Veste Camisa-Volta-Ao-Mundo.




Março 21, 2008

A FÚRIA DE UM HOMEM QUE DIZEM SER SANTO



pintura sobre tela - 1993






Toda e qualquer religião encerra uma verdade. Só que toda religião traz em seu âmago dogmas que impõem limites à ação do homem.

A Bíblia, os Vedas, o Corão, o Bhagavad Gita, só para citar os mais célebres, são livros de grande simbolismo e eles discorrem sobre coisas da vida e dão a elas um significado especial.

A Bíblia, por exemplo, tem passagens de pura fantasia a exemplo dos milagres creditados a Cristo. Transformar água em vinho, a multiplicação dos alimentos, a cura repentina dos lazarentos, o caminhar sobre a superfície das águas. Seriam fatos falsos ou verdadeiros?

Contudo, uma das passagens mais marcantes da Bíblia é aquela em que Jesus explode em fúria e chicoteia os vendilhões do templo. Ali está retratado o Cristo não apenas como um santo, mas como um ser humano semelhante a todos nós, independente da decisão tomada estar, moralmente, certa ou errada.




Março 19, 2008

NOVAX LIGHTS




pintura, desenho e colagem sobre papel - 2007






De uma montanha da ilha Geórgia do Sul é possível avistar a olho nu um iceberg do tamanho da cidade de São Paulo que vagueia em latitudes antes improváveis de se imaginar e nas rotas marítimas. O capitão David Blackmore no comando de um petroleiro de bandeira inglesa ficou assustado quando na madrugada anterior foi surpreendido com a visão daquele grandioso bloco de gelo a pouco menos de dois quilômetros da embarcação.

Lembrou do Titanic e histórias de tripulações náufragas perdidas na região antártica. Procurou por Novax Lights que é um grupo de estrelas visíveis apenas nas noites polares meridionais, as quais quando estão a brilhar com intensidade provocam entre os navegantes experientes uma sensação de tranqüilidade e paz.

E elas estavam lá em toda sua plenitude. Novax Lights. Foi por pouco e o capitão Blackmore, a partir de então, percebeu que além de ser preciso navegar, navegar por determinados mares se requer uma extrema precisão.




Março 17, 2008

NÂO TENTE TIRAR A LUA DO FUNDO DO MAR




pintura sobre papel - 1982




Aurora boreal nos céus da Dinamarca e os turistas ficam acordados à espera do fenômeno. A cada noite nos continentes da Terra, um fluxo de mistérios em seus habitantes. O apito do guarda noturno nas cidades sul-americanas na década de 1960, respeito e segurança. A invasão dos exércitos em guerra que se utilizavam da escuridão noturna para ganhar posições até o inimigo capitular.

A eterna noite no lado escuro da lua. Ali existiria uma passagem para o interior do satélite, uma cidade artificial movida à energia dos ventos espaciais. Será mesmo verdade que uma nave russa com tripulantes teria pousado próximo a essa passagem e, logo depois, perdeu para sempre contato com a base terrestre?

Cerca de 1500 a.C. índios amazônicos criaram um calendário lunar de grande precisão e com base nele foram escritas teorias e profecias. E uma pedra encontrada na Amazônia peruana após uma enchente do Rio Huepetuhe traz inscrições que alertam para um fenômeno chamado Noite dos Clarões. O dia se faria noite por tempo indeterminado e uma chuva de meteoritos provocaria profundas transformações no planeta.

O pianista Thelonious Monk costumava dizer:

- É sempre noite. Se assim não fosse não sentiríamos tanta necessidade de luz.




Março 15, 2008

GROZNI



desenho e colagem sobre papel - 2000



Março 12, 2008

OS DIAMANTES SÃO ETERNOS




pintura sobre papel - 1997






Ao longo do litoral da Namíbia estende-se um deserto por quase toda sua extensão e território adentro, paisagem inóspita de areias amarelas aonde caminham elefantes cambaleantes em busca de uma réstia de água, leões famintos esquálidos que sobrevivem comendo lagartos. E nenhum ser humano em sã consciência se atreve aventurar por aquelas bandas onde não existe nenhum sinal de vida coletiva nem mesmo uma única vila de pescadores.

Litoral de mares bravios, neblina espessa, pedras e ventos traiçoeiros, a Costa dos Esqueletos – The Skeleton Coast, assim é conhecida pela enorme quantidade de carcaças de navios que ali naufragaram e se espalham pelas praias, restos despedaçados que se desintegram pela ação da natureza deixando à vista os esqueletos das suas estruturas.

Devido à sua formação geológica, há séculos correm histórias que afirmam que na Costa dos Esqueletos podem ser encontrados diamantes de grande porte nas areias do litoral e narrativas da presença de contrabandistas de pedras preciosas que costumavam vasculhar a região.

Quem andou por ali foi um lendário e pioneiro surfista californiano dos anos 1950/60, de nome Miki Dora, o qual passou um longo período foragido da polícia norteamericana rodando os quatro cantos do planeta em busca de ondas perfeitas dando golpes financeiros ao utilizar senhas roubadas de cartões de crédito de grandes corporações. Dora foi um indivíduo que ajudou na retomada desta mítica versão dos diamantes nas areias das praias da Costa dos Esqueletos. Dizem que ele juntou um razoável capital ao contrabandeá-los para Europa escondidos em suas pranchas de surf.

