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Abril 30, 2008
VANISHING POINT - CORRIDA CONTRA O DESTINO
compart - 2008 Super Soul e Kowalski formam uma dupla, porém eles nunca se encontram. Super Soul comanda um programa radiofônico e ao tomar conhecimento do que está acontecendo com a vida de Kowalski, ele passa a mandar pelas ondas do rádio mensagens de congratulação, o encoraja e implora para que ele não se entregue. E enquanto toca músicas bacanérrimas entremeia com os dizeres: - Kowalski, você é o último dos heróis americanos! Isto acontece no filme Vanishing Point e Kowalski, o personagem principal, é um cara que lutou no Vietnã, perdeu a família, é um viciado em pílulas de anfetamina, não tem emprego fixo e para levantar um troco leva automóveis de uma cidade para outra. E a saga de Kowalski tem início quando ele aceita a encomenda de dirigir um Dodge Challenger branco, um puta carrão, de Denver no Colorado para São Francisco da Califórnia. Com o intuito de chegar o mais rápido possível ao seu destino final, Kowalski dirige em alta velocidade pelas estradas e por exceder o limite permitido, ele é seguido por policiais em motocicletas. Quando se aproximam e tentam interceptá-lo, Kowalski joga o Dodge Challenger em cima de um deles que sai pelo acostamento e se esborracha contra o solo. E a partir daí, Kowalski passa a ser caçado pela polícia e nesta aventura ele cruza com personagens estradeiros, entra e sai de estados que tem leis próprias e isto até facilita sua fuga. Na escapada faz incursões pelo deserto do sudoeste americano e se envolve com freaks, grupos místicos, rompe barricadas e barreiras policiais e cai nas graças de um DJ genial, negro e cego chamado Super Soul. - Kowalski, você é o último dos heróis americanos! Mas é claro que isso não ia dar certo. Nem para o disc-jóquei e muito menos para o motorista fugitivo e enquanto a Amérika da malucada se posiciona a favor de Kowalski, a América dos caretas e dos conservadores estende a espada da lei em sua direção. O desfecho é aquele esperado quando se trata de um "durão" que não quer se render nem entregar as armas. Afinal, Kowalski quis enfrentar a lei e a lei, queira ou não, sempre vence. Vanishing Point é um filmaço, imperdível para os que curtem o gênero estradeiro. A trilha sonora é matadora, os enquadramentos, as cenas e as filmagens idem. Trata-se de um dos primeiros road movie com abordagem contracultural, já que trata da questão do "outsider" como parte da realidade norte-americana do final dos anos 1960 e início dos anos 1970 Ele foi lançado internacionalmente no ano de 1971, e no Brasil recebeu o título de Corrida Contra O Destino. Foi exibido nos cinemas de Salvador repetidas vezes entre 1973 e 1975 e ficava em cartaz durante semanas a fio. Abril 28, 2008
URUBUS URBANOS
pintura e desenho sobre papel e compart- 2004/2008 Quase mil metros de altura, planando no ar ele observa o mundo lá embaixo com seu olfato e sua visão. E da altura que se encontra ele pode acompanhar tudo que acontece em boa parte do mundo. Algumas cidades que se separam por até 50 quilômetros estão sob sua vigilância. É fácil observar em um dia de céu limpo quando estamos no interior do nordeste do Brasil, e se nos fixarmos em um ponto podemos ver urubus voando em círculos e lá das alturas eles podem enxergar cada foco de lixo urbano ou de carniça no campo. Uma das cenas mais impactantes do filme Nosferatu, de Werner Herzog – o qual é uma refilmagem de um clássico do cinema expressionista alemão do início da década de 1920, mostra uma nau ancorada em um porto e de dentro dela saem centenas, milhares de ratos que ocupam a cidade e ali proliferam a Peste Negra. Fala-se que nos subterrâneos das grandes metrópoles contemporâneas, principalmente dos países mais pobres, existem tantos ou mais ratos que seres humanos a habitar a superfície. Nas periferias das maiores cidades brasileiras onde não tem saneamento ou pouca intervenção da saúde pública, os ratos disputam cada centímetro de cada residência. O lixo que se acumula nas esquinas, o clima úmido que propicia a liquefação e apodrecimento dos resíduos orgânicos torna-se o ambiente ideal para a proliferação de ratos que se reproduzem cada vez mais rápido. Em pleno período pós-revolucionário na China, Mao Tsé Tung e seus camaradas enfrentaram um inimigo quase impossível de ser combatido e eliminado: o rato. E inúmeras foram as tentativas de dizimá-los. Doses de veneno cada vez maiores eram colocadas em pontos estratégicos e se tornaram ineficazes. E pior, passaram a matar homens, mulheres e principalmente crianças. Depois de certo tempo descobriram a maneira mais adequada para combatê-los: os gatos. E assim, houve um incentivo por parte das autoridades para que em cada moradia chinesa se criasse um gato. E deste modo, o problema, em parte, foi amenizado. Solucionado, jamais. Ratos na terra, urubus no ar. Abril 25, 2008
