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Novembro 26, 2009
BAUDELAIRE BLUES
compart - 2009 flanar pelas ruas e olhar as vitrines vejo que todos estão felizes com suas vidinhas arrumadas trocando mensagens pelo computador afirmam adorar o presidente e devem sua alegria a ele compram no cartão de crédito vão ao shopping e tudo mais mas algo não condiz e não adianta falar pois se dormem anestesiados afundam na vaidade e esquecem suas amarguras naquilo que julgam ser a única verdade as flores do mal foram exterminadas seguindo ordens superiores “os escravos martirizados do tempo” vivem o fulgor das suas existências reúnem entre amigos e brindam a vida comunitária celebram a linearidade do cotidiano assistem televisão mas algo não condiz e vejo que não adianta falar pois se despertam atordoados afundam na vaidade e lembram suas desventuras naquilo que pensam ser a única oportunidade Novembro 24, 2009
AS AVES QUE AQUI GORJEIAM
tinta spray, desenho e pintura sobre papel - 2009 No Brasil de hoje existe uma espécie de purismo às avessas que é esta tendência de desqualificar manifestações artístico-culturais que seguem determinados parâmetros de um estilo específico. A mídia e o público antenado, juntos, estabeleceram que para serem dignos de qualidade os gêneros artísticos são obrigados a perder suas características próprias em prol de uma mistura de elementos díspares. No caso da música popular a ordem ditada pelos guardiões da contemporaneidade é que o artista `muderno´ deve mesclar sonoridades - de preferência a ritmos regionais e eletrônicos. E, equivocadamente, assim ficou estabelecido que a `mistureba´ é algo inovador, revolucionário. ------------------------------------------- Madame Satã, Crepúsculo de Cubatão, KGB, Napalm, Carbono 14, Apocalypse, PABX, Mata Hari, Revolution. No Brasil de vinte e tantos anos atrás estes eram nomes de locais bacanas de se frequentar – na maioria dos casos, bares que também serviam como espaços para apresentação de shows, exposições, exibições de filmes e tantos outros eventos culturais. Santo Antônio, São Francisco, Paraíso, Sagrada Felicidade, Jóia, São Bartolomeu, Santa Virtude, Divina Providência, Vereda Tropical. Estes são os nomes de alguns dos mais badalados bares da atualidade. Tanto os do primeiro grupo quanto os do segundo refletem a realidade cultural de suas épocas. E que fique claro que ninguém é doido de ficar preso a um passado que já se foi, e esse troço de nostalgia tá por fora. E ninguém duvida que agora os tempos sejam bem melhores que os de então. Contudo não sei a razão, mas quando entro nestes espaços sagrados da boemia de nossos dias dá uma vontade incontrolável de entrar no túnel do tempo... ------------------------------------------ Não não não... Não há que me faça assistir ao filme Lula, o Filho do Brasil. Sem chance. Tudo que cheira a patriotada e exacerbação de nacionalidade e louvação de políticos brasileiros me provoca náuseas. E trata-se de um tipo de cinema pelo qual tenho o maior desprezo, independente do belo exemplo de trajetória de vida do biografado, no caso o nosso querido presidente Luiz Inácio. Ainda mais sabendo que a obra cinematográfica em questão tem como referência uma figura pública que ainda ocupa a presidência do país, e que o filme foi financiado através de verbas oficiais e de empresas privadas que precisam do governo para funcionar. Isto não passa de propaganda política típica de ditaduras e regimes facistóides. Nos anos 1970, tinha aqueles longa-metragens e audiovisuais sobre o Brasil e que serviam de pano de fundo para encher a bola do Milagre Econômico do governo militar. Independência ou Morte, estrelado por Tarcisio Meira e seu jogo de sobrancelhas de canastrão no papel de D. Pedro. Os documentários de Jean Manzon e de Amaral Neto que alardeavam a superioridade da nossa nação. O mote ufanista era sempre o mesmo: “Criança, não verás nenhum país como este!”... E as pessoas que sacavam a jogada batizaram aquilo com o sugestivo título de “Cinema-exaltação”. Uma versão adaptada para as telas dos cinemas daqueles sambas-exaltação que no ritmo da batucada pintavam um cenário de orgulho nacional sob a ótica de artistas ingênuos; ou então eram feitos por artistas espertos demais que tinham interesses escusos na parada. Lula, o Filho do Brasil tem esse conceito, o cinema-exaltação. E na real, na real mesmo, não há muita diferença entre o herói bonzinho e sofredor do cinema brasileiro e o herói caubói valentão do cinema americano. Existe em nossa índole amistosa algo tão brutal quanto a truculência dos rambos de lá. Novembro 21, 2009