Bastou essa história se espalhar para que uma leva de foras-da-lei se mandassem para a Namíbia com o intuito de ali encontrar o seu quinhão. E da Cidade do Cabo, na África do Sul, um garoto australiano carregando uma mochila e a prancha de surf partiu em expedição solitária rumo à Costa dos Esqueletos e sua ambição maior era achar diamantes nas praias ao invés das ondas.

Apenas a um amigo local ele falou, por alto e sem entrar em detalhes, da sua jornada e foi desaconselhado e advertido que seria uma missão impossível, talvez suicida. Não deu ouvidos e seguiu caminho. Passaram-se meses e mais meses sem notícias do seu paradeiro e coisa de quatro anos após sua partida da África do Sul, uma patrulha da Marinha da Namíbia fazia pesquisas no litoral do país quando se depararam com um esqueleto humano.

À primeira vista, logo deduziram tratar-se de um surfista devido aos pertences achados ao lado e ao abrir a mochila viu-se um frasco de vidro com quase uma dúzia de diamantes e manuseando os documentos pessoais do cadáver encontrado, ficou constatado que se tratava de um australiano. Coincidentemente, como depois veio a se saber, aquele mesmo que tempos antes havia partido da Cidade do Cabo com destino ignorado.




Março 10, 2008

MEMÓRIAS DE 68


DIAS DE IRA






tinta spray sobre papel, colagem e compart - 1982/2008







No caminho da escola e cedo pela manhã pessoas apressadas e apreensivas que circulavam de um lado para o outro davam uma pista que algo esquisito estava a acontecer. Fazia mais de uma semana que o centro da cidade fervilhava com manifestações e em alguns pontos agrupamentos militares se posicionavam numa espécie de vigília. Estavam de prontidão.

Ao final de uma manhã na volta para casa e passando pela porta de uma faculdade nas proximidades da Praça da Piedade, uma aglomeração e na fachada do prédio estavam coladas folhas de papel e em cada uma delas uma seta que subia pelas paredes até chegar a uma vidraça nos andares superiores chamando a atenção para um buraco provocado por um projétil de uma arma de grosso calibre que tinha deixado o vidro perfurado e rachado. Dispararam tiros contra uma entidade de ensino superior.

Estudantes menores de idade eram aconselhados pelos pais e professores a não se envolverem com os protestos de rua, contudo muitos de nós não controlávamos nossa curiosidade juvenil e parávamos para observar o que estava a acontecer. Cenas que provocavam medo e encanto e que no dia seguinte eram contadas nas salas de aula. Com detalhes quase sempre fantasiosos.

Em um desses protestos que se estenderam pelas vias do centro da cidade, os manifestantes foram encurralados perto do Mosteiro de São Bento e quando a cavalaria começou a avançar eis que uns estudantes despejaram pelo chão sacos e mais sacos de bolinhas de gude em direção à tropa. Os cavalos começaram a patinar, já que não conseguiam cavalgar com elas sob suas patas e antes que outros meganhas vindos do lado oposto chegassem para descer a porrada, o religioso Dom Timóteo Amoroso acolhia os jovens rebeldes na Igreja de São Bento. Impedia que o local fosse invadido pelas forças militares.

O primeiro semestre de 1968 foi uma sucessão de acontecimentos deste tipo e quase sempre éramos surpreendidos por um corre corre que nossas cabecinhas pré-adolescentes não sabiam ainda decodificar a razão de tanta agitação. Só que um dia, repentinamente, tivemos a verdadeira noção da situação.

Os imensos portões de ferro do nosso colégio que sempre ficavam abertos, a partir de um determinado dia do mês de maio, passaram a ficar fechados. Sem nenhum motivo aparente os professores nos levavam para a balaustrada do segundo andar que ficava de frente para a entrada e observávamos lá de cima o colégio ilhado, a rua completamente vazia. A mesma rua que era costumeiramente tão movimentada.

Algum de nós perguntava aos superiores a razão de tanta coisa estranha, os portões cerrados, as ruas tão desertas. Um silêncio pairava no ar e aquilo era mais que o suficiente para compreendermos que a barra estava mesmo pesada.




Março 7, 2008

DYLAN EM SÃO PAULO - 5 DE MARÇO DE 2008




tinta spray sobre papel, colagem e compart - 1999/2008







5 de março, estou no Via Funchal, cidade de São Paulo e poucos minutos depois das dez da noite as luzes se apagam e começa o show de Bob Dylan. O ritmo de um rock´n´roll do início dos tempos toma conta do lugar e só depois percebo que se trata de Leopard Skin Pill Box Hat que faz parte do seu álbum Blonde On Blonde, de 1966. Depois ele emenda com It Ain´t Me, Baby e passa para I´ll Be Your Baby Tonight.