HOUVE UM TEMPO EM QUE OS TIGRES CAMINHAVAM PELA PRAIA
pintura, desenho e colagem sobre papel - 2005 Penso que foi ali na virada dos anos 1970 para os anos 1980 e eu estava assistindo um filme australiano de surf e na parte que mostrava a Indonésia os caras visitavam umas ilhas ao largo da região setentrional de Sumatra. E do barco, ao entardecer, a câmera registrava um tigre que surgia da floresta tropical e se dirigia para a beira da praia em busca de peixes nas poças de água que se formam nos corais. Quase na mesma época, em uma edição da revista Surfer, li uma reportagem sobre G-Land, a reserva natural localizada no extremo leste da ilha de Java, na baía de Gradjagan, que tem o oceano Índico à sua frente e a intransponível floresta da região de Plengkung às suas costas. A revista mostrava ondas perfeitas surfadas apenas por Gerry Lopez e Peter McCabe e os bangalôs que eles estavam hospedados construídos sobre peças de madeira com mais de três metros de altura como prevenção para ataques de animais selvagens. Em um dos capítulos desta reportagem e ilustrado por fotos assustadoras, o relato em que eles testemunharam um nativo ser atacado por um leopardo quando pescava à noite na barreira de corais. Eles ouviram os gritos de socorro e os grunhidos do leopardo, se aproximaram e conseguiram afastar o animal e o mataram com tiros de espingarda. Por milagre o nativo não morreu e era impossível imaginar que havia sobrevivido ao conferir as fotos das marcas das garras do leopardo em seu corpo e o próprio tamanho da fera morta pendurada pelas patas em um pedaço de madeira. Em diversas oportunidades Jorge Luis Borges escreveu sobre os sonhos que ele tinha com os tigres quando criança e o fascínio provocado por esses animais. “O tigre rajado, asiático, real”. Com certeza, toda criança que já se deparou com um tigre no zoológico ou em uma fotografia não esquece sua figura jamais. Sem dúvida, é o mais belo dos animais pela exuberância das cores da sua pele e pelo seu porte. Quando eu ainda surfava sempre alimentei um desejo obsessivo de um dia pegar onda numa daquelas ilhas remotas do oceano Índico. Não pude desfrutar dessa chance, mas tenho amigos próximos que já foram e eles nunca presenciaram tigres ou leopardos vagando pela praia. Entretanto, há 30 ou 20 anos atrás, essas histórias sobre a presença de animais selvagens em praias das ilhas da Indonésia eram corriqueiras. Abril 23, 2008
UM TANTINHO DE MORAL DE JEGUE NO QUARTEL DE ABRANTES (IT´S A MAD MAD MAD MAD WORLD)
pintura sobre papel - 1983 A estrada para a terra prometida que foi destruída pelo terremoto, a tempestade de areia que cobre Bagdá e a fumaça que envolve Buenos Aires estão sendo analisadas pelos cientistas, só que eles não vão chegar a nenhuma conclusão. Todas as informações técnicas não são o bastante. A hidrelétrica que fica na divisa entre dois países se tornou um cavalo de batalha entre os governos destas nações, e os dirigentes e os diplomatas fingem dialogar, mas a impressão que fica é que a taxa de luz vai mesmo ter um aumento. E até lá eles vão dizer que isso não é importante. O circo montado pela mídia para acompanhar um crime hediondo e cujo intuito é apenas ganhar pontos na audiência não mostra os bastidores e as equipes de apoio com maquiadores, cabeleireiros e personal stylists a cuidar da imagem dos repórteres em cenas externas. E eles vão alongar este caso mesmo que surjam provas irrefutáveis e tão gritantes. O lixo industrial depositado nas areias da praia com a maré vazante. A dúvida que impede o caminhar das pessoas vacilantes. Os carros dos playboys adolescentes que explodem o som estridente de pagode e música vagabunda pelos alto falantes. O tédio que provoca o sentimento amoroso estável e o prazer que desperta a relação proibida entre amantes. O discurso demagogo dos farsantes, o passo em falso dos cambaleantes. A amnésia dos astros pelegos da MPB, hoje tão calados e no passado, tão vigilantes. A telefonia móvel que aproxima lugares distantes e o sorriso de plástico nas revistas de personalidades desimportantes. O jogo combinado e o craque fabricado que tenta sempre o mesmo drible desconcertante. Tudo, absolutamente tudo como antes no quartel de Abrantes. Abril 21, 2008