DROPANDO NAS ONDAS DA SURF MUSIC
tinta spray e pintura sobre xerox - 2000 Surf e rock´n´roll sempre mantiveram estreitos laços de união e amizade. Dos primeiros luaus no inicio dos anos 1950 nas areias das praias do sul da Califórnia até as viagens em busca de ondas virgens nas regiões mais afastadas do planeta. É claro que os Beach Boys não foram os primeiros a fazer surf music. Eles observaram a onda surgir no horizonte e estando no lugar certo e na hora certa popularizaram este gênero musical já como parte da cultura Pop. Jan & Dean, The Surfaris, Dick Dale, The Ventures e tantos outros também estavam surfando neste mar. Droparam na onda, e na terra prometida Califórnia fizeram a festa de uma juventude sadia e feliz, vestida em largas T-shirts Hang Ten e camisas havaianas, calças boca fina, bermudões floridos e tênis keds. ----------------------------------------- A tribo do surf sempre teve um gosto musical muito peculiar e o intercâmbio entre as turmas ajudaram a expandir as preferências. Numa surf trip que prestasse além da esperança de encontrar boas ondas era obrigatório levar um considerável estoque de fitas cassete. Certa feita, em viagem pelo nordeste brasileiro e lá nos idos de 1975, na ainda desconhecida e isolada Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, nossas fitas com Deep Purple e Bad Company fizeram a cabeça de surfistas de Natal que estavam por ali. Em contrapartida, eles tinham as fitas deles com Byrds e Buffalo Springfield que eram covardia. A estrada de acesso até a Pipa era apenas uma trilha de chão batido cercada de mato por todos os lados e com vários riachos pelo trajeto, pontes improvisadas de forma precária, interrompida por cancelas guardadas por correntes e cadeados, e apenas marcada pelos pneus dos jipes e dos fusquinhas que se aventuravam em desbravá-la. E ainda não existia luz elétrica na Pipa e nos intervalos do surf as baterias dos nossos automóveis eram postas à prova com os toca-fitas se revezando e despejando rock´n´roll desde o raiar do dia até a hora de dormir. Em outra oportunidade, na primeira metade dos anos 1970, um velejador solitário nascido no Havaí e também surfista apareceu em Salvador e o elo de aproximação foram as ondas e, claro, a música. Seu acervo de fitas era invejável e num escambo típico da idade média entregamos fitas com o melhor do rock progressivo e copiamos as que ele possuía com coisas de blues difíceis de achar no Brasil naquela época: John Lee Hooker, Albert King, Koko Taylor, Son House, Freddie King, Howlin´ Wolf. ------------------------------------------ E quando se fala em surf music os mais antigos nunca esquecem da cena de abertura da série televisiva Hawaii 5-0, na qual uma onda perfeita quebra em câmera lenta tendo como fundo musical a canção-título. Pan pan pan pan pan pan – pan pan pan pan – pan… ----------------------------------------- Festa de surf ali pela metade dos anos 1970 no Rio de Janeiro para ser animada tinha de rolar Hair Of The Dog, do Nazareth; Steve Miller Band e Bachman-Turner Overdrive com dúzias de cocotas dançando no salão com seus cabelões enormes, sobrancelhas grossas, biquinhos dos seios sem sutiã furando a blusa e calças de cintura baixa quase um palmo abaixo do umbigo. Quem poderia imaginar uma vida melhor? Sair de Ipanema-Leblon às sete da manhã de carona na carroceria de uma caçamba que levava material para construções numa Barra da Tijuca ainda desabitada, escolher o local das melhores ondas, surfar até não aguentar mais, almoçar biscoito creme cracker, e no retorno mais uma carona de volta. E à noite, cair nestas festinhas descritas acima. ----------------------------------------- Na virada dos anos 1970/80, a Austrália apresentou ao mundo várias bandas em que um ou outro integrante, com certeza, pegava onda. Algumas eram bem chatinhas, é verdade. Mas outras valiam a pena. Hoodoo Gurus, o The Church e o Triffids também eram bacanas; e o Midnight Oil tinha uma pegada forte e gostava de passar mensagens ecológicas. No final dos anos 1980 em Salvador da Bahia, havia a barraca Padang Padang que ficava localizada na praia de Stella Mares e lá as noites de primavera/verão eram intermináveis, gratuitas e todas as tribos dançavam até se esbaldar com o som de That Petrol Emotion, Tom Petty, Dire Straits, The Cult, Pixies, Traveling Wilburys etc etc.
