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Junho 30, 2009

ATOP A VOLCANO

POSICIONADO NO TOPO DE UM VULCÃO






tinta spray, pintura e desenho sobre papel - 2009









working together our aim is to ensure
amateur improve their game
the azure ambience inside them
have collapsed after losing control
trying to bridge a great divide
learned the chants
devotional rituals
images have yielded the upcoming memoir
the light and shade in human behavior
laser shots of their mystifier
atop a volcano right up until the adventure begins


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o objetivo é trabalhar em conjunto para que possa assegurar
e o amador sempre melhora sua estratégia
interiores que têm o ambiente azulado
se desmoronam após perder o controle
tentar construir uma ponte sobre um grande vale
aprender cantos e rituais de devoção
imagens que rendem histórias para o próximo livro de memórias
luzes e sombras no comportamento humano
mistificadores projetados em canhões de raios laser
e posicionado no topo de um vulcão até a aventura começar




Junho 28, 2009

MAIS DA SÉRIE "PESADELOS"






pintura sobre papel - 2009









Os sonhos, sempre os sonhos...

E acontece que eu fui convidado para participar de um ciclo de debates. E aceitei apesar de achar o nome do evento um tanto pomposo - “Colóquio Interdisciplinar sobre Cultura e Arte, Novas Tecnologias e Ambientes na Web”.

E mesmo imaginando, de antemão, o que eu iria encontrar pela frente confirmei a minha presença. Afinal o cachê era razoável, teria passagens de ida e volta em avião de carreira, ficaria hospedado por quatro dias num bom hotel e com refeições inclusas.

Nada mal, nada mal.

E o sonho se desenrolou de maneira tranquila até o momento do início dos trabalhos quando me vi na mesa de debates e de pronto fui tomado por uma depressão momentânea. Eu não compreendia nada do que aquele povo falava como se expressassem em dialeto de um cantão chinês.

Mas eu tinha de demonstrar interesse e que era inteligente o suficiente para justificar minha presença naquele Colóquio Interdisciplinar sobre Cultura e Arte, Novas Tecnologias e Ambientes na Web. E foi aí que, por pura sorte, me veio a idéia de me expressar com declarações ao estilo Gilberto Gil. E quando me perguntavam, por exemplo, sobre o que eu pensava a respeito da distribuição de produtos culturais pela rede mundial de computadores; eu emendava:

- veja bem, repare, repare, a fruição da criatividade através das fibras óticas nos obrigam a ter fibra. A mesma fibra dos alimentos orgânicos que têm fibra. A aveia, noção da refazenda, e sendo assim, o refazer. E torna-se necessário refazer a atuação do superhomem parceiro solitário nesse itinerário da leveza pelo ar e que milita no teclado em frente ao monitor e seus satélites que irradiam energia quântica da central dos periféricos, esta noção que até então se resguardara. Refazer e assim amanhecerá tomate e anoitecerá mamão...

Ah, eles pareciam maravilhados com meus apartes. Mas não era fácil eu tirar da cartola um amontoado de frases confusas e fazer um arrazoado com as palavras para formatar reflexões que, para eles, parecessem profundas e cheias de significados.

E tudo era um tédio só, e eu estava visivelmente angustiado, mal conseguia disfarçar meu enfado e ficava lá na mesa de debates fingindo rabiscar coisas que estavam sendo ditas. E ao fim da jornada eu estava tão bodiado que só dava vontade de retornar para o hotel o mais rápido possível.

Até que no terceiro dia, em um intervalo das conferências, eis que se aproxima uma das garotas que ajudavam na organização do evento - uma mestranda de Comunicação de seus 32 anos de idade, muito bonitinha e ela diz:

- Miguel, fico te observando e vejo que você não está gostando nada disso que está rolando. Realmente tudo aqui é muito chato, mas se você quiser e quando acabar as atividades de hoje eu te levo pra conhecer um lugar que não tem a nada ver com isso que está acontecendo aqui, e sei que você vai adorar...

O perfume que exalava do seu corpo, o jeitinho do seu olhar e a maneira como ela falava, me fez ter certeza que eu não deveria recusar a proposta. E assim que se encerraram os trabalhos ela veio até a mim e disse; vamos?

E fomos jantar num restaurante com uma área ao ar livre e a nossa conversa era muito agradável e logo descobrimos afinidades em vários assuntos. O papo estava muito bom e sem que ela esperasse, eu peguei uma flor do buquê que enfeitava a mesa e lhe ofereci.

Ela sorriu cúmplice. E do restaurante nos dirigimos para um bar e na porta já dava para escutar um rock´n´roll bacana tocado ao vivo. E quando adentro o recinto vejo que se trata da banda do dramaturgo e escritor Mario Bortolotto, a Saco de Ratos Blues; e com meu velho amigo Robério Santana, do Camisa de Vênus, no baixo.

Enfim, um alento depois de tanta coisa que eu tinha de encarar lá no Colóquio Interdisciplinar sobre Cultura e Arte, Novas Tecnologias e Ambientes na Web. E escolhemos uma mesa e Natália fica bem pertinho de mim a ponto de nossos braços roçarem no outro, e ela me olha com aquele jeitinho irresistível e nossos rostos se aproximam e se aproximam e se aproximam. Uma névoa como se fosse um tecido de seda na cor verde nos envolve e... buuuum!!

Ouço um estampido e subitamente Natália não está mais ao meu lado e me vejo em plena Teerã em meio a manifestantes que usam adereços no mesmo tom de cor verde, e estou a correr pelas ruas da capital iraniana fugindo de bombas de gás lacrimogênio e de motocicletas pilotadas por paramilitares que espalham gás de pimenta pelo ar.

Mais tarde e já noite que avançava eu estou no lugar onde me hospedo no centro de Teerã e durante toda a madrugada ouvem-se vozes que soltam gritos que ecoam na escuridão:

- Alá é grande... Alá é grande... Alá é grande...

Não estranhei, pois estava informado que aquilo era o artifício usado pelos iranianos para protestar e demonstrar repúdio ao governo autoritário do país.

Na manhã seguinte vejo da janela do meu quarto uma multidão a tomar ruas e avenidas. Desço o elevador e quando chego na praça logo se espalha a notícia que os aiatolás haviam renunciado e tudo vira uma festa cívica. E sou levado pela massa humana e observo a grande quantidade de mulheres que estão presentes e todas elas usam roupas ou lenços na mesma cor verde da névoa que envolveu a mim e Natália quando estávamos prestes a nos beijar.

Uma destas mulheres caminha sorrindo em minha direção e tem nas mãos a mesma flor que ofereci a Natália lá no restaurante. E daí começou um empurra empurra e eu a perdi de vista e na sequência do sonho, mais uma vez eu sou transportado para outra situação. E agora estou de volta ao Brasil e vejo na televisão o presidente Lula e Sarney abraçados e ladeados pelos parlamentares da base aliada do governo.

Eles estão no saguão do aeroporto de Brasília aguardando o desembarque de Ahmadinejad e dos aiatolás linha dura do Irã que pediram e conseguiram asilo político no Brasil.

Hugo Chávez também está presente com seu uniforme militar e a boina vermelha e traz nas mãos uma metralhadora. Evo Morales aparece todo paramentado em trajes indígenas. Cuba enviou o seu Ministro da Cultura, Abel Prieto, representando os Irmãos Castro.

Ahmadinejad e os aiatolás descem do avião, são recepcionados pelas autoridades brasileiras que penduram medalhas em seus peitos e todos, então, sobem num trio elétrico cuja carcaça está totalmente enfeitada e plotada com logotipos "A Petrobrás é nossa".

E lá no palco ambulante a banda Calypso, comandada por Chimbinha e Joelma, já está posicionada para tocar seus sucessos de apelo popular durante o trajeto e o cortejo segue em carreata pelo Distrito Federal.

Dois dias depois é anunciado no jornal da TV que Ahmadinejad e os aiatolás escolhem a cidade de São Luis do Maranhão para estabelecer residência e a partir dali eles elaboram uma estratégia.