MARLENE DIETRICH BLUES
compart - 2008 antes de entrar no prédio ela olha para os lados para ter certeza que não há ninguém a lhe seguir e guarda na lembrança o dia em que declarou a frase - “deixem-me sozinha” um senhor a olhou fixamente na delicatessen da esquina e ela desconfiou que ele a tinha reconhecido não usava cheques para não ter que assiná-los e pagava tudo com dinheiro em espécie rasgar antigas fotos e não se olhar no espelho e as roupas que veste são propositalmente desleixadas para não demonstrar nenhum glamour pede ao porteiro para chamar um táxi e entra apressada no carro as pessoas que a visitam seguem ordens para não deixar pistas expulsou de casa uma amiga que tinha levado de presente o vídeo de um filme em que ela atuava a diva de outrora se transformou numa velhinha que anda anônima pelas ruas de nova york por baixo do chapéu e por trás dos óculos escuros marlene dietrich tenta passar despercebida Abril 18, 2008
MEMÓRIAS DE 68 A RAINHA DA INGLATERRA VISITA A BAHIA
compart - 2008 A rainha Elizabeth da Inglaterra visitou o Brasil em 1968 e esteve em Salvador, Bahia. As pessoas só falavam na chegada da monarca e as ruas centrais estavam enfeitadas para recebê-la. Qualquer garoto em qualquer parte do mundo que amasse os Beatles e os Rolling Stones tinha fixação pelas coisas vindas da Inglaterra e mesmo que a rainha Elizabeth nada tivesse a ver com o rock a não ser ter recebido no palácio os integrantes da banda de Liverpool e condecorá-los com uma honraria, a sua presença em terras baianas reascendia um quê de beatlemania ou algo como uma invasão britânica... sem as bandas britânicas de rock. A turma da nossa rua arranjou um jeito de dar um sumiço de casa em uma daquelas tardes do final de 1968 para ver a rainha passar. No caminho estavam distribuindo bandeirinhas do Brasil e da Inglaterra. Pegávamos várias e logo adiante dispensávamos as do Brasil e arranjávamos uma maneira de colar duas ou três bandeiras inglesas em nossas camisas e guardávamos mais algumas para decorar nossos quartos. Na real, e sem ufanismos, a bandeira brasileira é feinha de dar dó e, convenhamos, é páreo duro competir com a da Inglaterra que é belíssima. E também tinha toda aquela patacoada em torno de um respeito quase amedrontador ao nosso pavilhão nacional, talvez por conta da rigidez comportamental da ditadura militar. Era proibido fazer uso da bandeira do Brasil em atos que não tivessem um caráter cívico e/ou patrioteiro. Já o mesmo não acontecia com a bandeira da Inglaterra e a víamos em fotos nas revistas estampadas no paletó dos caras do The Who ou do The Kinks. Pensar em algo parecido no Brasil dos anos 1960 era cadeia na hora. O pessoal da Tropicália até tentou fazer uso da bandeira brasileira com fins parecidos aos que os roqueiros e artistas americanos e ingleses faziam com as dos seus países, mas a reação dos militares não foi nada acolhedora. É claro que a gente não estava nem aí para a rainha nem nos dirigimos para lá para homenageá-la. Durante a meia hora que acompanhamos o trajeto nos esforçávamos para que ela escutasse a gente gritando Hello Goodbye, que vinha a ser o título de uma canção dos Beatles que à época era bastante executada na Rádio Bahia. O desfile da rainha da Inglaterra em um Rolls Royce preto conversível pelas ruas de Salvador não passava de mais uma desculpa para ficarmos zoando pelo centro da cidade. Afinal é evidente que entre Salvador e Londres existe um grande abismo cultural a separá-las. A notícia que ganhou mais destaque na visita da rainha Elizabeth à Bahia foi o fato dela ter recebido de presente um balangandã de prata, coisa típica da boa terra. Para nós, foi ver de perto o Rolls Royce preto, levar para casa a bandeira da Inglaterra e depois pendurá-la na estante onde guardávamos nossos discos. Flashes da visita da rainha. No Brasil tudo termina em samba... Abril 16, 2008
LUZES NOS CÉUS DO EGITO