Esperando a chave do cadeado para seguir a trilha rumo à Praia da Pipa - 1975. Surf, estrada e dezenas de fitas de rock´n´roll na bagagem. (foto: Miguel Cordeiro) Interessante também é quando os nativos de uma minúscula cidade litorânea remota e escondida passam a curtir rock´n´roll por causa de surfistas nômades fanáticos por som. E foi assim em Itacaré, no sul da Bahia, entre os anos de 1976 e 1981. Na única barraquinha na praia da Tiririca que vendia cerveja, peixe grelhado e moqueca de camarão para os “turistas” vindos das cidades de Gandu e Ubaitaba o que rolava no aparelho de som era o “sambão-jóia-prá frente Brasil-ame-o ou deixe-o” da época da ditadura militar. Esta situação persistiu até a chegada dos desbravadores de ondas. E lembro daquele dia em julho de 1978 em que pedimos ao proprietário para por uma nossa fita cassete e aí colocamos pra tocar The Doors e Bob Dylan; e os tabaréus, l-i-t-e-r-a-l-m-e-n-t-e, davam cambalhotas ao som de Light My Fire e Hurricane, respectivamente, e que logo se transformaram em sucessos na cidade. O dono da barraca implorou para que deixássemos com ele algumas de nossas fitas em troca de refeições e aceitamos a proposta. E quando voltamos na temporada seguinte, meses depois, o povo já dançava numa área lateral embalados por Rolling Stones, Raul Seixas, Beatles, Rita Lee, Led Zeppelin, Creedence, Sex Pistols, Bob Marley e Peter Tosh. ----------------------------------------- A comunidade do surf não ficou imune à explosão populacional destas ultimas décadas e os picos aonde antes as ondas quebravam solitárias agora têm cada vez mais surfistas, não raro se engalfinhando e impondo, também, as novas preferências musicais. Deste modo, nestes últimos 20 anos, diversos artistas e até de outros estilos foram adotados pelos surfistas. Pennywise, Millencolin, o ska, o grunge e tantas outras variações de rock. E a aceitação do trabalho de músicos que pegam onda, a exemplo de G. Love, Jack Johnson e Donavon Frankenreiter dá continuidade ao espírito baladeiro que sempre cativou a tribo do surf desde os ídolos ancestrais do folk passando por Cat Stevens, James Taylor, Al Stewart e Chris Isaak. ------------------------------------- Mas foi então que o cineasta Quentin Tarantino provocou o renascimento da surf music com seu filme Pulp Fiction, êxito de bilheteria e ovacionado pela crítica e cuja trilha sonora apresentava canções de surf music instrumental. Porém, este revival com ares de segmento cult despertou o interesse de bandas e artistas que sequer nunca remaram sobre uma prancha e nem tinham a menor noção do barato do surf. E feito haoles forasteiros e maroleiros cheios de pose, eles chegaram em bando crowdeando e poluindo o pico em busca de visibilidade e resultados comerciais favoráveis. E a surf music se transformou numa moda mundial e passou a ser sinônimo de temas exclusivamente instrumentais com seus indefectíveis clichês sonoros de guitarras com reverb “cantando” a canção. ----------------------------------- E assim, nem tudo são tubos perfeitos em praias secretas. Gosto não se discute, é verdade. E repito mais uma vez, gosto não se discute, mas tem coisas intragáveis que foram incorporados ao universo surf/rock´n´roll. As xaroposas canções dos `filmes de praia´, o punk de butique e indie da MTV, o rap machista de "atitude", o reggae alegrinho, o heavy metal acelerado e atravessado. E em águas brasileiras o mangue beat nordestino e, pior ainda, o forró universitário, a guitarrada do Pará, o rock emo e a axé music baiana. --------------------------------------- Apesar dos pesares, ficam para sempre as boas vibrações das surf musics dos Pixies, a calhordice dos surfistas parafinados dos Replicantes, a atmosfera tubular dos cinzentos céus de abril do Jesus & Mary Chain, a anarquia ultrajante do Nós Vamos Invadir Sua Praia, a sutileza dos Waterboys. E para finalizar, a descrição certeira de Neil Young, este sim, um cara que sempre sacou o espírito transgressor do surf; e ele diz em sua canção Long May You Run: “talvez os Beach Boys tenham lhe pegado agora com aquelas altas ondas e cantando Caroline No descendo deslizando pela vazia estrada da praia para chegar no surf na hora certa”. Pixies botando pra dentro em Wave of Mutilation. Surf music de responsa para afastar os pregos e os maroleiros. hehehe... Novembro 19, 2009
O HOMEM DA AMAZÔNIA - THE AMAZON MAN
