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Outubro 30, 2009

ANTROPOL NEANDERTAL






pintura sobre papel - 2009







Sabe uma coisa? Não tenho nenhuma vontade de sair de casa, pisar o pé na rua. Lá fora está sujo, lixo por todo lado, as calçadas esburacadas. Está cheio de ladrão, assaltantes, pedintes, políticos em campanha. Meses atrás e por dias seguidos as vias principais da cidade foram interditadas para a passagem de presidentes que aqui se reuniam para uma conferência que nada resultou de proveitoso.

Semana passada eu vi na Praça Central um homem comendo um cachorro que fora atropelado instantes antes e este homem rasgava as carnes do animal com as unhas e as levava à boca. Ninguém se importava com a cena.

Folheei uma revista científica que informava do maremoto que poderá se originar nas Ilhas Canárias e provocar ondas gigantescas que devastarão todas as cidades litorâneas da costa atlântica das Américas. E aí lembrei da imagem do filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, na qual um macaco ergue um osso como um sinal de força bélica e inteligência.

O planeta Terra será insalubre e ficará impossibilitado de proporcionar uma vida segura aos seus habitantes. Aqui só sobreviverá o restalho, a miséria, o lumpesinato. Os ricos, os poderosos, os mais capazes e os mais inteligentes migrarão para viver em colônias no espaço sideral protegidas desta merda que nos cerca cada vez mais aqui embaixo. E eu quero estar entre os escolhidos para viver neste novo mundo. Aliás, tenho convicção que serei um deles.




Outubro 28, 2009

RITALINA BLUES






tinta spray sobre papel - 2009







quero ficar acordado porque dormir é perda de tempo que vai e não volta mais
estou atento ao movimento lá fora
a pilha de livros e revistas sobre a mesa à minha espera
quero observar cada detalhe
decorei tudo que li e que estava escrito nas páginas do jornal
trabalhar sem interrupção por três dias consecutivos
as luzes são perceptíveis e agora mesmo escutei vozes do prédio vizinho
concentração e disciplina
ritalina
ritalina blues ritalina

ela descansa na cama com o corpo semi-encoberto desenhado no lençol
tudo está ao meu alcance
percebo cada momento do processo da minha respiração
mágicos hipnotizam pessoas desatentas
posso desvendar seus truques baratos
vou dirigir a noite inteira sem sinais de cansaço
não existe uma só verdade
sou capaz de fazer mil coisas ao mesmo tempo
e nunca cair na rotina
ritalina
ritalina blues ritalina




Outubro 26, 2009

O SIMULACRO PARA O SUCESSO






pintura sobre papel - 2009




Na parte antiga da cidade de Sladovar e das ruínas da fortaleza que a protegia dos ataques de povos inimigos ergueram um museu de arte contemporânea. E na sala principal das suas dependências está em cartaz uma exposição que é tida como a mais representativa da arte atual.

A obra em questão é uma instalação de autoria de Pereyd Ramilov, natural desta cidade e conceituado artista plástico local, consagrado pela crítica especializada que o considera um gênio da arte pós-moderna.

Pereyd Ramilov espalhou pelo enorme salão dezenas de cones de borracha com listras horizontais amarelas e pretas, destes que geralmente são utilizados para orientar o trânsito das vias públicas. E em cada um deles amarrou um balão de aniversário na cor azul e preenchido com oxigênio.

“Trata-se de uma metáfora, um simulacro da vida humana perante o caos das metrópoles mundiais.”.

Assim explica a primeira frase do cartaz estrategicamente colocado na entrada da mostra e que tenta traduzir para os visitantes os sentidos da inusitada obra de Pereyd Ramilov.

E continua:

“Os cones de trânsito representam o cotidiano das ruas, o crescente problema do tráfego e a emissão de gases poluentes. A impossível tentativa de organização da malha urbana que, na verdade, não tem mais possibilidade de escoamento.