Para se vingar dos iranianos que os tiraram do poder e para demonstrar apreço aos brasileiros que os acolheram com tamanha hospitalidade e cordialidade, Ahmadinejad e os aiatolás começaram a gritar na madrugada maranhense;

- Lula-lá é grande... Lula-lá é grande... Lula-lá é grande...

E de norte a sul isto virou uma palavra de ordem que logo se espalhou por todo o Brasil; e quem se recusasse a pronunciá-la era tachado de direitista safado, traidor e golpista.

Mesmo tendo consciência que estava sonhando, eu me debatia na cama querendo acordar e não conseguia. Sentia-me preso àquela situação. E como se espera de um sonâmbulo eu caminhei pela casa com os braços estirados para frente e à altura do ombro. Fui até a janela da sala, coloquei a cabeça pra fora e comecei a gritar,

- Lula-lá é grande... Lula-lá é grande...

E foi aí que despertei num sobressalto. O que é que eu estou fazendo aqui a gritar esse troço na janela? Estarei louco? – pensei. E então descobri que tudo se tratava de um pesadelo.

Ainda meio zonzo fechei a janela de uma só mãozada e cerrei as cortinas. Voltei para o quarto, deitei na cama e me cobri dos pés a cabeça e todo envergonhado com o que eu tinha acabado de fazer.

Tarde demais.

Mas pelo menos eu já não estava mais sonhando aquele sonho muito doido. E com o corpo trêmulo fiquei a rezar para que ninguém tivesse escutado as palavras que eu tinha acabado de gritar pela janela.




Junho 26, 2009

MICHAEL JACKSON E A IMPOSSIBILIDADE DE ALTERNATIVA À NOSSA NATUREZA HUMANA







pintura e desenho sobre papel - 1998








O destino vive a brincar de gato e rato com os astros da música pop. Quando não lhes impõe o ostracismo, monta armadilhas; quando lhes proporciona o mega sucesso acena logo adiante com o fracasso.

Michael Jackson trilhou todas estas situações. E no universo da música pop negra ele não foi o primeiro a ter um final inesperado, e trágico. Ele parecia estar desafiando constantemente a vida, dançando o “passo da lua” - the moonwalk, em cima da navalha.

Em 1964 Sam Cooke foi assassinado por um tiro quando estava no auge da sua carreira. Em 1967 o avião que levava Otis Redding caiu e calou a voz daquele que era apontado como o maior showman do momento. Marvin Gaye, gênio absoluto da soul music, foi morto pelo próprio pai após uma discussão familiar no ano de 1984.

E mesmo não sendo fã, acompanhei a trajetória de Michael Jackson desde os tempos em que ele integrava o Jackson 5 ao lado dos seus irmãos. E a cronologia foi mais ou menos esta:

Cena 1

Eu costumava passar as férias no Rio de Janeiro, e lembro bem que no ano de 1970 eu sempre ouvia na Rádio Tamoio, com apresentação do disk jócquei Big Boy, a música The Love You Save com o Jackson 5. Era sucesso na cidade, e andando pela Av. Nossa Senhora de Copacabana essa canção era tocada em quase todas as lojas de discos.


Cena 2

Dois anos depois, em 1972, Michael Jackson apareceu já em carreira solo com baladinhas bem chatinhas que as meninas adoravam e que os garotos fingiam odiar.

Nas festinhas da época os caras esperavam os primeiros acordes das canções de Michael Jackson, pois isso era sinal da hora das músicas lentas e assim se aproveitava para chamar as garotas pra dançar agarradinho.


Cena 3

Com o advento da disco music, a partir de 1973/4, Jackson ficou meio escanteado e mesmo lançando álbuns e canções avulsas pouco se ouvia falar dele. E Michael não era mais um garoto e a voz infantil que até então foi sua marca registrada já não era mais a mesma.


Cena 4

E foi em 1979, que Michael Jackson veio com tudo com o álbum Off The Wall, produzido por Quincy Jones e que muitos consideram o seu melhor trabalho. Quase todas as músicas de Off The Wall chegaram aos primeiros lugares das paradas.

E lembro bem que no Cine Tamoio, sala de cinema localizada no centro de Salvador, entre uma sessão e outra Off The Wall era tocado enquanto ouviam-se ruídos de ratos entre as poltronas a vasculhar restos de papéis de doces e chocolates.


Cena 5

Quando eu estava em Nova York em 1982, tive a chance de auferir o impacto do sucesso de Thriller, disco mais famoso de Jackson e que vendeu dezenas de milhões de cópias em todo mundo.

E lá naquele habitat que é bem próprio de uma cena de cultura negra e urbana numa grande metrópole da sociedade norte americana percebi o alcance de onde pode chegar a idolatria a um astro pop.

Um artista no auge da sua maturidade, grande cantor e intérprete, entertainer de carisma e exímio dançarino; e neste caso chegando mesmo a ser comparado aos maiores do gênero da dança como Fred Astaire e Gene Kelly.

Beat It, Billy Jean, Human Nature eram escutadas em toda Manhattan. Do táxi à banca de jornais, do bar underground dos roqueiros à pizzaria do bairro italiano, dos redutos hispanos de portoriquenhos e comunidades do leste europeu aos camelôs orientais de Chinatown.

E os vídeos de Beat It, Thriller e Billy Jean inovaram a linguagem dos clipes e era comum ver pessoas vestindo roupas semelhantes às que Jacko usa nestes filminhos, e era corriqueiro encontrar grupos imitando as danças e as situações destes vídeos nas esquinas da cidade e no Central Park.


Cena 6

A partir daí Jackson entrou em parafuso e se tornou mais e mais excêntrico. Sua fisionomia foi se transformando e aquele garoto negro de nariz largo e cabelo black power deu lugar a um ser de rosto modificado por cirurgias plásticas que, inicialmente, o deixou parecido com Diana Ross – outra grande cantora negra americana; para depois ir adquirindo traços cada vez mais híbridos.

E ninguém sabia mais se Jacko era preto, branco, mestiço, alien. E afinal ele próprio afirmou em uma das suas músicas que não importava se a pessoa fosse black ou white.


Cena 7

Em 1996 Jacko veio ao Brasil para fazer um clip com o cineasta Spike Lee e esteve em Salvador para filmar uma participação com o Olodum no Pelourinho. E a porta do Hotel da Bahia, onde ele ficou hospedado, virou um local de romaria de fãs e jornalistas.

Um conhecido meu que trabalhava com vídeos se enfronhou na produção e conseguiu autorização para fazer um “making of” das filmagens, e me falava que o rosto de Jacko era algo que não dava para definir. Mas que o seu carisma era tanto que mesmo um simples gesto ganhava uma conotação diferente.

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A vida pessoal de Jacko virou um escândalo. Processos, ameaças e ele foi ficando cada vez mais recluso em seu rancho Neverland, onde diziam ser antro de loucuras que envolviam drogas, magias e pedofilia.

O sucesso que antes vinha até ele de forma fácil, foi embora. Gastava fortunas em coisas que o interessava. Adquiriu os direitos das músicas dos Beatles. Casou com a filha de Elvis Presley, segundo dizem, numa jogada de marketing que envolvia interesses financeiros.

No auge do processo judicial sob acusação de pedofilia que quase aniquilou sua vida, foi bonito ver figuras de destaque da cultura negra americana levantando a voz para defendê-lo ao afirmar que por trás de todas aquelas denúncias havia uma grande porção de racismo.

O que não deixava de ser verdade.

E Michael Jackson vivia pulando de um lugar para o outro fugindo de si próprio e do assédio das pessoas. E levou alegria a muita gente, mas parecia estar eternamente triste com a sua condição humana.

The human nature. A natureza humana da qual não podemos escapar e que a nós é imposta, e que ele tentou renegar.




Junho 24, 2009

INICIAÇÃO AO REGGAE







tinta spray e pintura sobre papel - 1997









Lá na segunda metade dos anos 1960 já se ouvia nas rádios brasileiras o reggae jamaicano em suas primeiras variantes rítmicas como o ska e rock steady. E desde meados desta década, lá em Londres, inúmeras canções de artistas regueiros chegaram ao topo das paradas.