desenho, pintura e colagem sobre papel - 2005 Nos céus de uma noite egípcia quando o farol de Alexandria sinalizava para as embarcações que se aproximavam e sempre havia algum marujo disposto a desembarcar e ficar ali para o resto da vida. Lembro de ter lido a respeito das três pirâmides – Quéfren, Miquerinos e Quéops, cujas faces alinhadas umas às outras permitem ao sol incidir em um ângulo idêntico sobre elas. Fizeram um filme nos anos 1970, baseado no livro Eram os Deuses Astronautas, de Erich Von Däniken, e ao abordar o tema das pirâmides do Egito descrevia a impossibilidade da força humana aliada a utensílios, ferramentas, máquinas ou tecnologia existentes à época que fossem capazes de levantar e acomodar as grandes pedras que compõem estas construções. Coisas estranhas sempre estiveram ligadas à egiptologia. Manuscritos em papiro com orientações sobre práticas agrícolas e ilustrações de adoração a uma entidade divina da fertilização não se deterioraram com o passar dos séculos. Sementes de milho acondicionadas há milhares de anos no interior de uma pirâmide foram encontradas e durante todo este tempo permaneceram intactas e aptas para germinar. Em um dos capítulos daquela série de TV, Túnel do Tempo, um dos protagonistas consegue adentrar em uma das pirâmides e quando algo misterioso estava para acontecer e que poderia colocar sua vida em risco, repentinamente ele é resgatado e retirado dali pelos cientistas lotados na base de operações. Abril 14, 2008
A BALADA DO IMIGRANTE - IMMIGRANT SONG (AO AMIGO CÍRIO BUENAS SANTOS)
pintura sobre tela - 1998 A Canção do Imigrante - Immigrant Song, do disco Led Zeppelin 3: - a única meta é alcançar a costa ocidental... O Homem Da Imigração - Immigration Man, música de Crosby & Nash: - o homem da imigração me parou... deixe-me entrar, homem da imigração… No disco Exile On Main Street, dos Rolling Stones, tem uma faixa chamada Rip This Joint que teria sido feita em homenagem a John Lennon e ela diz: - senhor Presidente, senhor da imigração, permitam-me entrar em sua terra fértil... Um cara de Minas Gerais sonhava passar uma longa temporada nos Estados Unidos, mas nunca conseguia o visto de entrada e aí tomou conhecimento de umas figuras mexicanas conhecidas como coiotes cujo serviço é juntar e conduzir um determinado grupo de pessoas que desejam entrar na América. E para isso os levavam através de rotas clandestinas por uma área desértica no norte do México que podiam dar acesso ao lado americano perto da fronteira com o Texas. O cara de Minas Gerais embarcou nesta aventura e por quase vinte dias perambulou sem destino por terras áridas de vegetação rala, comendo pouco, racionando água e dormindo ao relento assustado com qualquer barulho já que podia ser cobra cascavel - rattlesnake, ou matilha de lobos famintos ou mesmo ladrões que pilhavam estas pessoas apenas pela emoção do ato de furtar. Ouvia vozes na escuridão noturna e o coiote guia mexicano avisava que se tratava de outro grupo que passava por perto a caminho da fronteira. Às vezes o guia imitava o som de um uivo para despistar as milícias ou moradores das redondezas que recebiam propina de informantes para dedurar a trilha seguida pelos coiotes. A cada madrugada eles esperavam um sinal positivo vindo do nada para que continuassem o trajeto, às vezes pareciam caminhar em círculos e com isso alguns do grupo, famintos e desidratados, enlouqueciam na paranóia sentindo-se enganados e eram ameaçados de serem abandonados pelo caminho. Durante o dia escutavam o ronco de motores de jipes que patrulhavam a região da fronteira, o barulho de pequenos aviões ou helicópteros e então o grupo se dissolvia, dois para cada lado, cobriam-se com um pano camuflado e se escondiam por baixo de arbustos espinhentos o que elevava o calor a níveis insuportáveis. Ao final de uma tarde e quase noite, avistaram uma luz de lamparina a gás em uma casa cercada por árvores frondosas que projetavam sombras, uma cena impensável para aquela geografia. O guia os conduziu até lá para o pernoite e em seu interior se encontrava um senhor de uns 70 anos de idade com cara de índio mexicano e envolto em fumaça devido a um fogão improvisado no chão que fervia algo numa dessas grandes latas metálicas de manteiga. A todos foi servida esta espécie de sopa e mais tarde ele passou a ter visões que surgiam e desapareciam nas paredes da casa. Sua audição ficou aguçada e ouvia o ruído das folhas a balançar nas árvores quando alguém cochichou que junto à sopa que tinham bebido havia uma mistura de flores de cactos e, então, deixou o pensamento flutuar. E assim, sob o efeito da