E os balões de aniversário, por seu lado, é o lado lúdico da eterna vontade do homem, desde criança, em flutuar acima das adversidades. E também o sonho de voar tal o Ícaro da mitologia. E a cor azul dos balões é referência direta à tonalidade do céu, e ao oxigênio”.

Os críticos de arte de Sladovar não mediram palavras ao referir-se à obra de Pereyd Ramilov:

“Inquietante, provocadora, algo jamais visto!”. O público, apesar de achar a obra sem sentido, boba e incompreensível acredita naquilo que está sendo comentado e faz filas para apreciá-la.

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Moral da história.

Assim funciona o cenário das artes plásticas contemporâneas que estão sendo produzidas nos países periféricos que se consideram, erroneamente, centros culturais importantes. Muita pretensão em nome de duas palavras mágicas que fazem abrir as portas para o sucesso: o Simulacro e a Metáfora. Nada importa; nem o dom, nem a criatividade, nem a habilidade artística. O que vale é o que suscita.

A fórmula é simples. Invente uma circunstância esdrúxula, organize em um espaço uma quantidade de objetos correlatos e que sejam utilizados no cotidiano. Depois crie um discurso com inserção de palavras chave do tipo “lançar um olhar”, "metonímia"; e outras que possam dar um sentido de simulação de semelhança e que sejam interpretadas como algo inteligente, e pronto.

Você será considerado um artista pós-moderno.




Outubro 24, 2009

SURREALISMO BRASIL TWITTER






pintura sobre papel - 2009




Surrealismo é a foto que mostra a guerra civil do Rio de Janeiro. Um cadáver jaz num carrinho de supermercado largado em via pública.



Outubro 22, 2009

CAPÍTULO 6

A DANÇA CÓSMICA DE UMA VIAGEM ALUCINÓGENA






pintura sobre papel - 2009








A distancia e observando a movimentação ele pensou que se tratava de baleias. E quando se aproximou não conseguia acreditar no que estava vendo. Quatro elefantes nadavam no mar e faziam a travessia de uma ilha para outra.

Na noite tresontempassada dormiu no convés e acordou com o som de vozes que falavam um idioma indecifrável. Estava cercado por três barcos rústicos e sendo vigiado por doze nativos que portavam arco, flecha e lanças.

Não sabia o que fazer. A tensão aumentava. Tentou gesticular em busca de uma comunicação amigável e foi interrompido por gritos de um dialeto que mais parecia grunhidos. Apenas se olharam por longos minutos e lentamente eles se afastaram e desapareceram nas brumas noturnas.

Lembrou do navegador que passou por esta mesma região e o advertiu que deveria estar preparado para surpresas. Porém não imaginava que seria assim.

Na manhã seguinte pensou em direcionar a proa em outra direção, mas era tarde. Já estava no labirinto de ilhotas do arquipélago e teria de conviver com aquele ambiente por pelo menos mais uns cinco dias até que alcançasse, enfim, o vasto oceano.




Outubro 21, 2009

PÁGINA 82





pintura sobre papel - 2009








Um cochilo na poltrona. Pegou no sono na página 82 e justo na hora que o personagem pisava nas areias das Ilhas Andaman, leste da Índia. Foi uma jornada de percalços até ali. Enfrentou tormentas e o barco adernou duas vezes e ele se sentia exausto quando chegou em terra firme.

Fora obrigado a se aproximar em busca de água potável para reabastecer os reservatórios da embarcação que estava ancorada a pouco mais de cem metros da praia. Não arriscaria passar a noite tão perto da costa.

Não havia vestígios de vida humana, muito embora os ruídos vindos da densa mata que circundava o litoral era sinal que deveria ter cautela redobrada. Ouvira relatos de tribos canibais que habitam o arquipélago, que vivem isoladas, evitam contato com estranhos e mantêm há séculos os mesmos hábitos.




Outubro 19, 2009

O SOL BRILHA LÁ FORA





pintura e desenho sobre papel - 1993







Hoje pela manhã as pedras em frente ao mar estavam cheias de gente a pescar, e as linhas eram puxadas e os peixes reluziam balançando fisgados pelos anzóis.