Naquele período uma velha canção caribenha dos anos 1940 ganhou nova letra num ritmo ska e alcançou grande popularidade mundial. O nome dela, Shame And Scandal. E em plena Jovem Guarda ela fez sucesso no Brasil em versão de Renato & Seus Blue Caps com o nome de O Escândalo, mais conhecida com Um Capeta Em Forma De Guri.

Existiam rumores que Ob-La-Di Ob-La-Da, canção de 1968 que está no álbum branco dos Beatles, era inspirada num ritmo jamaicano ainda pouco conhecido no Brasil. Contudo naquela época várias canções de Jimmy Cliff podiam ser escutadas nas rádios daqui, a exemplo de Wonderful World Beautiful People, Vietnam, Many Rivers To Cross e Sufferin´ In The Land, todas elas de 1969.

Lembro também de uma música da pesada que era tocada na Rádio Cruzeiro da Bahia AM, e que só fui saber o seu nome e sobre o que ela abordava muito tempo depois. 54-46 That's My Number, de Toots and The Maytals. O seu ritmo envolvente e o desconhecimento geral da língua inglesa escondiam que ela falava da prisão de Toots por posse de marijuana.

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O reggae surgiu na Jamaica, ilha do Caribe, através dos ritmos ska e rock steady como uma adaptação local para a música negra americana - o soul e o rock´n´roll.

E o seu grande barato, em minha opinião, é que mesmo assimilando as influências locais, o reggae não enfatizou aquela coisa chata da música caribenha como a salsa, o mambo, o calypso, o bolerão e outros tão chatos quanto.

E como bem definiu Bob Marley na canção Roots Rock Reggae o ritmo jamaicano se delineou numa somatória de elementos que envolviam as tais raízes musicais locais mais o rock e daí ganhou vida o reggae.

Marley era um cara que tinha fama na sua terra natal com o seu grupo The Wailers, que contava com outro integrante genial, Peter Tosh. E em 1972, boatos (falsos) circularam que I Can See Clearly Now, sucesso na voz de Johnny Nash era de autoria deste jamaicano de nome Bob Marley que àquela altura despontava para o estrelato internacional.

Até então eu curtia bastante as coisas de Jimmy Cliff e adorava ouvir sucessos radiofônicos de reggae, porém ainda não me sentia impulsionado para comprar discos de artistas do reggae.

Mas eis que no ano de 1973 ao passar pela porta de uma loja de discos e ao ver um álbum cujo título era Catch A Fire e sua capa reproduzia um isqueiro, e se tratava do então recente trabalho daquela banda que ouvia tanto falar – Bob Marley and The Wailers; eu fiquei realmente interessado em saber qual era a de mesmo daquele pessoal.

Ouvi o disco rapidamente na loja e gostei do que tinha escutado. E ao chegar em casa e deixar a bolacha rodar na vitrola, aí o impacto foi fulminante. Aquilo era mesmo do caralho. Stir It Up, Concrete Jungle, 400 Hundred Years. Um troço meio tosco, sem dúvida, mas muito muito forte.

A partir disto fiquei fanzaço de reggae e que coincidiu com a fase que perdi o interesse pelo rock progressivo e pelo rock pesadão que eu tanto gostava. Era perceptível que aquele tipo de rock estava em plena decadência.

E o ritmo jamaicano passou a ocupar cada vez mais espaço em minha prateleira de discos ao lado de coisas de Neil Young, Rolling Stones, Marvin Gaye, velhos blueseiros, Dylan, Lou Reed; e logo depois vieram os punks que, coincidentemente, também tinham o reggae na melhor das considerações.








54-46 That´s My Number, com Toots and The Maytals. Sucesso em 1969 nas ondas médias da Radio Cruzeiro, de Salvador Bahia.



Junho 22, 2009

PARA QUE SERVEM AS IDEOLOGIAS?






tinta spray e pintura sobre papel - 2009








O curió do Araguaia


O militar Sebastião Curió abre o bico para entoar um canto nada gracioso, apesar de importante para esclarecer episódio ainda obscuro da história do Brasil.

Ele que à época do regime militar (1964-1985) foi capitão do Exército e integrou as forças que combateram militantes de esquerda naquilo que é conhecido como Guerrilha do Araguaia entre os anos de 1972-1975.

Nas palavras de Curió está uma definição da grandeza espartana daqueles que duelam em torno de ideais contrários:

- “Queria ser militar porque queria defender a pátria, achava bonito. Alguns guerrilheiros tinham os mesmos ideais que nós. Mas nossos caminhos eram diferentes. Eu achava que o meu caminho era o correto. Eles achavam que o deles era o correto. Não eram bandidos, eram jovens idealistas”.

Coisa estranha isso. Se as pessoas envolvidas tinham os mesmos ideais, por que, então, matar semelhantes em nome de ideologia?

Sempre que se levanta esta questão dos bons que lutam contra os maus, eu lembro da música Best Seller que está no álbum A Panela do Diabo, de Raul Seixas e Marcelo Nova. E ela diz:

“Ah, mas não se importe não
no final o bandido casa com o mocinho”...


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A Primavera de Teerã


Recebi email de uma amiga recente que conheci através do blog e que reside na Europa; e sua mensagem diz:

“oi Miguel
estamos enviando este email a diversos blogueiros de todo o mundo e se trata de uma solicitação que nos foi passada pelos manifestantes iranianos que pedem para que falem da violência das autoridades do Irã depois do resultado das eleições de junho de 2009.
e que se multiplique a rede de informações sobre os acontecimentos...”

E ela segue explicando sobre a violação da liberdade de expressão, a repressão que gerou mortes, os meios utilizados para divulgar e mobilizar as pessoas para manifestações, links informativos com notícias e vídeos etc etc.

Claro, claro. Falo sobre isso, sim.

É deplorável a reação dos governantes iranianos aos protestos. Abomino toda e qualquer forma de demonstração exacerbada de autoridade e mais ainda quando vinda de cima para baixo, pois sabemos que tal postura sempre descamba pro lado do autoritarismo e da violência.

Para ficar informado e tirar conclusões próprias e de acordo com o que penso, eu costumo acompanhar sites e blogs das mais variadas tendências políticas. E é preocupante, sim, o silêncio daqueles que estão alinhados com a ideologia do atual governo brasileiro com o que está acontecendo no Irã.

E causa apreensão a declaração do presidente Lula em defender - de orelhada e no bocão, os resultados da eleição no Irã e, por conseguinte o regime dos aiatolás da linha dura do qual Mahmoud Ahmadinejad é o presidente.

E ao agir deste jeito Lula vai em direção contrária aos pronunciamentos de líderes mundiais que prezam as liberdades democráticas. E tem sido recorrente, e não será a última vez, que veremos nosso presidente tomar partido de ditadores.

Mas isto não deveria surpreender mais ninguém porque sempre foi assim. Afinal, em qualquer lugar do mundo ideologias sempre foram a melhor justificativa para defender no futuro tudo aquilo que no passado era tido como injustificável e abominável.

E que a Primavera de Teerã não seja abafada pelos canhões e pelos tanques das milícias de Ahmadinejad.




Junho 20, 2009

A PEDRA QUE CAIU DO CÉU






tinta spray e pintura sobre acetato - 1981








Havia uma estória passada de boca para ouvido que ganhou fama por volta de 1730, e ela se espalhou de tal modo que com o decorrer dos anos foi transposta para versos em forma de cordel.

E destes primeiros livretos não restou sequer nem um único exemplar já que os que foram produzidos se perderam ou foram danificados e corroídos pela ação do tempo ou ainda destruídos por historiadores oficiais que seguiam ordens superiores.

E mesmo assim os poucos que circularam levados por poetas e escritores anônimos que seguiam as rotas das feiras foram suficientes para influenciar outros tantos; e estes, por sua vez, carregaram esta história através dos séculos e a modificaram e adaptaram de acordo com novos costumes que surgiam.