pintura sobre papel - 2009 “From the depths of the Amazon jungle a group of men isolated from the world in search of a golden mountain...”. Assim começa o relato de Jonathan Paice, geólogo e pesquisador que discorre sobre sua viagem à região amazônica nos idos de 1817. Este seu livro com cerca de duzentas páginas e ao que tudo indica trata-se de um único exemplar está catalogado na seção de Antropologia e História Natural da Biblioteca Nacional do Reino Unido – British Library. Paice afirma que nas profundezas da floresta amazônica habita um grupo de pessoas cujos antepassados - homens e mulheres, partiram do norte da Holanda por volta de 1650 em busca de riquezas. Na verdade queriam desvendar rumores que corriam no continente europeu que falavam da existência de uma montanha de ouro maciço em algum ponto nas margens superiores do Rio Negro - Guyari. A expedição não surtiu resultados práticos e transformou-se num fracasso com registros de conflitos, deserções e assassinatos por conta do amadorismo, falta de planejamento e desconhecimento da geografia local. E com o decorrer do tempo a imponência da floresta os empurrou para o total isolamento. Distantes de qualquer tipo de vida social civilizada, os que restaram e seus descendentes ali se estabeleceram assimilando costumes de uma vida primitiva, e jamais regressaram ao seu país de origem. Novembro 17, 2009
CENAS QUE NUNCA ESQUEÇO
pintura sobre papel - 1992 Cenas que nunca esqueço de alguns filmes prediletos e que agora as descrevo ao longo deste texto. Existem outras tantas cenas memoráveis de outros tantos grandes filmes, mas que ficam para uma próxima narrativa. No filme Roma de Fellini (1972), no momento em que se abre uma galeria nos subterrâneos da capital italiana para a construção do metrô e lá está uma antiga edificação com belo afresco pintado na parede cujo brilho das cores se esvai ao contato com o ar exterior. A câmera que gira em torno de Rosa e do cangaceiro Corisco no filme de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Enquanto eles se beijam ouve-se a ária nº 5 das Bachianas Brasileiras, de Villa Lobos. Sem dúvida, uma das mais belas cenas da história do cinema. O ângulo que capta o carpete e a roda traseira do velocípede com o qual o garoto percorre os corredores do hotel vazio e mal assombrado em O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick. Tensão na medida certa e que prenuncia o terror. Charles Chaplin sacaneia os Estados Unidos no filme Luzes da Cidade (1931), quando seu personagem Carlitos dorme no colo de uma estátua, supostamente localizada em Nova York. Quando ele desperta causa um tumulto dos diabos, pois está em meio às festividades de inauguração deste monumento. Tal cena seria um dos motivos da sua expulsão daquele país. No filme de Luis Buñuel, Os Esquecidos (1950), moleques delinquentes roubam e agridem o mendigo cego e cantor. A crueza do cinema deste genial diretor espanhol e a sua abordagem iconoclasta do mundo e da humanidade jamais foi igualada por nenhum outro cineasta. Cães de Aluguel (1992), de Quentin Tarantino. Após sessões ininterruptas de tortura, aprisionado e amarrado em uma cadeira no centro de um galpão, o homem grita de pavor enquanto o gangster derrama em seu corpo e em seu redor um galão de gasolina. Tudo ao som de Stuck In The Middle With You, canção do grupo Stealers Wheel. O rapaz adolescente que observa por um buraco na parede a garota nua e pela qual ele é apaixonado e com quem vive uma espécie de amor impossível. Era Uma Vez na América, filme de 1984 e dirigido pelo italiano Sergio Leone. O casal Woody Allen e Diane Keaton no filme Manhattan, lançado em 1979 e dirigido por Allen. Eles conversam sentados num banco às margens do East River e em frente à ponte da Rua 59, enquanto o dia amanhece em Nova York. Novembro 15, 2009
DOMINGO ENSOLARADO BLUES
pintura e desenho sobre papel - 2009 Neste sol escaldante que faz lá fora e que só serve pra se estar numa praia com mergulhos no mar e mesmo assim protegido na sombra de uma barraca e aqui longe desta situação ideal o domingo se arrasta lento cheio de tédio com a voz de Silvio Santos que vem da televisão da casa vizinha. De nada importa tentar outra coisa e eu não tenho o osso de gato preto que a mulher do voodoo guarda na gaveta da mesa da sua cabeceira e que a protege de todas as coisas más e por causa dele ela toca a sua vida e tem tudo em seu lar e todos os bens materiais possíveis e mais ainda a felicidade. E nunca guarde esqueletos de lembranças e saia de casa e pise do lado de fora com o pé direito e ao andar observe que seu rosto abre o caminho cortando as camadas espessas invisíveis da atmosfera e então pense que a minhoca se locomove por baixo do solo rasgando a terra e ela vai longe e tudo é possível e bla bla bla. Mas nesse domingo ensolarado tudo está parado e o blues se faz presente em cada canto de qualquer lugar. Novembro 13, 2009