Estamos em outubro e já faz dias de verão.

Por estas bandas não existe inverno; e apenas três meses, no máximo, com temperaturas um pouco abaixo dos 25 graus e eventuais rajadas de ventos que trazem tempestades.

Até o ano passado falavam sem parar do aquecimento global e de um fatídico dia que o mundo derreteria pelas ondas de calor. E agora estão a anunciar o resfriamento do planeta e que todas as suas superfícies aquáticas ficarão cobertas por uma camada de gelo.

Enquanto isso lá fora o brilho do sol reflete em todo o mar até o horizonte. Não há uma nuvem no céu e os cardumes de peixe agulha fazem a festa dos pescadores.




Outubro 17, 2009

DR. PÊNIS É DE ESQUERDA

(MAIS UM PERSONAGEM DO GRAFITE DOS ANOS 1970)






pintura e desenho sobre papel e compart - 2009








Estamos em 1979. E naquele tempo ainda era encarado como tabu qualquer menção a palavras tidas como de baixo calão e que pudessem sugerir pornografia ou coisas relacionadas a sexo. E não era apenas por causa da censura imposta pelo governo militar, a própria sociedade civil não admitia tais transgressões.

Na área cultural estas expressões estavam restritas à literatura, às peças teatrais ou a filmes; e nestes dois últimos exemplos, expressamente proibidos para menores de 18 anos de idade. E se nos meios tradicionais era deste jeito imagina então como isso era interpretado quando palavras indesejadas apareciam através de grafites e pichações nos muros e nas paredes da cidade?

Ainda assim, eis que aparece um grafiteiro que assinava com o nome de Dr. Pênis.

E espalhou seus aforismos geniais pelas ruas e mesmo com todo este ambiente de falso puritanismo ele conquistou a simpatia da população. Suas inscrições eram feitas com tinta spray na cor verde ou azul, e vez ou outra ele incluía um grotesco desenho de um rosto humano em perfil cujo nariz se assemelhava ao membro sexual masculino.

“Dr. Pênis fez fimose”.

“Sou de esquerda.
Ass: Dr. Pênis”.

Estas foram as frases pichadas que tiveram ligação mais explícita com o que seu nome suscitava. Mas não era só isso. Dr. Pênis tinha um amplo repertório de assuntos, uma inteligência privilegiada em prol da arte do grafite.

E teve uma frase de sua autoria que rapidamente se tornou comentada por toda cidade. Ela definia com precisão uma situação desagradável do nosso cotidiano: as filas. Em qualquer lugar de expedientes burocráticos lá estavam elas, as filas. Longas, intermináveis, símbolo brasileiro da falta de respeito à cidadania a torrar a paciência da população.

Acrescente a isto o fato de que na época ainda não existia o procedimento da fila única para atendimento. E, deste modo, a depender da situação, as pessoas eram despachadas de acordo com a presteza ou boa vontade dos que estavam do outro lado do balcão.

Era comum ter a impressão que a fila que você estava era sempre a mais lenta; e as outras mais rápidas. E acontecia com frequência de uma pessoa sair da fila que estava e se dirigir para a do lado que parecia ser mais ligeira, e aí a situação se invertia. A que você abandonou passava a ser rápida e a que você se transferiu ficava parada.

Muitas vezes de propósito, pois o atendente percebia as pessoas mudando de lugar e de pirraça começava a fazer cera no serviço. Típica provocação dos que fazem trabalhos burocráticos.

E foi assim que um dia em um muro na região onde se concentrava grande quantidade de bancos apareceu escrito a seguinte frase:

“A outra fila anda mais depressa
Ass: Dr. Pênis”.

Na mosca! E esta expressão passou a ser usada pelas pessoas quando o serviço de atendimento era precário e os funcionários do local trabalhavam com displicência. Bastava um gaiato falar em voz alta “a outra fila anda mais depressa” para que todos ali presentes caíssem na gargalhada. E os atendentes, por sua vez, vestiam a carapuça e fechavam a cara putos da vida.