Esta narrativa, a primeira de todas, falava sobre uma luz que rasgou o céu do sertão da Bahia e que ao se aproximar mais intensa ela ficava e fez com que a escuridão da noite se tornasse mais clara que o brilho do sol do meio dia.

Logo depois foi escutado um grandioso estrondo que fez tremer a terra e balançou as partes altas das montanhas situadas no horizonte lá pros lados do oeste onde aventureiros buscavam ouro e diamante.

Na manhã seguinte os indígenas e o povo da região que viram a luz na sua trajetória de queda correram para contar aos missionários sobre o acontecido e então todos seguiram na direção do local aonde o clarão que veio do céu se apagou.

Depois de quase três horas de caminhada sob o sol inclemente eles avistaram um buraco no solo da paisagem e, ao se aproximarem, lá encontraram em seu interior uma pedra de forma irregular na cor escura e equivalente ao tamanho de um boi.

E então um dos que para lá acorreram, e ele era um sujeito que costumava trabalhar peneirando a areia das margens do riacho que cortava a região e que em suas investidas costumava encontrar pepitas de ouro, pôs-se a gritar que se tratava de um diamante gigante.

Ao chegar mais perto da rocha estirou os braços e ao passar as mãos por sua superfície ele foi sacudido por uma espécie de descarga e tombou morto com o corpo carbonizado. E desta maneira se concluiu que a pedra que caiu do céu deveria ter a temperatura de milhares de graus mesmo não havendo sinais de fumaça, brasa ou faíscas.

Ao ver medonha cena, tementes dos desígnios celestes que não trazem explicação e açoitados pelo medo, os nativos se afastaram apavorados.

E após uma breve conversa entre eles, os índios ali representados retornaram e acusaram os religiosos de terem ordenado às forças espirituais - a respeito das quais falavam tanto, que atirassem a pedra lá de cima dos céus com o intuito de exterminar toda a tribo que habitava aquelas terras.

E no início de tarde, em volta da cratera aberta no chão seco do sertão com a misteriosa rocha em seu centro, eles apontaram suas flechas e lanças contra os missionários e os mataram, um a um. E a partir deste evento aquele local se transformou em altar de sacrifícios e rituais pagãos.




Junho 18, 2009

2002






desenho e pintura sobre xerox - 2002








E assim chegamos ao ano de 2002, e para quem está vivo não deixa de ter um sabor especial testemunhar uma mudança de tempo tão significativa e não só pelo fato do mundo entrar em outro século, mas ter o privilégio de acordar num novo milênio. E isto, sem dúvida, nos faz parte de uma parcela restrita da humanidade.

Em 2002 aconteceu mais uma Copa do Mundo e aí, como sempre acontece a cada quatro anos, o Brasil fica parado e se transforma na pátria de chuteiras onde tudo gira em torno de futebol.

Assisto aos jogos da Copa, mas não sou tomado pelo orgulho canarinho. E aquela de 2002 teve um aspecto sui generis para nós por ter sido realizada no Japão e na Coréia do Sul, e devido às diferenças de fuso horário os jogos foram transmitidos para o Brasil durante a madrugada.

E eu aguardava as partidas sentado no sofá, o que geralmente me fazia pegar no sono para acordar todo destronchado com gritos vindos das ruas e o barulho chato pra caralho daquelas cornetas de plástico.

O Brasil sagrou-se campeão conseguindo seu quinto título neste torneio e o time teve um bom desempenho sabendo impor seu futebol perante os adversários, muito embora eu sempre ache que poderíamos render bem mais e que somos beneficiados ao cair em grupos fracos na primeira fase de classificação do certame.

E sei que a inveja é pecado, um sentimento ruim, mas devo dizer que tenho uma puta inveja de alguns craques brasileiros pelo fortúnio das suas carreiras profissionais e de como o destino os favorecem. Estes caras são uns sortudos.

Exemplo disso foi aquele gol marcado por Ronaldinho Gaúcho no jogo contra a seleção da Inglaterra numa cobrança de falta de longa distância, quase que da linha lateral direita e perto do meio de campo. E por mais que ele jure que a sua intenção foi tentar o gol, sua justificativa não me convenceu nem um pouco.

Como se diz na Bahia, aquele foi um gol de “cagada”. Fruto da sorte e inesperado, e creditado pela forçação de barra patrioteira como traço de uma suposta genialidade brasileira.

Bááhh...


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Já no segundo semestre de 2002, aproveitando o período de férias e ao longo de duas semanas consecutivas, eu fiz uma intervenção artística numa casa abandonada no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. E me dirigi para lá diariamente e executei centenas de desenhos e inúmeras pinturas e grafites nas paredes de suas dependências.

E modéstia a parte, o resultado ficou muito bacana mesmo.

Documentei todo desenrolar do trabalho com uma máquina fotográfica digital a mim gentilmente emprestada pelo amigo e agrônomo Dr. Diógenes Didi Barbosa. A sua câmera era do tipo que usava disquetes e enchi bem uns vinte deles com fotos de tudo que eu tinha produzido na tal casa abandonada.

No ano seguinte o imóvel foi demolido para que ali fosse construído um edifício. E quando em 2005 fui olhar os disquetes no computador eu não acreditei ao constatar que eles simplesmente não mais abriam as imagens; e deste modo eu perdi todo acervo documental do que eu tinha feito.

Soube através de terceiros que um francês que aqui morava fotografou tudo que deixei nas paredes da casa abandonada. Procurei esse cara pelos quatro cantos da cidade para pedir-lhe uma cópia, mas nunca consegui encontrar o elemento.

Puta que pariu, que azar da porra! – pensei; e aí bateu de novo aquela inveja de Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo Fenômeno, estes sim, caras cagados de sorte.

O que restou de tudo foram poucas cópias em preto e branco, e de baixa qualidade, que eu tinha feito a partir de um dos disquetes. Inclusive utilizei algumas delas como suporte para outros trabalhos, e esta ilustração que está exposta acima mostra uma pintura feita numa das paredes do referido imóvel.


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Também em 2002 teve eleição para presidente da república; e pela primeira vez desde 1989 eu não votei em Lula. E vários acontecimentos me levaram a tomar tal decisão.

Na verdade eu nunca fui petista e com o passar do tempo percebi que o discurso da esquerda tradicional brasileira ficou ultrapassado face uma realidade mundial onde ideologias não mais faziam sentido. Vide os exemplos dos países do leste europeu.

E não conseguia entender as contradições de certas posturas da esquerda em se opor aos avanços ocorridos no governo de Fernando Henrique Cardoso e a mim dava a impressão que ela fazia uma espécie de oposição nociva ao país e agia assim por pura picuinha.

E olhe que nunca votei em FHC. Votava em Brizola em primeiro turno quando este ainda estava forte, mas no segundo turno eu fazia campanha e dava meu voto a Lula.

De repente se tornou muito estranho, por exemplo, ver Lula e o grão-petismo participar de manifestações contra a privatização da telefonia ostentando, todos eles, aparelhos celulares dependurados em suas cinturas.

Na minha interpretação a privatização da telefonia foi benéfica para o Brasil e proporcionou que classes menos favorecidas tivessem acesso a um bem, até então, restrito aos ricos; e que para se adquirir determinadas linhas era preciso desembolsar a bagatela de quatro a cinco mil reais, ou mais.

Quando pegamos um ônibus urbano e presenciamos uma pessoa de classe média baixa ou um simples trabalhador braçal falando ao celular por todo o trajeto é que se pode constatar que a privatização da telefonia foi algo positivo para a vida do cidadão. E mesmo com as evidentes irregularidades que envolveram este processo de privatização – as famosas “maracutaias” alardeadas pelo Lula oposicionista.

Mas o tempo mostrou que este expediente, diga-se, não é exclusividade da direita, já que a esquerda nacional também pratica maracutaias com desenvoltura e igual desfaçatez.