ANATOMIA DA MENTE
pintura e desenho sobre papel - 2001 Ferramentas Frias Instrumentos de trabalho motorizados e de precisão operacional que não exigem esforços físicos, além de funcionarem com máxima segurança. Feitos com diversos materiais metálicos de alta resistência e misturados a fibras naturais, e que não se desgastam com o tempo. Cartuns Japoneses Desenhos derivados do estilo das histórias em quadrinhos do Japão, também conhecidas como mangás. Feições e expressões faciais que passam um quê de melancolia; olhos amendoados, cabelos espetados. Uma das influências da juventude emo. Peças de Reposição Chinesas A crescente industrialização da China que a tornou potência econômica e produtora dos mais variados bens de consumo. Desde brinquedos, peças de vestuário, simplórios utensílios descartáveis até maquinaria pesada e veículos de design arrojado. Isto acarretou a proliferação de outras fábricas que dão suporte àquelas de maior porte. Comida Transgênica Frutas, verduras e legumes que não apodrecem. Alimentos desenvolvidos cientificamente e temperados com substâncias químicas que provocam hiperatividade e ao mesmo tempo podem causar alergias de fundo psicológico. Gordura trans que manipuladas em laboratório se transformam em proteínas Ki-1/57, as quais provocam mutação em genes – câncer. Dinheiro de Plástico Compras, pagamentos e aquisição de serviços através de cartões magnéticos e ninguém mais usa cédulas de dinheiro. Comodidade, segurança e melhor atendimento ao cliente. Mas uma pane de origem desconhecida e de difícil solução que atinja o sistema bancário será capaz de gerar uma turbulência sem precedentes no setor financeiro. Mente Turbinada As novas tecnologias e o uso dos computadores aplicados a todas as atividades do cotidiano obrigará o homem a desenvolver a mente a níveis ainda não conhecidos. Percepção sensorial aguçada, capacidade de raciocínio expandida; e o cérebro estará apto para realizar multitarefas. Novembro 11, 2009
ONDE ESTAVAS QUANDO AS LUZES SE APAGARAM?
tinta spray e pintura sobre papel - 2009 Era uma marchinha de carnaval muito famosa e que tocava em todos os bailes das antigas e que expressava o espírito gozador dos brasileiros: “Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água e de noite falta luz”... Mas parece que hoje este tipo de manifestação está praticamente extinta, seja pela onda do politicamente correto que leva as pessoas a serem cidadãos exemplares e, portanto, conformados; e que seguem a ordem fascistóide que diz que se deve fazer algo ao invés de reclamar. Ou também pelo fato de que desde a fundação do país a grande maioria da sociedade brasileira está sempre `comendo reggae´ dos governos que se sucedem. Acreditamos eternamente na propaganda oficial que afirma estarmos vivenciando a era do Brasil Potência e que vivemos no melhor dos mundos. E não é a toa que de tempos em tempos levanta-se contra os insatisfeitos o lema preconizado pela ditadura militar – “Brasil, ame-o ou deixe-o”. ---------------------------------------- Apagões no Brasil são coisas tão corriqueiras que ninguém mais liga pra isso. São aceitos como obras do destino. E quando ocorre um blecaute de grandes proporções a culpa é sempre posta na conta dos fenômenos naturais. Ou é por causa do sol inclemente e a seca que faz com que os reservatórios das hidrelétricas fiquem vazios, ou é o excesso de chuvas e tempestades, raios e ventos. E aí governo e oposição entram no ringue e trocam acusações sobre de quem seria a responsabilidade e a população que nada tem a ver com isto é quem paga o pato. Quer ver exemplos? Mesmo levando em conta as condições climáticas adversas, o apagão elétrico ocorrido no governo de Fernando Henrique foi explorado ao máximo pelos opositores com interesses eleitoreiros - leia-se Lula, o PT e seus companheiros. Eles diziam que aquilo aconteceu por incompetência, falta de planejamento e ausência de investimentos estruturais. O blecaute de ontem e que fez dezoito estados da federação ficarem às escuras durante horas e que se constituiu no maior apagão da nossa história foi explicado pelo atual governo, cujos integrantes antes militavam na oposição, como fruto das condições climáticas adversas. Entrementes, os opositores de hoje e que antes estavam no governo o interpretaram como incompetência, falta de planejamento e ausência de investimentos estruturais. Ou seja, é muita cara de pau. São todos iguais e só muda a cor da gravata. Novembro 9, 2009
O CALCANHAR DE AQUILES E O JOELHO DE RONALDO FENÔMENO