Outubro 15, 2009

CINEMA, POLÍTICA E PIADAS






compart - 2009








Glauber Rocha fez um filme chamado Maranhão 66, que é um documentário realizado por encomenda de José Sarney quando este se tornou governador do estado do Maranhão no ano de 1966.

Bem ao estilo fragmentado que virou marca registrada de Glauber, a película mostra sucessões de imagens feitas no Maranhão mescladas com o discurso de posse de Sarney que à época significava uma promessa de política moderna e transformadora para a realidade extremamente pobre daquele estado.

Coitado de Glauber. Revolucionário de esquerda caiu na lábia de um esperto coronel nordestino que prometia mudanças estruturais que nunca se concretizaram. Porém, a câmera profética do genial criador do Cinema Novo eternizou a miséria do Maranhão que continua igual ou pior, e a onipresença de Sarney que continua mandando no pedaço.


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O russo Sergei Eisenstein é identificado como o inventor do cinema de autor com Encouraçado Potemkin, um filme de teor político que está intimamente ligado aos ideais da Revolução Soviética.

Contudo, sendo um sujeito que pregava a liberdade artística era mais que previsível que Eisenstein iria bater de frente com os bolcheviques e os rumos das políticas culturais estabelecidas por Stálin e lideranças comunistas de Moscou. Foi colocado na geladeira.

Leni Riefenstahl é a cineasta símbolo da Alemanha da era Hitler quando ficou encarregada pela realização dos filmes de propaganda ideológica do regime e captou a estética da grandeza germânica e dos ideais nazistas. Era uma inovadora no que se refere às técnicas cinematográficas. Com a derrocada do Terceiro Reich o trabalho de Riefenstahl foi questionado e ela caiu no ostracismo.

Orson Welles teve a audácia de filmar Cidadão Kane aos 26 anos de idade e isto aconteceu em 1941. E foi ali que o cinema adquiriu um conceito de arte, pois se trata de uma obra maior em todos os aspectos. Roteiro, argumento, técnica, imagem.

Depois disso, mesmo realizando ótimos trabalhos, Welles parecia vagar curtindo a boa vida e, com todos os méritos, passou o resto da sua existência colhendo os louros por ter feito Cidadão Kane.


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Um dos melhores filmes que assisti chama-se 1900, também conhecido como Novecento. Obra prima do italiano Bernardo Bertolucci com quase cinco horas de duração e devido a isto foi exibido nos cinemas em duas partes. Lançado em 1976 e traz um elenco de primeira com Robert De Niro, Gérard Depardieu, Burt Lancaster, Dominique Sanda, Donald Sutherland.

Em Novecento, Bertolucci retrata a história da Itália da primeira metade do século 20, e o filme tem um forte conteúdo político que serve como pano de fundo para focar a amizade entre o herdeiro proprietário de terras (De Niro) e o filho de um camponês (Depardieu), que trabalha na propriedade rural desta família.

O surgimento e consolidação do fascismo de Mussolini, e o comunismo como contraponto àquela realidade vivida pelos italianos; e a relação ora feliz ora conturbada destes dois principais protagonistas que perpassa as décadas.

Um filmaço! Aula de história e de cinema. E até hoje Bertolucci promete fazer a sequência de Novecento.


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Já os cineastas norteamericanos abordam a política por um outro viés. A ideologia é subliminar e mais no sentido do american way of life. E quando se apresentam contra o estabishment é por meio do fora da lei, do outsider, do serial killer e filmes sobre a guerra – Segunda Guerra e Vietnam.

Existem diretores brilhantes aos montes nos Estados Unidos, mas eles nunca pregam o discurso ideológico às escâncaras porque o público daquele país e a indústria de Hollywood não estão nem aí pra essas coisas.

Diante disso, o politizado Michael Moore deve ser encarado como uma espécie de ovelha negra, e frente a todos os diretores citados ao longo deste texto e que usaram da temática política como fonte de inspiração, ele, Michael Moore, mais parece um piadista.