E também, não há como negar que perto do final do governo FHC as oligarquias nordestinas perderam muito da sua força, notadamente nas figuras do baiano Antonio Carlos Magalhães e do maranhense José Sarney. Contudo, quando estes mesmos personagens estenderam seus apoios a Lula em 2002, e este os aceitou como aliados eu achei que ali tinha algo incompatível com as propostas históricas de uma esquerda que se propunha progressista.

Jamais compartilhei com a idéia difundida pelos esquerdistas de que a elite sulista é a principal responsável pelo atraso do Brasil, pois as considero infinitamente melhores que os oligarcas nordestinos, os quais sempre tiveram poder e participaram das altas esferas governamentais nos últimos 50 anos da história do país e pouco ou nada fizeram para tirar o nordeste da miséria.

Ter ouvido as coisas horrorosas, porém verdadeiras, que Lula falava de Sarney quando militava na oposição e olhar os dois abraçados e unidos era o fim da picada. Em 2002 o Brasil chegou a um estágio onde a velha oligarquia política estava sem prestígio, e ao aceitá-la como aliada Lula lhe ofereceu um novo oxigênio.

Lula faz um bom governo na condução da economia. Entretanto acho a sua administração extremamente conservadora e voltada para o assistencialismo demagógico – tática esta influenciada pelas práticas dos velhos coronéis do nordeste. E penso que a sua política cultural é equivocada e maniqueísta. Além disso, o governo do PT demonstra inclinações ditatoriais ao flertar com o autoritarismo e incentiva a fragmentação social quando fomenta a luta de classes, isto sim, algo reacionário e anacrônico.

Mas não há como negar que 2002 inaugurou um novo momento no Brasil, mas eu não me sentia parte dele. Pelo contrário. Eu era um ser estranho, ora um dinossauro a vagar perdido no tempo e tropeçando nas coisas pequenas que aparecem no caminho; ora um menino anarquista irresponsável e livre que continua achando que a política brasileira é povoada por gente muito esperta.

Espertas demais além da conta.




Junho 16, 2009

BRAZIL, O FILME






desenho e escrita sobre papel - 1985








Brazil - o filme.

Séc. 20. final do séc. 20.

Na verdade um poder centralizado, afundado na burocracia. Sam Lowry vive entre o sonho e a realidade e sempre se apega ao primeiro nos momentos mais difíceis. Desmaios que o transporta para o lado do sonho – a visão de uma loura, meio inatingível, envolta num véu a flutuar pelos céus.

Na terra a dura realidade. Brasil. Controle total dos serviços em geral. Controle sobre os indivíduos. O avanço tecnológico que vem e traz, invisivelmente, uma nova era faz com que o poder torne-se ainda mais rígido – o medo da mudança.

A mudança invisível que se faz a cada dia, silenciosamente. O medo da mudança silenciosa é talvez, explicada pela presença quase sempre exagerada da força policial-militar.

“Just call me Harry”. Harry Tuttle. Buttle. Anti herói. Buttle. Bug. Beetle. Besouro. Um misto de terrorista pacifista, visionário e profundo conhecedor dos mecanismos da Metropolis Brasilis.

Jill – encarnação da loura dos sonhos.


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Brazil, o filme, é uma produção cinematográfica de 1985 e dirigida por Terry Gilliam, personagem que ganhou fama no humor da Inglaterra na década de 1970 por ser um dos integrantes do grupo Monty Python.

O roteiro foi escrito pelo próprio Gilliam em parceria com outras figuras da pesada, entre elas o dramaturgo de origem tcheca Tom Stoppard. E o filme retrata uma sociedade num futuro indeterminado, que à época do lançamento imaginava-se situado no início do século 21, e esta sociedade é tomada pela burocracia e pelo autoritarismo, vigiada de tal forma como o mundo preconizado por George Orwell no seu livro 1984.

E os habitantes deste fictício lugar chamado Brazil vivem às voltas, literalmente, com folhas e folhas de papel que estão em todos os cantos e se espalham por todos os lugares. Nas ruas sendo levadas pelo vento, nas repartições públicas e elas servem como símbolo de um estado onde a burocracia a tudo permeia.

Embora alguns descartem alusões a uma nação chamada Brasil, para nós que vivemos aqui neste país, coincidentemente com o mesmo nome, percebe-se logo de cara que existem, sim, inúmeras semelhanças entre o Brazil do filme e o Brasil da vida real.

Tanto que na trilha sonora a canção mais executada ao longo do filme é uma velha conhecida nossa: Aquarela do Brasil.

E como não ver similaridades entre a burocracia estatal mostrada na tela e a nossa realidade brasileira atolada até o talo na dependência do estado com seus carimbos, registros, protocolos, portarias, canhotos, boletos?

E o autoritarismo que sempre vive a nos rondar, onde os governos se sucedem e sempre se posicionam como inimigos do cidadão? Um estado que enxerga o indivíduo como parte de um rebanho que deve ser conduzido e que não hesita em se voltar contra ele quando este ousa questionar os poderes estabelecidos.

Em Brazil, o filme, o sarcasmo que é característico do humor britânico não deixa pedra sobre pedra ao abordar um ambiente sufocante que não oferece alternativas a não ser sonhar. Sonhar e conspirar.

A fotografia e o elenco também ganham destaque neste filmaço de Terry Gilliam, e que deveria também ser assistido até como forma de exercício com o intuito de se descobrir analogias entre o Brazil da ficção e o Brasil real. E pode ter certeza que estas semelhanças estão presentes em várias cenas.




Junho 14, 2009

FAUSTINO USA CALÇA TOUREIRO





pintura sobre papel - 2003







E as coisas funcionavam mais ou menos assim:

Você ia até o centro da cidade, entrava na loja O Fortunato Russo, escolhia um tecido de tergal na cor desejada, de preferência em tons vivos; e aí solicitava ao atendente para cortar 2,5 metros da peça selecionada.

Depois caminhava em direção à alfaiataria de Sátiro, ali mesmo nas redondezas e lá com a peça de tergal que trazia em mãos, falava que queria fazer uma calça toureiro. E era neste momento que acontecia um procedimento que era aguardado com um misto de ansiedade e excitação.

É que você era encaminhado a um minúsculo provador protegido por uma grossa cortina e lá dentro, acompanhado por uma funcionária, moreninha gostosa e insinuante que ali trabalhava que com uma fita métrica em punho anotava suas medidas anatômicas numa caderneta. E ela fazia isso de um jeito vagaroso que beirava as raias da provocação sexual quando agachada e bem próxima ao ventre do freguês chegava mesmo a apalpar-lhe as partes íntimas.

Uááu... Aquilo era muito bom!

Na semana seguinte você voltava à alfaiataria de Sátiro para pegar a calça, não sem antes experimentar a sua encomenda e adentrar, mais uma vez, no provador quase alcova de folguedos libidinosos acompanhado pela ajudante de curvas generosas e carinha de sapeca.

E se tudo estivesse nos conformes, como sempre acontecia, você voltava pra casa com sua calça toureiro embrulhada num papel marrom e no fim de semana seguinte estava pronto para estreá-la numa festinha de sábado à noite.

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Com toda razão o nobre leitor que não alcançou aquela época pode estar se perguntando: afinal, que diabos significa calça toureiro?

Simples.

Tratava-se de uma calça de corte especial e que foi moda entre a juventude do sexo masculino lá pela primeira metade dos anos 1970. E ela tinha a cintura alta, comumente acima do umbigo, um pouco apertada na região dos quadris e que ao alcançar as pernas ia ficando cada vez mais larga até fazer uma boca de sino cujo caimento final, se possível, deveria encobrir o sapato.

As meninas adoravam caras que vestiam calça toureiro, e mais ainda se fosse usada com uma camiseta T shirt apertada a demonstrar os músculos em crescimento.

Porém, como sempre acontece com a rotatividade das tendências nos estilos de vestuário, de repente chegou uma nova moda inspirada e reciclada na indumentária dos surfistas californianos da década de 1960, com calças jeans básicas de corte reto e boca fina e camisas largas da marca Hang Ten e Val Surf.