Apenas nestas músicas é que Dylan empunha a guitarra elétrica e fica de frente para a platéia. Após isso, dirige-se ao teclado posicionado lateralmente e comanda o espetáculo até o seu final.

A platéia era eclética, jovens e veteranos e isso não era um parâmetro suficiente para delimitar qual o Dylan que eles ali foram ver. Pessoas mais velhas tentando reencontrar um passado nostálgico que não existe mais e os mais novos querendo saber ou ao menos entender qual a explicação para um músico de rock que chega aos 66 anos de idade e ainda manter a chama criativa dos seus primeiros dias. E, óbvio, vice versa. Pois, assim como havia uma garotada querendo ouvir as coisas antigas, uma parcela de coroas queria escutar o Dylan que atravessa os tempos.

A chave para essa charada o próprio Bob Dylan apresentou logo no início com a eletricidade roqueira inesperada (para alguns), e nas palavras contidas na letra de It Ain´t Me, Baby – se alguém para ali se dirigiu com o intuito de tê-lo como alguém que vai lhe “abrir toda e qualquer porta, não vai ser (ele, Dylan) que você deve procurar”.

Afinal, Dylan sempre foi um provocador que se expressa com contundência e se sua voz não canta mais, sua garganta urra e declama as estrofes sob uma base sonora à semelhança de um vendaval que sopra para todas as direções. Um artista cuja criação vai além do seu mito, ultrapassa sua própria época e que elevou a música popular a um patamar impensado e tendo como base referencial um estilo como o rock´n´roll.

Os que não conhecem a fundo sua obra não percebem qual canção ele está apresentando já que ele não as executa como estão nos discos. Faz sua pregação sem se importar com o público, não o encara ou procura corresponder às suas expectativas nem faz concertos para a platéia acompanhar ondulando os braços comandados por palavras ou gestos populistas.

Com um catálogo de canções que cobre mais de quarenta anos, neste show, Dylan despeja, em sua maioria, músicas mais recentes e vez ou outra inclui um dos seus clássicos. E quando a platéia decifra a charada, ela explode involuntariamente. Assim foi com Highway 61 Revisited, de 1965, executada com força e guitarras cortantes em meio à enxurrada de versos quilométricos.

Teve também a sutileza de When The Deal Goes Down, Workingman´s Blues e Spirit On The Water, todas elas do seu último disco Modern Times, de 2006. As referências apocalípticas de High Water, Masters Of War e The Levee´s Gonna Break. E ainda Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again, Things Have Changed e finaliza num crescendo com Nettie Moore e pisa no acelerador com Summer Days e fecha com Like A Rolling Stone tendo o público literalmente aos seus pés.

Duas horas de show e para satisfazer os seus súditos ele retorna para o bis e manda Thunder On The Mountain e All Along The Watchtower. Ao término, Dylan e banda chegam à beira do palco e agradecem através de sorrisos a recepção de uma platéia hipnotizada que o reverenciava com palmas, gritos, assobios e um coro que ecoava por todo ambiente: Dylan, Dylan, Dylan...




Março 5, 2008

PACTO SOB O CÉU VERMELHO





pintura sobre papel - 2006






O beato, o cangaceiro e o jagunço se encontraram no Alto Sertão para celebrar um acordo e fincaram um marco no chão como prova do acerto.

E conversaram e conservaram e conversaram.

O beato falou dos pecados do homem e a chegada do fim do mundo que virá como uma bola de fogo que cresce e destrói tudo a sua frente.

O cangaceiro disse das andanças de sol a sol, cercado na noite vendo macacos nas sombras, caçado de dia fugindo da volante.

O jagunço afirmou que não tinha lado nem sentimento, que mata por dinheiro com arma de fogo ou facão.

Lutas insanas em veredas enlouquecidas, caminhos que não se cruzam, cada qual que cuide de si e o combinado de nunca se enfrentarem.




Março 3, 2008

ENIGMAS VINDOS DO PICADEIRO



pintura sobre tela - 1999






O circo tinha boas atrações apesar de algo improvisado. Era um circo simples, porém honesto. Havia algo de mambembe, mas era verdadeiro. Os integrantes eram carismáticos, malabaristas e trapezistas demonstravam domínio das suas funções, os palhaços eram impagáveis e o público respondia com palmas e gritos ao que via no picadeiro.

Uma menina feiosa de cara amarrada e sentada no canto das arquibancadas parecia entediada com tudo que a envolvia. Talvez fosse uma pessoa infeliz ou não entendesse o roteiro e muito menos o espírito lúdico da apresentação. Certamente deve ter crescido vendo muita televisão e sua mente meio que provinciana não era capaz de registrar nada que não tivesse o verniz fantasioso que vem da fábrica que cria ídolos de papel descartáveis que não resistem ao tempo.

E ali no circo a vida desfilava frente aos olhos daquela menina que não tinha nenhuma noção de nada, que não captava o mundo além do seu alcance individual e transferia para o espetáculo todo o amargor da sua existência.

E os atores sentiram na atmosfera a energia soturna da garota e se divertiam aos montes ao direcionar-lhe, sutilmente, palavras em forma de enigmas que só faziam acentuar a insignificância daquela espectadora.