Como também deve ser encarado como humorismo, de quinta categoria – é bom frisar, esta aliança entre o cineasta Oliver Stone e o presidente venezuelano Hugo Chávez. Falar em liberdade de expressão com Chávez a tiracolo é mesmo uma piada grosseira e de péssimo gosto, não é mesmo?

Então vamos sugerir o seguinte: despacha o Oliver Stone para a Venezuela sem passagem de volta, cancela o seu passaporte e veremos se ele seria capaz de viver por lá e filmar com total liberdade. E depois a gente vê o resultado.




Outubro 13, 2009

SEMPRE ÀS QUARTAS FEIRAS 20:30 HORAS






pintura e desenho sobre xerox e compart - 1995








Semana passada eu vi uma garota que parecia você naqueles tempos. Quando isso? Um punhado de anos atrás e há muito não te vejo e ninguém fala mais a seu respeito, embora eu saiba que você esteja por aí e até mais perto do que eu possa imaginar.

Hoje fez um sol forte de julho bem do jeito daqueles dias em frente ao mar e lembrei da vez que a gente estava tão perto e me perdi olhando os pêlos do seu braço e imaginei todo o resto. Dias de inverno ensolarados em que a gente vivia em encontros marcados, sempre às quartas feiras às 20:30 horas em ponto.

Falaram das suas viagens e corri para olhar seu álbum de retratos. Você na paisagem coberta de neve do norte europeu e depois em uma ilha do caribe vestida num biquíni amarelo e ainda outra foto nas águas das praias do México.

Semana passada eu vi uma garota que parecia você. E por noites seguidas sonhei por madrugadas consecutivas percorrendo os instantes de todos aqueles dias que dariam para contar nem sei quantas histórias.










Ronettes. Be My Baby.



Outubro 10, 2009

FERIADÃO






colagem sobre papel - 1979








As máquinas de propaganda política se aperfeiçoam e evoluem. E para cada período de magistratura uma enxurrada de palavras que visam fazer crer que a transformação – sempre para melhor, é claro - está em curso.

O Brasil cresce, não há dúvida; porém, nosso desenvolvimento se parece com a história do sujeito que se desloca de um lugar para outro numa viagem de carona, a reboque da vontade alheia e apenas usufruindo daquilo que lhe sobra.

O Brasil de Sarney, representante mor do atraso e ao mesmo tempo louvado pelos colegas escritores que integram a Academia Brasileira de Letras. O Brasil dos partidários alocados nas altas cortes da Justiça. Os apaniguados aparelhados na máquina pública.

O intelectual sofisticado Fernando Henrique Cardoso que foi ao nordeste e montou num jumento e comeu buchada de bode. Tudo igual. Tudo pela demagogia. Lula também é mestre nisso. Talvez o mais talentoso que já passou por aqui.

O país que oferece a opção da profissão de parlamentar aos que não tem vocação pra porra nenhuma. Vereador, deputado, senador. Bira do Jegue, Zé da Quitanda, Léo Kret, Pé Preto, Mão Branca, Celina dos Quarto Grande, Dr. Raposo, Beto das Galinhas, etc etc etc.

O Brasil dos feriados enforcados aguardados com ansiedade por uma massa cada vez maior de trabalhadores qualificados e devidamente concursados e adestrados. O país da maior taxa de impostos, tarifas, tributos. O país da Copa e das Olimpíadas dos patriotas.

O Brasil que superou a marolinha financeira mundial como se fosse aquele trator pilotado pelos sem-terra a destruir milhares de pés de laranja. O Brasil que afirma doar dinheiro ao FMI enquanto você tropeça na calçada esburacada e se esborracha no chão.

O Brasil da religiosidade arraigada e assim a política se torna ecumênica e todos rezam juntos. Os progressistas da igreja católica são evangélicos e adeptos do candomblé e protestantes e devotos do Senhor do Bonfim e acompanham a festa de Nossa Senhora Aparecida e o Círio de Nazaré. E vice versa e correlatos.

O país do domingão cansado e a felicidade de dois feriados coincidirem no mesmo final de semana. Um na sexta feira e o outro na segunda feira. Melhor ainda se, em vez de segunda, ele caísse na terça feira.