E deste modo a calça toureiro virou sinônimo de coisa cafona.

Contudo, como sempre alheio às mudanças e em descompasso com os costumes que se modificam e se transformam, e atrasado em relação às coisas do seu tempo, Faustino continuou usando por anos a fio as suas calças toureiro...




Junho 12, 2009

RELEITURAS - LÉGER






colagem e desenho sobre papel - 2000







Sempre fiquei intrigado com as colagens realizadas pelos artistas dadaístas lá pela década de 1920, quando estes trabalhos eram feitos quase que exclusivamente à base de papel, tesoura e cola.

E não era necessário só ter talento para elaborar imagens surpreendentes, o cara tinha de ter uma puta habilidade manual na organização dos materiais empregados.

Na minha adolescência eu passava horas e dias tentando montar colagens como aquelas, mas nunca conseguia alcançar meu objetivo. Eu queria criar coisas que parecessem “artísticas” e, na minha vã pretensão juvenil, era muito complicado tentar ser o mais simples possível.

Eu achava que tais colagens dadaístas tinham um significado cultural complexo, mas com o tempo descobri que não era nada daquilo. A arte Dada sempre foi uma curtição e uma provocação com o sentido “sério” da arte. Os dadaístas eram uns sacanas geniais que adoravam bagunçar o coreto do povo, digamos, “indie” e cult da sua época.


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Este trabalho gráfico que abre o post é uma releitura em forma de colagem feita por mim e tendo como base uma obra do modernista francês Fernand Léger, a qual pode ser vista na parte superior esquerda.

E embora Léger tenha sido um cara que flertou com a arte Dada, a sua produção foi bem mais abrangente permitindo que ele transitasse por vários movimentos de vanguarda, sendo inclusive um dos pioneiros da arte contemporânea. E gosto muito da sua maneira sucinta de se expressar. O traço simples e a utilização de cores em suas tonalidades básicas, onde o vermelho é vermelho, o azul é azul, o amarelo é amarelo, e assim por diante.

E já falei antes aqui no blog de um dos meus passatempos artísticos que é o de fazer releituras de coisas que me dizem algo. E isto talvez seja uma forma de capturar a alma do original, talvez seja um exercício de criação ou talvez uma mera brincadeira sem maiores pretensões.

E eu prefiro a última explicação por uma questão de opção individual mesmo. Tenho pavor de criadores que usam do hermetismo para explicar o que produzem, não importando se sua obra em si seja de difícil compreensão ou não.

Às vezes o artista faz um tipo de trabalho que não é compreendido com facilidade, mas ele se expressa com clareza. Outros, sejam herméticos ou não, justificam sua produção de maneira tão complicada e isto soa como tentativa de imprimir qualidade estética que, na maioria das vezes, ela não detém.

Fujo destes artistas como o diabo foge da cruz. Os criadores autênticos se expressam de forma direta, o que faz com que sua produção pareça simples, seja ela acessível ou não. E a simplicidade artística é um troço controverso porque pode parecer simplória ou passar a impressão que pode ser feita por qualquer um. E não é bem assim.

Também, inicialmente, o despojamento pode não apontar um futuro, característica esta que os “mudernos” adoram diagnosticar nas coisas que eles elegem como dignas de ser algo “novo”. E é claro que não é por aí que a coisa funciona, já que só o decorrer da História é que vai determinar a atemporalidade de uma obra de arte ou de uma manifestação cultural.

Uma coisa é certa. Dificultar as coisas, querer reinventar a roda é o caminho escolhido pela maioria. E ainda que não pareça, complicar é sempre mais fácil.




Junho 10, 2009

A PETROBRAS SEMPRE FOI DELES






compart - 2009







“Quero aquele cargo que fura poço e tira petróleo".

Palavras de Severino Cavalcanti no ano de 2005, então deputado e presidente da Câmara Federal, ao exigir a diretoria de Exploração e Produção, na estatal Petrobras em troca de apoio ao governo Lula.



Desde o início dos anos 1930, Monteiro Lobato falava da necessidade de se buscar petróleo em terras brasileiras. Por causa disso o escritor foi ridicularizado pelo poder político da época e por insistir em suas idéias ele passou uma temporada na prisão por ordem da ditadura de Getúlio Vargas, durante o regime de exceção do Estado Novo (1937-1945).

Sendo um produto vital na economia do planeta pós revolução industrial, o petróleo é uma mercadoria cobiçada tanto por grandes conglomerados internacionais que operam em nações de economia livre, quanto pelo estado controlador e intervencionista de países comunistas e subdesenvolvidos.

Devido a fatores estratégicos, contra Lobato se posicionaram forças nacionalistas e internacionais. Não interessava ao capital estrangeiro que um país periférico como o Brasil explorasse seu próprio petróleo já que isso significava um passo adiante na sua afirmação como nação soberana.

Por seu lado, a classe política brasileira, e nacionalista de fachada, independente de ser esquerda ou direita, também foi contra Lobato por ser defensora de uma estrutura patrimonialista e arcaica; e que opera para si própria o controle das riquezas produzidas dentro de nossas fronteiras.

O eterno apego dos partidos políticos a estas deformidades empresariais que levam o nome de "empresas estatais" deve-se ao fato de que elas sempre foram utilizadas para beneficiar o grupo que ocupa o poder. Em contrapartida, oferecem à população um serviço de qualidade duvidosa e bem inferior àquilo que elas afirmam oferecer.

O tempo provou que Lobato tinha razão e, em 1939, o petróleo jorrou pela primeira vez no Brasil, mas isto não foi suficiente para que as coisas aliviassem pro lado do escritor já que sua luta lhe custou parte da vida e da própria família. E apesar da importância da sua obra literária, ele morreu pobre, amargurado e desgostoso com o país, no ano de 1948.

Afinal, enfrentar a verdade oficial do poder estabelecido no Brasil, em qualquer período, quase sempre resulta numa batalha inglória. E enquanto Lobato era execrado e perseguido por Vargas, várias de suas idéias a respeito da extração do nosso petróleo, para usar uma palavra mais polida, foram “assimiladas” pelas autoridades governamentais que o encarceraram.

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E aí Getúlio Vargas volta ao poder em 1951 pelos braços do povo e dois anos depois ele cria a Petrobras. A partir de então e com o passar dos anos esta empresa se tornou, com todos os méritos, uma das maiores do mundo. Mas daí acreditar que a Petrobras é do povo brasileiro, ou como costumam dizer os politiqueiros, “é nossa”, vai um longo caminho.

Na real, a Petrobras sempre foi deles, os governantes de plantão, espécie de jóia da coroa que é utilizada de acordo com interesses partidários e desde a sua fundação ela funciona como cabide de emprego para os correligionários que, ali alocados, ocupam gerências, diretorias e a presidência.

As estatais brasileiras funcionam como linha auxiliar dos governos. Foi assim ao longo da nossa história, na época da ditadura militar que vigorou no país entre 1964-1985, e continuou do mesmo jeito com a volta dos civis ao centro do poder. Estatais são aparelhadas com indivíduos cuja grande parcela não tem a menor idéia do significado dos seus serviços.

Burocratas que imaginam administrar empresas de grande porte, a exemplo da Petrobras, como quitanda de esquina e de natureza familiar. E foi assim durante os mandatos dos presidentes José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e agora Luiz Inácio Lula da Silva, que fez um aparelhamento de cargos nunca antes visto na história deste país.

E todos que ocupam os altos cargos da estatal do petróleo parecem incorporar no dia seguinte a sua posse um espírito autoritário, pedante. E é de admirar que a arrogância dos burocratas da Petrobras depois da redemocratização não encontra paralelo nem mesmo na época dos militares.

Ninguém é maluco de questionar a importância da Petrobras para o Brasil, e se fizermos uma pesquisa concluiremos que desde a sua fundação ela cresce gradativamente a cada ano. E o patamar de grandeza que ela hoje ostenta não é mérito exclusivo de nenhum governo especifico, é fruto de uma evolução natural que transcende questões miúdas da política partidária.