beberagem, retornou quase delirando a remotas épocas da sua existência e encontrou com ele mesmo numa situação futura já morando em terras além da fronteira mexicana onde aparentava estar tranqüilo em uma vida sem percalços. Observava de uma esquina ele próprio entrar em sua casa em um subúrbio de uma cidade californiana impermeável a crises de qualquer tipo e não sentiu, nem em uma fração de segundos, saudades do passado e muito menos um traidor do seu país. E desabou num sono impossível de haver desfrutado nas últimas semanas. Nas primeiras luzes da manhã o grupo rumou para outra etapa e o guia disse que dentro de mais dois dias estariam na região da fronteira e ao chegarem lá aguardariam o momento adequado para cruzá-la. Sua pele estava queimada do sol e nesta parte final da jornada se esforçava para andar adequadamente e sentindo o funcionamento dos músculos do corpo, pois queria ter certeza que caso fosse necessário correr por um demorado tempo ele estaria apto para tal. Ninguém dormiu na noite seguinte, e após um dia e meio ininterrupto de caminhada chegaram às margens de um rio. O guia falou que o rio separava o México dos Estados Unidos, que teriam de atravessá-lo a nado e embora fosse relativamente estreito, era profundo com correntezas traiçoeiras. O guia fazia questão de dizer que a partir daquele momento seria cada um por si e distribuiu entre eles um mapa da região com instruções detalhadas de como seguir dali para frente. Existiam diversas cidades do outro lado da fronteira e a orientação era não chegar até elas em grupo e ao mesmo tempo. No máximo quatro pessoas de cada vez. Esperaram anoitecer e tomaram banho no rio sem fazer barulho. Ele fez a barba, vestiu uma roupa de borracha de mergulho que tinha levado consigo exatamente para esta situação. Jogou fora tudo que não mais precisaria, envolveu a mochila em vários sacos plásticos grossos e resistentes e os lacrou para que não entrasse água. E quando o guia disse que havia recebido um sinal de que estava tudo em ordem e se despediu do grupo, ele se lançou ao rio em decididas braçadas. Na margem oposta vestiu camisa e calça limpas mais o cinto de caubói, calçou o outro par de sapatos, colocou o mapa no bolso e saiu em disparada. Ainda madrugada percebeu no céu um pequeno clarão de luzes, sinal de que estava próximo a uma cidade. Ficou rondando a área, estudando o ambiente, esperou surgir os primeiros raios de sol e foi se aproximando aos poucos e quando deu por si já estava caminhando anônimo entre os seus habitantes. Dez dias depois, estava instalado na casa de um primo em Santa Bárbara e trabalhava em uma padaria a dois quarteirões do oceano Pacífico. Ele tinha alcançado o que tanto imaginara. Seu objetivo era cruzar a fronteira e ele havia conseguido. Mas, caso não o fizesse, um dia, com certeza, ele o faria, nem que fosse apenas para por o pé do outro lado da margem e voltar no mesmo momento. Abril 11, 2008
VIAJANTE PELO PLUGUE ELETRÔNICO DO APARELHO
desenho, tinta spray e colagem sobre papel - 2000 seus ídolos são popó & barrichello a china vermelha transporta o neo-capital nas águas do rio amarelo poder, fama e dinheiro na marca eletrônica do cartão magnético de um tempo desigual sem elo sem compromisso ético sem conteúdo estético na dança do cotidiano no espelho do patético Abril 9, 2008
GALERIA DOS PRESIDENTES DO MEU TEMPO # 05 JUSCELINO KUBITSCHEK
compart - 2008 É aquela história, eu era novo demais para compreender o que estava se passando, mas já tinha idade suficiente para vivenciar certas situações que mais tarde me auxiliariam na montagem do quebra-cabeça político brasileiro. E por ser brasileiro é fácil imaginar que muitas peças deste quebra-cabeça não fecham com aquelas que deveriam fechar... Ainda criança, mal tropeçando nas próprias pernas, ouvia dizer que Juscelino Kubitschek – JK, assim também chamado, era o presidente do Brasil. Lembro que ele era sorridente, e eu pescava nas conversas que ele havia instalado a indústria automobilística no país, e recordo com clareza da euforia por conta da inauguração de Brasília, a nova capital do Brasil. Diziam que ele tinha fama de mulherengo, gostava de dançar - um pé de valsa, e era um democrata. Mas Juscelino, mineiro da cidade de Diamantina, enfrentou forte oposição da direita ultraconservadora e da esquerda ultraconservadora, blocos ideológicos muito semelhantes em seus métodos autoritários. O acusavam de