Outubro 8, 2009

GRACIAS A LA VIDA






pintura sobre xerox - 1982








Dança dos Vampiros foi o primeiro filme de Roman Polanski que assisti e isto foi no final da década de 1960. É uma divertida comédia sobre estereótipos vampirescos.

Os trabalhos seguintes de Polanski exibidos aqui no Brasil não foram liberados para menores de idade e, por isso, só fui ver outro filme dele já em 1975: Chinatown, estrelado por Jack Nicholson e Faye Dunaway, e com roteiro influenciado pelo clássico da literatura noir Pergunte ao Pó, de John Fante. E Chinatown é um filmaço e sua história gira em torno de adultério, corrupção e gangsters na cidade de Los Angeles dos anos 1930.

A partir dali eu não perdi um filme sequer deste exilado polonês que passou a ser um dos meus diretores prediletos e até hoje acompanho seu trabalho e me interesso por tudo que diz respeito a ele.

Lembro bem das notícias informando a repentina fuga de Polanski dos Estados Unidos em 1978, devido a acontecimento que ganhou ares de escândalo por causa do seu envolvimento sexual com Samantha Geimer em 1977, então uma garota de 13 anos e ele já quarentão.

O caso foi parar na justiça americana e enquanto o processo corria e ao ser levantada a hipótese de prisão, eis que Polanski caiu fora dos States sem maiores explicações e por este ato ele está proibido de pisar os pés por lá sob a certeza de ser levado à cadeia.

A própria garota, hoje mulher na faixa dos quarenta de idade, retirou a queixa criminal e disse que por ela o caso já estava encerrado. Parecia que tudo estava esquecido e aí a surpresa ao ver Polanski de volta às páginas policiais, e mais ainda pela sua detenção ter sido num país como a Suíça, conhecido pela sua neutralidade em assuntos externos.


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Sim, é claro que Mercedes Sosa foi uma grande cantora e figura da maior importância na realidade sulamericana da segunda metade do século 20. No entanto nunca fui fã da sua arte.

Mas eu nutria admiração pelo personagem Mercedes Sosa e o que ela representou com a sua postura contra o autoritarismo que vigeu no continente durante décadas. Mas, reitero, eu nunca simpatizei com o tal cancioneiro de latinoamerica.

Para ódio do bom mocismo cultural; nós que somos rotulados, pejorativamente, como `roqueiros de carteirinha´ também temos nossos direitos invioláveis e vivemos de acordo com códigos estéticos que devem ser respeitados. Deste modo, a cantante argentina estava longe de preencher nossas demandas. Mercedes Sosa era uma espécie de tia-avó comunista da velha guarda que a gente respeitava, e até temia, mas a considerava uma senhora careta e conservadora até a medula.

Ela era reconhecida no exterior, contudo sua fama em terras brasileiras coincidiu com um dos períodos mais tristes da nossa história contemporânea quando a nossa (alta) cultura, salvo raras exceções, estava imersa numa atmosfera soturna devido à rígida censura imposta pelo regime militar.

Do outro lado da trincheira, os intelectuais de esquerda estabeleciam as diretrizes do que seria uma cultura digna de valor, a qual, obrigatoriamente, teria de ter uma militância anti-ditadura de acordo com a sua ideologia; e eles enxergavam o rock como um braço musical do imperialismo e uma expressão artística menor.

E mesmo assim o contigente roqueiro brazuca dos anos 1970 não era lá tão talentoso na elaboração das letras das canções e também não alcançavam uma larga fatia de sucesso. Apenas alguns poucos tinham este mérito: Rita Lee, Raul Seixas, Secos e Molhados (enquanto existiam), e Sá Rodrix & Guarabyra.

Portanto, acho que foi no álbum Geraes, de Milton Nascimento, que Mercedes Sosa foi apresentada ao grande público brasileiro no ano de 1976. E juntos eles fizeram um dueto na canção Volver a los 17.