Com tudo isso dito acima, eu não sou a favor da venda da Petrobras para grupos estrangeiros ou nacionais e nem sou partidário da privatização da empresa. Mas sou a favor, sim, da quebra do monopólio que lhe concede exclusividade em extrair petróleo dentro do nosso território porque acredito que ela teria muito mais a oferecer se atuasse num ambiente de livre concorrência e com regras claras que fossem iguais para todos.

Na confortável posição de detentora do monopólio, a Petrobras jamais se esforça para que seus produtos cheguem até o consumidor com valores mais baixos, muito pelo contrário. Deste modo ela determina o preço que bem entende e assim oferece para consumo interno, por exemplo, um combustível de quinta categoria e dos mais caros do mundo.

Alguém já viu o preço dos derivados do petróleo baixarem de preço no Brasil a cada anúncio oficial da Petrobras de que a nossa produção aumentou e que já estamos quase auto-suficientes em petróleo? E desde quando o preço de combustível no Brasil foi reduzido a cada desvalorização do barril de petróleo no mercado internacional?

Com a quebra do monopólio da extração de petróleo dentro de nossas fronteiras, as empresas internacionais do ramo que viessem para cá teriam de atuar dentro das leis internacionais que norteiam seu funcionamento em qualquer país sério do mundo.

E que estas empresas abasteçam o mercado com produtos de qualidade a preços competitivos e que nos paguem corretamente em royalties ou aquilo que os contratos determinam, também dentro das normas internacionais estabelecidas.

Então essa estória de que a “Petrobras é nossa” não passa de papo furado pra enganar os bestas. Conversa pra boi dormir. A Petrobras não é minha, não é sua e nunca foi nossa. A Petrobras sempre foi deles.

A Petrobras deveria, sim, ser desaparelhada de uma vez por todas. E que sejam criados mecanismos jurídicos urgentes que a tornem livre desta praga de preencher os cargos com pessoas que ostentam na aba do paletó aquele famigerado alfinete que indica que ele é integrante de um partido, qualquer partido.




Junho 8, 2009

NOVOS DESASTRES





desenho sobre papel - 1998







Novos Desastres


mais um século que passa no movimento daqueles que transportam tijolos
as pessoas se foram
alguns para refúgios nas montanhas
pastores tocam seus rebanhos pelas ruas vazias
um outro século
o chumbo é cada vez mais procurado
e a cena mudou de eixo
as ruínas da cidade abandonada agora têm um novo valor
materiais de construção são necessários
mas os que tem para negociar são todos de segunda mão
e o fogo misterioso que avança começou num dia chuvoso


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Uma semana se passou e não se fala em outra coisa a não ser neste terrível acidente do avião da Air France sobre o Oceano Atlântico, em pleno vôo Rio-Paris.

Agora, durante o final de semana, sai a informação que, finalmente, foram encontrados na vasta extensão do mar pedaços da aeronave e o resgate de dezessete corpos. Contudo, o que na verdade aconteceu permanece um mistério e as causas do acidente são desconhecidas.

Tragédias provocam comoção nas pessoas e a mídia destes tempos que correm faz a sua parte reverberando ao máximo cada episódio “grandioso”, ávida por assuntos que possibilitem e prolonguem uma espécie de espetáculo sem fim do lado grotesco da vida.

Grupos sociais reagem de maneiras diversas, nações respondem de acordo com seus costumes e respectivos graus de instrução e educação dos seus povos. E até agora o acidente com o airbus francês escancara o tratamento antagônico de como as autoridades políticas do Brasil e da França tratam este assunto.

Ao longo da semana, do lado de lá, os franceses agem com discrição e cautela, mais focados em questões técnicas, dando claras demonstrações de solidariedade aos familiares das vítimas, e desde o início e de forma sincera falam da impossibilidade da existência de alguém ter sobrevivido.

Por aqui desencontradas declarações oficiais, pois o político brasileiro evita olhar o cidadão de frente e falar coisas que possam trazer prejuízos eleitorais. Mas eis que aparece o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, a conclamar uma entrevista coletiva e diante de mapas infográficos e com uma vareta na mão se apressou em pronunciamentos infundados.

E falou sobre o achado de partes do avião para, horas depois, ser taxativamente desmentido pelos franceses, já que aquilo eram apenas restos de objetos abandonados por embarcações que navegam por aquela área e levados pelas correntes marinhas. Em outra nota oficial foi até anunciado que unidades já estariam prontas para prestar socorro a sobreviventes.

E se a partir do dia seguinte ao acidente ocorreram em Paris celebrações de cunho espiritual e religioso, inclusive com a presença do presidente Sarkozy; o que vimos no Brasil foi uma frieza cruel com os dirigentes brasileiros, por sua vez, cumprindo a nossa tradição de folclorizar o absurdo. E não pestanejaram em fazer proselitismo político com um desastre que ceifou a vida de 228 indivíduos.

E do seu intocável pedestal de 300% de popularidade, o nosso presidente Lula deixou-se levar, como sempre, pela sua retórica demagógica e saiu com uma declaração dantesca. Segundo ele, “um país que pode achar petróleo a seis mil metros de profundidade pode achar um avião a dois mil metros”.

Assim podemos supor que pela lógica de Lula, ele se acha no direito e no dever de usar da tragédia para, de forma enviesada e sórdida, desqualificar investigações sobre supostas irregularidades e desvios financeiros que ocorrem na estatal Petrobrás, a qual é alvo de uma recente CPI instalada no Congresso.

Talvez algum assessor mais esclarecido tenha advertido nosso presidente da deselegância do seu pronunciamento e ele calou a boca (coisa difícil pra Lula), a respeito deste assunto. E para reverter a gafe foi agendada a sua presença numa missa em memória às vítimas do acidente. E é claro que ele não compareceu. Já que é bem provável que um outro auxiliar sussurrou no ouvido de Lula que sua ida à missa poderia gerar constrangimentos, quem sabe ser questionado ou ter de escutar palavras de insatisfação.

E a gente sabe, né? O mundo pode desmoronar aos pés de Lula e ele jamais vai por em risco a sua popularidade.

Enfim, a tática adotada parece a seguinte: se o avião ia pra lá, então a dor fica a cargo deles. Se a trajetória fosse no sentido inverso, aí, sim, a gente ia ver o que ia fazer, e certamente a culpa seria transferida para eles, os brancos ricos e de olhos azuis.

A postura do Brasil neste acidente aéreo evidenciou, mais uma vez, quão equivocada é a nossa atual política externa no que se refere a casos espinhosos. É uma sucessão de malogros diplomáticos que ao invés de demonstrar nosso potencial perante as nações desenvolvidas, prefere-se criar litígios com elas por conta de uma ideologia ultrapassada e que não faz mais sentido no curso da História.

Por outro lado estendemos a mão, em demasia, é bom frisar, a países que pouco ou nada têm a nos oferecer e que em muitas ocasiões até nos expõem ao ridículo, quando nada surrupiando nosso patrimônio na maior cara dura e fim de papo.

Ou então, vive-se a elogiar ou se alinhar ou referendar regimes autoritários controlados por tiranetes da América Latina – Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador. Ou ditaduras africanas que promovem matança étnica e de civis; ou ser condescendente com o fundamentalismo islâmico ligado ao terror.

E agora, neste momento doloroso do acidente do airbus somos confrontados com a postura de um país infinitamente mais civilizado que o nosso, no caso a França, e fica claro que a decantada finesse francesa e seu bom senso baseado na razão está anos-luz adiante da tosqueira e da má educação brasileira.

Pegou mal, muito mal. E não venham com patriotada, porque patriota que levanta bandeira em cima de cadáveres de gente inocente é um ser repugnante.




Junho 5, 2009

KOKO TAYLOR (1928 - 2009)






pintura, desenho e colagem sobre papel - 2001







Faleceu anteontem, 3 de junho, a Rainha do Blues e uma das minhas cantoras prediletas, Koko Taylor. Ela estava com 80 anos e seu óbito deu-se após um período de convalescença de uma cirurgia para sanar uma hemorragia gastrointestinal.