pintura sobre papel - 2009 Ando pela rua que me leva ao ponto de ônibus e durante todo o trajeto as pessoas só falam sobre um único assunto: futebol, futebol e futebol. E para completar, diariamente os jornais da cidade estampam com destaque em suas capas fotos e notícias sobre... futebol, futebol e futebol. Não me interessa saber o placar da rodada nem quem tem o melhor ataque ou a pior defesa ou a torcida mais fanática. Não estou nem um pouco preocupado se meu time vai ser rebaixado para as divisões inferiores ou se a nossa felicidade depende do azar dos argentinos. --------------------------------------------- As pessoas caminham em direção à orla. Elas vão assistir a apresentação da Esquadrilha da Fumaça e eu não tenho o menor saco pra ficar olhando pro céu vendo pirueta de avião. Entro no bar pra tomar a cerveja do final da tarde e no balcão dois homens conversam sobre um filme brasileiro que afirmam ser muito bom. Eu não acredito e eu não pagaria nem um centavo para assisti-lo. Já imagino até como o filme deve ser. Aquela coisa politicamente correta verde-amarela em que o personagem sofredor cheio de virtudes que só pratica o bem vai em busca da sua redenção e superação das dificuldades. -------------------------------------------------- Uma aluna da Uniban – universidade na cidade de São Bernardo do Campo, estado de São Paulo, foi expulsa da unidade por ter usado roupas curtas em sala de aula. Seu vestido vermelho que ressaltava suas curvas generosas e deixava à mostra suas pernas e coxas provocou protestos dos colegas que quase a espancaram dentro da escola e ela teve de sair da faculdade protegida por seguranças. O Brasil está cada vez mais careta, a juventude mais e mais conservadora e bunda mole. Em outros tempos esta garota seria saudada como musa transgressora e elevada à condição de sex symbol. Agora é bacana ser fundamentalista; e não é de estranhar que os universitários de hoje apóiam o governo, simpatizam com Ahmadinejad e gostam de Los Hermanos e Marcelo Camelo. ------------------------------------------- Caetano Veloso dá entrevista e diz que Lula é “analfabeto”, “grosseiro” e “cafona”. A reação generalizada às declarações do cantor baiano eram mais que previsíveis diante da atual realidade brasileira. “Preconceituoso” – eles disseram. Os petistas acusaram Caetano de ser de direita. Enquanto isso, o progressista Sarney se encontra às escondidas com Zé Dirceu e Berzoini para traçar projetos do governo. Lula é um santo intocável e mesmo sendo analfabeto parece estar proibido dizer que Lula é, sim, um analfabeto. Mas cafona por cafona, não existe nada mais cafona que o violão modernoso que Caetano anda usando em seus shows. Que violão feio da porra é aquele? Design horroroso – o instrumento tem o corpo vazado e com um arco de borracha preta em seu contorno. Que troço é aquilo??? Pô, Caê, se toque, meu! Joga esse monstrengo no lixo. ------------------------------------- A cubana Yoani Sánchez foi detida pela polícia política do seu país enquanto participava de uma manifestação pacífica realizada em Havana. Ela é autora do blog Generación Y, o qual não é aceito pelas autoridades locais por descrever as dificuldades do cotidiano em Cuba. E ela se tornou uma espécie de ídolo já que seu blog recebe milhões de visitas mensais e a tornou mundialmente famosa, inclusive ganhando prêmios internacionais. Yoani levou uns safanões, uns bolachões, foi empurrada pra dentro de um carro e libertada mais tarde. Nada de grave lhe aconteceu apesar do susto e das ameaças que dão a certeza que a qualquer momento ela pode ser vítima da brutalidade do regime autoritário dos irmãos Castro. E aí a gente fica pensando, cadê os intelectuais que pregam liberdade de expressão em seus próprios países e ao mesmo tempo subscrevem manifestos a favor da ditadura cubana? Será que Chico Buarque, Luis Fernando Veríssimo e Antonio Candido se indignaram com a agressão contra Yoani Sánchez? Tenham a certeza que não. Eles caminharão ao lado dos irmãos Castro até a última gota de sangue dos inimigos da "revolução". Bááh!! Acho melhor eu ir ver o show da Esquadrilha da Fumaça ou discutir sobre o joelho de Ronaldo, o Fenômeno. Novembro 6, 2009
BERLIM 1989