Ali já não estava mais presente o Milton da sonoridade beatle do Clube da Esquina (1972), e muito menos sua verve cosmopolita apresentada nos discos Milagre dos Peixes (1973), e Minas (1975). E sim o cantor/compositor das paragens interioranas de um Brasil ainda belo e barroco, porém arcaico e imerso na depressão.

E a MPB se apegava a tradicionalismos e mostrava uma seriedade formal que era reflexo do marasmo cultural e da tristeza que pairava sobre o país. A ditadura parecia não ter fim, o rock´n´roll era proscrito pela inteligentsia. E diante desse quadro, Mercedes Sosa com seu manto negro, vozeirão dolorido e o semblante sombrio remetiam a uma impossibilidade de vida em latinoamerica.




Outubro 6, 2009

ÚLTIMO DIA DE UMA VIAGEM A SÃO PAULO EM 2008






pintura e desenho sobre papel - 2008








às sete e meia da manhã desjejum no hotel que estou instalado
para fechar a refeição um café puro e quente
o sol reflete nas janelas mas lá fora está frio
os jornais do dia dispostos na sala de estar da recepção
empresários já estão na entrada esperando os micro-ônibus
e as secretárias passam na rua com vestidos corporativos e calçam tênis de maratona
eu ainda subirei para o quarto e vou tomar banho
depois desço e farei uma longa jornada a pé por três bairros vizinhos
não tenho pressa
observo e paro em frente às vitrines até chegar ao shopping popular de mercadorias vagabundas
roupas sintéticas, óculos de grife falsificada e clones de perfumes baratos que não têm aroma
ali perto tem uma loja de artefatos e uniformes militares
e me interesso por um casaco camuflado do exército ucraniano
espero quase dez minutos até o sinal abrir para que eu possa atravessar a avenida de quatro pistas
está perto do meio dia e entro num restaurante a quilo que logo fica lotado de gente que presta serviços em escritórios
olho insistentemente para uma bela mulher que almoça com colegas de trabalho
ela também olha para mim com o canto dos olhos sorridentes
peço um sorvete e vou para a praça fumar um cigarro
crianças sem família se escondem por trás dos arbustos
e o cheiro de plástico queimado indica que elas estão usando crack
o relógio digital no canteiro central marca 2 da tarde
o vento gelado entra canalizado e as nuvens parecem encobrir o topo dos edifícios mais altos
retomo a caminhada e na esquina tem uma banquinha de flores e entre elas algumas que nem conheço
encontro uma cédula de dinheiro e nela está escrito a palavra honestidade
chego à livraria que eu queria visitar e não sei o que adquirir
folheio uma coletânea de poemas ilustrados de john donne e fico mais interessado na seção de revistas estrangeiras
no departamento de cd´s do primeiro andar toca uma música que já ouvi mas não lembro o nome
do outro lado da calçada está a galeria de produtos eletrônicos piratas
penso em comprar uma máquina fotográfica digital
motoboys passam velozes no tráfego congestionado e chutam os retrovisores dos carros para abrir caminho
as vias estão lotadas de gente que retorna para suas residências
estou a poucos quarteirões de onde estou hospedado
solicito que o jantar seja servido no quarto e assisto o noticiário da televisão
no banho faço a barba embaixo do chuveiro e depois visto a roupa e desço para o bar
encho os bolsos com bombons de cortesia fabricados no japão
espero o transporte chegar para me levar ao aeroporto
e dentro de algumas horas pegarei o avião de volta pra casa




Outubro 4, 2009

SÃO AS MASSAS FAUSTINADAS, MEU CARO.







pintura e desenho sobre papel - 2003








- Quando eu ando por uma rua e de repente vejo pessoas pulando de felicidade com a bandeira nacional nas mãos, eu sempre dou meia volta e vou para um local mais distante dali possível.

Assim falava o colega anarquista a cada momento que a patriotada se fazia presente.

Eu estava no centro da cidade e escutei os gritos no exato momento em que o Brasil explodiu de felicidade pelo fato da cidade do Rio de Janeiro ter sido escolhida para sediar as Olimpíadas de 2016.