corrupção e superfaturamento de obras, principalmente na construção de Brasília. Quando eu cursava a faculdade na segunda metade dos anos 1970, ouvia colegas do movimento estudantil – esquerdistas, é claro!, acusarem Juscelino de ser entreguista e ladrão. Engraçado que muitos desses que antes o criticavam, hoje consideram Juscelino um herói. JK foi um menino pobre, paupérrimo, e afirmam que não tinha dinheiro nem mesmo para comprar sapatos, contudo se tornou médico e nunca fez uso politiqueiro dos dias difíceis de infância para passar na cara dos brasileiros como justificativa para os seus atos como homem público. E na vida e nos cargos que exerceu demonstrava apreço e respeito por todas as classes sociais. Em suas aparições e discursos nunca dividiu de forma demagógica o país entre privilegiados e carentes, nem insuflou a mesquinha luta de classes, coisa costumeira dos dirigentes atuais. Foi prefeito de Belo Horizonte (1940-1945), governador de Minas Gerais (1951-1955), e embalado pelo modo inovador de gerência e administração pública foi eleito presidente do Brasil em 1956. Imprimir mudanças estruturais num prazo de cinco anos que simbolizassem um avanço de cinqüenta anos era o mote do governo JK. Cinqüenta anos em cinco. E assim, o seu mandato elevou a auto estima dos brasileiros e devido ao aparente progresso econômico e industrialização do país, e a sensação de modernização generalizada gerou uma certa euforia em quase todos os segmentos da sociedade. Houve um florescimento cultural com o surgimento da Bossa Nova e uma arte e cultura urbana de alto nível referencial. Contudo, é sabido que em seu período na presidência da república o Brasil deu início a um endividamento frente a instituições financeiras internacionais e, posteriormente viemos sentir as consequências maléficas que isso poderia trazer. Deixa o cargo em 1961 com o mérito de ter sido o primeiro presidente eleito em muitos anos pelo voto popular a cumprir na íntegra o mandato. Passa a faixa presidencial para Jânio Quadros e se elege senador pelo estado de Goiás, porém com o golpe militar de 1964, JK teve os seus direitos políticos cassados e parte para o exílio no exterior. Mesmo afastado involuntariamente da vida pública ele nunca deixou de pensar em política e seu nome sempre era ventilado para uma candidatura civil em oposição à ditadura militar. Ainda nos anos 1960, participou de uma ampla coligação com vários setores pela volta da democracia, agrupamento este que incluía alguns antigos e ferrenhos inimigos políticos, e na década seguinte teria mantido conversas e encontros com outras lideranças políticas. Mas em 22 de agosto de 1976, Juscelino viajava pela Via Dutra e o automóvel Opala que o conduzia foi colhido em cheio por uma carreta que atravessou o canteiro central. Um acidente fatal que vitimou o ex-presidente e o seu motorista. JK estava com 73 anos de idade. Circularam boatos que teria sido um atentado. Afinal, Juscelino era um nome forte e querido na memória afetiva da população brasileira e uma nova candidatura presidencial em torno de si assustava os setores mais retrógrados da nação. Seu enterro se transformou numa espécie de ato político contra a ditadura com os habitantes da cidade do Rio de Janeiro saudando o féretro que passava pelas ruas sob uma chuva de papel picado e milhares de vozes que entoavam uma música que era sua marca registrada: “Como poderei viver? Como poderei viver? Como pode um peixe vivo viver fora da água fria?...” Abril 7, 2008
OBJETOS METÁLICOS CAÍDOS DO CÉU
desenho sobre papel - 1999 aquele que alimenta os porcos com farelos de pérola terá cem anos de perdão e não se perderá jamais por trás de árvores que assobiam como naqueles labirintos mostrados nos filmes de suspense a garrafa que veio dar à praia com uma mensagem dentro viajou por trinta anos atravessou o oceano e se ela se perdeu nas correntes marítimas guardou as vozes em seu interior totens e estátuas varridas do mapa juízes sem farda e vigilantes sonolentos enquanto o chamado que parece surgir de dentro da floresta o deixará sem rumo mais uma vez e por mais que tente não sairá do lugar em contatos telefônicos interrompidos avisos que não puderam chegar ao seu destino martelos e ferramentas amplificadas arrebentam a casa de vidro a cortina que balança mesmo sem estar ventando gritos de Tarzan vindos do alto de um prédio na madrugada o conselho dos mais experientes e a desobediência civil produzem o mesmo som em cada trilha lâmpadas que antes iluminavam passagens de livros se apagam da memória o homem na praça de uma cidade mexicana que caminha sobre navalhas de metal plastificado as mesmas águas que cercam uma ilha não fazem mesmo a menor diferença já que elas circundam a mesma ilha rastros de um objeto de material desconhecido que caiu do céu deixou marcas geométricas na superfície terrestre e o sol pode modificar sua trajetória em vingança sinais de fumaça no horizonte ruídos de multidões que pisam no chão e correm em todas as direções enquanto o galo carnívoro cisca entre restos do que sobrou Abril 4, 2008