pintura sobre papel - 2009 Foi uma escalada de acontecimentos que culminou com o episódio ocorrido naquela data, 9 de novembro de 1989. Durante todo este ano, assim feito peças de dominó que caem sucessivamente, eventos políticos sacudiram países do leste europeu que à época eram alinhados com o regime comunista soviético, e isto acarretou uma radical mudança de rumo da história contemporânea. Ao longo das semanas que antecederam este dia comentava-se que o governo comunista da Alemanha Oriental cairia a qualquer momento e todas as atenções se voltaram, então, para o Muro de Berlim, símbolo maior da Guerra Fria. E na noite de 9 de novembro, alemães ocidentais se reuniram próximo à muralha que separava em duas partes a cidade de Berlim – ocidental capitalista e oriental comunista. A partir de um determinado momento alguém escalou a parede e se posicionou lá em cima. Outros seguiram o seu gesto e ainda inúmeros outros com martelos e marretas em punho começaram a abrir fendas no imponente muro de concreto. Por sua vez, habitantes do lado oriental também se aproximaram quando perceberam que os guardas que vigiavam o muro estavam meio que atônitos e sem saber o que fazer diante da situação. Logo eles, oficiais que recebiam ordens expressas para reprimir, até mesmo a tiros, aqueles que ousassem ultrapassar as linhas permitidas. E em poucas horas e deste jeito e em meio a festividades e muita emoção, num ato cheio de simbolismos veio abaixo não apenas uma parede, mas uma ideologia que perdurou por quase um século. A utopia comunista havia chegado ao seu fim. ----------------------------------- Em 1987 algo de estranho já pairava na atmosfera de Berlim Oriental. O roqueiro inglês David Bowie fazia uma apresentação na área ocidental em local próximo ao muro, e pelo lado comunista pessoas se aglomeraram com o intuito de ouvir o espetáculo. Enquanto Bowie desfilava seu repertório, inclusive com canções gravadas na própria Berlim quando ele lá estabeleceu moradia e que são frutos da sua fase artística mais criativa, a guarda policial oriental foi surpreendida pela multidão que chegou mais perto das barreiras que o habitual. Não conseguiram conter a turba humana e na tentativa de dispersá-la com uso da força teve início uma série de distúrbios que geraram protestos de caráter político que questionaram o governo comunista oriental. Ali ficou comprovado que o muro estava com seus dias contados. ----------------------------------- O Muro de Berlim foi erguido às pressas pelos soviéticos em agosto de 1961. E em pouco tempo ele já estava separando famílias, amigos, companheiros de trabalho e colegas de escola. Uma parte de Berlim foi cercada de ponta a ponta e os que ficaram do lado oriental (comunista) que tentassem transpor os obstáculos eram fuzilados sumariamente. Alguns conseguiram fugir para Berlim Ocidental e cruzavam o espaço fortemente policiado correndo em disparada pelo terreno minado e tomado por bolos de arame farpado, ou rastejando pelo solo durante a madrugada driblando as luzes dos holofotes. ----------------------------------- Do lado comunista o muro tinha uma tonalidade completamente cinza, cor de concreto, enquanto que na parte ocidental ele era ocupado por grafites, pichações e pinturas dos mais variados estilos. Após a queda do muro, seus fragmentos passaram a ser vendidos como souvenires em saquinhos plásticos. Porém a iniciativa mais arrojada partiu de grupos econômicos financeiros japoneses que investem na área cultural e em obras de arte. Eles retiraram grandes seções do muro cobertos por grafites, os protegeram com estruturas de aço e os transportaram em containers até o Japão. E de acordo com informações oficiosas, estão guardados com máxima segurança em depósitos climatizados nos arredores de Tóquio. Estes pedaços de paredes são considerados relíquias de uma era, na qual o planeta Terra vivia sob o espectro de conflitos com consequências imprevisíveis e catastróficas. De que a qualquer momento o céu pudesse estar encoberto pela nuvem radioativa provocada por explosões de bombas atômicas por conta de uma guerra fraticida espalhando terror nuclear capaz de exterminar a humanidade. E mais uma vez fez-se História perante nossos próprios olhos. Berlim 1989 e outros países do leste europeu. Novembro 4, 2009
DECAMERÃO
compart - 2009 A título de fazer estudos uma equipe de cientistas colocou um homem por semanas numa jaula de zoológico para que fosse observado o comportamento dos outros animais perante o novo hóspede. E também para saber de que maneira os visitantes reagiriam ao ver um seu semelhante naquele ambiente. Adultos estranharam e as crianças lhe ofereciam doces e pipoca. Macacos invadiam o espaço do homem para roubar-lhe as refeições. Os ocupantes das jaulas vizinhas, sempre famintos, percebiam o odor diferente e passavam as noites forçando as grades dos seus respectivos cativeiros. Um ancestral humano habitou as florestas e savanas da África. Neste habitat ele lutava pela sobrevivência e passava a maior parte do tempo na copa das árvores para se proteger dos predadores. E por ser forçado a viver em constante vigilância desenvolveu os membros inferiores para melhor possibilitar