E as palavras do velho camarada ecoavam sem parar nas minhas lembranças, e confesso que ao ver a euforia das pessoas eu senti uma enorme pena do meu amigo. Outra derrota para seu currículo, pois o Brasil sempre foi o inferno para as criaturas que pensam igual a ele.

De novo o ufanismo rasteiro se materializou. E o governo se vangloriou, o presidente chorou, o ministro cantou, a candidata enfezada sorriu, Pelé vibrou, a oposição fez figa para que esteja ocupando o poder. O palanque eleitoral de futuro distante já está sendo montado.

Tenho vontade de falar com o sábio colega anarquista para saber como ele se sente. Imagino que esteja, mais uma vez, decepcionado ao ver imagens da multidão vestida de verde e amarelo comemorando na praia de Copacabana.

Sei que ele vai fazer um comentário sarcástico; e como em outras ocasiões vai falar da vocação do brasileiro de ser um povo emotivo demais. Inúmeras vezes ao sentir no ar o cheiro do orgulho canarinho ele me dizia:

- meu caro, foi você quem fez o diagnóstico desta gente. São as massas faustinadas...

Caminho pela avenida e aumenta a minha curiosidade a respeito do que está pensando o meu velho colega. Ligo pra ele e o provoco.

- e aí, sêo sacana, você também chorou por causa das Olimpíadas no Brasil?

Ele mal deixa eu terminar a frase e emenda:

- ahh, já comprei minha camiseta Rio loves you 2016 e estou aqui enrolado na bandeira e pronto para ir às ruas para fazer o coro `sou brasileiro com muito orgulho com muito amor´, e também agradecer o nosso querido Lula.

Os anarquistas sempre apresentam uma opção quando tudo parece não ter saída. Mas são figuras melancólicas. Afinal eles sabem que são eles que irão herdar o que vai restar da Terra.




Outubro 2, 2009

RELEITURA - DIEGO VELÁZQUEZ







pintura, desenho e compart sobre xerox - 1998/2009









Mesmo que de tempos em tempos eles sejam necessários e fundamentais para dar uma sacudida no cenário, os movimentos culturais que pregam uma ruptura radical com o passado carregam o equívoco de querer colocar na lata do lixo não só coisas ruins, mas coisas boas também.

Alguns destes acontecimentos, inclusive, são verdadeiramente transformadores. E, por conseguinte, até podem ter a presunção de clamarem para si esta virtude, já que têm suficiente importância para deixar sua marca na história.

Só que isto não ocorre com frequência.

Ainda adolescente nos anos 1970 e adepto da arte modernista das primeiras décadas do século 20 com a eclosão do cubismo, surrealismo e dadaísmo, eu tinha a tendência de achar que foi ali que estava representado o começo do mundo.

Natural pensar assim; no afã da busca da novidade pela novidade os desinformados tendem a acreditar que o “novo” é único e exclusivamente "o novo", quando na verdade ele é apenas mais uma parte do processo.

Deste modo eu demorei uns anos para descobrir o real valor da obra de Diego Velázquez, artista espanhol que viveu entre 1599 e 1660. E Velázquez sempre foi o novo, em qualquer período da arte mundial. Tanto na técnica quanto na abordagem do tema retratado.

Aliás, os artistas de Espanha têm essa capacidade de irem além do que seja esperado de um criador. Por certo isto é consequência da localização geográfica e estratégica deste país, pois foi para lá que afluíram diversas civilizações favorecendo o surgimento de personalidades de excepcional talento.

Velázquez, Francis Goya, Quevedo, Cervantes, Gaudí, Picasso, Garcia Lorca, Miró, Luis Buñuel, Salvador Dali expandiram os limites do que é esperado de um artista.

Retrataram o banal e o relevante, refletiram sobre as nuances da natureza humana. Além do dom da criação, eles foram indivíduos ciosos do seu próprio tempo e usaram dos seus ofícios de maneira pessoal e singular para pensar a vida e o mundo.