MEMÓRIAS DE 68 O SONHO INTERROMPIDO DE MARTIN LUTHER KING
compart - 2008 Lembro bem da reportagem e das fotos sobre o assassinato de Martin Luther King nas páginas da revista O Cruzeiro em uma edição de abril de 1968. As imagens do hotel em que ele foi alvejado, o seu corpo caído ao chão com pessoas ao lado apontando para o local de onde os tiros teriam partido e as posteriores manifestações e distúrbios de rua em que negros e ativistas dos direitos civis protestavam contra aquele ato extremado de intolerância racial. As palavras do discurso de Luther King que entrou para a história onde ele afirmava que tinha um sonho de que um dia o homem não mais deveria ser julgado pela cor da sua pele, e sim pelo seu caráter. E não dá para esquecer a canção de Dion chamada Abraham, Martin and John, também de 1968, a qual discorre sobre os assassinatos de Abraham Lincoln, Martin Luther King, John Kennedy e seu irmão Bob (também executado a tiros em 1968), e que, anos depois, foi um sucesso radiofônico na voz de Marvin Gaye, inclusive nas emissoras brasileiras. - Alguém tem notícias do meu velho amigo Martin? Pode me dizer para aonde ele foi? Ele libertou tanta gente, mas parece que os bons morrem cedo demais. Eu o procurei por aí, mas ele já foi embora... Nina Simone que participou do funeral de Luther King e lá cantou Mississipi Goddamn perante os presentes e milhões de americanos que acompanhavam a cerimônia fúnebre pela TV. A garotada de hoje alimenta enorme curiosidade por tudo que aconteceu no ano de 1968, e com isso vem também as contradições, porque a maioria o enxerga apenas com uma época de sonhos. Porém, por envolver uma luta em busca de realizações de sonhos, e por serem sonhos e vários deles utópicos, essa mesma garotada não tem a dimensão da reação brutal das forças ultraconservadoras. Contudo, é lógico que valeu a pena lutar uma luta quase impossível, pois mesmo sendo uma batalha perdida, lançou sementes para transformações que, inexoravelmente, mais cedo ou mais tarde, iriam, como vieram dar frutos. E por mais que aqueles dias sejam romantizados com açúcar e com afeto, trata-se de algo sem retorno que não se repete no tempo. E devemos sempre ter em mente que muitos daqueles que diziam lutar por liberdade e igualdade, no caso específico aqui no Brasil, na real, tiravam proveito da ingenuidade de jovens e das circunstâncias daquele momento histórico conturbado como uma plataforma para instalar entre nós um regime político discricionário e ditatorial. Pregavam a palavra Liberdade da boca pra fora, quando, na verdade, queriam mesmo era trocar uma ditadura por outra. Afinal, desde que o mundo é mundo, sempre existem picaretas aos montes em cada esquina. 1968, sem dúvida, foi um ano incrível, mas nem tudo foram flores e o exemplo de Martin Luther King nos faz lembrar o lado amargo que existe dentro de todo sonho colorido. E ele teve de pagar com a própria vida por um sonho que ele dizia ter sonhado. Abraham, Martin and John interpretada por Dion Abril 3, 2008
UM ANDARILHO VELOZ PELAS ESTRADAS DO SUL DO BAHIA
compart - 2008 Lembro apenas que ele era conhecido pela alcunha de Jipe, nome derivado do veículo utilitário Jeep. E Jipe era famoso ao longo das estradas do sul da Bahia, mais precisamente no trecho entre os municípios de Coaraci e Ilhéus, e todas pequenas cidades e vilarejos da região. Qualquer pessoa que transitava por ali sabia da sua existência, pois Jipe vivia a correr, literalmente, pelo acostamento das rodovias com um volante nas mãos e uma antena de rádio amarrada na cintura simulando dirigir um imaginário automóvel. Sua história era recheada de lendas. Diziam que era louco, que era obcecado por um impossível desejo de ser motorista de caminhão ou traumatizado pelo fato do pai