Ao escutá-la pela primeira vez lá na primeira metade dos anos 1970, fiquei de cara com sua voz visceral que berrava os versos blueseiros com perfeita dicção. E ao lado de Etta James, ela foi a mais representativa figura feminina do blues pós Segunda Guerra Mundial.

E mesmo sendo uma mulher negra que deve ter enfrentado as imposições de um mundo machista e sentido na pele o preconceito racial, e ainda cantando um estilo musical que reflete sofrimento, Koko Taylor esbanjava segurança e jamais permitiu que os percalços da vida embaçassem sua arte.

Nascida na cidade de Memphis em 1928, Koko Taylor foi para Chicago no início da década de 1950 e lá se enfronhou na cena de blues elétrico se apresentando em clubes até ser descoberta por Willie Dixon, que a levou ao estúdio de gravação e em 1966 ela alcançou as paradas de sucesso.

Suas interpretações deram outra dimensão a clássicos que ficaram famosos em vozes masculinas. Por exemplo, Wang Dang Doodle, de autoria do próprio Willie Dixon e popularizada anos antes por Howlin´ Wolf; e ainda I´m a Woman, adaptada de Mannish Boy, de Muddy Waters e I´m a Man, de Bo Diddley.

De tempos em tempos, quase como uma celebração pagã e desde os 17 anos de idade, eu me flagro ouvindo seguidas vezes os discos de Koko Taylor. E depois que a vi no palco, a cada audição repetida eu relembro seus trejeitos e sua voz arrasa quarteirão e me surpreendo como ela conseguia prolongar as frases sem atravessar o ritmo.

Sim, sou um cara de sorte de às vezes estar no lugar certo e na hora certa, e assim tive o privilégio de assistir Koko Taylor, ao vivo, em 1983 num muquifo novaiorquino e lá pude conferir o vigor da sua performance, seu carisma e a potência do seu vocal.

Koko Taylor se foi e é triste constatar que pouco a pouco as figuras que ainda restam do verdadeiro blues e até mesmo do rock estão indo embora. E deste modo estamos ficando órfãos e não existem sinais que apontem uma reposição de talentos genuínos, visto a mediocridade que impera e se alastra na música pop nas últimas décadas.









Koko Taylor no palco de um muquifo em alguma quebrada do sul dos Estados Unidos.



Junho 4, 2009

DRAGÕES E MOINHOS





pintura sobre papel - 2007







Em tempos antigos e na Idade Média o dragão atuava no imaginário como ser temerário a demonstrar nossa fraqueza perante a vida. E só os bravos tinham coragem de enfrentá-los.

Dragões da terra e dragões do mar. São Jorge em seu cavalo cravando a lança no pescoço do monstro. Ulisses, o protagonista da Odisséia de Homero percorrendo os mares gregos observando criaturas que causavam medo a exemplo de Caríbdis que na forma de redemoinho sugava toda água do oceano para depois devolvê-la.

Na era moderna o mundo expandiu seus territórios em busca e descobertas de novas terras além-mar e a ciência avançou modificando o significado das crenças misteriosas que sempre acompanham o homem. E então, eis que surge o cavaleiro andante, o Dom Quixote de Cervantes a enfrentar moinhos de vento, pois ele acredita que ali está o inimigo a impedir o sentido transcendental da vida.

E estamos sempre sendo confrontados com dragões e moinhos e seus similares que atravessam séculos e milênios de acordo com a sua época.

“Enfrentar moinhos de vento é ficar no tempo parado
e quem fica por baixo de tudo é quem afunda
é quem afunda...”.

Estes são versos do rock Moinhos de Vento, de autoria de Deraldo “Derek” Tourinho, o qual faz parte do repertório dos Koyotes e que gravamos para o nosso próximo CD.

Lutar contra dragões, desafiar moinhos, guerrear com seres imaginários talvez seja um símbolo da coragem do homem em sua ânsia de ser mais forte que a ordem natural das coisas. Talvez seja apenas delírio de um sonho perdido.




Junho 2, 2009

FILOSOFIA DO RACIOCÍNIO INTERROMPIDO





pintura sobre papel - 2008







Motoristas de táxis, ascensoristas de elevadores e frequentadores de botequim são filósofos urbanos do raciocínio interrompido. Eles pronunciam pequenas grandes verdades que muitas vezes passam despercebidas entre um gesto e outro.

Anotei alguns comentários pescados nestes ambientes a respeito de coisas que ocorreram nestes dias.

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“O fenômeno da cantora inglesa Susan Boyle é uma armação estrelada por atores de quinta categoria”

E não é que fui assistir ao tal vídeo de Susan Boyle em que ela canta, com uma bela voz, diga-se; mas com fisionomia de doida de pedra e visual todo desgrenhado, e toda sequência das imagens com os figurantes levantando sobrancelhas expressando reações de encanto é de um amadorismo teatral que dá dó.

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“Esse avião francês que desapareceu no mar ou foi destruído em um ataque de disco voador ou explodiu no ar por conta de sabotagem terrorista”

Realmente são muito estranhas as explicações oficiais. Mudanças climáticas, efeito estufa, área de convergência de raios e relâmpagos. Sei não, viu?...

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“São Paulo reconhece e a Bahia esquece”

Frase atribuída aos integrantes dos Panteras, lendária banda baiana de rock e formada por Raul Seixas nos anos 1960. Eles teriam cunhado esta frase pelo fato de terem sido convidados como uma das atrações da Virada Cultural 2009, evento que ocorre anualmente em vários locais da capital paulista.

A apresentação dos Panteras em São Paulo foi aclamada por um público de mais de vinte mil pessoas. No entanto, eles nunca foram solicitados para nada em Salvador, sua terra natal.

E agora corre o boato que a Bahia fará em setembro próximo um arremedo da Virada Cultural com shows ao longo de uma avenida que corta o bairro da Pituba.

Sim, é isso mesmo que você já deve ter imaginado: tem artistas paulistas na jogada, e é lógico que até agora Os Panteras não foi escalado para este evento. O quem vem confirmar a veracidade da frase criada por eles, a qual poderia ter também outra versão:

São Paulo reconhece e a Bahia desmerece.

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“Lula e os petistas tratam Sarney e Renan Calheiros como se fosse Fernando Henrique Cardoso, e tratam Fernando Henrique Cardoso como se fosse Sarney e Calheiros”

Esta é uma máxima genial que corre pelas ruas de Salvador. E não estou aqui defendendo nenhum destes políticos, porém não há dúvida que esta afirmação é uma amostra perfeita da mesquinhez e da divisão das esquerdas brasileiras.

Fernando Henrique foi um dos maiores incentivadores de Lula quando este ainda era um líder sindical nos anos 1970, e até mesmo prestou-lhe solidariedade quando ele foi preso pela ditadura militar.

Hoje Lula está ao lado dos “progressistas” Sarney, Calheiros e Collor, que antes estavam do lado oposto da trincheira petista. E agora Fernando Henrique é tratado como o inimigo “reacionário da extrema direita”.

Ok, Fernando Henrique, quando presidente, também se aliou às forças do atraso, mas não há como negar que ele teve um comportamento bem mais cordial e civilizado com Lula se comparado à maneira que o petista, hoje, se comporta frente ao velho companheiro Fernando Henrique.

Mas isto é uma bobagem. Lula tem 93% de aprovação da população e só não continua eternamente presidente do Brasil se não quiser. O povo gosta dele e dá claras demonstrações que não tá nem aí pra essa besteira de democracia e alternância de poder.

Aliás, nunca devemos esquecer que houve um tempo em que o povo brasileiro também deu altos índices de aprovação à ditadura militar lá nos anos 1960/70.

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É isso aí.

Motorista, por favor, toca o táxi em direção ao aeroporto. Ascensorista, aperta o botão do 14º andar. Garçom, traz mais uma cerveja gelada e pode fechar a conta.