sua fuga em situações de confronto. Pouco a pouco aprimorou a inteligência. Animais continuam selvagens em regiões remotas do planeta. O olfato é um aliado e talvez esta seja a razão das feras das jaulas próximas à do homem no zoológico terem ficado tão agressivas com a presença daquele ser com o qual se digladiavam em tempos remotos. E ao se organizar socialmente e ao explorar e descobrir tecnologias que revolucionaram seus costumes, o homem ainda não é capaz de controlar alguns dos seus próprios instintos. E nem tem capacidade de domar certas forças da natureza e de desvendar mistérios que escapam à sua compreensão. O medo do futuro, as incertezas, a apreensão pelo ronco do trovão, o rugido da besta-fera, a origem da vida em cada gesto de um recém-nascido, a face da morte estampada no cotidiano. Novembro 2, 2009
SOPA DE CABEÇA DE BODE
desenho e colagem sobre papel - 2003 Eu particularmente sempre fui fanático por rock´n´roll. Porém tenho o maior bode de indie rock e todas suas variações. Do college universotário ao cabeção, do tristonho ao misturéba, e agora também a este folk indie insosso que tá rolando por aí. E afinal que porra é indie? E a notícia, verídica, que segue tem conotação de humor negro. Cerca de uma semana atrás, Taylor Mitchell, cantora canadense de 19 anos que interpretava canções fofinhas de folk indie morreu após ser atacada por dois coiotes enquanto passeava por um bosque no estado de Nova Scotia, em seu país natal. Estudos provam que raramente os coiotes costumam atacar seres humanos mas... E devo logo avisar, de antemão, que eu e minha banda Koyotes não temos nada a ver com isso... ------------------------------------ Com a ausência de George Bush do cenário político internacional sobrou para Hugo Chávez o título do presidente mais antipático do mundo. Tudo que envolve o ditador venezuelano é asqueroso. Sua boina vermelha, seu discurso bolivariano autoritário, o gestual, seu ódio aos que não seguem sua cartilha ideológica. Chávez é cagado e cuspido o Mussolini da latinoamérica. ---------------------------------- Acredito que a alternância do poder através de eleições livres e diretas é o melhor antídoto para os delírios dos homens públicos que querem se perpetuar nos cargos executivos. Pior ainda aqueles que se auto-intitulam os únicos com capacidade para gerir o estado, pois são nestes elementos que germinam as sementes do autoritarismo. Sou totalmente contra a reeleição no Brasil, pois tal instrumento só nos trouxe prejuízos. Porque o cara assume suas funções e logo sobe no palanque pensando em se reeleger ao invés de trabalhar com afinco para fazer o melhor possível em quatro anos de mandato. O instituto da reeleição, sim, é que foi a verdadeira herança maldita deixada pela gestão de Fernando Henrique Cardoso. Ele, então presidente da república, modificou as leis para possibilitar sua permanência no cargo por mais uma legislatura. Contudo, desde que me vejo como gente eu nunca vi um sujeito e um partido político que tenha tanto apego ao poder quanto Lula e o PT. O que estamos vendo? A fragmentação do discurso e das promessas de Lula dos tempos de oposição, quando ele se colocava exatamente contra tudo que agora ele próprio se transformou. E a descaracterização do PT que virou um partido anacrônico. E com o intuito de manter-se no centro do poder a legenda perde força e personalidade ao compor alianças, algumas antes inimagináveis e com inimigos históricos; e até abrindo mão de candidaturas próprias em regiões onde sempre teve grande representatividade. Por exemplo, em São Paulo, berço do PT, que, pelo visto, em 2010, não terá um nome da legenda para concorrer ao governo estadual. O PT de hoje lembra a ARENA/PDS quando da época do fim do regime militar (1964-1985). Eles foram os partidos - o mesmo e apenas com as letras trocadas no decorrer dos tempos, e que davam sustentação aos governos dos generais. E quando a realidade nacional adquiriu outros contornos ARENA/PDS perderam seu sentido e sucumbiram. Pois se em médio prazo o PT não se reinventar e tratar de criar um novo discurso descolado da ideologia arcaica que ainda insiste em carregar e não abandonar sua inclinação totalitária ele terá o mesmo destino da ARENA/PDS: a derrocada ou a insignificância. Lula não é mais o velho PT de guerra, embora o PT seja Lula. E ser Lula não é mais sinônimo de ser do PT e da esquerda, muito pelo contrário. Porque até mesmo Sarney e Collor são Lula desde criancinhas. E vice versa. Antídoto para o indie rock. Thin Lizzy, genial banda irlandesa liderada pelo cantor, compositor e baixista Phil Lynott (1949-1986), cujo pai seria um brasileiro. |