ter abandonado a família a bordo de um jipe quando ele ainda era uma criança. Foram inúmeras as vezes em que presenciei Jipe em disparada no trajeto que liga Ilhéus a Itabuna. Ele surgia como um ponto distante no final de uma reta e na velocidade da passagem nunca me foi possível guardar a sua fisionomia. Durante anos e anos eu avistava Jipe a correr pelas estradas e de repente ele desapareceu e nunca mais o encontrei ou tive notícias dele. Talvez, quem sabe, enveredou por um ramal desconhecido e a bordo do seu carro imaginário seduziu uma bela garota de alguma fazenda e por lá ficou. Ou, quem sabe, tenha sofrido um sério acidente ao tentar desviar de um buraco ou de um animal que cruzou o seu caminho. O que passava pela cabeça de Jipe? Aonde ele pretendia chegar? Abril 1, 2008
REVERÊNCIAS MUSICAIS E LITERÁRIAS BERLINDA, THEATRO DE SÈRAPHIN E RICARDO CURY
desenho sobre papel e compart - 1991/2006 A gente fica feliz quando observamos nossos amigos realizar um trabalho desafiador e vibramos ainda mais quando eles alcançam o seu objetivo. E isto está a acontecer com pessoas próximas e, deste modo, não posso deixar passar esta oportunidade para me congratular com o pessoal das bandas baianas de rock´n´roll Berlinda e Theatro de Sèraphin, as quais estão lançando seus CDs; e com Ricardo Cury pela edição de seu livro de estréia. As bandas acima citadas chegam com seus respectivos CDs, Mar de Calma e EP, trabalhos de qualidade em todos os aspectos e feitos com empenho, entrega e dedicação. Já fizemos algumas parcerias e tenho por eles e pelas suas propostas de trabalho um profundo respeito e admiração, independente das poucas divergências em relação ao gosto pessoal de cada um de nós, essas coisas bobas inerentes ao ser humano. São caras que têm consciência e noção do que estão fazendo. E sempre guardarei comigo as lembranças das conversas, noitadas recheadas a doses cavalares de cerveja & coca cola & cigarros lucky strike gudang falando sobre música, cinema, política, literatura e traçando estratégias para a tomada do poder cultural numa Bahia afundada na mediocridade de nossos dias. A Berlinda, integrada pelos meus amigos Juliano Pontes, extraordinário baterista e Sérgio Cebola Martinez no baixo, ele, um dos tripés do clã dos Martinez os quais acumulam um conhecimento enciclopédico do rock tanto teórico quanto na prática; e mais Adriano Batata exímio nas timbragens guitar band style e André Blhoem nos vocais e guitarra. Eles têm uma sonoridade de pegada “power pop” com canções que passeiam pelo universo das relações humanas, com letras bacanas e melodias intensas. As músicas O Lado Escuro Da Rua e Quando Ficamos Sós que estão neste disco Mar de Calma são amostras do talento da Berlinda e vale ressaltar que seu poder de fogo se multiplica por dez quando eles tocam ao vivo. A Theatro de Sèraphin é uma banda especial, já que dois dos seus integrantes são espécies de comparsas de antigas pelejas - meus e de toda uma geração. O baixista Marcos Rodrigues e o vocalista/guitarrista Arthur Ribeiro militam desde os anos 1980 em grupos que tiveram um papel fundamental na consolidação do rock feito em terras baianas. Eles são os compositores da Theatro e é aí que o bicho pega, pois esses caras têm um talento peculiar para criar canções fora do comum. Não é nenhum exagero afirmar que Doralice, música que faz parte do disco EP é um clássico instantâneo do Rock Brasil. Ainda na formação do grupo outro amigo, o baterista Dantas e ainda César Vieira na guitarra principal. E para completar as reverências, parabéns também para Ricardo Cury, igualmente músico, baterista da pesada e que agora se projeta numa promissora carreira de escritor. Seu livro que tem uma refinada programação visual e leva o título de Para Colorir é uma coletânea de suas crônicas, algumas delas já publicadas em seu blog. Ali estão suas observações do mundo e histórias vividas pelo autor na noite roqueira de Salvador, tudo escrito de forma inteligente e numa narrativa que prende a atenção do leitor. Esse cara vai longe... Congratulações, meus caros. Vocês fazem parte de uma turma que está fazendo a diferença em uma cidade que insiste em viver do óbvio e do ululante. Mar de Calma - CD da banda Berlinfa
MYSPACE da Berlinda EP - CD da banda Theatro de Sèraphin
MYSPACE da banda Theatro de Sèraphin Para Colorir - livro de Ricardo Cury
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